Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.9
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 9)
Cheriot amava demais o hóquei para antecipar sua aposentadoria, e também não podia fazer isso, nem sequer por senso de responsabilidade. Ele tinha aceitado a transferência com a determinação de erguer a Copa Stanley com o Red Maple, então se aposentar antes de conseguir isso era impensável.
E mais que tudo, odiava que a existência de Yurij fosse definida como um «escândalo» por causa do fundo fiduciário. Cheriot não tinha como saber exatamente qual era o passado de Yurij, mas soube por ele que não era convencional. As histórias que saíam da boca de Yurij pertenciam a um mundo distante e irreal demais para Cheriot e, embora lhe parecessem muito alheias, isso não se tornou um obstáculo para seus sentimentos por ele.
«Será um pensamento ingênuo demais?»
Benji sempre o tinha advertido: se ele permanecesse ao lado de alguém que tinha estado envolvido em assuntos perigosos, ele também estaria em perigo. No entanto, o que aconteceu dessa vez na família Goodnight foi obra do filho mais novo criado com privilégios. Segundo a lógica de Benji, algo assim não deveria ter acontecido, mas Cheriot quase morreu nas mãos da própria família. Além disso, acabou sendo seu tio quem tinha vínculos com a organização criminosa.
Desde que um homem sem relação alguma com sua família matou seu pai um dia, Cheriot tinha pensado que todas as pessoas com as mãos manchadas de sangue eram iguais.
Mas depois de conhecer Yurij, seu pensamento começou a mudar. No mundo também há quem dispare uma arma para proteger alguém, e não só quem tem autorização estatal, como policiais ou soldados. Yurij era… mais que simplesmente um homem perigoso.
Durante todo o tempo em que estiveram juntos, ele não matou ninguém.
Em vez disso, ele é que se feriu.
Toda vez que descobria aquele homem arriscando a vida e se esforçando até o limite, Cheriot se angustiava se perguntando se podia chamar de «demônio» alguém assim. Mas não conseguia. Não pretendia dizer que tudo o que Yurij tinha feito, e que Cheriot ainda desconhecia, fosse correto, mas seu passado parecia não lhe ter dado opções desde o começo.
Definir uma vida inteira e desprezar a humanidade de alguém por escolhas feitas em circunstâncias inevitáveis é injusto demais. Seu tio e primo, que começaram a vida com mais oportunidades que os outros, tinham traído sua humanidade, enquanto Yurij não exalava o mesmo cheiro que eles.
Para além da verdade que o mundo visse, Cheriot tinha chegado a uma conclusão. Ele gostava de Yurij e era um homem desesperado para vê-lo sorrir mais uma vez. O que ele mais desejava era ser namorado de Yurij Kiselyov e, se possível, queria ficar ao seu lado por muito, muito tempo. Então decidiu afastar com sua própria força tudo o que se interpusesse nisso.
«Mas, se a gente casar, o que a gente faz com os sobrenomes?»
Ele gostaria que ele usasse seu sobrenome, mas o nome Kiselyov era tão bacana que lhe desagradava que desaparecesse. Além disso, o sobrenome de fachada de Yurij era Campbell, um nome horrivelmente sem graça, então «Yurij Goodnight» soava muito melhor.
«Então, se a gente puser o K de Kiselyov no meio…»
—Cheriot? O que você está fazendo aqui?
Alguém chamou Cheriot, que, mesmo antes de se declarar, já estava pensando em como lidar com os sobrenomes depois do casamento. Ao recobrar os sentidos e olhar para a frente, a porta do elevador estava aberta e, do outro lado, estava Benji. Justo a pessoa mais desconfortável de ver ultimamente. Cheriot esboçou um sorriso forçado.
—Benji, e você, o que faz aqui?
—Eu vim por causa da investigação. Os seus avós me pediram «especialmente» que eu reportasse os avanços diários pra eles.
—Quanto trabalho. E o meu tio e o Joseph?
—Continuam solicitando a fiança. Entram em contato todo dia com gente da sua família pra conseguir de qualquer jeito o melhor advogado, mesmo sem ter dinheiro.
Cheriot assentiu sem maior reação. Durante os dias em que Yurij esteve à beira da morte, ele esteve mergulhado numa ira tão intensa que queria ir atrás do primo e atirar nele. Desde o fato de que tentaram matá-lo, até como a própria família podia fazer isso com ele, como alguém podia cometer semelhante ato… ele não conseguia compreender e sentia que se consumia por dentro.
No entanto, Jackson e Joseph foram de todo modo capturados e, devido à situação de que seu colega Benji quase morreu, a polícia interna também estava conduzindo uma investigação com grande fervor. Embora fosse levar tempo rastrear todos os membros dos Guardiões do Inferno relacionados à encomenda, os principais responsáveis já estavam detidos, então já não era necessário destacar dezenas de seguranças como antes.
Quando a culpa de Jackson e Joseph ficou clara, a ira de Cheriot se acalmou um pouco. Na verdade, provavelmente foi porque Yurij acordou.
—Mas o Benji não foi excluído da equipe de investigação?
—Eu recebo atualizações sobre os avanços. Eu também sou uma das testemunhas, então tenho muitas coisas pra fazer…
—Entendi.
Depois de assentir brevemente, Cheriot saiu do elevador e segurou a porta. Como parecia que Benji ia descer, fez um sinal em silêncio. Ao notar sua atitude meio fria, Benji o observou e suspirou.
—Eu não pretendo falar mal no futuro da pessoa de quem você gosta, então por favor me perdoa agora.
Diante da declaração inacreditável, Cheriot ergueu uma sobrancelha. Desde que tiveram uma briga grande quando Yurij estava inconsciente, a relação deles vinha sendo desconfortável. Embora tivesse recebido desculpas, a desaprovação de Benji em relação a Yurij não tinha mudado e, depois de escutar que ele também tinha dito à sua mãe que seria melhor tirar Yurij logo, discutiram novamente por telefone.
Devido à grande diferença de idade e ao fato de Benji sempre tê-lo protegido, eles nunca tinham brigado assim, então era a primeira vez que passavam tanto tempo numa tensão desconfortável.
«Às vezes eu me sinto um pouco triste, como se tivesse perdido um irmão, mas eu não posso concordar com a opinião do Benji. Se a gente se distanciar, vai ser algo inevitável», ele pensava, mas…
—Por que de repente?
—Bom, é que…
Benji hesitou e depois tirou Cheriot da porta do elevador. Como parecia algo que valia a pena escutar, Cheriot o seguiu sem resistência. Benji se posicionou num canto do corredor. O céu que se via através da janela parecia especialmente fresco e claro hoje, e por um momento Cheriot pensou que gostaria de caminhar com Yurij.
—Logo vão entrar em contato com o Yurij por causa dos procedimentos. A gente adiou porque você fez tanto alvoroço, mas como testemunha-chave ele não pode ficar de fora da investigação.
Cheriot também sabia que Yurij era uma testemunha essencial, já que ele enfrentou diretamente quem tentou matá-lo e se deparou com Joseph. Mas, preocupado que depor pudesse lhe causar problemas, Cheriot vinha adiando o interrogatório policial com a desculpa de que Yurij nem sequer conseguia falar direito.
—Você me chamou pra me dizer isso?
A expressão de Cheriot esfriou. Benji o olhou com expressão magoada. Embora seu coração tenha se abrandado ao ver aquele rosto tão parecido com o de seu tio, Cheriot não tinha arrumado tempo para escutar esse tipo de conversa.
—Você vai me tratar com tanta frieza por causa de um completo estranho? Não é que a gente nunca mais vá se ver.
—O Benji não agiria igual se eu tratasse mal a sua esposa?
—Ei, eu sou casado e você…
Benji franziu o septo nasal.
—Deixa pra lá. Eu ainda não quero falar disso. Eu mal consegui aceitar que você é de um tipo livre e ainda não me recuperei. Um dia eu sonhava em brincar com um sobrinho lindo que herdasse os seus genes incríveis, mas…
«Hmm.»
Enquanto escutava as reclamações de Benji, Cheriot imaginou Yurij carregando seu filho ao ouvir a palavra «sobrinho». Como Yurij era um alfa excepcional, obviamente não podia engravidar, mas em sua imaginação Yurij carregava uma menina com cabelo preto e olhos azuis, idêntica a ele.
«Ah, primeiro eu tenho que me declarar. Como a Dolly disse, eu compro flores no caminho. Eu não sei de que flores ele vai gostar. E se eu comprar todas as que eu vir…?» —Você está me escutando?
—Pra falar a verdade, não muito.
—É melhor você escutar, porque eu vou falar do seu candidato a namorado. Finalmente, Benji chegou ao ponto. Cheriot cruzou os braços e olhou para ele, corrigindo-o.
—Eu sou o candidato a namorado do Yurij. A escolha está nas mãos do Yurij.
—…De todo jeito, é sobre essa pessoa. Durante a investigação, ao verificar a identidade dele, a gente descobriu que ele esteve envolvido com a DEA[1]. Por causa disso, eu acabei conversando com uma pessoa chamada Kalisi Winter, que era a encarregada.
Diante da menção do passado desconhecido de Yurij, Cheriot fechou a boca. Ele queria escutar o passado de Yurij diretamente dele, mas sentiu que talvez não pudesse escutá-lo tão cedo, então não deteve Benji.
—É verdade que ele esteve relacionado com a máfia russa… mas eu escutei que ele sofreu muitas coisas terríveis. Não é que ele não tenha se envolvido em atividades ilegais, mas ele também foi uma vítima, segundo explicou a agente. É claro, isso não significa que estivesse certo. Essa pessoa, a Kalisi, deixou claro: um criminoso é um criminoso.
Benji passou a mão pela testa várias vezes enquanto explicava algo que não coincidia exatamente com as crenças que ele tinha sustentado a vida inteira. Como era um primo que tinha vivido retamente, sem sequer jogar lixo na rua, era um conflito compreensível.
—Mas ele colaborou com a DEA e, graças a isso, conseguiram desmantelar uma grande organização de tráfico de drogas, por isso as acusações foram apagadas. Legalmente ele não tem antecedentes criminais, então eu não acho que os jornalistas que investigarem possam te causar problemas. Eu vou garantir que isso não vaze.
Benji terminou sua explicação com um suspiro carregado. Embora Cheriot tivesse decidido havia tempo que, mesmo que Yurij tivesse antecedentes, ele não se importaria, ao pensar que não haveria problemas, sentiu um grande alívio.
Cheriot queria namorar Yurij abertamente. Queria segurar sua mão, sair em encontros e poder dizer que namorava com ele quando as pessoas perguntassem. Se nem os paparazzi nem os jornalistas seriam um problema, assim que tivesse a permissão de Yurij, ele queria mostrá-lo descaradamente.
«…Mas primeiro eu tenho que me declarar.»
«Hoje, sem falta. Mesmo que eu tenha que sentar o Yurij e gaguejar por uma hora, eu vou dizer.»
Cheriot soltou os braços que tinha cruzados com atitude defensiva e sua expressão relaxou lentamente. Numa situação em que tinha perdido um familiar por causa do que houve com Joseph, ele também não queria perder um irmão tão valioso quanto Benji. Não podia continuar ignorando Benji, que estendia a mão primeiro para se reconciliar.
—Você vai pedir desculpa pro Yurij?
—…Não é que eu tenha feito algo de mal especificamente pra ele.
—Mas você deixou muito clara a sua antipatia.
—Francamente, é verdade que essa pessoa é perigo…
Ao ver que a expressão de Cheriot piorava gradualmente, Benji propôs um meio-termo.
—…Em vez disso, eu vou agradecer a ele. Ele salvou a sua vida. Se não fosse por ele, você teria morrido dentro daquela casa de campo. Eu também sei disso.
—Quando você pretende fazer isso?
—Depois que você for namorado dele?
Era uma bajulação óbvia e transparente, mas ao escutar a palavra «namorado», o ânimo de Cheriot melhorou imediatamente.
—Benji, como você pediu a sua esposa em namoro?
—Eu ainda não estou pronto pra ter esse tipo de conversa com você. O que é que eu vou saber sobre como dois homens namoram, sendo alfas e tudo?
—Bom, tudo bem. De todo jeito, eu aceito o seu sincero pedido de reconciliação.
—Quando foi que eu disse que era sincero?
Benji resmungou, mas assim que a atmosfera desconfortável se dissipou, começou a sorrir satisfeito. Tendo perdido tempo inesperadamente conversando com Benji, Cheriot decidiu se despedir dele.
—É melhor eu ir agora. A minha avó me chamou e eu já cheguei muito depois da hora combinada.
—Ah, então foi por isso que você veio.
Seu tom sugeria que ele sabia de algo, e Cheriot o interrogou.
—O que houve?
—Você vai saber quando entrar. Hoje a família foi convocada por turnos pra modificar o fundo fiduciário. O testamento também mudou drasticamente.
Benji empurrou as costas de Cheriot como que o instigando a ir. Ao chegar ao elevador no fim do corredor, apertou o botão para descer e depois, vendo a expressão ainda perplexa de Cheriot, fez um sinal com a mão.
—Enfim, não é uma coisa que você vá odiar, então fica tranquilo.
—Se você vai insinuar assim, é melhor me contar de uma vez.
—Tem um mérito em escutar diretamente.
Cheriot observou com um sorriso Benji, que subiu no elevador depois de deixá-lo com a curiosidade. Para resolver logo seu compromisso já atrasado, abriu a porta firme e fechada do escritório e entrou.
Não importava que conversa acontecesse lá dentro, o que Cheriot desejava não mudaria.
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Notas
[1] Agência Antidrogas.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna