Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.7
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 7)
Ele também gostava dos sorrisos ao acordar de manhã. Se adormecesse de bruços na cama enquanto vigiava Yurij dormindo, este o acordava acariciando suavemente suas costas. Como gostava de acordar assim, Cheriot suportava o desconforto e passava todas as noites ao lado de Yurij. Embora seu corpo se ressentisse, a recompensa era certa. O momento de ver o rosto de Yurij olhando para ele de cima com aqueles olhos azul-escuros mal acordados era tão incrível que lhe cortava a respiração.
E quando Cheriot ficava de bruços, contemplando sem parar aqueles olhos azuis que ele tanto ansiava ver, Yurij às vezes erguia levemente os cantos da boca e o olhava como se o achasse adorável. Ultimamente, não era exagero dizer que Cheriot vivia justamente por esses momentos.
Mas só até aí. Ao sair do quarto e começar a rotina diária, Yurij raramente sorria. Ele sabia que não era uma situação propícia para sorrir, já que ele continuava com a árdua terapia de reabilitação, mas antes Yurij sempre tinha sorrido para ele só de olhá-lo.
Um sorriso como um paraíso oculto, inesperado naquele rosto frio e indiferente.
Desde que acordou, ele não tinha voltado a ver aquele sorriso que fez Cheriot se apaixonar imediatamente. Pensou que talvez Yurij já não sorrisse assim porque talvez já não gostasse dele. Não era que ele julgasse com facilidade os sentimentos de Yurij, mas depois de passar por algo tão grave quanto levar um tiro, as pessoas podem mudar.
Se Cheriot Goodnight não tivesse feito aquela encomenda, Yurij nunca teria levado um tiro. Benjamin tinha soltado que Yurij pertencia a um mundo perigoso, mas foi Cheriot quem o arrastou para essa loucura quando ele estava tranquilo.
«Quem dera a gente tivesse se conhecido em outras circunstâncias.»
Enquanto seguia com esse arrependimento inútil, percebeu que, se não fosse pela encomenda, ele também não teria conhecido Yurij, e suspirou. Se não tivesse vivido isso, provavelmente teria deixado Yurij ir feito um bobo, pensando que devia proteger o fundo fiduciário.
Às vezes, certos acontecimentos deixam cicatrizes tão terríveis que você não quer voltar a experimentá-los, mas com o tempo você percebe que eles não deixam só cicatrizes. Por causa da divisão causada pela herança recente, Cheriot refletiu muito.
Que nem mesmo receber o fundo fiduciário protegendo a herança do pai poderia igualar a felicidade que ele obteve de Yurij.
E que, se uma herança exigia pagar um preço tão alto para ser mantida, então não valia a pena.
Cheriot não podia saber o que seu pai falecido teria pensado, mas por alguma razão sentia que o pai que ele conhecia lhe teria dito para abrir mão da fortuna, por maior que fosse, pelo bem da família. Claro, depois de evitar que ela caísse nas mãos de alguém como Jackson Goodnight, que enlouqueceu pelo dinheiro e tentou matar os familiares. —Até hoje, o clima não era nada propício.
Cheriot, que estivera mergulhado em seus pensamentos depois do comentário doloroso de Dolly, respondeu com voz apagada. Dolly, que o tinha acompanhado em silêncio, desviou o olhar para o banco do motorista. Observando o perfil abatido de Cheriot, empurrou os óculos escuros com o indicador para cima e falou.
—Vamos ver então que diabos é esse tal de «clima».
—Eu não quero te explicar os aspectos privados do Wolfie…
Se descrevesse como tinha sido o clima hoje, teria que contar como Yurij tinha sorrido para ele depois de ver o cachorro de manhã, e depois inevitavelmente explicar o quanto aquele sorriso era lindo. Gostasse Dolly ou não, Cheriot não queria revelar a ninguém os aspectos ocultos de Yurij.
«Quem dera eu fosse o único a conhecer esse sorriso.»
«…Embora exista o Alexei, mas isso não tem jeito. Ele conheceu o Yurij antes de mim. E além disso me fez um grande favor dessa vez.»
«Enfim.»
Hoje parecia que algo ia acontecer. Desde que Yurij, que nunca sorria, sorriu para ele depois de ver o cachorro, o clima tinha melhorado e, de manhã, embora eles tenham estado a ponto de se beijar, Yurij não se afastou nem ficou constrangido. E como se isso não bastasse, depois de se arrumar, ele até recebeu o elogio de que estava bonito.
Depois de escutar aquilo, seu ânimo continuou tão elevado que ele acabou lhe dizendo que ele era adorável. Desde que rejeitou a proposta de Yurij de namorar, na superfície eles eram amigos, então ele nem sequer tinha pensado em lançar uma insinuação assim.
«Mas ele é realmente adorável. Se envergonhar por ter letra ruim é como pedir que digam que ele é adorável.»
Enquanto lembrava de Yurij segurando seu braço para evitar que ele pegasse o caderno, Cheriot chegou ao momento em que a atmosfera, que estava muito boa, tinha ficado estranha. Yurij parecia confuso.
—Que baita desastre, Cherry.
Saiu um palavrão mordaz. Cheriot deu de ombros.
—É que… eu precisava ter certeza de que o Yurij não guardava rancor de mim. Toda vez que ele me vê, poderia lembrar do dia em que levou o tiro. O que eu faria se confessasse os meus sentimentos e causasse estresse desnecessário a ele por estar ferido?
Dolly estalou a língua.
—Que imaturo, que imaturo.
—No ano que vem eu faço trinta, Dolly. Eu já sou bem adulto.
—Aos meus olhos de velha, você parece não só imaturo, mas lamentável.
Depois de repreendê-lo, Dolly cruzou os braços. Mergulhada em seus pensamentos, abriu a boca lentamente quando o carro chegava ao centro de Boston.
—Aquele rapaz… dá a impressão de que, contanto que você esteja vivo, está tudo bem.
Ela tinha ficado em silêncio tanto tempo que Cheriot achou que ela tivesse perdido o interesse, mas diante de suas palavras repentinas, olhou para o banco do passageiro. Dolly estava olhando para ele. Seus olhos azuis semitransparentes, de uma cor marcadamente diferente da dos de Yurij, observavam Cheriot com seriedade.
—Existem esse tipo de pessoas. Obstinadas e teimosas, que nem sequer se preocupam com a própria vida. Eu vi muitas no exército. Agem antes de pensar e depois desaparecem de repente, deixando os sobreviventes se perguntando o que fazer. São uns sem-vergonha.
O olhar de Dolly estava fixo em Cheriot, mas sua alma parecia vagar por algum lugar do passado. Cheriot tinha escutado do pai que Dolly tinha sido militar na juventude, mas nunca a tinha ouvido falar daquela época. Permaneceu em silêncio, escutando seu relato.
—Provavelmente ele não fez isso esperando algo grandioso. Ele queria que você estivesse vivo, e por esse único pensamento levou um tiro, então o fato de você estar são e salvo é a recompensa dele. Claro, às vezes o momento do tiro pode vir de repente à cabeça dele, e pode haver dias em que a área cicatrizada doa ou lateje. Isso simplesmente tem que deixar passar.
Ele não tinha considerado assim. Quem dera Dolly tivesse razão.
—…Você acha que o Yurij me aceitaria?
—Cheriot.
Dolly emitiu uma voz severa. Era um tom de repreensão que ele não escutava havia muito tempo. Dolly tinha usado um tom assim quando sua mãe, que tinha tentado tomar uma decisão ruim, acordou no hospital. Depois disso, ele não soube que conversa ela teve com sua mãe ao levá-la para fora, mas desde aquele dia sua mãe nunca mais voltou a demonstrar tristeza diante de Cheriot. E não parecia ser uma contenção forçada.
—Se ele estivesse de saco cheio de você, teria ido embora assim que saísse do hospital. Esse tipo de pessoa não age por interesse. Só age conforme a própria vontade.
Isso Cheriot também sabia. Yurij nem sequer tinha aceitado o trabalho pelo pagamento e, apesar das palavras duras de Cheriot, era alguém que não conseguia deixá-lo em perigo e por isso começou a acompanhá-lo. Mesmo sabendo, Cheriot, assustado, perguntou de novo a Dolly.
—Mas você escutou o que ele disse no hospital da última vez, né? Que ele devolveria o dinheiro do custo da internação e da cirurgia com o pagamento que recebeu. Se eu não tivesse recusado terminantemente, ele realmente teria me dado. Isso me assusta, como se ele quisesse pôr distância.
—Eu não acho que a sua mãe e eu criamos você pra ser uma pessoa tão medrosa.
Dolly, que vinha murmurando em voz baixa, inclinou ligeiramente a cabeça e corrigiu.
—Talvez a gente tenha mimado você demais…
—Até certo ponto, vocês mimaram.
Aproveitando o momento, Cheriot também lhe transferiu a responsabilidade. Na verdade, era verdade que tanto Dolly quanto Benji o tinham criado se preocupando excessivamente com ele.
—Bom, de todo jeito. Você não lembra do que aquele rapaz te disse antes de mencionar o pagamento?
—…Como eu poderia esquecer?
O dia em que Yurij tinha se recuperado o suficiente para se sentar na cama e conversar. Como ele adormecia e acordava de forma intermitente, eles nem sequer tinham conseguido conversar direito, mas naquele dia Yurij estava esperando por Cheriot primeiro. Depois que o médico disse que ele podia começar uma dieta, Cheriot foi correndo até Yurij com o coração alegre, levando-lhe uma sopa recém-feita.
Aquele momento continuava vívido. Assim como nunca poderia esquecer o dia em que atiraram em Yurij, Cheriot lembraria para sempre da primeira conversa que tiveram depois que ele acordou.
O rosto, mais magro e afilado pela perda de peso, o olhava fixamente. Os lábios pálidos e sem cor estavam fechados, e os olhos azuis que o observavam projetavam sombras, muito mais intensos que de costume. Cheriot, tão feliz de vê-lo sentado ereto e olhando para ele, também o observava como que enfeitiçado. Depois de trocarem inúmeros olhares, Yurij abriu a boca.
—Você está bem, Cheriot?
Aquela não era a pergunta que Cheriot esperava. Era muito mais lógico que ele primeiro perguntasse coisas como o que tinha acontecido, como ele estava ali, já que era alguém que tinha estado à beira da morte.
Mas Yurij primeiro perguntou pelo bem-estar dele.
—Você não se machucou? Eu… não tive tempo de conferir se você… estava ferido. Eu devia ter cuidado melhor de você.
«O que essa pessoa está dizendo agora?»
—Desculpa.
«Por qual razão, por que ele está pedindo desculpa?»
Como se tivesse levado um tapa, Cheriot ficou sem palavras. Ele, que sempre tinha sorrido para que Yurij não ficasse ansioso, naquele momento não conseguiu manter a expressão e desabou. Assim que escutou o «desculpa», sua mente ficou em branco e ele sentiu uma dor como se lhe espremessem o coração.
«Por que você está pedindo desculpa?»
«Eu é que deveria beijar os seus pés e dizer que sinto muito.»
«Porque eu fui tão bobo de ir sozinho pra aquela casa, o Joseph pôde fazer aquilo, e você só foi até lá por causa da minha pessoa patética. Foi você quem me tirou daquele inferno quando eu, paralisado de medo, não conseguia fazer nada.»
«Mas longe de te mostrar o céu, eu…»
«Eu te fiz cair numa poça de sangue.»
Ele lembrou do breve instante de alívio em que acreditou que tudo tinha terminado. Numa situação em que acreditou que morreria sem remédio, Yurij apareceu como que por milagre e o tirou de entre a morte. Depois de ver Yurij, que ele nunca pensou em encontrar ali, Cheriot acreditou que agora tudo ficaria bem. Depois de sair finalmente da casa de campo e ver gente, sentiu alívio por estar vivo.
«Eu estava realmente assustado, mas como o Yurij veio, já não importava. Agora eu só queria dizer pra ele, com o coração transbordando, que eu queria que ele ficasse do meu lado, que o fundo fiduciário já não importava.» Enquanto corria com esses pensamentos, em seu campo visual captou um rosto que se virava com expressão apressada.
Foi algo que aconteceu num tempo breve.
Uma emoção perplexa cruzou os olhos azul-escuros, e Yurij girou a cabeça. Ao ver suas costas se virando, um pressentimento sinistro percorreu sua coluna vertebral. Ao mesmo tempo em que o terror o atravessou como um raio no alto da cabeça, soou um disparo. Os pássaros pousados nas árvores alçaram voo em uníssono.
E o corpo de Yurij desabou.
Ele nunca antes tinha demonstrado tal fragilidade diante de Cheriot, mas Yurij caiu como se a força tivesse ido embora. Seus tímpanos devem ter se sobressaltado com o estrondo ensurdecedor do disparo, porque seus ouvidos ficaram atordoados. Os policiais próximos se mobilizaram rapidamente na direção do som, e um segurança, Benji, algum familiar que estava por perto… alguém agarrou o braço de Cheriot. Assim que o agarraram, ele sentiu como se o chão cedesse e suas entranhas fossem arrastadas.
«Eu devo ter gritado.» Ele não conseguia ouvir a própria voz, então não sabia o que disse, mas a única coisa que via era Yurij. Com uma força que ele não sabia de onde saiu, Cheriot afastou com um empurrão quem o segurava e correu até Yurij como se desmoronasse. Seus dedos alcançaram a mão de Yurij, que jazia sobre a grama verde.
Seus olhos azuis tinham ficado fechados desde aquele momento.
Como alguém num sono pacífico, Yurij jazia tranquilo sobre a grama com o queixo ligeiramente erguido. Sua palma esquerda, caída sem força, estava destroçada e um desastre, mas ainda segurava a arma. Como ele sempre se vestia de preto, não dava para ver de onde saía o sangue, mas Cheriot compreendeu que o ferimento era grave, suficiente para tingir de vermelho a grama à sua volta.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna