Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.2
3. Cherry and Smoke
Se tomasse tempo suficiente para relaxar o corpo com preliminares, poderia produzir-se lubrificação suficiente para a penetração, mas Yurij detestava carícias ou jogos prévios. Preferia mil vezes tomar inibidores e passar o rut a fazer tudo isso só para fazer sexo.
Os jogos prévios não passavam de um engano. A realidade era que se encontravam para satisfazer um desejo mútuo, e achava desagradável beijar e acariciar o corpo como se naquele momento houvesse algum sentimento envolvido.
Mas… Cheriot parecia justamente o tipo que gostaria de derreter sua parceira de maneira desnecessária. Pela forma como soltava palavras doces como açúcar sem se abalar, estava certo de que seria assim. Será que também falaria muito na cama? Nada arruina mais o ambiente do que isso.
Então, Yurij percebeu tardiamente que tinha estado elaborando suposições inquietantemente detalhadas sobre a situação íntima de Cheriot. O mero fato de ter tido esses pensamentos lhe pareceu uma falta de respeito, e franziu o entrecenho torcendo os lábios. Ao ver sua expressão, Cheriot falou.
— Você está bem?
Suas mãos apertaram o volante com força. Sentiu o rubor de quem tivesse sido pego em um pensamento indecente, e o calor subiu às zonas de sua pele banhadas pela luz solar.
— O que quer dizer?
— Franzil os olhos. Como o sol está tão forte e você dirige sem óculos, tenho te observado há um tempo. Já que vamos à farmácia, compremos também óculos de sol. Se descuidar, terá problemas de visão.
As palavras, totalmente diferentes do que imaginava, o desconcertaram. Ao pensar que esse tipo se preocupava com qualquer coisa, sentiu um remorso enorme por ter tido imaginações tão estranhas sobre alguém assim, e ainda por cima um alfa. Começou a pensar se não teria algum problema mental.
— Não preciso deles.
— Claro que sim. Os óculos de sol são um artigo de primeira necessidade. Você poderia machucar os olhos de verdade.
Yurij refletiu um momento sobre como fazer calar aquele homem. Como o pedido de não assustá-lo o impedia de ameaçá-lo lembrando novamente que classe de pessoa ele era, optou por outro método.
— Você é sempre tão falante? Um alfa que não para de tagarelar não resulta muito atraente. Não sei como conseguiu arrumar parceiro até agora.
Uma ironia desse nível estaria bem. Não era um insulto nem um ataque pessoal, então ele aguentaria.
— Um momento.
Parecia que fazia efeito. Cheriot endireitou de repente o tronco que recostava no banco e se aproximou de Yurij.
— Isso que você disse… soa como se estivesse dizendo que se eu calar a boca seria atraente.
Parece que não fez efeito.
— Não. Só estava dizendo para você calar a boca.
— Se sou falante? Mmm, não, também não sou dos que falam pouco. Mas tenho algo como uma imagem pública, então não sou assim com qualquer um; não se preocupe. Quando me proponho a seduzir alguém, conseguir parceiro é moleza.
Não mostrava sinais de calar a boca. Yurij engoliu um suspiro e refutou seus disparates.
— Pela inexperiência que mostrou quando me viu pela primeira vez, não parece que seja tão fácil para você.
— Até um homem destro como eu, quando conhece alguém de quem gosta, costuma cometer erros juvenis.
Cheriot recostou as costas no banco de novo, desviou o olhar para fora e sorriu leve, como com nostalgia.
— Nunca na minha vida acreditei em amor à primeira vista, mas você foi diferente desde o primeiro momento.
Diante daquele murmúrio quase solitário, Yurij ficou imóvel e sobressaltado. Não podia acreditar que aquele comportamento — sorrir e flertar como se fosse um louco — fosse em parte sincero. Ontem pensou que era brincadeira, hoje não entendia.
— Então na verdade fico feliz que você não seja a pessoa que eu pensava. Se fosse, não sei que bobagens estaria fazendo hoje para tentar seduzi-lo.
Felizmente, Cheriot desviou o tema para que Yurij não continuasse pensando mais. Logo ficou calado, e dentro do carro se instalou o silêncio que Yurij desejava.
Com o ar agora em calma, Yurij pensou que, como Cheriot tinha dito, era uma sorte que ele não fosse uma boa pessoa. Estava mais acostumado — e se sentia mais confortável — com aqueles que o ignoravam e pretendiam pisoteá-lo, do que com aqueles que o observavam com atenção e cuidavam dele.
* * *
Enquanto ouvia as bobagens de Cheriot, sem perceber, já se aproximavam de seu destino. O navegador indicava que faltavam dez minutos para chegar e logo à direita da rodovia apareceu uma grande placa de madeira com a inscrição “Big Fox”. Tal como dizia Cheriot, aquele lugar parecia discreto o suficiente. E com razão, literalmente se podiam contar nos dedos os edifícios visíveis.
Algo bom… embora também ambíguo.
Um lugar tão silencioso não era ruim, pois em tempos normais mal haveria gente com quem se cruzar, mas em zonas de baixa população, tanto os restaurantes como as lojas de víveres eram contados e os estranhos chamavam especialmente a atenção. Um homem como Cheriot seria ainda mais fácil de lembrar. Talvez devesse tingir o cabelo.
Considerou isso, mas como Cheriot não era um fugitivo perseguido pela polícia decidiu não chegar a esse extremo por enquanto. Afinal, ele mesmo podia se encarregar de comprar a comida.
Yurij terminou sua breve reflexão. Quando distraidamente percorreu os arredores com o olhar e girou a cabeça para a frente, Cheriot que até então permanecera quieto falou de repente.
— Ei ei, não faça essa cara.
— O quê?
— “Para ser o paraíso não é grande coisa” não foi isso que pensou? Aposto que sim.
Não tinha pensado especialmente nisso, mas ao ouvir lembrou que era assim. Contrariamente a certa expectativa que a palavra “paraíso” gerava, a paisagem imediata diante de seus olhos pouco diferia do visto durante todo o trajeto na rodovia. Mas Yurij era um homem sem imaginação e também não dava maior significado ao paraíso do qual Cheriot falava.
O paraíso se chama paraíso porque não existe.
Um lugar sem dores nem tristezas não podia existir neste mundo, só seria possível no além após a morte. Mas Yurij era alguém que mesmo morto cairia no inferno, então jamais poderia chegar ao paraíso.
Assim, não importa quão belo ou magnífico fosse aquele lugar para Yurij, nunca seria o paraíso. Limitou-se a seguir a corrente com discrição aos alardes de Cheriot.
— Pense o que quiser.
— Mas essa expressão decepcionada mudará em aproximadamente oito minutos.
Cheriot fez de guia com um tom de apresentador e Yurij torceu apenas uma comissura dos lábios. Depois de passar quase um dia inteiro juntos, agora começava aos poucos a se acostumar com seu falatório, pois essas bobagens já não lhe pareciam tão avassaladoras como no início. Ao que parece, a gente desenvolve resistência até mesmo às palavras vazias. Enquanto pensava, Cheriot fez de novo outro alvoroço.
— Essa cara diz que minha piada lhe agradou bastante, hein?
— Não.
— Que não? Se você riu.
Que descarado. Yurij sorriu para si diante da audácia de Cheriot ao enfrentá-lo. Se estivesse em Saratov, não haveria ninguém que se atrevesse sequer a pensar em brincar com ele.
Os tipos de escalão similar costumavam soltar piadas vulgares, mas se o provocassem daquela maneira, Yurij não ficava de braços cruzados. Atos como dar tapinhas na cabeça, zombar e sondar o terreno eram, entre aquela classe de escória, uma forma de estabelecer a hierarquia; se os deixasse passar, se tomavam a liberdade de decidir a posição ao seu bel-prazer.
E as pessoas normais o temiam, então nunca lhe falavam primeiro.
Diferente de Alexei, que tinha seu lado brincalhão, ele nunca sorria e era tão fechado que mal podia se misturar com as pessoas comuns.
Claro que depois de se mudar para Vancouver as coisas mudaram, mas como o próprio Yurij nunca ia a lugares onde encontrar pessoas, não se davam esse tipo de situação.
“Um tipo como eu não devia estar entre gente normal.”
Em vez de negar rotundamente as palavras de Cheriot, Yurij optou por calar. Afinal, se Cheriot se sentia tranquilo era melhor, então Yurij decidiu permitir certo mal-entendido por aquele jovem assustadiço. Na verdade, fosse certo ou não que tivesse sorrido, negar não era um ato tão importante.
Enquanto trocavam piadas que não o eram, saíram finalmente da rodovia. Seguindo as placas, giraram repetidamente pelo caminho sinuoso e a floresta engoliu o carro. Como se tivessem entrado em Stanley Park, seguiram avançando sob frondosas e enormes árvores em ambos os lados da estrada enquanto uma brisa fresca entrava pela janela aberta.
Cheiro de terra. Fragrância de casca úmida. Som de folhas brotando verdes e reluzentes.
Guiado pelos sentidos que chegavam ao seu nariz e ouvidos no final do caminho indicado, Yurij se deparou com um grande rio deslumbrantemente brilhante. Era um rio tingido de um azul intenso.
A luz cintilante que dançava sobre as ondulantes ondas brilhava ofuscante como açúcar em pó. Talvez fosse pelo resplendor sobre a água, o rio azul parecia até mesmo quente, e ao redor se erguiam altos abetos com lindas casas de férias intercaladas.
Logo Yurij compreendeu que não era um rio, mas um lago. Os lagos do Canadá eram tão imensos que frequentemente pareciam rios ou mares, e pelo terreno soube que não era um rio. No entanto, ao não ver seu fim, dava a sensação de um mar em miniatura como um vilarejo que tivesse encerrado um mar pequeno.
— Bem-vindo a Big Fox.
Cheriot, que tinha permitido que Yurij contemplasse a imponente paisagem diante de seus olhos, sussurrou em voz baixa ao seu lado. O vilarejo era tranquilo e belo, como se uma raposa de pelagem vermelha corresse pela floresta tal como sugeria seu nome. Era um lugar onde se compreendia um pouco a metáfora do paraíso.
…Sim.
Yurij respondeu com a voz abafada e afastou a vista do lago que atraía uma e outra vez seu olhar.
— Mas diferente do que aparenta por fora, isso parece um centro de férias. Agora que é julho, parece o tipo de lugar que atrairia muitos turistas.
— Em todo caso, embora o turismo seja sua principal renda, normalmente só vêm quem tem casas de férias ou pescadores. Mas vir até aqui só para remar não vale a pena, então na maioria são residentes locais que vêm de vez em quando.
— Tanto faz se são estrangeiros ou locais. Pelo contrário, os locais são piores. Quantos canadenses haverá que não conheçam seu rosto?
— Ah, esqueci que sou tão famoso. Como você me subestima tanto, passou completamente.
O carro avançou pelo caminho bem pavimentado. As diversas casas de férias construídas junto ao lago dificultavam distinguir o que ocorria no centro do mesmo. No caminho havia uma pequena igreja, uma cafeteria se preparando para fechar e, em contraposição, um bar que começava a abrir. Não era uma cidade com muitos comércios em geral.
— Nunca te subestimei. Mais bem, não foi você quem acabou horrorizado comigo?
Eram palavras para retificar os fatos, mas Cheriot esfregou a bochecha e fechou a boca. Caiu um silêncio incômodo e Yurij se perguntou se aquela situação voltaria a fazer Cheriot recuar. Fazia tanto tempo que não gastava energias tentando compreender e se preocupando com os sentimentos alheios que lhe resultava muito difícil. Ao seu redor agora só estavam aqueles que estavam há tanto tempo com ele que com um olhar sabia o que pensavam, e a última pessoa sensível o suficiente para entender seu coração tinha sido sua mãe.
“Agora entendo o que Alexei passou ao criar Valery”, pensou de repente Yurij. Alexei tinha um amante, alguém com quem tinha vivido como família a vida toda. Numa etapa em que ele mesmo precisava de cuidados, insistiu em criar como uma criança normal um garoto muito mais novo, e por isso Alexei trabalhava dia e noite. Viviam em mundos completamente distintos, e por isso batiam de frente frequentemente.
Após pensar um momento neles e voltar à realidade, Yurij decidiu acalmar o desconforto que Cheriot devia sentir. Achava absurdo fazer tudo aquilo por alguém que nem sequer era família, mas como era seu cliente, não lhe restava mais que agradá-lo.
— Não era minha intenção te deixar desconfortável. Só respondi com a verdade e por isso saiu assim.
Yurij não era alguém criado para se desculpar até esse ponto. Mas ao explicar por que tinha falado daquele modo, a expressão de Cheriot melhorou.
— Não era meu plano te lembrar que sou um cara mau.
— …Você poderia me contar o que foi que fez?
Cheriot hesitou antes de falar. Agora que pensava, no quarto do hotel também tinha mostrado interesse em saber que classe de atos havia cometido. Naquele momento Yurij não tinha intenção de falar porque pensava que dizer em voz alta seria uma confissão, mas agora sua atitude parecia mais um desejo de entendê-lo.
No entanto, a compreensão não era o que Yurij buscava.
— Não.
Diante da resposta firme e fria, Cheriot também virou a cabeça. Não parecia irritado como no hotel, só preocupado.
— Os humanos são tão hipócritas. Pela aparência e atitude, a gente quer acreditar que são boas pessoas. Está acontecendo comigo.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna