Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.3
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 3)
As pessoas ao redor de Cheriot desconfiavam de Yurij estar ao seu lado, e Yurij sabia muito bem que ele não era alguém do ambiente adequado para Cheriot. Depois de escutar Alexei, pensou em se deixar tentar um pouco por Cheriot, mas nem por isso ansiava por uma relação transcendental.
Um vínculo para conversar de vez em quando. Trocar notícias e manter o contato para se ver ocasionalmente. Mesmo desejar isso já era demais para alguém como Yurij. No passado, ele nunca teria se permitido sentir tal alegria… mas depois de morrer e voltar à vida, pôde se tratar com um pouco mais de indulgência.
Por isso, às vezes seu coração relaxava demais e surgiam de repente vontades de tocar Cheriot como agora. Como tinha aceitado sem questionar toda a gentileza que Cheriot lhe tinha oferecido ao seu lado, ao que parece tinha esquecido qual era o seu lugar.
Repreendendo a si mesmo, Yurij reprimiu à força o impulso de tocar Cheriot. Contendo sua mão esquerda agitada, pensou que já era hora de fazer Cheriot entrar em casa.
—Entendi, então vamos entrar. Você ficou descalço lá fora tempo demais.
Ao dizer isso em voz baixa enquanto o olhava nos olhos, Cheriot assentiu submisso. Os dóceis olhos verdes o percorreram uma vez e depois soltaram o braço que estivera segurando o tempo todo. Uma forte sensação de pesar o invadiu.
—Você vai entrar comigo?
Cheriot, que tinha girado meio corpo, perguntou. Olhando para ele à espera de uma resposta, Yurij decidiu adiar o exercício da manhã para o dia seguinte. Como já tinha assustado Cheriot, não queria inquietá-lo de novo dizendo que ia sair para correr. Não era problema nenhum adiar o exercício um ou dois dias…
—Vou.
«Porque quando eu me recuperar por completo, vai desaparecer o pretexto pra continuar morando com o Cheriot.»
—Então, já que a gente está acordado, vamos tomar café da manhã. Eu preparo.
Embora achasse que devia recuperar seu condicionamento o quanto antes para voltar a Vancouver, quando via aqueles olhos que sorriam afetuosamente para ele como agora, sua determinação fraquejava. Não conseguia nem imaginar deixar sozinho aquele rapaz que, mesmo caminhando na frente, se virava imediatamente para conferir se Yurij o seguia.
«Na verdade, o Cheriot ficaria bem sem mim.»
Simplesmente, Yurij queria pensar assim.
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—O que era aquilo que você estava olhando antes?
Quando estavam terminando o café da manhã, Cheriot fez a pergunta como se de repente lembrasse de algo que tinha esquecido. Yurij, que tinha acabado de terminar a salada que Cheriot preparou com todo tipo de frutas vermelhas, piscou. Não soube a que ele se referia, até que pela sua mente passou a imagem do cachorro marrom entre os arbustos.
Ele tinha esquecido por um momento por causa da aparição de Cheriot, mas o cachorro de rua tinha estado no quintal dos fundos. Ao lembrar de sua pata traseira manca, se sentiu pesaroso.
—Um cachorro.
—Um cachorro?
—Parecia um cachorro de rua.
—Não terá se perdido do dono?
Yurij negou com a cabeça. Ele não tinha coleira e seu estado era lamentável, então não parecia um cachorro perdido. Yurij espetou uma amora com a ponta do garfo e se perguntou se o cachorro também comeria aquela fruta.
—Parecia faminto.
Seria melhor carne do que fruta? Quando as pessoas passam fome e depois comem algo gorduroso, ficam doentes; talvez com os cachorros fosse parecido. Enquanto pensava nisso e naquilo, Yurij pegou lentamente o garfo. Tinha perdido o apetite, mas não queria deixar o que Cheriot tinha preparado para ele. Então seus olhares se encontraram.
Cheriot o olhava fixamente com o queixo apoiado na mão. Tinha uma expressão quase contemplativa, como se estivesse observando-o assim havia um tempo. Quando Yurij, meio perplexo, ergueu uma sobrancelha, Cheriot falou com voz séria.
—Eu não sabia que o Yurij gostava de cachorro. Se eu soubesse, teria trazido um faz tempo.
—Não é que eu goste especialmente.
Não sabia de onde ele tinha tirado aquela conclusão, mas Yurij negou. No entanto, Cheriot continuou com seriedade.
—Agora que eu penso, os lobos pertencem à família dos cães. Como o Yurij é Wolfie, faz sentido que ele goste de cachorro. Só agora eu percebo.
Ele, que estivera escutando o comentário repentino, estremeceu ao ouvir o apelido «Wolfie» depois de tanto tempo. Por alguma razão, desde que Yurij acordou, Cheriot não o tinha chamado nem uma única vez com aquele apelido como antes.
Como o tempo que Yurij tinha ficado dormindo era mais longo do que o que tinham passado juntos, não era estranho que ele esquecesse o apelido. Mas para Yurij, que tinha se acostumado mais a ser chamado de Wolfie, aquilo tinha sido uma pena esse tempo todo.
Um pouco…
Ou talvez muito.
Mas ele não tinha o descaramento de pedir primeiro que o chamasse por um apelido a um homem com quem ele nem sequer namorava, então Yurij só tinha desejado em silêncio que Cheriot usasse aquele nome, ainda que de maneira inconsciente.
«Enfim ele disse.»
Era só um apelido, mas seu ânimo melhorou de uma maneira estranha. Yurij, estranhando sua própria mudança, apertou os lábios e depois, incapaz de se conter, voltou a abri-los. Sem saber se devia dizer aquilo, hesitou, mas no fim seguiu o que o coração lhe ditava.
—Antes, mesmo eu pedindo pra você não fazer isso, você me chamava assim sem mais.
—…Hã?
Cheriot arregalou os olhos.
—O que você quer dizer, Wol…?
Os lábios que iam dizer «Wolfie» se fecharam. Junto com uma expressão de ter errado, o apelido que ele tanto queria ouvir desapareceu e uma intensa sensação de pena brotou. Desviando o olhar de Cheriot e olhando de propósito para outro lado, tentou de algum modo se desprender do apego, mas sem querer as palavras continuaram saindo.
—Você sempre me chamava de Wolfie.
Depois de dizer, sentiu que era algo que realmente não combinava com ele, mas já era tarde demais.
—Depois que eu acordei, você não me chamou assim nem uma vez.
Embora dissesse isso, a boca de Yurij secou por completo. Ao lembrar, o apelido tinha surgido por uma regra estabelecida para ocultar a identidade de Cheriot diante dos outros e agora, numa situação em que já não precisavam se esconder, ele se preocupou por ter feito um pedido impertinente.
E essa preocupação se aprofundou quanto mais o silêncio de Cheriot se prolongava.
«Será que eu disse algo desnecessário?»
Aos poucos pensou que talvez tivesse incomodado alguém que já estava cansado por cuidar dele. Então as pontas de seus dedos esfriaram e o arrependimento por ter agido com precipitação o invadiu. Quando estava diante de Cheriot, ele cometia erros que não eram próprios dele. O mesmo tinha acontecido quando revelou sentimentos que devia ter escondido, e hoje também. Que bobo.
Quando já lhe custava suportar o silêncio e ele procurava uma desculpa que não era desculpa, Cheriot finalmente falou.
—Yurij, por acaso… você queria que eu te chamasse de Wolfie?
Só de escutar sua voz ele não podia saber que expressão Cheriot tinha. Enquanto especulava se sua pergunta era ruim ou boa, Yurij pensou na desculpa mais natural possível.
—…Como você sempre me chamava assim, eu estou mais acostumado com isso.
«Está muito na cara?» Surgiu um pensamento autocrítico. Ele queria saber que expressão Cheriot tinha, mas ao mesmo tempo não queria vê-la. Porque temia ver de novo o rosto de Cheriot sobrecarregado, como no dia em que tinha confessado seus sentimentos de maneira precipitada.
«Mas eu não quero que o Cheriot fique sobrecarregado.»
Seu estômago doeria se ele voltasse a presenciar aquela expressão. Para Yurij, os sentimentos de Cheriot eram mais importantes que os seus. Recomposto, Yurij pensou em como se retratar do que tinha acabado de dizer e girou a cabeça à força. Então seu olhar se encontrou com os olhos verdes que o observavam.
Não era a mesma expressão daquela vez.
Mas também não era fácil interpretá-la de maneira positiva. Cheriot parecia surpreso.
—Eu não sabia. Se eu soubesse, teria te chamado assim antes.
Era um murmúrio como se ele falasse consigo mesmo. Yurij esqueceu até de respirar por um momento e esperou as palavras que viriam a seguir. Cheriot, que passou a mão pelo cabelo, como se percebesse tardiamente, começou a explicar com calma.
—Como o Yurij disse agora há pouco, antes você me pediu pra não te chamar assim. Como é um apelido que eu usei por conta própria, ignorando isso… eu achei que você odiava. Eu não queria fazer nada que o Yurij odiasse.
Certamente houve um momento no começo em que Yurij pensou: «Por que você me põe esse apelido?» Mas em algum momento, toda vez que Cheriot o chamava assim, Yurij sentia como se um caminho para respirar se abrisse.
—Eu posso te chamar de Wolfie?
Como agora mesmo.
Embora cada dia com Cheriot fosse feliz, a angústia que ele sentia ao vê-lo não agir como antes se dissipou no instante. Ele até sentiu um alívio como se lhe tivessem tirado um espinho cravado na garganta. Relaxando os lábios que tinham se retesado, Yurij respondeu em voz baixa.
—Pode.
Então um sorriso floresceu por completo no rosto de Cheriot. Como se brotassem novos brotos, seus olhos verdes se iluminaram e, seguindo os cantos erguidos e radiantes, em sua bochecha direita apareceu uma pequena covinha.
Ah, a covinha.
Sobre as pupilas azuis de Yurij pousou o rastro que ele tanto tinha ansiado ver. Enfim apareceu a marca de uma alegria genuína, que não se podia ver no riso leve que Cheriot costumava dar por hábito.
—Wolfie.
Ao presenciar aquele sorriso que estivera escondido o tempo todo como numa brincadeira de esconde-esconde, o coração de Yurij também começou a bater mais rápido. Não bastava escutar o apelido; ao obter de uma vez o sorriso que tanto tinha desejado ver, um tremor irresistível ressoou em seu interior. A garganta coçou como se ele tivesse engolido uma pluma macia. Saiu-lhe um leve arrepio na nuca.
—Sim.
Como se o sorriso radiante fosse contagioso, Yurij também estava sorrindo com Cheriot sem perceber. Os lábios sob seus olhos serenos se curvaram suavemente numa linha curva. Cheriot, como alguém que tivesse visto uma cena deslumbrante, olhou o rosto de Yurij aturdido por um momento e depois, apoiando as duas mãos na mesa, inclinou o tronco de uma vez.
A distância se encurtou num instante. Yurij ficou paralisado pela aproximação repentina de Cheriot, que se inclinou como se fosse beijá-lo. Quando seus belos lábios rosados se aproximaram até ficarem diante de seu nariz, a tensão o invadiu. Embora já tivessem tido intimidade, Cheriot se sentia consciente demais, como se fossem um casal que nem sequer tinha se beijado.
A uma distância que quase roçava seus narizes, se olharam fixamente. Cheriot, que estivera sorrindo alegremente, ao olhar nos olhos de Yurij ficou rígido de uma vez, como se tivesse percebido algo. Com o rosto sorridente congelado, Cheriot mal baixou o olhar e percorreu os lábios de Yurij. No instante em que seu olhar tocou os lábios, Yurij soltou um fôlego ligeiramente acalorado e os cílios de Cheriot tremeram com força.
—Ei, hum.
Ele, que tinha emitido um som incompreensível, ergueu a cabeça com desajeito. Cheriot, como se separasse o olhar à força, girou o queixo e recuou lentamente. Depois murmurou com voz baixa e contida.
—Desculpa. Eu cheguei perto demais, né? É que eu ia me levantar e a minha mão escorregou.
—…Não, tudo bem.
«Então não era um beijo?»
Yurij engoliu em seco. Tinha parecido aquele clima, mas ao que parece ele tinha imaginado. Foi repentino. Não era como se ele estivesse no rut como daquela vez, então não fazia sentido que fosse beijá-lo de repente.
«…Embora eu tivesse gostado.»
Ao pensar isso sem querer, Yurij recobrou os sentidos de uma vez. Ao ver Cheriot sorrir, talvez tenha perdido a razão por um momento e teve um pensamento que não devia. Era muito provável que a atmosfera peculiar de pouco antes fosse só uma ilusão sua.
Cheriot se levantou lentamente da cadeira. Depois começou a recolher de repente os pratos vazios sobre a mesa. Yurij, que também pensou tardiamente que tinham passado tempo demais no café da manhã, baixou o garfo para ajudar. Quando deu sinais de se levantar também, Cheriot o deteve imediatamente.
—Yurij, não, Wolfie, fica sentado.
Cheriot corrigiu a forma de se dirigir a ele, como se já tivesse se acostumado mais a chamá-lo de Yurij. Embora desejasse que ele o chamasse de Wolfie, não era sua intenção pressioná-lo. Cruzou-lhe a mente a ideia de que talvez Cheriot estivesse se esforçando desnecessariamente pela culpa que sentia por ele. Ao refletir sobre sua atitude até então, era bastante possível.
—Não é necessário você usar o apelido de propósito toda vez.
Era verdade que lhe dava pena que ele não o chamasse assim, mas não valia a pena escutar isso se incomodasse Cheriot. Ao acrescentar aquilo para aliviar qualquer possível peso, Cheriot parou as mãos que recolhiam os pratos e falou apressadamente.
—Isso não pode ser.
Cheriot, que negou com força, fez uma expressão como se estivesse reprimindo algo. Ao se perguntar o que ele estava aguentando e sentir um pouco de frustração, Yurij olhou para cima. Então Cheriot baixou os cantos dos olhos. Ele parecia ter algo que queria dizer.
—Cheriot.
Ao chamá-lo pelo nome como que o instigando a falar, Cheriot fez uma expressão conflituosa. Yurij esperou com calma seu silêncio. Ao esperá-lo sem pressioná-lo, logo Cheriot falou como que reclamando.
—…E a mim, você não poderia me chamar de Cherry?
«Claro que sim.»
Embora não costumasse chamá-lo por apelido como Cheriot fazia com ele, se ao menos pudesse chamá-lo assim, é claro que ele iria querer.
—Cherry.
Ao pronunciar com cuidado o apelido doce como seu dono, Cheriot fechou a boca. Dava para ver que seus lóbulos das orelhas se tingiam de vermelho enquanto ele olhava para Yurij com os olhos muito abertos. E não só isso. Sua nuca branca ia enrubescendo aos poucos.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna