Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.1
3. Cherry and Smoke
Na rodovia havia muitas pedrinhas pequenas. Enquanto dirigia a quarenta milhas por hora, Yurij viu as marcas que as pedras deixavam ao bater contra o vidro e desaparecer, e compreendeu por que seus clientes costumavam trazer minúsculos arranhões no para-brisa dianteiro. Isso acontecia por viajar tanto.
Ao presenciar diretamente um fato que só conhecia de ouvir falar por seu pai, percebeu que seu pai também deve ter sabido porque alguém lhe contou. Os Kiselyov nunca tinham feito algo assim como viajar.
Embora tivesse muita experiência dirigindo longas distâncias, isso não era viajar. Não tinha o luxo de prestar atenção em coisas como as pedras que salpicavam o vidro, e como principalmente dirigia à noite por caminhos escuros, a paisagem não se via. Quem empreende um trajeto onde sempre existe a probabilidade de morrer, não tem tempo para observar ninharias.
Dirigindo de dia pela Rodovia 1, Yurij se deparou com paisagens como de filme. Seguindo a estrada talhada no centro das altas montanhas, os cumes se aproximavam e depois se elevavam repetidamente, com picos cobertos de geleiras visíveis aqui e ali. No caminho viu várias vezes um rio transparente de um azul próximo ao verde esmeralda. Era uma cor pictórica.
Justo quando a Rodovia 1 terminava e estava prestes a mudar para a 93, Cheriot, que tinha ficado calado um tempo, abriu a boca.
— Há um lago realmente lindo por aqui. Tem o nome de uma princesa inglesa. Você já viu?
Yurij desviou o olhar e observou Cheriot. Por mais falante que o cara fosse, pensou que não poderia ficar tagarelando o dia inteiro, mas ao examinar seu rosto, parecia recém-acordado. Como tinha a cabeça parada e virada para a janela, achou que estava acordado.
— Melhor continuar dormindo.
Claro, Yurij nunca tinha visto esses lugares lindos de que ele falava. A paisagem mais bela que Yurij tinha visto era a de seu amigo e seu pai sorrindo, e depois a tranquilidade de Vancouver após escapar do inferno que era Saratov. Com essas duas coisas tinha o suficiente, e preferia trabalhar a viajar para ver supostas paisagens espetaculares.
— Ah, estava dando para notar que tinha dormido? Desculpe. Sem querer fiquei um momento dormindo.
— Por que se desculpa?
Embora tenha decidido não alongar a conversa, não pôde evitar perguntar porque não entendia. Que razão havia para se desculpar com alguém como ele.
Claro que agarrar seu pulso por conta própria sim era motivo de pedir desculpas, mas já tinha decidido deixar isso para trás.
— Em viagens longas é importante o papel de quem vai no banco do acompanhante. Falar para o outro não dormir, cuidar da comida, isso é o básico em termos de educação.
Era a primeira vez que ouvia algo assim. No tempo que se perde falando e atendendo ao outro, seria mais eficiente em todos os aspectos dormir um pouco e depois se revezar para dirigir. As regras de etiqueta que Cheriot mencionava soavam realmente desnecessárias.
— É a primeira vez que ouço algo assim.
Cheriot ouviu essas palavras que Yurij murmurou incrédulo para si. Ele se esticou, baixou o vidro de repente e depois, erguendo a voz entre o vento que soprava, estendeu os dedos.
— Regras básicas para o copiloto. Quem pede a carona paga a gasolina. A pessoa no banco do acompanhante dá de beber ou comer petiscos ao motorista para sua conveniência. Fala com ele para que não durma, e às vezes até canta para animá-lo.
Cheriot, que tinha recitado as regras com uma voz suave e clara, virou a cabeça para olhar Yurij. Ao cruzarem seus olhares, esboçou um sorriso radiante e arqueou lindamente seus olhos verdes.
— São as regras especiais da família Goodnight. Nesse sentido, quer que eu cante para você?
O sorriso de Cheriot, assim como sua aparência, era extremamente brilhante. Seu cabelo vermelho-dourado ondeava pelo sol que ainda brilhava com força e o vento que entrava. Diante da cena, que parecia ter sido forjada em cores a partir da imagem do vento soprando, Yurij franziu o cenho e girou a cabeça. Tinha se distraído por tempo demais.
— Se você realmente age pela conveniência do motorista, preferiria que calasse a boca.
— Para isso o dia está bom demais.
Cheriot riu baixinho e começou a falar sobre o lago que tinha mencionado antes.
— O lago Louise é formado pelo degelo glacial, então a água é muito fria. Uma vez entrei sem preparação e quase tive um ataque cardíaco. Perto daqui, em Banff, há muitos lagos bonitos, mas nenhum tem aquele tom esmeralda como o lago Louise. Por isso muita gente o visita, vale a pena ver pelo menos uma vez.
Yurij olhava silenciosamente para a frente e imaginou brevemente o que Cheriot descrevia. O rio que tinha visto antes também lhe pareceu extremamente belo, e Yurij sentia que só de ter visto aquela paisagem já era um luxo.
Viajar para ver alguma paisagem era algo que só podiam fazer os escolhidos. No mundo havia gente demais que perdia a vida em vão sem sequer ter a oportunidade de ver um espetáculo tão bonito. Sua mãe tinha sido uma delas.
— A partir de agora é a Icefields Parkway. Se seguirmos em frente, aparecerá o paraíso do qual falei. O lago Louise é muito lindo, mas não se compara ao paraíso. Com certeza você também vai gostar.
Quanto mais falava com Cheriot, mais Yurij percebia que com seu próprio senso comum não conseguiria entender nada do que ele dizia. Suas desculpas ou suas palavras de agradecimento, cada termo que soltava lhe era estranho. As palavras de Cheriot eram redondas e cada uma de uma cor diferente, como seixos de vidro espalhados em uma praia de areia branca.
— Não entendo que importância tem se eu gosto ou não.
— Bem, acho que é bom compartilhar uma paisagem bonita com os outros.
Yurij, na verdade, não conseguia compreender esse sentimento. Assim como pouco antes, quando ouviu sobre as pessoas que viajam longe para ver grandes espetáculos, só sentiu que estava dissipando a névoa.
— Quando chegar, o que você quer fazer primeiro? Foi uma viagem de mais de dez horas dirigindo.
Quem na verdade tinha dirigido a noite toda era ele, mas Cheriot fez essa pergunta. Yurij esteve prestes a corrigi-lo, mas preferiu deixar passar para não ouvir mais palavras irritantes.
— Vou contatar Alexei primeiro para ver a situação. Pelas mensagens que deixou, parece que fez algum plano.
Já estava preocupado com as chamadas perdidas e mensagens, então planejava contatá-lo assim que chegassem ao vilarejo e tivesse sinal. Com certeza Alexei teria descoberto muitas coisas durante a noite, então teria muito a contar.
Mas… como devia contar a Alexei o ocorrido na noite anterior?
Alexei era um homem que terminava o trabalho que lhe era confiado como fosse. Quando estavam sob Igor, todos temiam sua tenacidade até o fim, e depois de se tornar solucionador, ganhou confiança graças a esse mesmo senso de responsabilidade.
Assim, mesmo que lhe dissesse que deviam deixar o trabalho pela metade porque ele era um tipo de má índole, era muito provável que Alexei não o ouvisse. Mas Yurij queria que ele renunciasse ao serviço de Cheriot. Diferente de si mesmo, Alexei era uma pessoa valiosa com muita gente que ficaria triste se ele se machucasse. Por isso desejava que não assumisse riscos como antes.
— Não, não me refiro a isso.
Yurij franziu o cenho e o olhou. Então Cheriot meteu a mão no saco de petiscos que tinha sobre a perna. Tirou um pacote de gelatinas, segurou pelo centro e o abriu de um puxão fazendo o saco se abrir. Extraiu uma gelatina pequena em forma de ursinho amarelo e a levou à boca.
— Eu quero me jogar no lago e nadar primeiro. Depois me estender ao sol e beber cerveja. Se dormir assim, certamente dormiria profundamente até a manhã seguinte.
Cheriot fazia Yurij imaginar coisas desnecessárias. Para ele, que só comia, dormia e se movia por necessidade quando chegava o momento, essas reflexões sobre atos tão mundanos não faziam sentido.
…Mmm. Sim, queria se lavar. Fazia mais de um dia inteiro sem poder fazê-lo direito e pensou que se sentiria melhor depois de um banho.
Era tudo o que Yurij conseguia evocar.
— Pode fazer o que quiser, mas não se afaste e fique por aí fora da minha vista. Embora haja pouca gente, nunca se sabe quando pode surgir uma situação imprevista.
— De acordo, Mister Wolfie.
Ao ouvir o apelido Wolfie, Yurij arqueou uma sobrancelha.
— Não me chame assim.
— Não foi um acordo mútuo? Eu sou Cherry, você é Wolfie.
— Pode me chamar de Campbell.
— Mas até um cego vê que “Cherry” é um apelido! Então eu também deveria usar um para você!
Yurij tensionou o entrecenho. Cheriot tirou outra gelatina de ursinho pequeno e a aproximou dos lábios de Yurij. Num piscar de olhos, a mão de Cheriot roçou sua bochecha.
— Aqui está seu butim, cavalheiro. Acalme-se, Mister Wolfie.
Yurij se sentiu repelido por aquela mão que se aproximou como se fosse alimentá-lo. Virou a cabeça rapidamente e advertiu com voz sinistra:
— Tire isso.
— Está bem, está bem. Na próxima vez procurarei algo que agrade a um lobo.
Cheriot lançou à própria boca o ursinho de gelatina que ia lhe dar. Espalhou-se um aroma artificial de fruta junto com o som suave de mastigar a gelatina. Tinha sido uma boa escolha comprar guloseimas. Cheriot já tinha devorado não só as gelatinas mas também dois chocolates.
Por um momento, pareceu que ficaria calado como uma criança com algo na boca, mas Cheriot, que estava petiscando gelatinas, abriu a boca de novo.
— Ah, esqueci algo muito importante!
— Diga.
— Temos que fazer compras antes de entrar. Lá é um vilarejo pequeno. Não há lojas de bebidas nem supermercados, então temos que comprar no primeiro lugar que virmos. É incômodo, mas não há remédio.
— Nesta situação você pensa em beber? Que vida mais relaxada a sua.
— Já que viemos a um lugar com paisagens tão bonitas, não posso passar tudo morrendo de medo. Ah, certo. Também tenho que ir à farmácia.
— Farmácia?
Felizmente, Cheriot negou a suspeita infundada de que fosse por seus ferimentos.
— Mencionei de passagem, mas logo entrarei no rut. Como será difícil encontrar alguém para fazer sexo, preciso comprar inibidores. Mas… se você não se importa em ouvir essas coisas de outros, talvez eu possa procurar no vilarejo alguém que me acompanhe durante o rut.
Yurij apertou os lábios diante de uma explicação tão franca que soava obscena. Com aquela aparência que em repouso parecia um aristocrata elegante, era inacreditável como soltava tão facilmente palavras tão vulgares. Era algo que tinha notado desde antes: Cheriot realmente não tinha nenhum pudor em seus atos. Seja mostrando seu corpo nu diante dele com total desembaraço, ou fazendo piadas de duplo sentido com facilidade…
No entanto, não lhe causava uma aversão avassaladora ou repulsa. Ao longo de sua vida, Yurij tinha lidado com muitos indivíduos de alma vulgar, e aqueles proferiam palavras muito mais sujas, incomparavelmente piores que as de Cheriot. Comparado a eles, o comportamento de Cheriot só parecia o de um garoto imaturo.
Rut…
Certamente era um problema.
Nenhum alfa quer por perto outro maldito alfa rondando durante o rut. Quando Yurij estava na organização, era uma regra tácita que durante o período de rut um devia desaparecer discretamente. Igor e seu filho Ivan, em particular, odiavam peculiarmente os feromônios de alfa, e às vezes Yurij recebia reprimendas sem sentido por não conseguir controlá-los adequadamente.
Por essas razões, no mundo de Yurij, o rut era um assunto vergonhoso e secreto que não se podia revelar abertamente, algo que devia ser tratado com discrição. Não era um ambiente onde se pudesse mencionar tão abertamente como Cheriot, dando margem para que outros imaginassem coisas.
— Vamos à farmácia primeiro.
Sentiu-se estranho ao imaginar os feromônios de Cheriot mudando. A repulsa foi o que primeiro surgiu, mas, curiosamente, seguida da imagem fugaz de Cheriot trocando de roupa no quarto do hotel. Talvez porque o corpo que tinha visto contra sua vontade lhe tivesse impressionado profundamente.
Uma ideia totalmente desnecessária cruzou subitamente sua mente: a pessoa que o recebesse teria dificuldades.
O membro de Cheriot era aterrorizantemente grande. Dado seu físico excepcional, de certa forma era lógico que seu pênis também o fosse, mas mesmo assim, o que Yurij tinha visto era excessivamente grosso e pesado. Se esse era seu tamanho em estado flácido, parecia que quando se excitasse, quem quer que fosse sua parceira teria problemas para suportá-lo.
Yurij tinha lidado com muitos ômegas e assim aprendido que um pênis grande não garante que a parceira o desfrute. Embora não tão desproporcionalmente como o de Cheriot, o próprio Yurij possuía um tamanho que superava em muito a média. Devido ao seu grande tamanho, às vezes os ômegas que o recebiam sentiam dor, e nesses casos Yurij se limitava a satisfazê-los com a mão antes de se despedir.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna