Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.14
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 14)
O cachorro, que estava cheio de desconfiança, assim que Cheriot o pegou com cuidado, se deixou levar docilmente. Sua atitude dócil, como se de verdade os tivesse escolhido, roubou o coração de Yurij e de Cheriot no instante. Como a clínica veterinária já tinha fechado, decidiram ir logo cedo na manhã seguinte. Por hoje, dariam um banho nele. Seu estado era desastroso demais para permitir que entrasse na casa.
Os dois colaboraram para lavá-lo. Yurij se encarregou de segurar o chuveirinho enquanto Cheriot movia as mãos por aqui e por ali esfregando o pelo do animal. Como não tinham xampu para pets, só ensaboaram as partes realmente sujas e enxaguaram o resto com água.
Felizmente, não havia ferimentos grandes nas patas traseiras. No entanto, ao tentar tocá-las, o cachorro retirava a pata num salto e deixava claro que aquilo o incomodava; algo ali sem dúvida lhe causava desconforto. Ao lavá-lo evitando aquela área, desapareceu a lama seca e pôde-se ver sua cor original.
—Wolfie, esse cara parece um aussie.
—Aussie?
—Quer dizer, um Pastor-australiano. São uns caras muito resistentes.
Uma vez limpo, com o pelo recuperado, o cachorro tinha uma bela cor marrom mais intensa do que o esperado. No pescoço e no centro do rosto ele tinha pelo branco, e perto das sobrancelhas cresciam uns tufos redondos e claros, quase dourados, como pintinhas.
Yurij gostou da cor do pelo. Parecia-lhe especial aquele marrom avermelhado e claro que lhe lembrava o cabelo ruivo-dourado de Cheriot. Tendo dissipado sua desconfiança, o cachorro começou a seguir Yurij por todos os lados, grudado em seus calcanhares, tal como Cheriot fazia.
Devido ao fato de aquele ter sido o dia mais ativo em muito tempo, Yurij sentiu o cansaço tarde. Cheriot, que percebeu antes dele, sugeriu que era hora de ir dormir.
—Hoje a gente pula a leitura e vai pra cama?
Ao lado de Cheriot, que fervia água para o chá antes de dormir, Yurij piscou com olhos fatigados. Achou que era uma pena pular pelo segundo dia consecutivo sua rotina especial de ficar sozinho com ele. Depois de refletir um momento, devolveu a pergunta.
—É isso que você quer?
—Não, eu adoro esse momento. Mas você parece muito sonolento, Wolfie.
—Eu também gosto desse momento.
Yurij, que estava sentado à mesa, se levantou e se aproximou de Cheriot. Ele tinha dormido bastante nas últimas semanas, então mesmo que hoje se deitasse um pouco mais tarde, desejava passar mais tempo com Cheriot.
—Se pra você estiver tudo bem, lê pra mim.
Ao se plantar ao lado dele, olhá-lo nos olhos e fazer o pedido, Cheriot enrubesceu ligeiramente as orelhas.
—Essa voz agora foi muito sexy, Wolfie.
Embora não lhe parecesse muito diferente da habitual, se Cheriot tinha gostado, tudo bem. Yurij esboçou um leve sorriso e decidiu tomar chá para despertar. No armário daquela casa, assim como na cabana de Big Fox, havia uma grande variedade de saquinhos de chá. Dava para notar que a mãe de Cheriot os tinha ido colecionando.
—Você vai tomar chá?
—Acho que vai ser bom enquanto você lê.
—Eu preparo. Qual você quer?
—Hmm.
Yurij esquadrinhou o armário e descobriu uma seção com geleias. Ali estavam, de diversas marcas: geleia de laranja, de morango, de mirtilo…
—Você também costuma tomar com geleia?
—Ah, isso foi a mamãe que deixou preparado pra Dolly. É que a Dolly gosta de tomar uma colherada de geleia ou gelatina e depois beber o chá.
Cheriot sorriu enquanto explicava e, como se de repente lembrasse, perguntou a Yurij.
—Você também toma chá preto com geleia? Da outra vez você parecia tomar puro.
—Você lembra.
Yurij sorriu de leve. Então ele lembrava de quando tomaram chá preto no primeiro encontro deles. Naquele dia, Alexei tinha acrescentado álcool e Cheriot tinha dissolvido açúcar. Parecia coisa de ontem e ao mesmo tempo de uma eternidade atrás.
—Eu lembro de qualquer coisa que tenha a ver com você, Wolfie.
—Você pôs torrões de açúcar. Eu lembro que você pôs bastante.
—Então você também lembra de mim?
A voz de Cheriot tremeu ligeiramente, emocionada. Ele se aproximou com expressão carinhosa, esfregando a cabeça, e Yurij lhe deu uns tapinhas enquanto assentia.
—Não é comum ver alguém pôr quatro torrões.
—Eu devo ter desenvolvido esse gosto pra causar uma impressão profunda no Wolfie.
Cheriot soltava aquelas palavras vergonhosas com um descaramento que beirava o atrevimento. Yurij, se sentindo um pouco sem graça, desviou suavemente o olhar para as geleias do armário.
Hoje lhe tinha dado vontade de provar algo doce.
Normalmente ele detestava doces, então nunca acrescentava algo assim ao chá. Às vezes punha limão, mas era só isso. No entanto, seu pai, seguindo a forma como sua mãe tomava, costumava pôr duas colheradas de geleia no chá preto e mexia para suavizar o sabor amargo concentrado da infusão. Nem todos os russos tomavam assim; principalmente os mais velhos apreciavam o chá dessa maneira. De repente, isso lhe veio à memória.
—Eu não ponho nada… mas a minha mãe costumava tomar chá preto com geleia.
Yurij estendeu o braço em direção ao armário, passando a ponta dos dedos pelo lado de fora do pote de vidro, e perguntou. Diante da menção de sua mãe, Cheriot ficou em silêncio um instante, se endireitou e se posicionou atrás de Yurij para observar também as geleias.
—Que sabor a gente deveria experimentar, Cherry?
Ao lhe perguntar, girando ligeiramente a cabeça para trás para olhar o alfa que o observava de cima, Cheriot sorriu com um sorriso único.
—Você acabou de dizer com a sua boca, Wolfie.
—O quê?
—Claro, sabor cereja.
Ao ver Cheriot agitar o pote de geleia de cereja que ele tinha localizado entre os outros com sua mão grande, Yurij voltou a sorrir. Com aquele jovem alfa era difícil não sorrir. Bem então, a chaleira apitou. Cheriot deixou a geleia, tirou com destreza duas xícaras e serviu a infusão de chá preto. Enquanto Yurij trazia a chaleira e despejava a água lentamente, Cheriot abriu a tampa da geleia.
—Quanto você quer?
—Hmm.
Duas colheradas com certeza seriam muito doces, mas ainda assim ele queria experimentar.
—Duas.
—Então eu também vou pôr duas.
—Tem certeza? O sabor vai ser diferente do de acrescentar açúcar.
—Eu quero experimentar do jeito que a mãe do Wolfie tomava.
Cheriot sorriu abertamente, pegou uma colherinha e serviu geleia de cereja na xícara dele e na de Yurij. A doce e vermelha polpa em calda se espalhou tentadoramente no chá.
Cada um com sua xícara, subiram juntos as escadas em direção ao quarto. O som de passos que os seguia ressoou no corredor: era o cachorro, que estivera deitado no chão cabeceando, se levantando para segui-los. Diante daquele som adorável, Cheriot se virou e perguntou alegre.
—Que nome a gente vai pôr nesse cara?
—Eu achei que obviamente você fosse pôr Cherry.
Desde que viu o pelo marrom, parecido com a cor do cabelo de Cheriot, Yurij já tinha pensado em segredo em «Cherry», então tomou a decisão com facilidade. Mas Cheriot se opôs.
—O quê? O único Cherry do Wolfie deveria ser eu. No futuro a gente vai se chamar em muitas situações, e se esse cara ficar confuso?
—Cherry parece encaixar melhor.
Enquanto discutiam pelo nome do cachorro, chegaram ao quarto. O animal, que os tinha seguido até ali, deu uma olhada na cama e, em vez de subir, foi se acomodar num canto. Cheriot olhou em volta, pegou uma manta que estava pendurada numa cadeira e a estendeu diante do cachorro.
O cachorro, que piscava com seus olhos azuis fixos em Cheriot, se levantou lentamente, deu uns passos e voltou a desabar sobre a manta. Diante daquele comportamento inteligente, Cheriot o elogiou usando o nome que tinha decidido por conta própria.
—Muito bem, Berry!
Yurij, que se dirigia à cama com sua xícara, conteve uma risadinha. Que fofo. Ele não queria lhe dar o nome Cherry, então tinha escolhido Berry como segunda opção.
—Yurij, que tal o nome Berry? É parecido com Cherry, mas não se sobrepõe a mim.
—Eu acho que Cherry é um pouco melhor.
—Mas não pode haver dois Cherry…
Cheriot, que tinha se aproximado empolgado depois de decidir o nome, fez cara de desanimado ao ver que Yurij não aceitava facilmente «Berry». A visão de seu tronco largo curvado sem forças, acariciando sua xícara, era quase lastimosamente adorável.
—Como você quiser, Cherry.
Se Cheriot desejasse, Yurij concordaria com qualquer coisa; ele nunca teve intenção de incomodá-lo por algo como pôr um nome.
—Quando a gente voltar pra Vancouver, eu vou registrar ele como Berry de verdade. Não tem volta!
Cheriot, largando seu fingimento de abatimento, desabou na cadeira ao lado da cama.
—Combinado.
—É uma promessa?
—Entendido.
—Vamos, me promete.
Cheriot estendeu o dedo mindinho. Diante do gesto desconhecido, Yurij só o olhou perplexo, e Cheriot moveu o mindinho. Yurij, que segurava a xícara, hesitou um momento e depois estendeu lentamente a mão. Cheriot enganchou seu dedo no mindinho ligeiramente erguido de Yurij, formando um laço, e sorriu.
—Prometido.
—…Sim, prometido.
Enquanto mantinha os mindinhos enganchados e depois os soltava, Cheriot acariciou com naturalidade o dorso da mão de Yurij. Aquele toque, ao qual ele aos poucos ia se acostumando, lhe produziu uma coceira inexplicável no peito. Com essa sensação que lhe fazia cócegas até a garganta, Yurij ergueu lentamente a xícara e levou o chá aos lábios.
O chá preto com a geleia de cereja dissolvida estava doce, como ele esperava. Duas colheradas tinham sido provavelmente demais. No entanto, o sabor era melhor do que ele pensava. O aroma levemente amargo próprio do chá preto se misturava com o sabor fresco e doce da cereja, criando um gosto mais profundo.
Enquanto Yurij dava mais uns goles, Cheriot procurava um livro na estante ao lado da cama. Depois de tirar e devolver vários volumes, perguntou a Yurij.
—O que eu leio pra você hoje? O que a gente estava lendo da última vez?
Yurij pensou um momento. Ele estava a fim de «Anna Kariênina», o presente de Cheriot, mas esse livro em particular ele queria ler e interpretar por si mesmo. Sem dúvida Cheriot o ajudaria com o que ele não entendesse, então ele conseguiria.
Recostando-se lentamente sobre a metade dos travesseiros, Yurij encontrou outra resposta. Havia um livro que ele queria pedir que ele lesse se ele voltasse a chamá-lo de Wolfie.
—Wolfie the Bunny.
Cheriot, que estava vasculhando a estante, girou a cabeça de repente para olhar Yurij. Seus olhos, redondos de surpresa, foram se curvando graciosamente até que ele sorriu tanto que lhe apareceu uma covinha numa bochecha. Soltou uma risada alegre que apareceu entre seus dentes brancos sob os lábios rosados.
—Hahaha, boa! De Wolfie the Bunny deve ter vários exemplares nesta casa.
Animado, Cheriot se levantou, esticou o braço em direção à prateleira de cima e tirou um livro de histórias com ilustrações encantadoras. Ao ver o lobo com roupa de coelho, veio à mente de Yurij o próprio Cheriot de antes, que o comparava com ele, e lhe surgiu um riso ao lembrar que ele tinha recomendado que ele lesse justamente aquilo. Era incrível, mas não desagradável. Naquele momento aquilo lhe tinha parecido absurdo, mas ele não ficou bravo.
—Você está pronto pra escutar a minha história favorita?
—Estou.
—Hmm.
Cheriot limpou a garganta. Depositou sua xícara no criado-mudo e, segurando o livro com suas mãos grandes, começou a ler as frases. Sua suave voz de barítono ressoou com calma junto à cabeceira de Yurij.
—A família coelho, ao voltar pra casa, encontrou um pacote diante da porta.
A história era adorável, do tipo de que Cheriot gostaria.
Um casal de coelhos que encontra um filhote de lobo decide adotá-lo como parte da família, mas Dott, a filha mais velha, acha que o lobo vai acabar devorando todos eles. Dott passa a noite em claro vigiando o lobo e depois continua observando sem parar suas ações, convencida de que ele é uma ameaça.
No entanto, depois de passar um tempo com o lobo à medida que ele cresce, Dott acaba aceitando-o como família. Quando vai comprar cenouras, ela se interpõe para salvar seu irmãozinho mais novo de um perigo. Embora trêmula, enfrenta um urso que tenta comer o pequeno lobo, consegue assustá-lo com seu corpo de coelho para enxotá-lo e resgata seu irmão apavorado.
Enquanto Cheriot lia com voz pausada as páginas não muito extensas, o sono foi tomando conta de Yurij. Quando Cheriot chegava à última página, seus olhos estavam completamente fechados e a força tinha abandonado ligeiramente a mão pálida que segurava a xícara.
Bem antes de mergulhar no sono, Yurij sentiu uma mão envolver a sua com suavidade e levar a xícara. Cheriot, com cuidado para não acordá-lo, retirou a xícara, deixou o livro e, inclinando-se sobre a testa de Yurij, que adormecia, depositou um beijo. A sensação morna e macia esvoaçou agradavelmente no centro de sua testa.
A luz do quarto se apagou e se ouviram os passos de Cheriot ao voltar para a cama. Yurij sentiu que Cheriot, depois de fechar a janela que tinha deixado entreaberta, se sentava ao seu lado. Quis lhe dizer que voltasse para o próprio quarto para dormir confortavelmente, mas suas pálpebras pesavam tanto que lhe era impossível abrir os olhos.
Assim, um silêncio acolhedor o envolveu…
—Boa noite, Yurij.
Soou uma despedida carinhosa, apropriada para um «Goodnight».
No rosto sereno de Yurij, já mergulhado no sono, se formou um leve sorriso. Cheriot contemplou por um bom tempo o homem que dormia sorrindo tranquilamente, e se inclinou mais uma vez.
Um fio fino de seu cabelo ruivo-acobreado caiu sobre a testa de Yurij e roçou levemente sua bochecha. Cheriot pousou lentamente seus lábios sobre os da pessoa que amava e bebeu docemente o fôlego que dele emanava.
O que dormia profundamente cheirava a geleia de cereja e a chá preto.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna