Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.8
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 8)
O cheiro de sangue era intenso demais. O fedor metálico lhe espetava o nariz, como se ele fosse vomitar a qualquer momento. Suas mãos tremiam feito loucas, seus braços doíam como se fossem se desprender e seus globos oculares ardiam como se fervessem. Derramando ele não sabia se lágrimas ou suor, Cheriot chamou seu nome dezenas de vezes seguidas.
Outra pessoa se aproximou para tirar Cheriot dali, mas ele não se moveu. Cobriu Yurij com seu corpo grande para que ninguém mais pudesse machucá-lo, e o abraçou para que o calor não escapasse. Mesmo depois que chegou a equipe de resgate de prontidão, levou tempo para tirar Cheriot dali.
Ainda agora, ao lembrar, um suor frio lhe corre. Embora já tenha passado e Yurij agora esteja bem, o tempo em que ele sentiu um medo mortal ao ver o rosto pálido de Yurij se esvaindo não desaparecia. O homem confiável que sempre o tinha protegido em silêncio, naquele dia pela primeira vez pareceu infinitamente frágil. Ele sentia tanta pena que achou que enlouqueceria.
Mas aquele homem que lhe dá pena, depois de acordar com tanto esforço, estava preocupado com Cheriot.
Quem sofreu foi ele. Embora tenha sido ele quem se feriu, quem quase morreu, quem perdeu tanto sangue que quase entrou em choque, foi a Cheriot que ele pediu desculpas. Cheriot, que tinha perdido a fala e parecia ter tido a alma arrancada, desabou depois de perceber que quem tinha voltado da morte era quem pedia desculpas.
Quando as lágrimas começaram a fluir sem que ele conseguisse se conter, sentiu que o coração se retorcia como daquela vez. Tentou resistir apertando as mãos, mas não havia como escapar da angústia. Finalmente, Cheriot envolveu Yurij em seus braços e esfregou a bochecha contra a dele, tentando sentir de alguma forma que ele estava vivo. A temperatura corporal de Yurij estava fresca, mas era muito mais quente do que quando ele jazia sobre a grama.
Suplicando e implorando que por favor ele não dissesse que sentia muito, Cheriot chorou sem parar durante dezenas de minutos. Se Dolly não tivesse aberto a porta do quarto ao ouvir seus soluços e o tivesse tirado dali, talvez ele tivesse abraçado Yurij por horas.
«Agora, ao pensar nisso, eu quero me estrangular por forçar uma pessoa ferida, mas naquele momento o pânico me invadiu e eu não conseguia julgar com racionalidade.» A única coisa importante era confirmar que Yurij estava vivo e entre seus braços.
—Então já está tudo resolvido. A primeira coisa que ele disse ao acordar foi conferir se você estava bem, não ele mesmo.
Dolly falou como se não entendesse o que era tão difícil.
—Onde existe uma prova mais clara que essa?
A ansiedade que tinha se aninhado num canto de seu coração mesmo depois de ele decidir se declarar se aliviou um pouco. Embora não pudesse ter certeza dos sentimentos de Yurij sem escutá-los diretamente, ao refletir mais uma vez sobre o que Dolly tinha apontado, recuperou um pouco a confiança de que ele devia significar algo importante para Yurij.
«É a primeira vez que eu tenho medo de ser rejeitado. É natural, já que eu nunca antes tinha decidido me declarar, mas eu não sabia que dizer “eu quero namorar com você porque eu gosto de você” fosse tão difícil.»
Ele não sabia que gostar sinceramente de alguém e decidir ter uma relação profunda fosse algo tão difícil. O homem, que tinha estado tão ocupado honrando o pai falecido que nunca tinha sido honesto com as próprias emoções, aos vinte e oito anos se comportava como um novato diante de seu primeiro amor.
Embora tivesse lidado com muitas pessoas, nunca antes tinha entregado seu coração, então Cheriot como namorado provavelmente não seria muito diferente de um menino de treze anos.
Mas embora se sentisse um pouco patético por isso, não lhe desagradava. Porque a pessoa que o tinha deixado assim era aquele homem, Yurij Kiselyov.
—Em vez de reclamar assim do meu lado, é melhor você voltar e falar com sinceridade. Você nunca vai saber o que a outra pessoa pensa se não perguntar. Se você não encarar isso, nada vai se resolver, Cherry. Com uma vida inteira jogando hóquei, como é que você não sabe uma coisa dessas?
—…Eu já pensava em me declarar assim que voltasse.
Desde o momento em que Yurij disse que não era necessário elogiá-lo por culpa, Cheriot ficou impaciente. Já não era hora de procurar com calma o momento perfeito e preparar uma declaração digna de um filme. O urgente era esclarecer primeiro seus próprios sentimentos para dissipar qualquer mal-entendido que Yurij tivesse.
Ao pensar nisso, desde que rejeitou Yurij, ele não tinha lhe dito propriamente que gostava dele. A desculpa de que estava ocupado cuidando dele vinha de sua culpa. Mesmo que Yurij já não gostasse dele, ele deveria ter lhe dito que gostava depois que ele acordasse.
—Assim é que tem que ser. As pessoas têm que ter a coragem de encarar o difícil. Sobretudo os homens.
Enquanto, inesperadamente, compartilhava suas preocupações com Dolly, chegaram ao destino. Cheriot estacionou o carro diante do prédio de seus avós, localizado na zona mais exclusiva de Boston, e deu uma olhada no arranha-céu que se erguia em direção às nuvens. Seus avós deviam estar esperando por ele lá.
Cheriot desligou o motor e respirou fundo um momento. Embora tivesse decidido desde que Yurij desabou, era inevitável ficar nervoso ao se deparar com os avós para falar do assunto. Depois da morte do pai, eles quase não tinham tido contato e, desde que Cheriot declarou que seria jogador de hóquei, a relação deles se deteriorou tanto que antes desse incidente ele nem sequer considerava vê-los.
Seus avós também tinham estado na festa naquele dia. Ao saber que seu próprio filho mais novo, nada menos, tinha feito aquela loucura por dinheiro, seu avô desmaiou. Felizmente, como ele não tinha problemas de saúde prévios, não passou a maiores, mas desde então o clima familiar tinha ficado mais pesado que num velório.
E justo nesse momento, Cheriot vinha ver os avós para lhes dizer que renunciaria ao fundo fiduciário.
Fazia dois meses que ele pensava nisso. Primeiro consultou Dolly e ontem contou à mãe. Dolly, sem se opor, disse que seria melhor que ele continuasse como atleta pelo menos mais dez anos antes de se aposentar, e sua mãe só disse —entendi—, então ele não fazia ideia do que ela estaria pensando.
—Já volto.
—Claro.
Dolly, como se fosse esperar, ficou no carro e assentiu com a cabeça. Antes de fechar a porta, Cheriot umedeceu os lábios secos e perguntou a Dolly. Mais que uma pergunta, era quase um monólogo.
—Você acha que a minha mãe vai ficar decepcionada?
Dolly, que tinha tirado o telefone e olhava a tela, ergueu a vista um momento para vê-lo. Ao observar os olhos tensos de Cheriot, Dolly esboçou um sorriso debochado.
—A Madison só teve uma razão pra entrar na temível família Goodnight. A única coisa que ela queria era Chelsea Goodnight.
Com as palavras de Dolly, o rosto de Cheriot se iluminou gradualmente.
—A Madison também não iria querer dinheiro que precisasse ser protegido à custa de vidas humanas. Se a gente soubesse que você se esforçava tanto pra manter o fundo fiduciário, a gente devia ter te dito faz tempo.
Ela suspirou e bateu na tela do telefone.
—Eu tenho que ligar pra Maddie e admitir que, em muitos sentidos, a gente criou você mal. Agora vai. E não pensa em interromper o tempo das mulheres.
Ao escutar a reclamação em tom de brincadeira, Cheriot sorriu. No rosto do homem que tinha se libertado de um fardo que se sentia obrigado a carregar, não havia rastro de preocupação, só um sorriso que antecipava o primeiro dia de verdadeira liberdade. Sorrindo com alegria, se formou uma covinha numa bochecha.
—Um verdadeiro cavalheiro sabe respeitar o tempo das mulheres. Eu devo dar espaço pra Dolly.
—Claro. E não esquece que um cavalheiro também deve ter a cortesia de levar pelo menos um buquê de flores pro lugar da declaração.
—Eu vou lembrar sem falta!
Depois de responder com voz animada, Cheriot fechou a porta e desapareceu. Dolly observou suas costas se afastarem por um bom tempo. Lembrando várias vezes de seu rosto radiante com a covinha numa bochecha, ela lembrou do que um homem lhe tinha dito havia dois meses.
[—Mas mesmo assim eu quero vê-lo sorrir.]
Bah. Dolly estalou a língua e ligou para Madison. O homem que tinha prometido proteger Cheriot a todo custo não só cumpriu sua promessa, como conseguiu fazer o que parecia impossível para qualquer um.
—Ele realmente o fez sorrir.
Dolly murmurou em voz baixa para si e depois, enfim, soltou uma risada. Bem então, Madison atendeu o telefone.
[—Dolly, você levou o Cheriot direitinho?]
—Sim. Ele estava preocupado se você ficaria bem, mas caminhou com determinação.
[—Obrigada.]
A mulher, que tinha ficado mais calada depois de perder cruelmente o homem que amava, ficou em silêncio como de costume e depois, com uma voz mais alegre que o habitual, continuou.
[—Da próxima vez que eu ver o Cheriot, eu tenho que dizer que ele fez bem.]
—É uma ideia excelente, Maddie.
[—…Sim.]
A mulher, que respondeu brevemente, hesitou um momento e depois perguntou.
[—O Yurij, aquele rapaz está bem? O Cheriot não me conta muito, então eu não sei como ele está.]
Dolly sorriu amplamente sem dizer nada. Pensando que a maneira de esconder desajeitadamente o que ela realmente queria perguntar era algo que Cheriot herdou da mãe, não do pai, assentiu com a cabeça.
—Eu também não o vi direito porque ele guarda tudo pra si, mas ele parece estar bem.
[—Que bom.]
A mulher, que soltou um suspiro de alívio, começou a contar à velha amiga, com uma voz mais clara e brilhante que antes, algo que fazia muito tempo que ela não compartilhava.
[—Eu gostaria que aquele rapaz ficasse muito tempo ao lado do Cheriot. O Benjamin parece achar que ele ainda é perigoso, mas a mim ele me deu a mesma sensação de quando eu te vi pela primeira vez, Dolly.]
—Ah, é? Que sensação você teve quando me viu pela primeira vez?
[—Hmm.]
A mulher, mergulhada em seus pensamentos, riu baixinho. —Hihi —a risada que fluía através do fone soava vagamente parecida com a de Cheriot.
[—Isso eu te conto depois.]
—Depois quando?
[—Depois que você levar o Cheriot de volta? Faz tempo que eu quero comer alguma coisa cozinhada por você.]
—Nossa. Não tem jeito. Eu faço porque é você, Maddie. Mas não vai ser de graça. Eu te espero com uma garrafa de vinho branco gelado.
[—Sim, claro.]
As risadas das duas mulheres, que durante muitos anos tinham se apoiado mutuamente e superado as perdas, encheram o carro.
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O lugar onde seus avós tinham marcado com Cheriot era um prédio localizado numa zona de Boston famosa por concentrar instituições financeiras. No andar mais alto eles tinham um escritório para se reunir com pessoas, e os advogados encarregados dos assuntos da família Goodnight vinham visitando-o com frequência ultimamente.
Havia muitos assuntos de grande escala que exigiam dias de discussão: desde modificar o testamento até cancelar seguros de vida que seu tio tinha contratado arbitrariamente, ou mudanças no fundo fiduciário. Além disso, a polícia comparecia periodicamente para compartilhar avanços, e a nova equipe de advogados contratada para a preparação do julgamento criminal estava sempre presente.
O segurança do prédio, que reconheceu Cheriot, o acompanhou até o elevador. Logo depois do incidente, toda vez que o via lhe transmitia consolos incessantes, mas com o passar do tempo, como se seu interesse tivesse diminuído, começou a lhe perguntar quando ele voltaria à liga. Depois de tratar cortesmente o segurança, que dizia ter começado a ver a NHL por causa de Cheriot, este subiu no elevador.
Antes de entrar no prédio, ele tinha se preocupado que sua mãe sentisse pena por ele renunciar ao fundo fiduciário, mas ao se livrar daquele fardo, seu coração se sentiu aliviado. Embora fosse uma fortuna que até Cheriot, que tinha acumulado uma quantia considerável com receitas de publicidade como modelo e seu salário como atleta, considerava avassaladora, ele nunca tinha sido feliz na vida por causa daquela herança.
Para começar, não podia se alegrar por dinheiro que chegava às suas mãos devido à morte do pai e, além disso, como mudaram as condições dizendo que ele não poderia recebê-lo até se aposentar por ser jogador de hóquei, sempre tinha sentido aquilo como um fardo. Ainda assim, viveu acreditando que devia protegê-lo pela mãe e pelo pai, mas era óbvio que seria infeliz se vivesse se ajustando para herdá-lo.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna