Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.6
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 6)
Yurij se estremeceu diante da força da mão que o segurava com firmeza. Ele sempre tinha agido com cuidado, supostamente controlando sua força, mas agora parecia ter esquecido, porque sua mão exercia uma grande pressão. Era uma força intensa, como se ele não quisesse permitir que ele se afastasse nem um pouco.
—Yurij, me escuta. Eu, o Yurij…
A voz de Cheriot estava mais alta que o habitual. Ao som apertado e forçado se seguiu um rosto que ficou pálido. Observá-lo fez com que Yurij também sentisse que lhe faltava ar.
—Quer dizer, com o Wolfie…!
No instante em que a voz tensa ressoou na sala, tocou a campainha. Ao mesmo tempo, o barulho de batidas na porta encheu a casa com estrépito. —Cherry, sai logo! Me disseram pra te levar antes das onze, você não vai estar dormindo, vai?
De fora da janela da sala, Dolly gritou. Ao ver a sombra que aparecia atrás da cortina fechada, Yurij retirou os ombros sobressaltado. A família de Cheriot com certeza não queria que ele se aproximasse demais de Cheriot, e agora a situação deles parecia a de duas pessoas compartilhando um segredo.
Mas Cheriot não o soltou. Segurou-o com tanta força que no dorso de sua mão grande se marcaram veias azuladas, e só começou a afrouxar o aperto depois de escutar Dolly se aproximar da janela e gritar.
—Se vocês não responderem, eu arrombo a porta e entro!
—Merda.
Cheriot, franzindo suas espessas sobrancelhas avermelhadas, soltou a mão cheio de pesar e passou a mão pelo cabelo. A franja que ele tinha penteado com tanto cuidado se desarrumou e caiu sobre sua testa, mas Cheriot não parecia se importar.
—Isso é uma loucura. Wolfie, por ora eu vou sair e volto. Eu só termino o compromisso do almoço e volto imediatamente, então não vai a lugar nenhum, tá? Se você precisar de alguma coisa, me liga.
Yurij olhou para Cheriot aturdido e depois assentiu lentamente. Estava muito curioso para saber o que ele tinha estado prestes a dizer, mas não queria interrompê-lo.
—…Não se preocupa comigo, pode ir tranquilo. Ultimamente eu tomei muito do seu tempo por minha causa, então não precisa se apressar pra voltar.
—Não é tomar. É que eu te entrego.
Cheriot, que negou as palavras de Yurij com seriedade, apertou os lábios e fez uma expressão como de alguém impaciente. Ao vê-lo, o coração de Yurij começou a bater rápido, mas por um motivo diferente do de antes. No instante em que escutou da boca de Cheriot a confirmação de que ele não era um incômodo, seu ânimo… melhorou.
—Eu encomendei o almoço com antecedência. Um segurança vai chegar ao meio-dia e vai deixar na frente da porta, então come isso. Eu pedi pra um restaurante conhecido e prepararam adequado pra sua condição, então espero que você coma tudo.
—…Está bem.
Embora sentisse curiosidade pelo que passava pela mente de Cheriot, Yurij decidiu esperar. Hoje, embora incomumente impaciente, ele tinha cometido um erro, mas esperar e ter paciência era algo em que Yurij sempre tinha sido bom.
—A Dolly, de verdade… se ela tivesse vindo um pouco mais tarde.
Ao ver que Yurij respondia com docilidade, Cheriot também assentiu. Com um olhar cheio de pesar fixo em Yurij, se levantou do sofá como se não tivesse outra opção.
—Já volto.
As palavras «já volto», com as quais ele tinha se acostumado durante a convivência, hoje ressoaram especialmente em seu coração.
—Vai com Deus.
Embora tivesse lhe dito para não se apressar em voltar, ainda assim… ele gostaria de vê-lo logo. Talvez sem querer aquele sentimento tenha se filtrado em suas palavras, porque Cheriot, que saía da sala com passo vacilante, girou de repente. Voltando sobre seus passos, se aproximou rapidamente de Yurij e disse mais uma vez.
—Eu volto num instante.
Ao escutar a voz resoluta, quase solene, a ansiedade que o tinha invadido antes se dissipou no instante. Ele pensou que talvez o sofrimento que sempre tinha presumido que Cheriot sentia toda vez que o via não fosse a totalidade de suas emoções.
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—Eu estava prestes a me declarar, Dolly!
Um grito estridente ressoou dentro da SUV que tinha acabado de sair do bairro litorâneo. A voz angustiada, alta o suficiente para que qualquer um que passasse escutasse, se propagou através da janela aberta. O homem vestido de terno que segurava o volante parou momentaneamente diante do sinal vermelho e depois voltou a gritar, deixando cair seu cabelo ruivo-dourado.
—Eu estava prestes a me declarar! Você não podia esperar um pouco mais? Por que você tocou a campainha?
A mulher de longo cabelo branco sentada no banco do passageiro, que olhava para fora, ergueu os cantos enrugados dos lábios. Com um cotovelo apoiado na janela e a mão estendida, se desculpou com desdém.
—Nossa, lamento ter estragado.
Enquanto o homem apertava o volante com força como se fosse quebrá-lo e gemia —aaaah— de angústia, o sinal mudou. Dolly bateu na lataria do carro com a mão que estava do lado de fora.
—O sinal abriu, rapaz.
O homem, que ergueu a cabeça lentamente, retomou a direção conforme o novo sinal. Embora desse a impressão de que, naquele estado, dificilmente chegaria bem ao centro, o homem tinha expressado o desejo de dirigir pessoalmente porque não pegaria bem fazer uma mulher mais velha dirigir enquanto ele viajava confortavelmente sentado. Como foi Dolly quem lhe ensinou esses modos e o criou para ser assim, ela o deixou fazer do jeito dele.
—A sua voz não soa nem um pouco arrependida.
Embora os óculos escuros de Dolly não deixassem ver bem sua expressão, pelos cantos sorridentes da boca ela parecia não sentir nenhum remorso. Diante do sorriso quase debochado, o homem de cabelo ruivo-dourado, Cheriot, fez bico num gesto de leve descontentamento.
—É que eu lembrei de alguém que disse que ia se declarar assim que aquele rapaz saísse do hospital. Tinha tanto tempo até agora, mas justo antes do compromisso criou o clima pra se declarar. Tsc, tsc.
Com um tom como o de uma vovó gentil do bairro, Dolly repreendeu a ação desacertada de Cheriot. Diante do comentário afiado que lhe calou fundo no peito, Cheriot ficou sem palavras. O cabelo que ele tanto tinha se esforçado para arrumar porque queria escutar de Yurij que estava bonito se desarrumou com uns movimentos de cabeça e caiu suavemente sobre sua testa. As mechas que lhe faziam cócegas nas sobrancelhas balançaram com a brisa.
Como Dolly dizia, Cheriot tinha tido tempo de sobra para se declarar. Se contasse desde que Yurij acordou, tinha passado mais de um mês. Eles tinham compartilhado trinta dias e trinta noites, então se ele tivesse criado o clima adequado nesse tempo, poderia ter feito de Yurij seu namorado havia tempo.
Mas aquele maldito momento.
Ele não ousava criar tal clima.
Embora quisesse dizer a Yurij que, assim que ele abrisse os olhos, se arrependia de não ter aceitado ser seu namorado, quando ele enfim acordou, considerou que expressar seus mesquinhos arrependimentos ou impressões não fazia sentido naquele momento.
Enquanto coordenava a transferência de Yurij para o hospital depois de ele voltar a dormir mal acordou, e providenciava às pressas o quarto e os exames, Cheriot só pensou numa coisa: que Yurij não tivesse nenhum problema. Que se recuperasse bem e pudesse pisar o chão com os dois pés.
Felizmente, como mostraram os exames anteriores, o corpo de Yurij não sofreu grandes sequelas. Foi isso que ele escutou inclusive enquanto acompanhava sua recuperação depois da cirurgia. O único problema era que Yurij não acordava e, uma vez resolvido isso, ele começou a se recuperar com rapidez.
Como se fosse mentira que ele tinha ficado deitado feito um cadáver vivo, Yurij acelerou sua reabilitação. Talvez graças ao fato de ele ter contratado cuidadores e terapeutas para mover seu corpo enquanto estava inconsciente e evitar problemas, ele recebeu alta do hospital em poucos dias e, desde que começou a frequentar o centro de reabilitação, não houve dificuldades para caminhar ou se mover.
O terapeuta de reabilitação disse que ele tinha uma boa capacidade de recuperação e uma vontade forte. Ao saber que Yurij se esforçava o dobro dos outros e passava pelas partes doloridas sem se abalar, Cheriot se sentiu aliviado por ele estar se preparando para viver com determinação.
E para apoiar por completo a preciosa vida de Yurij, que por sua culpa quase lhe foi arrancada, Cheriot ajudou em sua reabilitação sem reservas. Primeiro, pediu à mãe e a Dolly que saíssem da casa. Como não queria que elas procurassem um lugar à parte ou um hotel, deixou claro seu desejo de ficar sozinho com Yurij. Embora o pedido do filho de que lhe emprestassem a antiga casa de lua de mel que estava em seu nome pudesse ter sido irritante, sua mãe assentiu em silêncio.
Depois, também pediu a Dolly que, na medida do possível, não viesse. Embora Dolly não tivesse rejeitado Yurij como Benji, Cheriot bloqueou todos os estranhos que podiam lhe causar estresse. Benji, é claro, estava proibido de se aproximar, e ele também pediu à empregada da casa, ao jardineiro e a outros que vinham periodicamente que tirassem uma folga por um tempo.
Assim, Cheriot passou várias semanas a sós com Yurij. Desde que ele saiu do hospital, adiou ao máximo seus compromissos e se concentrou unicamente na recuperação de Yurij. Durante esse tempo, certamente tiveram muito tempo juntos.
Havia as manhãs em que Yurij, já acordado, o sacudia suavemente para acordá-lo; os momentos em que ele cozinhava pessoalmente seguindo a dieta aprendida com a nutricionista para comerem juntos; ou as noites em que ele deitava Yurij depois do banho e lhe desejava boa noite enquanto lia um livro.
Cheriot sempre o levava de carro ao centro de reabilitação, e eles também tinham muitas tardes livres. Embora ultimamente ele usasse esse tempo para treinos pendentes, preparar o processo e assuntos familiares, até pouco tempo atrás costumava observar sem fazer nada Yurij adormecer numa soneca.
Pensando assim, ele claramente tinha tido tempo de sobra, mas Cheriot não conseguia encontrar o momento para se declarar. Havia várias razões.
Para começar, Cheriot nunca tinha se declarado a ninguém. Como era sua primeira declaração e o destinatário era Yurij, ele queria criar uma lembrança inesquecível. Ao perguntar por aí e procurar em filmes ou livros, parecia que o clima era muito importante.
Para evitar uma declaração batida e terrível como —Você quer namorar comigo? —dita de passagem, Cheriot refletiu por muito tempo sobre como expressar seus sentimentos.
E havia algo mais importante que o clima.
Cheriot não sabia se Yurij queria namorar com ele, ou se ainda conservava os sentimentos que tinha bem antes de levar o tiro. Ele não ousava adivinhar se aquele homem, que por sua culpa tinha estado à beira da morte, receberia com alegria sua declaração. Enquanto Yurij dormia, ele tinha esperado seu despertar fantasiando que Yurij também ficaria feliz…
Mas depois de acordar, Yurij nunca tinha lhe dado um daqueles belos sorrisos que antes lhe mostrava.
«É. Obviamente ele deve estar cansado. Se a gente fica rígido mesmo sem se mover só por dois ou três dias, imagina o quanto deve ser exaustivo tentar reconstruir os músculos depois de ter ficado acamado por um mês.»
De fato, como Yurij tinha passado metade do dia dormindo até pouco tempo atrás, Cheriot presumiu que ele não tinha energia para pensar em mais ninguém.
Além disso, também não era que ele não sorrisse para ele.
Toda vez que Cheriot lia um livro para ele, Yurij erguia levemente os cantos dos lábios e escutava em silêncio. Ao ver aqueles cantos se erguerem, Cheriot, ansioso, se esforçava para encontrar livros interessantes, pensando em como fazê-lo sorrir mais. Para descobrir que tipo de livro Yurij gostava, parecia boa ideia experimentar diversos gêneros, então ele reuniu desde não ficção até contos infantis.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna