Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.5
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 5)
Cheriot piscou com seus belos olhos verdes enquanto esperava por Yurij. Como o silêncio continuava, seus longos e densos cílios ruivo-dourados se arquearam e subiram. Era uma pressão silenciosa perguntando por que ele não falava. Yurij, que observava Cheriot com os olhos muito abertos, sorriu de leve.
Ele tinha inquietado Cheriot com pensamentos desnecessários.
…Disseram que não devia haver dano cerebral, mas fazia um tempo que lhe ocorriam pensamentos inúteis como se ele fosse alguém com uma lesão na cabeça. Esses sentimentos e pensamentos não ajudavam em nada Cheriot.
—Ficou muito bom em você.
Yurij enfim disse o que devia ter dito havia um tempo. O elogio que antes parecia entalado em sua garganta agora saía corretamente.
—Sério?
Os olhos verdes se semicerraram satisfeitos.
—Sério.
—Essa avaliação é muito curta. Você não pode me elogiar um pouco mais?
Como uma criança que pede mais doces mesmo já estando com as mãos cheias, Cheriot insistiu. Diante de seu pedido encantador, Yurij, sem hesitar, descreveu a impressão que sentiu quando Cheriot desceu.
—Até uma borboleta que passasse voando se apaixonaria por você.
Inseguro se era a expressão adequada, Yurij acrescentou uma explicação.
—Você sempre foi bonito, mas eu quero dizer que vestido assim você também é lindo.
Cheriot, que esperava os elogios de Yurij com um sorriso radiante, piscou de repente. Separou os lábios e inspirou sem fazer barulho, depois os apertou com força. Um rubor tinha tingido suas bochechas, enrubescendo seu rosto pálido. Diante daquela imagem, Yurij se sobressaltou, mas antes que pudesse reagir, Cheriot estendeu rapidamente uma mão para cobrir-lhe os olhos.
—Espera. Por favor, não olha. Eu escutei uma coisa tão inesperada que não consigo controlar a minha expressão.
Da mão grande e macia que cobria seu rosto emanava um aroma agradável. Uma fragrância sutil de sândalo subia da mistura entre os feromônios de Cheriot e o cheiro de seu sabonete líquido.
«…De novo ele age de um jeito adorável.»
Com certeza ele não era a única pessoa diante de quem ele se comportava assim, mas mesmo sabendo disso, seu coração se agitava sem controle ao vê-lo corar ou ficar sem graça. Ele não culpava Cheriot, mas sentia que ele continuava lhe dando motivos para se confundir.
—Eu fiquei curioso pra saber o que foi o inesperado.
Ao piscar, Cheriot moveu a mão bruscamente. Parecia que seus cílios roçaram a palma.
—Você nunca tinha me dito que eu sou bonito. Então…
—Então…?
—Eu achei que o meu rosto não fosse do seu gosto.
Surpreso pelo comentário repentino, Yurij piscou. Cheriot, como se não conseguisse se conter, retirou a mão. Esfregou a palma com o polegar, suspirou de maneira incompreensível e depois se deixou cair pesadamente ao lado de Yurij.
—Todo mundo diz que eu sou bonito, mas o Wolfie nunca me elogiou apesar do meu rosto tão estupendo.
—…Eu não sabia que você pensava isso. Desculpa.
—Não é hora de dizer «desculpa».
Quando Yurij virou a cabeça para o lado, seu olhar se encontrou com o de Cheriot, que o observava apoiando o queixo na mão. Enquanto Yurij refletia sobre qual teria sido a resposta correta, Cheriot, em vez de lhe dar, soltou a mão que sustentava seu queixo e se recostou pesadamente no sofá. Depois estendeu o braço em direção ao caderno que estava sobre a mesa diante do sofá.
—O que você estava escrevendo?
No momento em que Cheriot pegou o caderno, Yurij lembrou de algo que tinha esquecido e se apressou em detê-lo. Ao agarrar seu pulso com expressão perplexa, Cheriot observou fixamente o pulso preso. Ele parecia estranhamente feliz.
—Eu estava escrevendo como era o cachorro de que a gente falou. Não tem nada interessante pra ver, então me devolve.
—Por quê? Eu quero ler eu mesmo.
Isso seria um problema.
Mostrando raramente seu incômodo, Yurij apertou a mão que segurava o pulso. Mas Cheriot era um atleta excepcional cuja força não perdia para ninguém, e Yurij estava com a força muscular enfraquecida em relação ao seu estado original. Ao admitir que não podia dominá-lo pela força, Yurij suspirou e relaxou o aperto. Seria problemático se o caderno se rasgasse numa disputa desnecessária.
—É uma história que eu não devo ler? Então eu não vou olhar.
No entanto, ao ver a expressão incomum de Yurij ao recuar, Cheriot também ficou cauteloso. Embora Cheriot fosse teimoso e caprichoso, ele não costumava fazer coisas que realmente desagradassem os outros.
Ainda assim, antes ele parecia ser perceptivo e costumava notar se as palavras de Yurij eram sinceras ou não, mas depois da lesão, por estar cauteloso demais, surgiam situações como aquela. Embora fosse desconcertante, o que Yurij tentava esconder na verdade não era grande coisa.
—Vai ser difícil de ler. Foi por isso que eu fiz isso.
Cheriot pareceu não entender bem o significado. Yurij hesitou se devia dizer com suas próprias palavras mas, querendo que Cheriot se sentisse mais à vontade, criou coragem e confessou apesar da vergonha.
—A minha letra é um desastre.
—Hmm?
Como se a razão fosse inesperada, Cheriot arregalou os olhos. Agora que tinha dito, era algo realmente insignificante, mas ele não sabia por que lhe dava vergonha mostrar. Com uma sensação de constrangimento, Yurij fechou a boca. Sua péssima caligrafia, que antes não lhe provocava nenhuma emoção quando Alexei ou Timac zombavam dela, agora lhe parecia um defeito.
«Talvez eu tenha mesmo algum problema cerebral.» Se preocupar com algo de que ele nem sequer tinha sido consciente a vida toda. Hoje especialmente, Yurij se sentia estranho e desconhecido para si mesmo.
—Então era por isso que você não queria me mostrar?
Cheriot, que observava Yurij com olhar significativo, fez a pergunta. Yurij respondeu desviando sutilmente o olhar. Ao ver aquilo, os cantos da boca de Cheriot se ergueram num sorriso. A atmosfera que tinha ficado constrangedora se dissipou rapidamente e Cheriot, com um sorriso largo, colocou o caderno sobre os joelhos.
—Bom, vamos ver o quanto a sua letra é um desastre pra o Wolfie não querer me mostrar.
Yurij, que olhava para outro lado, também dirigiu silenciosamente o olhar para o caderno. Talvez sua escrita só parecesse ridícula aos olhos de seus amigos. Cheriot era alguém que lia e escrevia muito, então era muito provável que conseguisse interpretá-la com facilidade.
—Pelo… marrom… Blues… crocante… gotas de chocolate.
«Parece que não.»
—…Deixa pra lá. Me devolve.
Cheriot, que franziu o cenho ao máximo enquanto se concentrava no caderno, negou com força a cabeça. Inclinando-se como se fosse ser absorvido pelo caderno, semicerrou os olhos e se esforçou para decifrar os caracteres ininteligíveis.
—Espera! Eu consigo ler! Se você só me explicar por que aparece essa palavra «Blues», acho que eu consigo entender o resto!
—Não é «Blues», significa «olhos azuis». Eu escrevi que ele tem pelo marrom e que se parece com um border collie ou algo assim.
Depois de explicar a palavra que Cheriot tinha interpretado de maneira completamente diferente, Yurij estendeu a mão em direção ao caderno. Dessa vez, diferente de antes, Cheriot o devolveu sem resistência. Observando a reação de Yurij, compartilhou sua opinião da forma mais cortês possível.
—Se o Wolfie resolvesse escrever um diário secreto, ninguém conseguiria ler, né?
Era uma perspectiva singular. Yurij deu de ombros e depois fechou o caderno.
—Você pode zombar se quiser. O Aliocha e o meu pai sempre disseram que a minha letra é terrível, então eu estou acostumado a não entenderem.
Ao responder com indiferença, na esperança de que Cheriot não o tratasse com cautela demais nem fizesse elogios falsos, Cheriot foi honesto.
—Pra falar a verdade, é difícil dizer que ela é bem escrita.
«Com certeza.» Yurij não sabia para que tinha tentado esconder sua má caligrafia.
—Mas você não tinha nenhuma necessidade de se envergonhar por isso.
Então Cheriot identificou um sentimento que o próprio Yurij desconhecia. Ao erguer a cabeça sobressaltado e olhar para Cheriot, ele o observava fixamente com um olhar como se visse algo muito adorável. Ao ver aquela expressão, a inquietação que o agitava havia um tempo começou a se acalmar lentamente.
Parece que ele queria dar uma boa impressão a Cheriot.
Embora Cheriot já soubesse que ele era um homem sem instrução que nem sequer conseguia ler bem, como era alguém de quem ele gostava, não queria lhe mostrar seus aspectos negativos. É assim que se fica consciente dos outros? Ele começava a se preocupar que coisas com as quais normalmente não se importava pudessem não agradar, e essa não era uma sensação agradável.
—Pra ser sincero, é muito adorável.
No entanto, as palavras seguintes de Cheriot dissiparam por completo seu incômodo. Embora tenha franzido o cenho por não saber como receber o elogio de «adorável», não lhe desagradou ouvir.
—Eu não entendo… como isso pode ser adorável.
—Um homem tão bonito e imponente quanto o Wolfie tem uma letra desastrosa, algo que ninguém poderia imaginar só de olhar pra ele. Isso não é adorável?
Ele parecia entender um pouco como se sentia. Lembrava de ter sentido essa mesma emoção ao ver Cheriot corar antes só por chamá-lo por um apelido, apesar de ele já ter feito de tudo.
Diante das palavras doces como glacê que eram tão agradáveis de escutar, Yurij observou Cheriot com olhar confuso. Toda vez que observava o comportamento de Cheriot, sentia que ele continuava lhe dando motivos e, especialmente quando ele dizia coisas tão diretas como «adorável», esse sentimento se intensificava. Yurij queria saber o que Cheriot queria fazer com ele.
Durante as semanas em que cuidou dele, Cheriot quase nunca disse coisas assim, nem se aproximou tanto quanto hoje nem agiu com charme. Ao vê-lo reduzir a distância como antes, a Yurij também custava manter a calma.
«Ele disse que não podia namorar ninguém por causa do fundo fiduciário, e provavelmente isso não mudou.»
Enquanto acreditava que Cheriot cuidava dele e o mantinha por perto só por culpa, não havia lugar para equívocos e ele conseguia administrar seus sentimentos. Mas o Cheriot de hoje continuava confundindo-o. Se continuasse assim, ele temia cometer de novo algo que colocasse Cheriot em apuros, como da vez anterior. Ainda assim, não queria afastá-lo.
—Eu não tenho nada de adorável como você diz. Essas palavras… deve haver alguém mais adequado pra elas.
Essa era a única medida que Yurij podia tomar. Em vez de pronunciar a palavra falsa «amigos», deixava um aviso cuidadoso de que as palavras de Cheriot poderiam gerar mal-entendidos.
Então o rosto sorridente de Cheriot ficou pálido e tenso. Ao observar como o sorriso suave se rachava gradualmente, Yurij percebeu que, ao que parece, ele finalmente tinha cometido um erro. «Eu devia ter deixado ele agir como quisesse.» Arrependeu-se de ter dito aquilo sem saber por quê.
Com as sobrancelhas franzidas, passou uma mão seca pelo rosto junto com um suspiro. A sensação da palma áspera o fez recobrar os sentidos. Uma vez ditas aquelas palavras, Yurij tinha a obrigação de administrar a situação até o fim.
—Não é que eu odeie ouvir essas coisas de você. Mas, eu não sei se você lembra…
Ele tinha tentado evitar dizer isso porque sentia que qualquer pretexto para estar ao seu lado desapareceria.
Sua boca secou por completo. Com a sensação de que sua garganta secava, Yurij moveu os lábios várias vezes antes de conseguir falar. Nunca tinha sentido medo nem diante da morte, mas ao pensar que suas palavras poderiam colocar Cheriot em apuros, um leve temor o invadiu.
—Eu te perguntei o que a gente era. Naquele momento a gente combinou de ser amigo, mas eu tenho dificuldade de agir dessa maneira. Especialmente quando eu escuto coisas como as de agora há pouco… eu me confundo.
«Ah, eu disse.» O pulso que subia por sua garganta se acelerou cada vez mais e seu coração se apertou até doer. Embora tivesse decidido não seguir imprudentemente suas emoções nem dizer coisas que pudessem ser um fardo para Cheriot, sua boca se moveu por conta própria como se ele tivesse esquecido tudo o que tinha pensado.
—Cheriot, por acaso…
Bem antes de soltar «você gosta de mim?», Yurij recuperou às pressas o autocontrole. Por pouco não disse algo que poderia ter arruinado completamente sua relação. Mas não parecia ter administrado bem a situação. Porque no rosto de Cheriot, que o olhava, não havia alívio, e sim uma expressão de surpresa.
«Seria estranho se ele não percebesse.»
Tendo combinado ser amigos, ele tinha acabado de revelar que ainda guardava muitos sentimentos. Uma fadiga intensa o invadiu. Parecia que ele precisaria de tempo para conseguir agir como se fosse simplesmente um bom amigo de Cheriot.
«Pra isso, a gente já não deveria estar junto.» Sua condição física já era boa o suficiente para viajar de avião, e o certo seria continuar a reabilitação em Vancouver. «Vamos nos concentrar em me recuperar lá.»
Quando Cheriot voltasse depois de terminar os assuntos familiares e a investigação, então ele poderia agir com mais naturalidade como se fosse um bom amigo.
Embora cada dia ao lado de Cheriot fosse pacífico como um sonho e ele quisesse permanecer nesse estado, sentia que devia parar de parasitar sua culpa para preencher sua própria e mesquinha satisfação. Não queria criar de novo uma situação como aquela.
—Se for por culpa, se você me diz coisas boas por isso, já não é necessário.
«Acho que eu fiquei tempo demais ao seu lado», ia acrescentar, mas naquele instante…
—Não é isso!
Cheriot elevou de repente a voz. Como alguém que recobra os sentidos tardiamente, Cheriot continuou falando com rapidez.
—Claro que é verdade que eu me sinto à beira da loucura pelo que eu te fiz! Mas eu sou alguém que acha o Wolfie adorável até quando ele só respira…!
Fazia tanto tempo que Cheriot não erguia assim a voz que Yurij se surpreendeu um pouco. Cheriot, que tinha vomitado as palavras como uma rajada, respirou agitado e se acalmou um momento, depois agarrou o ombro de Yurij como alguém que tomou uma decisão.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna