Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.11
3. Cherry and Smoke
Embora estivesse só vendo um alfa recém-banhado, sentiu uma tensão como se estivesse espionando uma cena indecente. Sem perceber, Yurij observou fixamente a pele de Cheriot, brilhante e limpa pela umidade, e o pomo escultural no centro de seu pescoço firme, até recobrar o sentido tarde e passar saliva por sua garganta seca.
“Não sei por que fico assim de repente. Será pelo que Cheriot contou sobre o rut no caminho?”
— Meu trabalho é evitar que algo aconteça com você enquanto dorme. Não se preocupe, será melhor que você vá descansar.
— Como não aconteceu nada durante todo o caminho, não estará bem? Pelo menos por hoje.
— Isso não se pode saber.
Yurij também tinha pensado por um momento, mas não devia baixar a guarda.
— Em todo caso, há gente que tentou te matar e a organização que te persegue é grande, estendida por toda a América do Norte.
Não é que quisesse assustar Cheriot de propósito, mas depois de soltar isso, pensou tardiamente que ele poderia se sentir ansioso. Sentindo que tinha cometido um erro, observou Cheriot com cuidado, mas felizmente não parecia assustado.
Como não tinha se assustado com suas palavras, podia deixá-lo assim, mas Yurij sentiu o impulso de lhe dizer algo. Ou seja… para ser exato, queria tranquilizá-lo.
— Mas não parece que descobriram ainda que estamos aqui.
Como nunca tinha acalmado alguém com palavras, Yurij só pôde continuar depois de ordenar e selecionar muitas frases em sua mente durante alguns breves segundos.
— Então pode dormir tranquilo.
Ele mesmo sentiu um pouco de tensão por suas palavras vergonhosas. Duvidou se entre alfas era apropriado trocar esse tipo de frase, e lhe passou pela cabeça a preocupação de que Cheriot pudesse levar a risada ou se sentir incomodado. Era uma preocupação desnecessária.
Ao terminar Yurij, Cheriot inclinou o corpo. Com a cabeça inclinada sob o marco entreaberto da janela, seu olhar se encontrou a altura similar com o de Yurij, sentado por instalar as armadilhas. Depois, olhando Yurij através do espaço aberto, sorriu. Seus lábios rosados se curvaram graciosamente e surgiram palavras tão amáveis quanto a forma de sua boca.
— Obrigado por me dizer isso.
Diante daquele sorriso doce e sem vestígio de hostilidade, a Yurij pareceu que Cheriot baixava a guarda rápido demais. Confiar em alguém como ele, lixo, depois de apenas um dia era algo realmente perigoso. Mas hoje Yurij já tinha advertido várias vezes Cheriot, e pensou que explicar cada vez que classe de pessoa era não servia para tranquilizá-lo.
— …Vá dormir.
— Você vai demorar muito no que está fazendo?
— Por que pergunta?
— Quero ir dormir quando você entrar.
[— Se você não está, não me dá sono, Vasha.]
Por um instante, na mente de Yurij ressoou a voz de um fantasma do passado. Aflorando uma imagem persistente de sua mãe, que sempre guardava em seu coração, desenhou-se a cena de uma noite em que, esperando que seu pai voltasse a altas horas, saía ao seu encontro.
Ao mesmo tempo, sentiu um pouco de arrepio na pele. Será porque o ar noturno estava frio? De repente lhe coçou a pele. Yurij esfregou o antebraço com a mão suja de terra e respondeu secamente.
— Faça o que quiser.
Em vez de repreendê-lo dizendo que não dissesse bobagens inúteis, Yurij decidiu deixá-lo estar. Porque não lhe desagradaram aquelas palavras, que embora sabia serem vazias, implicavam que o esperariam.
Fixar o arame por toda a casa e pendurar pregos em lugares ocultos para criar sinais levou uns cinquenta minutos. Ao se concentrar, o tempo passou consideravelmente e sua pele também tinha esfriado pelo ar noturno. Após respirar fundo, abriu a porta e entrou em casa, onde viu as costas de Cheriot sentado no sofá.
Ao vê-lo, um pequeno sorriso irônico se escapou por debaixo de seus lábios.
Sem ser consciente de seu próprio sorriso, Yurij caminhou em direção ao sofá. Apesar do barulho de seus passos, Cheriot não se virou. Sentiu curiosidade por saber o que estaria fazendo, mas em vez de perguntar em voz alta, se aproximou sorrateiramente de seu lado.
Cheriot tinha os olhos fechados com o livro velho que Yurij tinha deixado sobre a mesa entre suas mãos. Não sabia por que o teria revisado se de qualquer forma não podia ler russo, mas parecia que, após folhear as primeiras páginas, tinha dormido no instante. Seu peito subia e descia ao ritmo de sua respiração suave. Yurij parou e o observou fixamente, com o rosto imóvel em sonhos. Cheriot, dormido de um modo que fazia sentir culpado cobri-lo com sua sombra, era bonito.
Após contemplar as pálpebras avermelhadas que caíam sobre suas bochechas brancas e a suave linha de seu nariz, Yurij olhou cuidadosamente ao redor. Duvidando, entrou no quarto que lhe tinham designado e procurou uma manta. Caminhando com passos silenciosos para que Cheriot não despertasse, cobriu-o com a manta, depois fechou e segurou a janela por onde se filtrava o ar frio. Também girou a fechadura da porta principal o mais silenciosamente possível.
Ao voltar, Cheriot continuava dormindo, sem despertar. Como parecia incômodo dormir sentado, tentou segurá-lo pelos ombros para deitá-lo, mas por alguma razão lhe custava tocá-lo e deixou-o estar. Temia que pudesse se sobressaltar diante de seu contato, então não se atreveu a movê-lo; só retirou com cuidado o livro que segurava ambiguamente em suas mãos.
Yurij sentou seu corpo cansado numa cadeira da cozinha. O ponteiro do relógio de parede avançava para o número “12”. Só o som tênue do filamento da lâmpada vibrava na casa. Tinha tido inúmeras noites tranquilas, mas nenhuma lhe tinha feito sentir assim. Hoje era diferente.
Yurij apoiou o queixo e observou Cheriot em silêncio. Pensava que não tinha sentido ver dormir um alfa, mas ao olhá-lo, sua tensão relaxava estranhamente. Após observar Cheriot um bom tempo, seus olhos secaram e ao fechá-los um momento passou por sua mente uma recordação como uma foto antiga.
Sua mãe sentada no sofá lendo um livro com um xale, e seu pai, que conhecia perfeitamente sua mãe, voltando para casa o mais rápido possível. Quando seu pai chamava suavemente à porta para não despertar seu filho dormido, Katia, que o esperava, se aproximava na ponta dos pés para receber seu marido.
Deitado na cama fingindo dormir enquanto esperava seu pai, Yurij aguçava o ouvido e escutava a conversa carinhosa e sussurrada do casal se filtrar por debaixo da porta. Após ouvir seu pai perguntar com afeto por seu bem-estar e sua mãe conter o riso, Yurij finalmente podia dormir tranquilo.
Mais que cansaço, começou a invadi-lo o sono. Para não dormir, Yurij fechou os olhos e tentou continuar com vários pensamentos. Que imprudência estaria cometendo Alexei naquele momento, se deveria contar a Valery para detê-lo, por que razão os Guardiões do Inferno queriam matar Cheriot… Ao pensar nisso, suas reflexões finalmente derivaram para Cheriot.
“Diferente da primeira impressão, não é má pessoa.”
No início, sua atitude coquete para com ele, um alfa que acabava de conhecer, pareceu-lhe sumamente superficial, e o fato de ter tido uma aventura com o parceiro do chefe de uma organização o fez julgá-lo como lixo. No entanto, depois de passar mais de um dia colado a ele, o Cheriot que tinha presenciado tinha um lado tolamente inocente e era desnecessariamente bondoso.
Era certo que seu comportamento era bastante leve, mas considerando que não tinha tido intenção de cometer adultério, também não parecia alguém que andasse ferindo os outros. Ao contrário, para sua fama era até humilde, sabia agradecer e se desculpar com generosidade, e talvez por isso estar com ele não era incômodo como no início. Embora tivesse um lado alucinado, a verdade era que também o achava divertido.
Podia mudar tanto a impressão de alguém em apenas um dia?
Yurij se surpreendeu. Como todas as suas relações tinham sido como pontes construídas ao longo de toda uma vida, era a primeira vez que seus sentimentos para com alguém mudavam tão rápido em tão pouco tempo.
Ao abrir os olhos, Yurij observou Cheriot, que dormia plácidamente, uns minutos mais e depois abriu o livro. O livro que Yurij tinha lido uma e outra vez estava desgastado nos cantos e a fina capa descolorida pelo manuseio constante. Acariciou com os dedos as letras douradas em relevo da capa.
[De Que Vive o Homem]
Por sua mente passou o rosto de sua mãe recitando o título do livro com voz suave e clara. Ao notar que seu filho, entediado de estudar russo, fazia cara de fastio, ela trouxe esse livro em lugar do outro e, após ler o título, olhou para Yurij como uma menina travessa e disse:
[— O primeiro presente que seu pai me deu foi precisamente este livro. Yurij, isso é um segredo só seu… na verdade eu já tinha lido este livro, mas não queria decepcionar seu pai, então menti. Disse que nunca o tinha lido e aceitei o presente com alegria. Mentir é errado, claro, mas naquele momento não tive remédio. A cara de Vasha rindo ao ouvir minhas palavras era bonita demais.]
O pequeno Yurij admirava seu pai, mas também sabia que ele fazia coisas ruins. Diferente dele, sua mãe tinha dedicado sua vida a salvar pessoas, e frequentemente Yurij não entendia como tinha chegado a amar seu pai. Para não entristecer sua mãe, em vez de uma pergunta direta, só lhe perguntou assim:
[— Como chegou a gostar do papai, mamãe?]
Diante da pergunta sobre seu primeiro encontro, sua mãe sorriu radiante. Agora que pensava, Katia tinha apenas trinta anos naquela época. Era surpreendente e chocante perceber que seus pais, a quem só via como adultos, também tinham tido uma juventude. Yurij viu sobre o livro o rosto de sua mãe rindo alegremente. Como se lembrasse de algo de ontem, Katia mostrava seus dentes brancos e ria feliz.
[— Vasha estendeu a mão quando caí na rua.]
Os braços de Katia, que seguravam Yurij, se tensionaram. Seu calor corporal se expandiu acolhedor.
[— No instante que vi seus olhos azuis me olhando de cima, soube. Soube que aqueles olhos azuis eram o rio do destino em que eu me afogaria.]
Katia baixou a cabeça e sorriu ao olhar os olhos azuis de Yurij, tão parecidos com os de seu pai.
[— O amor chega num instante. Minha pequena pérola, algum dia você também saberá como é isso.]
O ar da pequena cabana era fresco e temperado, convidando ao sono. Yurij deteve os dedos que acariciavam o livro e observou de novo Cheriot no sofá. Como não tinha ânimo para ler, levantou-se lentamente e apagou a luz da sala.
Clic. Após apagar-se a luz, Yurij caminhou entre as sombras e voltou a sentar-se na cozinha já escurecida. A luz da lua se filtrava pela janela e iluminava Cheriot. A pele de Cheriot, como seda branca, tinha um tênue brilho azulado, e talvez por isso se parecesse a algum ser de mitologia.
Sentado à mesa da cozinha, onde tinha descido uma escuridão entremeada com silêncio, Yurij seguiu observando Cheriot. A presença do visitante que tinha chegado de improviso numa noite que costumava passar sozinho era avassaladora. Yurij lembrou as experiências e paisagens estranhas que tinha compartilhado com ele durante o dia, e pensou que o sanduíche que jantaram tinha sido delicioso.
Olhar o rosto de Cheriot não lhe causava estranhamente fastio. Enquanto o observava, repassou uma e outra vez as recordações que acudiam sem cessar, até que sem perceber fechou os olhos.
* * *
Soou o barulho de dois utensílios se chocando. Yurij, com uma ligeira ruga no entrecenho, foi abrindo lentamente as pálpebras. A luz do sol, filtrada através do tecido de uma cortina verde com listras, se estendia pela sala e tinha ficado aprisionada num retângulo sobre a cama onde ele dormia.
Talvez por ter pensado em sua mãe com uma frequência desnecessária durante dois dias, a sensação ao despertar, como se tivesse voltado à infância após um sono profundo, deixou-lhe um ânimo refrescado. Não era aquela desagradável vigília em que a consciência retorna como se te tirassem da água submersa puxando-te pelo cabelo, mas que seus olhos se tinham aberto de forma natural. Isso devia ser.
“Eu… estava sentado na cozinha.”
O bom humor por aquele sono profundo, o primeiro em quase vinte anos, durou pouco. Enquanto se perguntava por que tinha despertado naquele quarto, Yurij lançou uma rápida olhada ao redor. Não era uma vista desconhecida, mas também não lhe era estranha à memória. Ontem tinha entrado um momento ali para se trocar e tinha deixado a roupa que trazia vestida e a que tinha comprado.
Yurij, repassando mentalmente o dia anterior, desviou a vista para a escrivaninha de madeira grudada à parede junto à cama. Felizmente, ali estavam seus escassas pertences. Então, não tinha despertado num lugar estranho.
“Devo estar louco. Quanto tempo terei dormido tão plácidamente?”
Yurij se sentiu consideravelmente desconcertado, igual a ontem ao despertar no carro. Isso não tinha sido tomar um descanso necessário, mas ter baixado estupidamente a guarda por negligência. Um breve clarão de autorrepreensão e repulsa por sua própria indolência, seguido da pergunta fundamental: por que diabos tinha despertado aqui?
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna