Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.3
3. Cherry and Smoke
Cheriot afastou o franja revolto pelo vento. Após um momento de silêncio, sorriu de novo e encolheu os ombros.
— Enfim, já entendo o que quer dizer. É um fato que te odeio, e aceitarei que você também saiba disso.
— …Bem.
Contanto que não tivesse medo, era suficiente. Yurij respondeu com lentidão, e depois, sentindo que tinha algo mais a dizer, moveu os lábios.
“Por que você passou a odiar tanto os criminosos?”
Surgiu uma pergunta, mas a resposta veio com a mesma frase, por isso surgiu uma autocrítica.
“Quem diabos no mundo poderia gostar de criminosos, Yurij? Até você mesmo se despreza assim.”
Ao engolir aquela pergunta miserável que não podia pronunciar, Yurij olhou para a frente. O caminho asfaltado se tornou uma trilha de terra e depois uma floresta frondosa. Após um minuto por uma via por onde mal cabia um carro, enfim apareceu o destino daquela longa viagem. No final do caminho havia uma casinha de tijolos à beira do lago. Diferente das bonitas casas de campo que tinha visto no caminho, era um lugar modesto, até de aspecto humilde à primeira vista.
— Chegamos. Vamos descer.
— …Um momento. Você reservou uma hospedagem?
— Não. Este é um dos lugares que herdarei.
Ao ouvir falar em herdar, Yurij lembrou que Cheriot era filho de uma família com herança. Com apenas seu salário já seria imensamente rico, e se além disso tivesse bons antecedentes familiares, sem dúvida Cheriot era alguém excepcional para os padrões mundanos. Embora Yurij não pensasse em tratá-lo como tal…
Rememorando as palavras sobre tê-lo menosprezado, Yurij decidiu que, se tivesse oportunidade, perguntaria a Cheriot que tratamento desejava. Como estava contratado com dinheiro e tinha aceitado agradá-lo até certo ponto, parecia-lhe adequado fazê-lo. Desde que registrou em sua mente que disparar uma arma e tentar matar alguém era algo assustador o bastante para causar trauma a uma pessoa normal, às vezes sentia pena de Cheriot.
— Minha mãe é canadense. Nasceu e cresceu aqui. Conheceu meu pai neste lugar. O encontro entre um americano rico de férias em um resort e uma garota do campo canadense. Como um filme de Hollywood.
Murmurando isso, Cheriot abriu a porta do acompanhante e saltou para fora de um pulo. Esticou o corpo como uma fera enjaulada e com suas longas pernas se dirigiu com passo firme à casa de campo. Yurij desligou o motor, trancou com chave e o seguiu.
— Devo verificar primeiro, então espere um momento.
— O quê? Acha que alguém se infiltrou aqui ou algo assim?
— Nunca se sabe. Se encontraram seu endereço, não há razão para não darem com este lugar.
— É mais provável que fosse Sam. Nos encontrávamos frequentemente lá.
“Sam… Seria Samuel?”
— Poderia-se pensar que perdeu o carinho por seu amante ilegítimo, mas vejo que até usa apelido para ele.
Yurij desagradou-se um pouco, pois parecia que Cheriot tinha o costume de dar apelidos a qualquer um. Dava-lhe a impressão de que o tratavam igual ao seu amante criminoso infiel. Se pensasse, era lógico que o ômega com quem tinha estado em contato físico durante meses fosse mais próximo que Yurij, mas ele não era tolerante com infiéis. Embora fosse ridículo que um criminoso dissesse que havia coisas que lhe desagradavam.
— Ah, é por costume. Agora que penso, você tem razão.
Cheriot parou de repente e murmurou:
— Se Samuel não tivesse mentido, as coisas não teriam chegado até aqui, não é? Eu não tinha intenção de ser o amante de uma relação adúltera…
— Que magnífico que entenda isso agora.
Yurij se aproximou de Cheriot com admiração sincera e observou o interior da casa. Embora não se visse bem pelas cortinas fechadas, não havia sinais de presença nem sombras em movimento. Mas se alguém se escondesse bem, só com olhar não se poderia saber…
Yurij começou a rodear a casa. Não havia pegadas recentes além das suas. Também não se descobriram por enquanto vestígios suspeitos como grama pisada ou galhos quebrados.
— Quem normalmente cuida da manutenção deste lugar?
— Ninguém. Por isso deve haver bastante poeira acumulada.
— Se esteve abandonado tanto tempo, talvez tenha entrado algum ladrão.
— Instalei câmeras de vigilância para evitar isso, e as janelas também têm fechadura. Já posso abrir?
Cheriot pediu permissão com suavidade e Yurij assentiu com um toque de inquietação. Cheriot tirou um chaveiro do bolso de sua jaqueta e pegou uma chave redonda de tom avermelhado. Como correspondia a um edifício antigo, tinha a forma das que saem nos filmes.
Clac, soou o ferrolho ao encaixar e a porta se abriu com um rangido. A poeira, exposta tanto tempo ao sol, se ergueu do chão ao ar em uma nuvem espessa. Abrindo caminho entre as partículas flutuantes, Cheriot abriu a janela da sala que dava diretamente para a cozinha. Então se viu justamente o lago pela janela. Yurij contemplou o clarão da água brilhando ao sol e depois desviou o olhar para observar a estrutura da casa.
A casa era tão simples como parecia por fora. Ao abrir a porta chegava-se diretamente à sala, com a cozinha à esquerda. À direita havia duas portas, uma provavelmente seria o banheiro.
“Vou ter que usar o chão?” Yurij examinou de novo a sala, calculando onde poderia dormir. O sofá colocado verticalmente em frente à porta do quarto parecia pequeno demais para um homem como ele.
— Só há um quarto?
— Não, se contornar a cozinha há outro. Eu usarei esse.
Cheriot parecia animado. Enquanto este se movia pela casa com familiaridade e rosto alegre, Yurij decidiu deixá-lo um momento e abriu primeiro a porta fechada. Como esperava, era o banheiro. Azulejos verde-azulados de aspecto acolhedor cobriam o chão; a pia, o chuveiro e o vaso sanitário estavam limpos, embora com um pouco de poeira.
Ao ver o banheiro, surgiu com força o desejo de se lavar. Aproximou-se da cabine de chuveiro e ao abrir a torneira, um som rangente foi crescendo até que a água jorrou em borbotões. Que os canos e a caldeira funcionassem corretamente indicava que, pelo menos, alguém visitava a casa periodicamente.
Será que vêm em família…?
Fazia tanto tempo que as atividades familiares lhe eram estranhas a Yurij, mesmo tendo um pai, que por um momento rememorou um passado distante antes de fugir. Cheriot parecia ter saído para fora deixando a porta aberta de par em par. Via-se necessário incutir-lhe um pouco mais de consciência sobre a segurança.
Enquanto refletia, Yurij decidiu pelo menos se molhar um pouco. Diferente de Cheriot, ele não tinha trazido nada consigo, então tomar um banho imediatamente era impossível, mas o dia tinha esquentado e fazia muito calor. Embora não costumasse suar muito e não achasse que fosse feder, Yurij queria se arejar e ventilar um pouco.
Tirou a jaqueta preta que vestia e a camisa de manga curta de algodão de espessura média, depois as colocou ordenadamente sobre o sofá. Ia se dirigir ao banheiro, mas parou um momento para pensar. Duvidava se levar a faca que guardava no bolso da jaqueta, se carregar consigo todo o tempo aquela arma não seria algo que assustasse Cheriot.
Enquanto estava imerso em suas breves cogitações, ouviu o som de Cheriot voltando. Ao ouvir os enérgicos passos contra o chão, Yurij se sobressaltou, olhou para a porta e pegou sua camisa.
Seu corpo tinha tantas cicatrizes que aos outros lhes pareceria horrendo, alguém como Cheriot…
— Hã?
Mas Cheriot nunca costumava agir como Yurij esperava, e entrou antes que ele pudesse se vestir, Cheriot, que trazia uma mala bastante pesada como se fosse uma bolsa, parou na entrada ao ver Yurij com o torso nu. Ao cruzarem seus olhares sem querer, Yurij viu como as pupilas de Cheriot se abriam de par em par.
Ocultando as costas como para esconder a enorme cicatriz em forma de chama que tinha, Yurij deu a volta. Depois, abriu a boca para se desculpar por ter lhe mostrado algo desagradável…
— De verdade, me desculpe.
A mala caiu no chão com um baque seco.
— Eu não, não era minha intenção olhar…!
Cheriot tapou o rosto com suas grandes mãos, recuou apressadamente, voltou a entrar, fechou a porta com um baque e disse:
— Ei, onde já se viu mostrar assim o corpo nu de repente?
Sua voz, que aparentemente se elevara um pouco, fez com que o dorso de suas mãos se ruborizasse intensamente.
— …O quê?
Então Yurij também se sentiu desconcertado por outra razão. A urgência por ocultar seu corpo maltratado desapareceu, e só restaram dúvidas em sua mente. Tentou entender o que Cheriot queria dizer, mas não conseguia interpretar nada. A reação de Cheriot agora não parecia de surpresa por repulsa, mas sim de vergonha.
— Se vai se despir, faça no quarto ou… avise.
Enquanto Yurij franzia o cenho perplexo, Cheriot, sem conseguir se acalmar, se encostou de costas na porta principal. Continuava com as mãos tapando o rosto.
— Vou tapar os olhos, então se apresse e entre no quarto. Na próxima vez, avise que vai se trocar…!
Então agora… se comportava assim por tê-lo visto sem camisa. Yurij achou absurdo e ao mesmo tempo engraçado. O mesmo cara que brincava sem se importar em se expor nu, agora armava esse alvoroço pelo simples fato de tirar a camisa.
Quando agia e falava com vulgaridade, como se estivesse completamente desgastado pela vida, era uma coisa, mas agora reagia como um adolescente inexperiente, o que era estranho. As pessoas que Yurij tinha conhecido não tinham facetas tão contrastantes como Cheriot. Eram mais consistentes e suas reações, previsíveis. Claro, Alexei era um tipo bom improvisando e tinha a audácia de ser imprevisível, mas essa não era uma atitude que mostrasse normalmente.
— Por acaso ontem à noite você não se trocou sem se importar que te vissem?
Diante de uma reação que dificilmente podia ser considerada fingida inocência, Yurij, sem perceber, soltou uma pergunta desnecessária. Poderia ter deixado passar, mas aquela reação exagerada lhe pareceu cômica. Não num mau sentido, mas divertida.
— Isso é diferente de ver o corpo de outro.
— Me parece a mesma coisa.
— Meu corpo é como uma escultura incrível, então quem olha sai ganhando. Mas o corpo de outro é, isso, algo privado.
Os dedos de Cheriot, que continuava tapando o rosto, se separaram ligeiramente. Ao dar uma olhada no torso de Yurij pela abertura, Cheriot baixou a cabeça de repente e o pressionou.
— Se apresse e se troque.
— Me trocar será complicado. Diferente de você, eu não trouxe nada, vou ter que comprar pelo menos roupa simples no caminho.
Achava desconfortável vestir de novo a roupa que tinha usado o dia inteiro, mas ao lembrar de seu passado, quando não tinha tempo para se trocar e sempre andava ocupado, pensou que já estava satisfeito. Yurij riu interiormente de si mesmo e, quando ia vestir a camisa, Cheriot falou.
— Então… vista minha roupa.
Cheriot falou de novo, separando os dedos. Ao fixar o olhar nos olhos verdes visíveis entre a abertura, Cheriot juntou os dedos imediatamente. Se ia continuar espionando assim, melhor seria que olhasse abertamente; não entendia por que insistia em se tapar.
— Ficará bem em você. Talvez um pouco grande, mas enfim, empresto.
Yurij pensou um momento. Se a proposta viesse de Timac ou Alexei, a teria aceitado, mas parecia-lhe que emprestar roupas de alguém como Cheriot era algo que não devia fazer. As roupas que ele usava certamente eram caras ou de boa qualidade, e se as vestisse, temia que pudesse sujá-las.
Ao guardar silêncio Yurij, Cheriot finalmente baixou as mãos. Conscientemente evitando olhar o torso de Yurij, escrutinou os arredores e, ao perceber que tinha deixado a mala abandonada fora, abriu a porta rapidamente. Depois, em vez de arrastar a mala para dentro, a abriu em frente à porta e tirou algumas roupas.
Diante de seu comportamento desconcertante, Yurij entreabriu seus olhos e observou sua estranha atuação por um momento. Como não parava de abrir a porta, hoje teria que lhe ensinar como se assegura uma casa.
— Toma, isso.
Cheriot se aproximou com uma camiseta branca de manga curta. Ao ver que se aproximava usando a peça como uma tela que lhe bloqueava a visão, Yurij soltou uma risada zombeteira. Seu comportamento era exagerado, exagerado demais.
— Se você não tem nojo de me ver, a mim não me incomoda. Somos dois alfas, pare de fazer drama.
Dito isso, Yurij estendeu a mão para a camiseta que Cheriot lhe oferecia. Se recusasse um gesto tão sincero, o ambiente ficaria incômodo… E além disso, ao ter diante de si roupa recém-lavada, deu vontade de usá-la. Ele mesmo se sentiu estranho ao perceber o quanto avaro podia ser.
Quando agarrou a camiseta para tomá-la, seus olhos se encontraram com os de Cheriot, que continuava cobrindo o rosto com a peça. As pupilas verde-claro, ocultas atrás da camisa, o olhavam fixamente, como se não tivessem afastado a vista dele nem um segundo. Essas pupilas negras no meio de um lindo verde pareciam perfurar sua alma com uma profundidade ansiosa, e Yurij, por um instante, apertou a mão que ia pegar a camiseta.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna