Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.10
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 10)
Tal como Cheriot tinha dito, bem ao meio-dia se escutaram batidas na porta. Em vez de se dirigir diretamente à entrada, Yurij se aproximou por costume da janela da sala. Depois se aproximou da borda da janela, ergueu um pouco a cortina e espiou a entrada pela fresta.
Observando em silêncio um homem vestido com um terno preto que deixava uma sacola de papel, Yurij conferiu até o rosto do homem que se virava para ir embora e depois relaxou a tensão. Era um rosto que ele tinha visto antes. Sim, era um dos seguranças de Cheriot.
Embora não pudesse baixar a guarda porque o pessoal interno podia virar traidor a qualquer momento, se eles só tinham trazido comida para ele, parecia seguro. Mesmo que a comida estivesse envenenada, só Yurij morreria.
Jackson e Joseph, que tinham encomendado o assassinato de Cheriot, estavam atualmente presos e, embora as fontes de financiamento que moviam os Guardiões do Inferno estivessem bloqueadas, sem condições para continuar com a encomenda, ainda era cedo para relaxar. Os grupos criminosos eram formados por indivíduos que se uniam para obter benefícios, mesmo cometendo crimes, então não se sabia o que eles poderiam fazer.
Da perspectiva dos Guardiões do Inferno, que nesse incidente sofreram perdas muito maiores que ganhos, eles poderiam tentar matar a família Goodnight, incluindo Cheriot, conforme o acordo original, mesmo assumindo um pouco mais de perdas. Nesse caso, os herdeiros restantes dos bens seriam Jackson ou Joseph, e haveria bastantes ativos, além do seguro de vida, que poderiam ser herdados independentemente de eles estarem presos ou não.
Não existe algo como um final limpo neste mundo. As ações de alguém criam consequências em cadeia e, embora não sejam percebidas de imediato, mais cedo ou mais tarde aparecem diante dos seus olhos. Assim como Igor Volkov, que agiu como se fosse viver eternamente depois de matar quem considerava traidores, incluindo a mãe de Yurij, terminou a vida de maneira lamentável, muitas vezes o que você achava terminado na verdade seguia seu curso.
Então, mesmo que Jackson e Joseph fossem condenados à pena de morte ou à prisão perpétua, não dava para ficar tranquilo. Enquanto não se erradicasse por completo a organização chamada Guardiões do Inferno, o perigo sempre existiria.
Se os adultos da família não fossem uns bobos, deveriam modificar o testamento e o fundo fiduciário para se preparar diante de tal situação.
Ao menos, fizeram bem em destacar seguranças em nível familiar em vários pontos. Também se viam vários seguranças postados perto da casa da mãe de Cheriot, onde Cheriot morava, e quando Cheriot se deslocava, Dolly sempre o acompanhava enquanto outros seguranças os seguiam de carro. A polícia também oferecia apoio com patrulhas duas vezes por dia, então não era uma situação indefesa.
Yurij calculou mentalmente onde estaria postado novamente o segurança que tinha desaparecido atrás da cerca da casa e se dirigiu lentamente à entrada. Segundo o que observou da última vez que voltou, parecia haver duas pessoas na rua em frente à casa e duas na entrada do caminho da mata que levava à costa. Como eles não permaneciam no mesmo lugar, mas mudavam de posição adequadamente, não eram bobos que só desperdiçavam dinheiro e matavam tempo.
Depois de sair e pegar a sacola de papel, Yurij caminhou um momento pelo quintal dos fundos onde tinha visto o cachorro de manhã, por precaução. Enquanto caminhava pelo jardim que rodeava a casa, também para dar um passeio, soprou uma brisa fresca e agradável. Era um clima perfeito para caminhar pela costa com Cheriot. Para Yurij, que nunca tinha sentido vontade de fazer nada nem bom ânimo independentemente do clima, aquilo era algo novo.
«Eu sinto falta dele.»
Abraçando o calor reconfortante da comida que se sentia através da sacola de papel, Yurij lembrou do jovem alfa que ele estimava mais que qualquer um. Estava curioso e também nervoso para saber o que ele queria dizer para ter vacilado e hesitado tanto. Esforçando-se para apagar seus pensamentos para não esperar nada, examinou os arbustos do quintal dos fundos. O cachorro de rua não aparecia.
«Tomara que ele volte a aparecer.»
Se não tratasse o ferimento a tempo, ele poderia ficar com uma deficiência permanente e, se o atacassem, não conseguiria fugir, então ele desejava que ele se deixasse ajudar.
Com um olhar de pesar, Yurij examinou os arbustos e depois entrou em casa antes que a comida esfriasse. Ao colocar a sacola sobre a mesa e abri-la, tirou uma caixa de papel bastante pesada. Ao abri-la lentamente, viu uma comida desconhecida. Era um prato que ele só tinha visto, mas nunca tinha provado.
Kulebiaka.
Embora seja um prato tradicional russo, seu preparo é extremamente complexo e leva muito tempo, então nem Alexei nem ele o tinham provado. A família Volkov ocasionalmente mandava um cozinheiro prepará-lo para seus aniversários, então Yurij só o tinha visto, mas não era uma comida que alguém comum como ele pudesse fazer. Mesmo em restaurantes russos, era difícil encontrar um lugar que preparasse kulebiaka. Observando com curiosidade a superfície dourada e assada de uma agradável cor marrom, Yurij examinou o corte transversal. A grande torta, recheada até o topo com arroz, salmão, repolho, cogumelos e várias ervas, exalava um aroma intenso e apetitoso. Além disso, havia sopa rassolnik num recipiente de sopa embalada e salada Olivier, que Yurij também sabia preparar, como acompanhamentos.
Era uma quantidade excessiva para comer sozinho, mas ele não se sentiu sobrecarregado. Pelo contrário, ao pensar em Cheriot, que provavelmente pesquisou aquilo e pediu que preparassem num restaurante conhecido, sentiu uma cócega no peito. Como lhe dava pena simplesmente comer, pela primeira vez quis tirar uma foto da comida. De alguma forma, achava entender o sentimento que Alexei tinha quando muitas vezes enviava fotos da comida preparada por Valery.
Enquanto voltava com o telefone que tinha deixado na mesa da sala para tirar uma foto, recebeu uma ligação inesperada. Era Aliocha. Embora tivesse esperado que fosse Cheriot, Yurij se sentiu um pouco bobo por esse pensamento e sorriu de leve. Ao apertar o botão para aceitar, a tela mudou repentinamente para vídeo.
«Videochamada?»
A surpreendente videochamada fez Yurij franzir ligeiramente o cenho. Como nunca tinha feito uma coisa dessas, ia desligar e fazer uma ligação normal, mas na tela apareceu uma pessoa inesperada. Um cabelo louro-claro como trigo maduro passou por um momento e depois uns olhos verdes semitransparentes observaram fixamente Yurij. Era Valery, o namorado de Alexei, com um rosto delicado e elegante.
Por que Valery, com quem ele só se via em reuniões em grupo, faria uma videochamada? Yurij não conseguiu esconder sua perplexidade.
—Valery? O que houve?
[—Oi, Yurij. Eu soube que você saiu do hospital sem problemas.]
Valery lhe perguntou pelo seu bem-estar com bastante cortesia e seriedade. Embora sempre tivesse sido educado, Valery tendia a evitar um pouco Yurij, então aquela conversa era desconfortável.
[—Fico feliz que você tenha se recuperado. Por favor, não se machuque de novo.]
Depois de dizer isso, Valery passou o telefone a Alexei sem esperar a resposta de Yurij. A tela apontou para o teto por um momento e depois apareceu o rosto de Alexei.
—Aliocha, o que foi aquilo?
Ao ver a pergunta confusa de Yurij, a risada de Alexei ressoou.
[—Ah, eu pedi que ele me ensinasse a fazer uma videochamada e ele mesmo conectou. Que fofo, ele fez aquele cumprimento e foi embora.]
A tela de Alexei continuava tremendo. Parecia que ele estava levando o telefone para algum lugar.
—Que vento te deu vontade de fazer uma videochamada?
[—O Vacha quer ver a sua cara. Eu também queria conferir em que estado você estava, e o Timac está impaciente pra te ver vivo pessoalmente.]
Depois, do outro lado da tela se escutou um cumprimento em russo. Como Alexei baixou o telefone um momento, Yurij pôde ver o ambiente; ao reconhecer o familiar teto e o papel de parede, soube que era a casa de seu pai. Escutando em silêncio as vozes dos homens que falavam animadamente, Yurij também se sentou à mesa.
«Eles se reuniram todos na casa do meu pai?»
Quando Yurij estava em coma, ele soube que Timac e seu pai tinham atravessado para os Estados Unidos uma vez para vê-lo.
Como seu estado não permitia levá-lo a Vancouver, combinaram deixar seu tratamento a cargo de Cheriot, mas ele soube pelo próprio Alexei que seu pai, Vasili, incomumente, tinha ficado bravo com ele. Alexei, fora de si desde que Yurij levou o tiro, confessou como uma declaração ao vê-lo recém-acordado que, de fato, era culpa dele que Yurij tivesse se ferido.
No fim, pelas escolhas de cada um, chegaram a essa situação: Cheriot se culpava e Alexei se recriminava por ter aceitado a encomenda.
Mas foi o próprio Yurij quem recusou a oportunidade de recuar e insistiu em se envolver. Yurij nunca se arrependeu de sua escolha e, mesmo que o tempo voltasse, teria tomado a mesma decisão de então. Se ele não estivesse lá naquele dia, Cheriot definitivamente teria morrido.
Devido a esse sentimento de culpa, Alexei decidiu esperar que Yurij acordasse e se instalou em Boston, por isso Valery também viajou aos Estados Unidos várias vezes.
Alexei, que colaborou ativamente com a investigação ajudando a perseguir os Guardiões do Inferno, voltou ao Canadá havia umas três semanas. Como se enfim se sentisse aliviado ao ver Yurij acordar e até sair do hospital, foi embora abruptamente sem maior despedida, só com uma mensagem dizendo que Valery o esperava.
Devido ao estado incerto de Yurij, seu pai e Timac cuidaram dele enquanto esteve no hospital e depois voltaram por ora. Seu pai chegou a se preparar para liquidar a casa e o negócio caso Yurij não acordasse, mas foi então que Yurij recuperou a consciência.
«Quando eu falei por telefone depois de acordar, ele parecia estar bem… mas ao que parece ele se assustou mais do que eu pensava.»
Enquanto lembrava do passado e esperava, finalmente a tela voltou ao normal. Timac e seu pai estavam de cada lado de Alexei, que tinha apoiado o telefone sobre a mesa. Ver seus rostos através da videochamada lhe pareceu estranho, mas também alegre, e Yurij sorriu de leve e os cumprimentou.
—Vocês estão todos bem?
Fazia muito tempo que ele não os cumprimentava vendo seus rostos. Ao se deparar com velhos amigos e familiares, a nostalgia o invadiu e ele se sentiu um pouco comovido.
[—Sim, claro. Muito bem.]
Timac respondeu no lugar de seu pai, que permanecia calado, e depois de repente ergueu a voz e aproximou o rosto de maneira avassaladora da tela.
[—Você chama isso de pergunta? Se você, estando em terra estrangeira, de repente levou um tiro e esteve a ponto de morrer, como é que a gente ia estar bem?]
[—Timac, você não poderia baixar um pouco a voz?]
Seu pai, Vasili, falou com educação a Timac. Timac, que o olhava bufando, escutou suas palavras e voltou a se sentar na cadeira. Seus olhos estavam avermelhados enquanto ele mexia o nariz e apertava os lábios. Ele parecia a ponto de chorar.
Timac sempre tinha sido mais sensível e simples que Alexei ou ele mesmo. Embora fosse de língua afiada, sempre cumpria os pedidos e, embora fosse grande, odiava brigar.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna