Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.4
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 4)
Um silêncio peculiar se instalou sobre a mesa. A vergonha excessiva de Cheriot fez com que Yurij também se sentisse acanhado, mas ele não afastou o olhar dele. Era adorável demais vê-lo corar só por um apelido, algo que não combinava com o homem que antes se despia sem problema diante de estranhos.
«Eu achava que ele era um homem habilidoso, até astuto, mas às vezes ele age como um ingênuo.»
«Isso é um problema, Cherry.»
Sem conseguir tirar a vista do homem adorável diante dele, Yurij pensou em silêncio. Ao vê-lo agir de maneira tão encantadora só por um apelido, a cobiça que ele tinha ocultado com esforço revelou seu rosto de maneira aterradora. Ao vê-lo envergonhado, sentiu como se Cheriot realmente gostasse dele. Não só um simples afeto, mas algo mais.
Como se fosse um casal.
Embora soubesse que, se não tivesse se machucado, não poderia estar ao seu lado como agora, uma esperança vã cruzou sua mente: talvez, como a situação tinha mudado, Cheriot reconsiderasse sua decisão.
«Será que eu fiquei descarado depois de morrer e reviver?»
Embora achasse que já era demais tê-lo ao seu lado, agora que via aquela cena imaginava que eles poderiam se tornar uma relação especial. Ele, que tinha acreditado a vida inteira não ter cobiça, se estranhou diante daquele aspecto desconhecido de si mesmo.
Para clarear seus pensamentos ociosos, Yurij recolheu lentamente os pratos que estavam sobre a mesa. Ia se levantar com os pratos que Cheriot tinha reunido e organizado, mas ele, que parecia recobrar os sentidos tardiamente, o deteve.
—Não, Wolfie. Não se esforça. O que a gente faria se doesse alguma coisa em você por carregar coisas pesadas?
Sem nem ter tempo de apontar o absurdo das palavras de Cheriot, Yurij perdeu os pratos que tinha nas mãos. Cheriot, que os tinha recuperado com rapidez, se dirigiu à pia. Yurij, que observou suas mãos vazias, se levantou do assento e o seguiu.
—Então eu lavo a louça.
—O quê? Não fala uma coisa dessas. O Wolfie já usou a força dele comendo, então agora só resta ir descansar.
Embora claramente antes do café da manhã eles tivessem falado que agora ele estava curado, parecia que Cheriot já tinha esquecido porque voltou a tratá-lo como a um paciente. O pensamento de que Cheriot era tão bom com ele só por culpa surgiu como um hábito…
—Quando eu terminar de arrumar, me conta como era o cachorro que você viu. Vamos ligar pra uma organização de resgate pra ver se a gente consegue encontrar ele. Se der pra trazer ele, a gente traz, então o melhor é procurar primeiro.
Escutar que ele se incluía ao dizer «a gente» encheu sua cabeça de confusão.
Yurij ia dizer a Cheriot que ele não devia se preocupar tanto com o que ele dizia, mas ao ver que a nuca de Cheriot, que estava de costas enquanto deixava os pratos na pia, continuava avermelhada, fechou a boca.
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Como se tivessem jogado uma pedra num lago, uma ondulação perturbou a calma de sua rotina. Desde que terminaram o café da manhã, Yurij estava bastante agitado e não conseguia acalmar a mente com facilidade. Seria porque Cheriot, que até então tinha agido quase como um cuidador e protetor, enfim mostrava algo de seu antigo eu? Os pensamentos sobre ele não saíam de sua cabeça.
Embora sempre pensasse nele, na maior parte do tempo era preocupação. Ele se perguntava se por cuidar de alguém como ele Cheriot descuidava da própria vida, ou se, apesar de ter assuntos familiares complicados, era correto lhe dedicar tanto tempo. Esse tipo de inquietação predominava.
Mas hoje sua mente estava cheia de pensamentos completamente diferentes. Ele não parava de lembrar do rosto de Cheriot sorrindo radiante enquanto dizia «Wolfie», ou do momento em que ele se aproximou como que para beijá-lo. Também não conseguia esquecer como suas orelhas ficaram intensamente vermelhas quando o chamou pelo apelido.
—Hmm.
Yurij largou a caneta que segurava e esfregou o queixo por um momento. Seus olhos azul-escuros, mergulhados em seus pensamentos, olharam fixamente um ponto no vazio. Ao pensar em Cheriot tomando banho no segundo andar, seus dedos, que esfregavam o queixo, subiram até seus lábios. Enquanto inconscientemente esfregava o lábio inferior com o polegar, lembrou da noite em Big Fox em que Cheriot tinha chupado seus lábios.
Na verdade, aquela lembrança tinha surgido desde que ficaram tão perto que quase roçaram os lábios. O dia em que pela primeira vez na vida ele se deixou abraçar por um homem. Como tinham ido para a cama assim que ele percebeu que tinha se apaixonado por um alfa que mal conhecia, aquela noite com ele ficou condensada numa lembrança intensa.
Embora Yurij também tivesse tido incontáveis orgasmos durante aquele encontro sem pausa, e certamente tivesse sentido prazer físico, o estímulo emocional tinha sido muito mais forte.
Foi naquele dia que Yurij descobriu como era prazeroso ir para a cama e enroscar as línguas com alguém por quem sentia algo. O que ele mais lembrava daquele sexo longo e intenso era a sensação de que o coração doía de tanta emoção. Provavelmente ele estava assim desde que caiu no lago.
É como se tivesse voltado àquele momento.
Desde que apareceu o matador que procurava Cheriot, a situação foi tão premente que ele não teve oportunidade de relembrar aquela noite, e nunca pôde saborear o momento mais belo e intenso de sua vida. Depois de acordar do coma, sua mente estava tão saturada de preocupação com Cheriot que não sobrava espaço para outros pensamentos. Até esta manhã.
«…Ele beijava bem.»
Como Yurij não tinha preferência especial por beijos, sua habilidade era apenas mediana, mas Cheriot sabia dar aqueles beijos ardentes que faziam a mente ficar nublada quando as línguas se enroscavam.
«Ele deve ter beijado assim muita gente.»
Yurij, que esfregava os lábios distraidamente, baixou a mão e endureceu levemente o canto dos lábios. De repente, sem saber por quê, seu humor decaiu. Cheriot tinha dito que, para evitar fofocas, nunca tinha tido uma relação profunda com ninguém, mas diferente de Yurij, que só procurava companhia durante o rut, Cheriot parecia ter tido parceiros com certa regularidade.
«Essas pessoas também o chamavam pelo apelido? Ele corava como hoje toda vez que o chamavam de Cherry?»
Enquanto refletia e fazia suposições nada agradáveis, Yurij logo chegou à conclusão de que provavelmente sim, e parou de pensar. Desde que se apaixonou por Cheriot, ele nunca teve o desejo de ser alguém especial para ele. A maneira de amar de Yurij não consistia em se esforçar para ser o único para a outra pessoa, e sim em desejar sinceramente a felicidade de quem amava.
Continuava igual agora. Queria que Cheriot sorrisse de felicidade genuína como nesta manhã, e que não se sentisse culpado sem razão ao vê-lo.
«Isso é tudo o que eu quero.»
Depois de se repreender, Yurij pegou a caneta de novo. Enquanto Cheriot se preparava para sair, ele estava anotando a aparência do cachorro que viu de manhã. Sua oferta de resgatá-lo não parecia vazia. Cheriot lhe pediu que o descrevesse com o maior detalhe possível, e Yurij, reconstruindo a lembrança, escreveu as características do cachorro em seu caderno.
Talvez porque fizesse muito tempo que ele não escrevia nada num caderno, o simples fato de escrever umas poucas linhas o fez sentir que estava fazendo algo significativo. Como em sua vida, depois do primário, nunca lhe foi permitido tempo para sentar e segurar uma caneta, agora sentia de verdade que sua situação tinha mudado.
O caderno tinha sido presente de Cheriot havia alguns dias. Depois de terminar a reabilitação, quando Cheriot lhe perguntou o que ele queria fazer além de descansar em casa, Yurij vinha pensando ultimamente em aprender gramática para entender melhor os livros que Cheriot lia para ele.
Ao escutar as histórias recitadas por aquela voz grave e suave, percebeu que no mundo havia muitas frases e palavras bonitas, e quis entendê-las melhor. Embora não combinasse com ele, de todo modo, como por um tempo não poderia forçar o corpo e teria que ficar em casa, aquilo lhe parecia mais proveitoso do que perder tempo.
Assim que Yurij mencionou que talvez estudasse gramática, naquele mesmo dia Cheriot foi direto a uma livraria e comprou livros de gramática e um caderno. Já era grato que ele escolhesse pessoalmente os livros para ele, mas além disso Cheriot lhe deu de presente uma caneta-tinteiro junto com um caderno.
A elegante ponta dourada e a caneta-tinteiro preta de grossura confortável para segurar pareciam caras à primeira vista. Estavam muito longe dos objetos mais baratos e básicos que Yurij costumava usar. Era um luxo que, mesmo tendo dinheiro de sobra, ele jamais compraria por vontade própria, e agora estava em suas mãos.
No começo ele recusou o presente porque lhe parecia um desperdício dar um objeto tão bom a alguém que não sabia valorizá-lo, mas ao ver o quanto Cheriot ficou desanimado quando ele lhe devolveu a caneta, não conseguiu recusar. Cheriot, que estava cabisbaixo, sorriu de repente e a entregou a ele.
A caneta-tinteiro que recebeu junto com o caderno ele guardou com cuidado na mala. Provavelmente nunca a usaria, mas como era o segundo presente de Cheriot depois dos livros, planejava colocá-la num lugar visível quando voltasse para casa.
Por isso a caneta-tinteiro estava em seu quarto e, para estudar, normalmente usava uma caneta barata que comprou no caminho depois da reabilitação. Na verdade, ele também queria guardar o caderno… mas como Cheriot, ao vê-lo estudando, perguntou por ele, não teve outro jeito senão usá-lo.
Para que durasse o máximo possível, ele o preenchia com escrita densa. Bem quando terminou de escrever tudo o que lembrava sobre o cachorro, ouviu o som de Cheriot descendo depois de se arrumar. Yurij sorriu de leve ao escutar o som característico de Cheriot descendo as escadas de dois em dois.
—Wolfie, eu vou sair um pouco. Hoje eu não volto tarde como ontem. Desculpa mesmo, mas você vai ter que almoçar sozinho. Tudo bem?
A voz de Cheriot já estava cheia de preocupação. Yurij, que ia responder que claro que estava tudo bem, ficou paralisado por um momento ao ver Cheriot caminhando em direção à sala.
«Terno? Até agora ele nunca tinha usado uma roupa dessas, ou tinha?»
Quando visitava a família ou via o advogado, usava um traje semiformal ou roupa alinhada, mas nunca tinha se vestido com um terno tão elegante quanto agora. Acostumado a ver Cheriot correndo feito um corcel ou se comportando como um cachorrinho, ao ver o rapaz tão bem-vestido sentiu uma agitação inexplicável.
«Eu sabia que ele era bonito… mas não a esse ponto.»
Sua beleza avassaladora, que ele notou quando se conheceram, hoje lhe chamava especialmente a atenção. Talvez pelo contraste entre seu cabelo ruivo-acobreado e o tecido preto de sua roupa, seu cabelo parecia mais vermelho e radiante que de costume, e seus ombros largos e angulosos acentuavam sua masculinidade. Suas pernas longas, envolvidas num tecido de luxo, se estendiam esbeltas como que para mostrar suas proporções perfeitas, e tudo isso se harmonizava com o belo rosto de Cheriot.
—Wolfie?
Como não obteve resposta de Yurij, Cheriot o chamou de novo. Como continuou sem resposta, Cheriot caminhou com passo firme em direção à sala. Seu jeito de caminhar parecia tão irreal que dava a sensação de uma ilusão. Ele até teve a impressão de que, se piscasse, ele desapareceria.
—O que houve? Por que você não diz nada? Está doendo alguma coisa?
O homem belo como uma ilusão não desapareceu em lugar nenhum, e sim se aproximou de Yurij. Como se tivesse posto um pouco de perfume, no feromônio de Cheriot se misturava um tênue aroma de madeira. Não era aquela fragrância intensa e fria que muitos homens usam, e sim um aroma natural próximo de terra e madeira.
Terno e perfume.
Haveria alguém que ele queria impressionar? Ou uma festa? Perguntas desnecessárias desordenaram sua mente. Com os lábios apertados, ele se perguntou por que se agitava tanto. Que Cheriot fosse bonito não era coisa de um dia ou dois.
Aliás, Cheriot era famoso até entre os esportistas por sua numerosa base de fãs, justamente por aquela aparência excepcional. Todo mundo já sabia que Cheriot Goodnight era belo e notável, e só Yurij estava redescobrindo isso agora.
Será porque ele sente de verdade que pertence a um mundo diferente do seu? Não. Isso ele já sabia bem. Tinha assimilado seu lugar havia tempo. Para nunca esquecer que eles não tinham nada em comum, nem sua criação nem seu ambiente, Yurij costumava repetir isso para si toda manhã ao acordar. Porque não devia se confundir pelo tempo que passavam juntos.
—Wolfie, se você continuar sem falar, eu vou ficar nervoso.
Enquanto Yurij, tomado pela imagem desconhecida, só o olhava em silêncio, Cheriot se aproximou com olhar inquieto. Parado diante de Yurij, que estava sentado no sofá, se inclinou para ficar na altura dele, como que suplicando que olhasse para ele. Ao ver aqueles olhos verdes cheios de preocupação fixos nele, Yurij pensou que devia dizer algo.
«Você está bonito.»
Ele queria dizer isso, mas as palavras não saíam. Embora fosse verdade que ele estava bonito, não era algo que o alegrasse sinceramente, então sentiu que estaria mentindo. Pelo contrário, ele queria perguntar outra coisa.
—O terno…
A pergunta de para quem ele tinha se vestido tão elegante rondou a ponta de sua língua. Era algo que Yurij não precisava nem devia perguntar, mas ele queria saber para quem ele tinha se arrumado com uma elegância capaz de enfeitiçar qualquer um que o visse.
—Ah, isso? Eu tenho que ver os meus avós separadamente, então não tive outro jeito senão me vestir assim. São pessoas que dão muita importância à formalidade.
Felizmente, antes que Yurij cometesse um deslize, Cheriot lhe deu a resposta. Ao ouvir que ele ia ver os avós, seu coração, que tinha afundado com peso, se aliviou no instante. Confuso por não saber por que seu estado de espírito flutuava tanto, ao ver Cheriot inclinando a cabeça e tentando encontrar de novo seu olhar, deduziu a resposta.
—E aí? Ficou bom em mim?
Embora o entristecesse pensar que a bela imagem de Cheriot que ele conhecia não era algo reservado só para ele.
—Ou eu estou parecendo sério demais?
Alegrava-o que um homem tão notável, amado por tanta gente, se inclinasse e ladeasse a cabeça só para escutar a resposta de alguém como ele.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna