Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.9
3. Cherry and Smoke
O sangue devia ter coagulado enquanto estava em movimento, porque com a água morna a roupa não se limpava. Com expressão de dificuldade olhou a peça e depois entrou na cabine de chuveiro. Podia pagar seu valor, mas lhe pesava ter sujado a roupa emprestada por amabilidade. Era como se tivesse contaminado uma parte de Cheriot.
Em todo caso, ele se tinha visto envolvido nos assuntos de Cheriot…
Ao começar a se molhar da cabeça aos pés, o sangue coagulado na ferida começou a fluir e se acumulou a seus pés. Uma dor pulsante que tinha esquecido se estendeu desde seu antebraço, e Yurij, em silêncio, limpou a ferida e depois começou a se lavar.
Após terminar o banho, Yurij enxaguou várias vezes mais a cabine com água, para que não ficasse algo de seu sangue. Depois tentou esfregar à mão a camisa de Cheriot que tinha deixado pendurada um momento, mas só conseguiu espalhar as manchas.
“Que complicado.”
Sempre usara roupas pretas e, em raras ocasiões que usava camisas brancas, se respingava sangue as queimava e as descartava. Por isso não sabia bem como tirar manchas de sangue de roupa branca.
“Minha mãe parecia saber bem.”
Yurij, que tinha estado olhando fixamente para o tecido que segurava, decidiu deixar de fazer bobagens. Mascullando para si que era melhor jogá-la fora e comprar uma nova, abriu a porta do banheiro e se surpreendeu ao ver Cheriot parado em sua frente. Por pouco seu punho não sai primeiro.
— …O que está fazendo parado aí?
— Você não saía e pensei que tivesse desmaiado.
Devia ser uma brincadeira. Ia ignorá-lo por ser um disparate, mas o rosto de Cheriot estava mais pálido que antes. Como em sua expressão se lia uma genuína preocupação, Yurij se sentiu perplexo. Não entendia por que Cheriot tinha pensado isso.
— Demorei muito? Achei que foram uns quinze minutos.
— Você levou vinte.
Cheriot sussurrou com a voz baixa e grave. Seus olhos verdes, que o olhavam fixamente de cima, não perdiam a preocupação. O ambiente em Cheriot não era normal como para atribuir a simples exagero. Parecia haver uma razão, como quando falava do fideicomisso. Yurij moveu os lábios e falou lentamente.
— Estou bem.
Cheriot respondeu com o olhar em vez de palavras. Seus olhos, que escrutinhavam a pele exposta perto do ombro esquerdo de Yurij, não davam sinais de retirar a preocupação, e Yurij não teve remédio senão explicar a razão de sua demora.
— Por causa da ferida sua camisa tem manchas de sangue. Tentei limpá-las, mas já deixaram manchas. Diga-me o preço e…
— Isso é importante agora? A ferida é pior do que eu pensava.
Cheriot pegou seu pulso sem lhe dar tempo para detê-lo. Apesar de que várias vezes ao agarrar seu pulso quase recebe um golpe, continuava fazendo; parecia ser um hábito. Yurij, que duvidava se dizer que entre alfas isso era desagradável, fechou a boca ao ver os curativos e o desinfetante sobre a mesa em frente ao sofá. Pensou que só tinha ido comprar inibidores, mas ao que parece também trouxe isso.
— O sangue estava coagulado e não pude ver bem a ferida antes. Se está tão aberta, não deveria ir ao hospital? Não posso acreditar que você se feriu no braço assim e não o fez notar.
— Uma ferida aberta chama a atenção e é possível que no hospital chamem a polícia.
Diante da resposta de Yurij, Cheriot franziu o cenho e o olhou.
— Parece que te perguntei isso?
— Então o que…?
Com um gesto cheio de descontentamento, Cheriot guiou Yurij para o sofá. Sem soltar seu pulso, passou junto à mesa, sentou-o com cuidado no sofá e examinou a ferida mais uma vez. Como lhe custava entender por que reagia assim diante de uma ferida que já começava a cicatrizar, Yurij o observou em silêncio.
Cheriot, com o entrecenho franzido como se ele mesmo estivesse ferido, pegou o desinfetante e os curativos e sentou-se ao seu lado. A distância era muito mais próxima do que quando se sentavam um ao lado do outro no carro. A sensação do sofá se afundando sob o peso de Cheriot e o calor de seu corpo tocando seu braço nu se difundiram claramente.
De repente, Yurij percebeu que novamente expunha seu torso cheio de cicatrizes. Como Cheriot não tinha tido tempo de reparar nas cicatrizes e só mencionou a ferida, esqueceu por um momento. Visto a tão curta distância, se revelava com maior crudeza e deveria provocar rejeição, mas Cheriot só olhava fixamente a ferida com suas sobrancelhas bem formadas franzidas.
— Se doer, aguente só um momento, está bem? Farei o mais suave possível.
— …Não sou uma criança.
— Seja adulto ou criança, a dor é igual.
Cheriot respondeu com voz firme, abriu o pacote de um cotonete com iodopovidona e esfregou com cuidado ao redor da ferida de Yurij. Diferente de sua aversão à ferida, sua mão ao aplicar o desinfetante parecia surpreendentemente hábil, e Yurij sentiu curiosidade pela razão.
Fazia muito tempo que não sentia curiosidade por alguém, então em vez de expressá-la, observou Cheriot por um momento. Não era sua intenção olhá-lo, mas sua vista se dirigiu para lá, e assim terminou contemplando o rosto de Cheriot.
Realmente era bonito.
Pensava que por mais bonito que fosse, se fosse alfa não lhe causaria impressão, mas isso era um erro por não ter conhecido alguém como Cheriot. Inclinando ligeiramente a cabeça e concentrado, Cheriot era tão bonito que parecia irreal. Sua testa reta e seu nariz alto e definido também pareciam irreais; a ponta de seu nariz, lisa mas angulosa, tinha uma forma impossível de criar artificialmente.
Diferente de seu lábio superior delgado, o inferior era um pouco mais cheio, e sua linha de mandíbula angulosa se harmonizava perfeitamente com seu pescoço longo, dando uma sensação masculina. Apesar de suas feições delicadas, graças aos bonitos ângulos retos em várias partes de seu rosto, Cheriot parecia próximo a um tipo de beleza masculina clássica. O tipo de beleza que se veria bem em uma fotografia em preto e branco.
Mas o preto e branco não capturaria bem a cor daqueles olhos e cabelo.
No momento em que teve esse pensamento, Cheriot ergueu o olhar. Seus olhos, que tinham se concentrado em aplicar o desinfetante, se encontraram inevitavelmente com os de Yurij, que, sem querer, contraiu o braço. Consciente de que tinha olhado fixamente demais o rosto de um alfa, uma estranha vergonha brotou nele, e quando tardiamente tentou desviar a vista, chegou-lhe uma pergunta muito amável.
— Dói muito?
Sua suave voz de barítono chegou como se acariciasse seu ouvido. Cheriot, inclinando ligeiramente a cabeça enquanto observava Yurij, era momentaneamente tão gentil que Yurij sentiu arrepios na nuca. Uma sensação de formigamento se estendeu por todo seu corpo e quase o fez se encolher até a ponta dos pés.
— Não.
— Que alívio. Só falta enfaixar.
Apesar da resposta brusca de Yurij, Cheriot continuava amável. Com mãos cuidadosas colocou algodão e gaze sobre a ferida de Yurij e depois, pressionando naturalmente, começou a enfaixar. Sua destreza era tão hábil como tinha percebido antes.
Por que um cidadão comum é bom nisso? Não é médico nem enfermeiro.
Surgiu de novo uma pergunta desnecessária. Não precisava perguntar e de nada serviria saber, mas a pergunta rondava na ponta de sua língua e, finalmente, contra sua vontade, saiu de repente.
— Parece uma habilidade que você praticou muito.
— Suponho que é assim.
Quando Yurij o olhou sem entender, Cheriot entrecerrou os olhos. Como tinha começado a enfaixar, talvez se sentia melhor, porque as comissuras de seus lábios se curvavam em um bonito sorriso.
— Os jogadores de hóquei se lesionam muito.
Sua resposta parecia ocultar algo, mas a dúvida se dissipou. Fazia sentido que um esportista famoso por suas frequentes lesões soubesse como se tratar. Embora sempre haja pessoal médico, uma ferida assim podia ser tratada sozinho.
— …Já vejo.
— Você nunca viu hóquei? O que fazemos o tempo todo é bater e levar golpes.
Yurij encolheu os ombros. Preferia dormir no tempo que outros viam esportes. Cheriot, como se não esperasse outra coisa, soltou uma risada baixa.
— Então não há razão para eu temer sangue. O que me dá medo são situações fora do comum; as lesões em si me são familiares.
“Então, por que esperou que eu saísse do banheiro? Que situação mereceria a preocupação de um homem familiarizado com lesões e sangue?”
Acabava de resolver uma dúvida quando surgiu outra. Enquanto Yurij guardava silêncio diante deste fenômeno desconhecido, Cheriot terminou de enfaixar limpamente. Ao se levantar para buscar umas tesouras, o olhar de Yurij o seguiu. Enquanto observava como se dirigia à cozinha, Yurij notou que um delicioso aroma impregnava toda a casa. Sem perceber, sua vista seguiu a origem do cheiro em direção ao balcão tipo ilha da cozinha.
Como se tivesse notado aquele olhar, Cheriot sorriu enquanto tirava umas tesouras da gaveta da cozinha.
— Aguente uns segundos e será hora de comer.
Sentindo como se tivesse revelado um ponto fraco, Yurij desviou a vista da mesa sem motivo. Cheriot, já de volta a seu estado habitual, se aproximou de seu lado, cortou o curativo, fixou com fita adesiva e depois fez uma pergunta irritante.
— Quer comer o sanduíche “de verdade” que fiz?
Cheriot observou Yurij com expressão impassível diante daquela pergunta que menosprezava sua receita de sanduíche. Embora o cheiro do sanduíche fosse bom, também não havia uma razão imperiosa para comê-lo.
— Não.
— Já vi que você estava olhando para ele antes.
— Sim. Parece bem feito.
Cheriot pôs uma expressão enigmática. Era como a resposta que desejava, mas também resultava desconcertante. Cruzou os braços e o olhou com arrogância.
— Mas não quer comê-lo?
— Tanto faz o que eu coma.
— Agora que vejo, você tem uma teimosia incompreensível.
Quando Cheriot disse algo que já tinha ouvido de Alexei, Yurij sentiu uma emoção estranha. Só tinham passado um dia juntos, como podia falar como se o conhecesse?
— Mas claro, os homens bonitos nunca se rendem facilmente.
Cheriot soltou diante de Yurij palavras que pareciam dirigidas a si mesmo e levou o sanduíche ao sofá com esmero. O sanduíche sobre a mesa em frente ao sofá tinha uma forma claramente distinta do que Yurij costumava preparar. Sob uma superfície tostada e crocante de cor marrom se empilhavam generosas camadas de alface fresca, queijo gouda e bacon, deixando ver um corte apetitoso. O bacon, provavelmente frito na frigideira, estava bem crocante, e o queijo, derretido pelo calor, aderia com cremosidade sobre ele.
No entanto, Yurij não estendeu a mão para o sanduíche com impaciência, mas esperou. Não queria mostrar que estava esperando, então permaneceu sentado e em silêncio. Então Cheriot se sentou no banquinho junto ao sofá e lhe aproximou o prato.
— Não vou zombar. Coma. Você está ferido, deve se alimentar bem.
Ao se inclinar seguindo o braço estendido, Cheriot baixou o corpo. Seus olhos verdes, que o olhavam de baixo, estavam cheios de preocupação. Aquela atitude madura, tão distinta de seu comportamento infantil até então, fez Yurij por um instante achá-lo estranho.
Quando Cheriot se chocava contra ele sem reservas, podia afastá-lo sem pensar muito. Mas agora, diante daquele comportamento cuidadoso, como se fosse um paciente de verdade, lhe resultava difícil devolver-lhe uma palavra dura. Incomodado por essa sensação que o imobilizava, Yurij desviou discretamente o olhar do prato. Se continuasse assim, sentia que a comida lhe cairia mal, então convidou o dono da comida a dar a primeira mordida.
— Você come primeiro.
— Teme que tenha colocado veneno?
Cheriot parecia perguntar a sério, mas ao ouvir Yurij se sentiu mais tranquilo.
— Essa parece uma pergunta que eu deveria fazer quando preparar algo mais tarde.
Ao ver a expressão enigmática de Cheriot, Yurij decidiu que não lhe restava outra senão comer primeiro. Tinha o pressentimento sinistro de que, se não o fizesse, Cheriot esperaria todo o tempo. Pegou o sanduíche, que já tinha esfriado um pouco, com uma mão.
O olhar de Cheriot o seguia, resultando opressivo. Sob aquela observação que escrutinava cada um de seus movimentos, Yurij afastou o rosto dele, olhou para a cozinha e deu uma mordida no sanduíche. Ao se espalhar em sua língua a sensação crocante e saborosa, seguida do sabor fresco da alface, Yurij acreditou entender por que Cheriot insistiu naquela alface. Era marcadamente diferente da que costumava comer.
Mesmo vendo que Yurij mastigava em silêncio, Cheriot não começou a comer. Quando Yurij virou a cabeça de repente, pensando se de verdade haveria veneno, Cheriot o olhava com olhos cheios de expectativa.
— Que tal? Está bom?
O ponto de sal estava correto e a mostarda com grãos untada no interior do pão combinava bem com os ingredientes. Incapaz de sustentar seu olhar direto, Yurij desviou desta vez a vista para a janela. Sobre o lago, onde o sol já começava a se pôr, o crepúsculo descia. A luz avermelhada que se expandia seguindo o brilho cintilante da água reluzia fresca como uma laranja madura.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna