Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.10
3. Cherry and Smoke
Após mastigar e engolir várias vezes, Yurij finalmente abriu a boca. Cheriot, como se tivesse decidido mudar sua forma de incomodá-lo, começou a cravar-lhe o olhar até obter a resposta que queria.
— Está bom.
Foi uma frase simples, sem acréscimos, mas Cheriot, com expressão satisfeita, finalmente começou a comer seu próprio sanduíche. Ambos trocaram brevemente o olhar e depois observaram o lago ao mesmo tempo. Diferente de Yurij, sentado ereto no sofá, Cheriot contemplava o lago com despreocupação, apoiando o braço sobre sua coxa.
— Você está proibido de nadar no lago.
Cheriot falou quando já tinha terminado quase metade de seu sanduíche.
— Nem sequer pensei nisso.
Yurij respondeu rindo por dentro, e Cheriot, sem desviar a vista da janela, continuou.
— Se me visse nadar, lhe daria vontade de me imitar.
Embora fosse uma preocupação desnecessária, Yurij sentiu que provavelmente teria esse ânimo. Assim como Cheriot correndo era muito mais bonito do que quando estava preso dentro do carro estreito, estava seguro de que sua figura se desdobrando naquele vasto espaço seria exasperantemente atraente. Yurij pensou que queria ver aquela cena, mas depois a apagou.
Quanto mais se presencia uma liberdade inalcançável, mais sede desperta.
— Mas você sabe nadar?
Yurij franziu o cenho ao ver Cheriot, que confirmava tardiamente o que deveria ter perguntado há tempo. Deu vontade de rir. Reprimiu a vontade e negou com a cabeça.
— Não. Então não precisa se preocupar com isso.
— Você não sabe nadar?
— Assim é.
Em Saratov, o único rio que fluía era o Rio Vermelho, um torrente extremamente rápido e profundo que só podiam atravessar quem estivesse disposto a morrer. Ninguém queria nadar ali por diversão.
Uma lembrança nada agradável brotou lentamente. As pessoas endividadas com Igor tinham sombras que vigiavam cada um de seus movimentos desde as penumbras, e cada vez que saíam de carro, o reportavam a Igor. A única forma de escapar de seus olhos era remontar o Rio Vermelho e cruzar para o Canadá. Muitos que tentaram foram capturados e morreram em vão.
— Então quando a ferida sarar, devo te ensinar.
A voz animada de Cheriot cortou o passado que, sem querer recordá-lo, acorria por reflexo a sua mente. De volta à realidade, Yurij pegou a metade restante do sanduíche e recusou a oferta.
— Não precisa.
— Você sabe que nada refresca mais no verão do que nadar? Nem ventiladores nem ar condicionado se comparam.
Yurij guardou silêncio. Além de não ter aprendido a nadar, não tinha intenção de expor seu corpo num espaço onde outros pudessem vê-lo. Cheriot, que não tinha reagido exageradamente à sua aparência, era um caso peculiar; qualquer pessoa normal teria se surpreendido.
— Quando será bom momento? A ferida vai demorar para sarar, não é?
— Sim. Provavelmente cicatrizará só depois que você e eu deixarmos de nos ver.
— Pensando assim, me dá certa pena.
Cheriot disse algo desnecessário. Quando Yurij o olhou em silêncio como se não pudesse entender, Cheriot encolheu os ombros como se soubesse.
— Eu sei. Yurij Campbell é um cara mau e eu também não tenho intenção de ser seu amigo nem nada.
— Então por que diz isso?
— As despedidas sempre dão pena.
Olhou para a janela. O perfil de Cheriot, ensombreado, pareceu-lhe curiosamente solitário.
— Separar-se e não se ver de novo é no final parecido com morrer.
As palavras de Cheriot não estavam erradas. Mas Yurij, desde que soube em que situação estavam seus pais na infância, antecipou uma despedida futura, e desde então até agora viveu com esse pensamento.
— Todo vínculo deixa uma marca.
Cheriot, que olhava pela janela, girou lentamente a cabeça. Yurij, sem olhá-lo diretamente, mas também sem lhe dar as costas, falou olhando para frente.
— Embora nunca mais nos vejamos, esse tempo existe claramente dentro de você. O que existe não é morte. A morte é desaparecer.
Embora a mãe de Yurij tenha cruzado para um lugar de onde jamais poderá voltar, tanto seu pai como ele mesmo encontraram sua marca em seus corações. Talvez o rosto de sua mãe se desfoque na memória e não possa lembrar com exatidão seu caloroso aroma ou seu tato, mas as recordações com ela eram o alicerce que sustenta a vida do pai e do filho Kiselyov.
Como se fossem palavras inesperadas, Cheriot o observou durante um bom tempo. Enquanto escutava sua respiração tênue e leve, Yurij começou a terminar seu sanduíche. Era a primeira vez que jantava tão perto de um desconhecido, o que resultava incômodo, mas o sanduíche esfriado estava saboroso e o dia era fresquinho. Então era tolerável.
Talvez até um pouco agradável.
— Nunca tinha pensado assim.
Cada pessoa tem crenças distintas, era natural. Yurij terminou seu sanduíche sem acrescentar mais, e Cheriot observou como o fazia. Ao se expor continuamente àquele olhar incômodo, foi se acostumando um pouco. Não é que se sentisse confortável, mas podia suportá-lo.
— Então sua marca também permanecerá.
Cheriot, que tinha estado observando Yurij um longo tempo, falou. Yurij pegou o prato vazio, levantou-se com calma e olhou Cheriot de cima. Banhado pela luz do crepúsculo que entrava pela janela como uma pintura, Cheriot estava tingido de uma cor que lhe assentava perfeitamente. Como fugindo do deslumbrante Alfa, Yurij girou o corpo e disse:
— Algo como eu se apaga logo.
E também engoliu para si as palavras de que apagá-lo seria o melhor para a vida de Cheriot. Pensou se era um conselho necessário, mas sentiu que não valia a pena dizer em voz alta. Nem sequer merecia a pena.
* * *
A noite em Big Fox era diferente de qualquer outra que Yurij tivesse vivido. Aquele dia era diferente. Não era a sensação de estar submerso em águas turvas como em Saratov, nem as noites insensíveis que tinha passado após escapar, como se tivesse cortado todos os seus sentidos.
Yurij observou o imenso lago que se ondulava mansamente do outro lado da janela. Pela fresta ligeiramente aberta entrava o ar fresco noturno impregnado do aroma do bosque. O cheiro natural da terra úmida e das árvores enchia a sala, e no limite do silêncio ressoava um tênue som de água. Era o murmúrio do lago e o barulho da água do chuveiro que se filtrava do banheiro.
Cheriot, que se ofereceu até para lavar os pratos, não parou de se mover depois. Tirou todas as toalhas guardadas nas prateleiras e as colocou na lavanderia, passou o aspirador e enquanto desempacotava sua bagagem, não ficou parado nem um momento. Diante daquela agitação que cansava só de ver, Yurij saiu um pouco. Foi buscar as ferramentas compradas na loja de ferragens e percorreu os arredores, mas só flutuava uma calma silenciosa.
Apesar de saber que não devia soltar a corda da tensão, o ambiente que o rodeava era tão tranquilo que, sem perceber, seu ânimo também se serenou. Absorto na quietude do ar que até trazia certo consolo, Yurij hesitou, mas no final tirou o livro que tinha deixado no porta-luvas do carro. Embora lhe pesasse um pouco a consciência por parecer que estava se dando férias, pensou que se fosse passar a noite em claro de guarda, precisaria de um livro, então o pegou.
O livro que trouxe era uma obra de Tolstói. Diferente de seu pai, que tinha crescido sem ler um livro na vida, sua mãe era uma mulher educada, e ela gostava de Tolstói e Pushkin. Todos os livros que possuía, Yurij os tinha herdado dela.
Os livros que sua mãe lia estavam em russo. Yurij podia conversar em russo ou escrever textos simples, mas nunca alcançou o nível para ler a poesia de Pushkin ou as novelas extensas de Tolstói.
Mesmo assim, o poder manejar o russo até esse ponto o devia a sua mãe. O homem que cortava e vendia carne no açougue era quase analfabeto e não podia sequer tentar ler obras literárias.
Talvez por ter herdado o sangue daquele pai, Yurij sabia como subjugar uma pessoa com as mãos vazias ou fazer funcionar um carro quebrado, mas era incapaz de memorizar palavras difíceis. Mal terminou o ensino fundamental e desde o ensino médio fez todo tipo de recados e trabalhos menores sob as ordens de Igor. Aprendeu a lutar na porrada e se abriu caminho superando perigos de morte.
Se sua mãe não lhe tivesse ensinado gramática básica, Yurij também não teria aprendido inglês corretamente. Aquela mulher inteligente chegou a um país estranho, estudou inglês por conta própria e depois o ensinou a seu marido e filho. Se sua mãe tivesse vivido um pouco mais, talvez mesmo com esta vida teria alcançado um nível para ler livros complexos.
Mas a educação de Yurij parou justamente no nível do ensino médio. Não teve tempo para aprender os conhecimentos culturais ou a história que as pessoas consideram senso comum. Obrigado a mover o corpo sem cessar para sobreviver, Yurij se conformava por não ter esquecido o aprendido na infância.
Quem não tem nada deve aprender a se contentar com o pouco. Seja comida insípida, um quarto frio, deviam ser gratos pelo menos pelo que os mantinha vivos.
Assim, Yurij sentia gratidão por poder ler e entender, embora aos trancos, os contos de sua mãe. Felizmente, todos os livros de sua mãe eram coleções de contos de pouca espessura, então com um dicionário em mãos podia terminá-los. Mas não podia aspirar a mais. O russo era um idioma bastante complexo e difícil, e embora seus dois pais fossem russos, Yurij não entendia textos com muitas metáforas e símiles.
Com o inglês acontecia algo parecido. Quando a gramática se complicava, Yurij parava em cada linha, alternando com o dicionário, depois sentia um pouco de frustração e fechava o livro.
Às vezes lhe vinha o desejo de estudar, mas até esse ato lhe parecia um luxo. Afinal, não era uma ação que realizava por seu próprio prazer?
Bem, com os livros que já lia era suficiente.
Deixou “Iván, o Tolo” na oficina onde trabalhava, e no carro colocou o conto que mais gostava sua mãe. Esses livros velhos, lidos centenas de vezes até poder revisá-los sem dicionário, eram toda a pequena alegria que Yurij se permitia.
Sentado no sofá olhando pela janela, Yurij observou o livro velho sobre a mesa. Após contemplar fixamente o texto em russo, hesitou se leria, mas pareceu-lhe que estava sendo preguiçoso demais e se afastou do sofá. Pegou as ferramentas que tinha trazido, saiu para fora e começou a preparar armadilhas.
As armadilhas que instalava não eram do tipo terrível que corta os tornozelos ao pisá-las como nos filmes, mas sim dispositivos simples que, se um intruso rondasse pela janela, deixavam cair pregos fixos para registrar as marcas da passagem. Se necessário poderia fazer algo mais severo, mas sendo casa alheia decidiu se contentar por ora com isso.
Swooosh.
Atrás dele ressoou o som da água do lago que avançava e recuava como uma pequena praia. Depois de se concentrar bastante em fazer armadilhas, esticou o corpo um momento e, justo então, através da janela viu Cheriot sair pela porta após terminar o banho. Ao descobrir a longa sombra projetada no chão, Yurij baixou rapidamente a cabeça e fingiu não vê-lo.
Não sabia por que fez isso. Talvez a conversa anterior lhe tivesse inquietado o ânimo sem motivo.
Mas ao que parece Cheriot não pensava em deixá-lo só.
— Wolfie? Onde você está?
Como Yurij não respondia e continuava ajustando o arame, Cheriot vagou pela casa e logo o encontrou fora da janela.
— O que você está fazendo aí?
Ignorá-lo quando se aproximava da janela e o chamava pareceu-lhe inapropriado, então ergueu um pouco a cabeça e o olhou. Ali estava Cheriot, com apenas uma toalha em volta da cintura, mostrando seu corpo com desembaraço. Aquele traje na prática era igual a ir nu. Seja no hotel ou aqui, parecia que a Cheriot gostava de se expor.
Será que por serem ambos alfas ele não dá importância? Bem. Se são do mesmo sexo e condição, não haverá por que se envergonhar.
Ao chegar a esse pensamento, Yurij lembrou naturalmente o ocorrido durante o dia. Para alguém que não se envergonhava, Cheriot tinha agido excessivamente tímido e até se ruborizado ao ver seu torso. Por um instante passaram por sua mente a imagem de Cheriot cobrindo os olhos e suas pupilas brilhantes cravadas nele ao emprestar-lhe a camisa.
Então ele também achou difícil continuar olhando diretamente o corpo de Cheriot. Como se a reação se contagiasse, Yurij inclinou a cintura para evadir a sensação estranha e respondeu.
— Estou fazendo armadilhas para detectar se alguém ronda fora da janela. Então vá dormir primeiro. Você também não se aproxime da janela.
Apesar de lhe dizer que não se aproximasse, Cheriot se aproximou de qualquer forma. Entrevia seu cabelo vermelho-dourado, do qual ainda pingava água.
— Você não está cansado depois de se mover o dia inteiro? Vamos descansar agora.
Yurij olhou de relance para aquele empregador generoso que dizia a seu guarda-costas para descansar. Ao ver o rosto úmido de Cheriot olhando-o de cima, aquele sentimento estranho voltou a surgir e sua vista se dirigiu de novo para ele.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna