Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 08.11
1. Uma xícara de chá, duas colheres de geleia, sabor Deep Cherry (Parte 11)
Desde que chegou a Vancouver, ele vinha vivendo bem sem tristezas, então Yurij sentia pena por tê-lo assustado tanto. Sorrindo em silêncio, se desculpou.
—Desculpa, Timac.
[—Deixa pra lá, Yurij. Os homens também têm esses dias na vida.]
Vasili respondeu no lugar de Timac. Então Alexei, que só tinha estado escutando a conversa, interveio.
[—No hospital, Vacha, você parecia bravo comigo por ter envolvido ele em algo tão perigoso, né?]
[—Como ele sobreviveu, esse assunto já passou.]
[—Naquele momento eu também estava fora de mim e disse que era culpa minha, mas foi decisão do Yurij se meter em perigo por aquele cara de quem ele gosta.]
Embora Alexei tenha reclamado cruzando os braços, seu pai só soltou uma risada, —haha. Enquanto os dois mantinham uma discussão que não era discussão, Timac parou de soluçar e perguntou a Yurij.
[—Você está bem, né? Disseram que você também precisa de reabilitação. Quando você vai conseguir se mexer como antes?]
—Eu já estou quase recuperado. Estou bem.
[—Não acredita nesse cara.]
Alexei interferiu nas palavras de Yurij. Como se Timac concordasse, ele também o aconselhou.
[—Se você voltar a se esforçar demais pra proteger aquele jogador de hóquei, eu te bato com as minhas próprias mãos.]
Comparadas com as de Alexei ou Yurij, as habilidades de briga de Timac eram deploráveis, mas Yurij só assentiu com a cabeça.
—Eu vou tentar não fazer isso.
[—Uau, você nem sequer diz que não vai se esforçar.]
Timac começou a fazer birra, pedindo a Vasili que repreendesse Yurij. Vasili, que estivera sentado sem dizer nada, negou com a cabeça e, ao se levantar, disse uma coisa a Yurij.
[—Volta quando for hora de voltar. Eu vou trabalhar agora.]
[—Vacha, você já vai embora quando a gente acabou de ver ele depois de tanto tempo?]
[—Ver a cara dele é suficiente. Timac, você também não fala bobagem desnecessária e sai.]
[—Ainda me restam mais xingamentos pro Yurij!]
No entanto, a vontade de Timac não prevaleceu. Vendo como Timac era arrastado por Vasili e tirado da sala, Alexei e Yurij riram ao mesmo tempo. Uma vez que seu pai e Timac foram embora e só restou Alexei, Yurij se desculpou em nome do pai.
—Não dá ouvidos ao que o meu pai disse, Aliocha. Eu ter me machucado foi puramente resultado da minha escolha.
[—…]
Alexei franziu o cenho e ficou em silêncio um momento. Embora normalmente o tivesse repreendido e seguido adiante, dessa vez não disse algo assim. Ao ver seu rosto nublado pela culpa, Yurij trouxe à tona o passado.
—Você lembra quando você disse que ia matar o Volkov sozinho e eu disse que faria isso com você? É uma coisa parecida. Você tomou aquela decisão pelo Lieruchka… e eu te ajudei. Dessa vez dá pra ver como o contrário.
Alexei, que estava recostado na cadeira de braços cruzados, foi soltando-os lentamente. Com uma expressão muito mais leve que antes, perguntou a Yurij.
[—Então valeu a pena?]
—Valeu.
[—Se você diz isso, é suficiente.]
Murmurando em voz baixa, Alexei fechou a boca e olhou fixamente para Yurij. Em vez de tentar acalmá-lo com palavras desnecessárias, Yurij também ficou em silêncio. Então Alexei, desenhando lentamente um sorriso, fez uma pergunta maliciosa.
[—Então, como vão as coisas com o senhor Goodnight? Vocês estão juntos há um mês, então já devem ter uma relação grudenta, né?]
Ele ficou sem palavras por um momento. Como não tinha acontecido nada em especial, ele não tinha nada a responder à pergunta de Alexei. O que aconteceu hoje era trivial demais para mencionar, e lhe dava vergonha trazer à tona. Ao ver que Yurij não dizia nada, Alexei torceu os olhos e perguntou com aspereza.
[—Por acaso vocês ainda não estão namorando?]
—…O Cheriot é de um mundo diferente do meu. Eu nem sequer esperava namorar com ele desde o começo. Contanto que o Cheriot esteja a salvo, pra mim basta.
Como não queria escutar críticas a Cheriot, especialmente da boca de Alexei, Yurij lhe explicou várias razões como que para convencê-lo. No entanto, a expressão de Alexei continuava tensa sem relaxar.
[—Você está mesmo satisfeito com isso?]
—Se o Cheriot viver sorrindo, sim.
[—Yurij, agora mesmo você está errado. Escuta bem, e quem te diz isso sou eu, que observei o Lieruchka com um sentimento parecido com o seu.]
Alexei inclinou lentamente o tronco para a frente, se aproximando da tela, e depois aconselhou com voz baixa e contida.
[—Um amor que só dá é só filantropia. E o jeito como você olha pro Goodnight está longe de ser filantropia. Deixa só o Jesus da Bíblia dar sem esperar nada em troca. A gente não é sábio nem santo. Não existe um ser humano assim neste mundo.]
Como se tivesse detectado que Yurij se esforçava para ignorar seus próprios desejos, Alexei acertou em cheio. No fundo de seu coração, Yurij também sabia o quanto era difícil alcançar o desejo que tinha ansiado: que ele simplesmente sorrisse.
«Como eu poderia esquecer que uma vez os nossos lábios se tocaram?» Ele lembrava vividamente tanto o calor corporal de Cheriot, tão quente que parecia derreter, quanto os gestos com que ele o desejava com ânsia. A profunda marca gravada em sua alma o impedia de ver Cheriot apenas como um amigo puro e, quando estava ao seu lado, ele queria fazer algo mais que só observá-lo. Aquele tinha sido o impulso que ele sentiu o dia todo.
[—Eu já tinha te dito antes. Enquanto até esses desgraçados piores que cachorro que tentam matar a própria família vivem descaradamente bem, será que você, que não fez nada além de perder a vida inteira, tem que ser infeliz pra sempre? Eu ainda penso assim. Yurij, que diabos a sua mãe iria querer?]
Nem Alexei nem Yurij mencionavam quase nunca os pais falecidos. Ao escutar Alexei falar de sua mãe depois de tanto tempo, Yurij ficou paralisado.
[—É a sua felicidade. Qualquer pai decente iria querer isso. A sua mãe era uma pessoa corajosa e cheia de amor, então com certeza ela pensaria assim. Você mal escapou do Igor, não está tudo bem você agora se permitir ser feliz e desejar coisas? Por mais ambicioso que você seja ou por mais coisas que queira, você é um homem que nem chega perto do que os outros conseguem. Então deseja e anseia sem reservas. Faz coisas que alegrem você mesmo, como todo mundo faz.]
Durante o longo tempo em que esteve mergulhado no sono, Yurij sonhou com sua mãe. Ele não lembrava exatamente o que ela tinha lhe dito. Mas enquanto seguia a voz de Cheriot chamando-o de «Wolfie», escutou claramente a risada brilhante de sua mãe.
Yurij, que só lembrava do rosto decidido da mãe gritando que ele devia viver, então lembrou enfim do que sua mãe lhe tinha dito no passado. Sua mãe, que se sentava ao lado de sua cama quando ele era pequeno e cantava canções de ninar, sempre lhe dizia a mesma coisa antes de dormir. [—Seja feliz, minha pequena pérola.]
Ele sempre achou que ela dizia isso por hábito porque era uma situação em que ele não podia ser, mas, como Alexei dizia, sentia que, se fosse sua mãe, ela desejaria sinceramente sua felicidade e acreditaria que fosse possível. As outras palavras de sua mãe, esquecidas durante muito tempo sob lembranças dolorosas, rondaram a ponta de sua língua.
«Ser feliz…»
Alexei, que observava Yurij como que mergulhado em seus pensamentos, se espreguiçou. Como era alguém que vivia com o dia e a noite invertidos, era sua hora habitual de soneca. Além disso, ele devia estar cansado. Durante a encomenda, ele manteve sua infiltração e depois colaborou ativamente com a investigação policial, então levaria meses para se recuperar do cansaço.
[—Como o Vacha disse, volta quando quiser. A gente sempre vai estar aqui.]
—…Não vai demorar muito.
[—Isso vai depender de você, imagino.]
Como se a resposta de Yurij lhe agradasse, Alexei sorriu de leve. Sob os lábios de Alexei, que sorria como uma criança, se viam seus caninos brancos. Alexei fez um gesto de despedida e desligou a ligação, deixando Yurij sozinho à mesa.
Olhando fixamente o telefone cuja ligação tinha terminado, Yurij decidiu terminar primeiro o que queria fazer. Ligou a câmera e, conforme seu propósito original, tirou uma foto da comida. Pela primeira vez, uma foto de comida foi salva em seu álbum. Pensou em mostrá-la a Alexei quando o visse mais tarde.
Depois, Yurij serviu com cuidado a comida que tinha esfriado um pouco e, sem deixar nada, comeu tudo. O kulebiaka tinha uma gordura adequada e um bom sabor. Era tão delicioso que dava pena comer sozinho, e ele não pôde evitar pensar que teria sido bom se Cheriot estivesse ali.
«Da próxima vez a gente faz kulebiaka juntos. Ou a gente também poderia fazer medovik, como a gente falou antes. Com certeza o meu pai lembra da receita da minha mãe.»
Ele não sabia se Cheriot passaria esse tempo com ele… mas mesmo se ele recusasse, ele quis perguntar ao menos uma vez.
«Se a gente cozinhasse junto como daquela vez, com certeza seria divertido.»
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O tempo de espera por Cheriot passou muito mais devagar que o habitual. Perto do meio-dia, quando ele deveria chegar, Cheriot mandou uma mensagem a Yurij dizendo que levaria mais algumas horas, pedindo desculpas.
Dizer que ele não sentia pena seria mentira, pois vinha esperando por ele desde o momento em que ele saiu. No entanto, o emoticon chorando que Cheriot enviou depois de pedir desculpas era tão adorável que, mais que pena, ele sentiu orgulho e compaixão.
«Então, eu vou esperar um pouco.»
Como estava confortavelmente em casa, esperar não era difícil. Mas não lhe ocorria o que fazer para passar o tempo naquela casa sem Cheriot, então se sentiu perdido. «Parece que eu já me acostumei demais a estar com ele. Isso é um problema.»
Se estivesse em Vancouver, poderia passar o tempo trabalhando, mas ali era uma cidade sem nenhuma conexão com Yurij.
Enquanto refletia, Yurij começou a arrumar o que via à sua volta. Como Cheriot normalmente mantinha tudo muito limpo, não havia muito o que limpar. Por isso, a limpeza terminou em menos de uma hora.
Depois tentou estudar gramática, mas ao se sentar em silêncio só surgiam pensamentos inúteis, como o que Cheriot teria querido dizer ou quando voltaria, e ele não conseguia se concentrar de jeito nenhum.
No fim, Yurij decidiu percorrer o bairro. Era o momento perfeito, já que Cheriot não estava para ficar ansioso se ele se esforçasse um pouco. Embora estivesse ali havia um mês, não tinha explorado o que havia ao redor, e lhe pareceu útil descobrir hoje.
«Eu até poderia encontrar aquele cachorro que anda pelas ruas.»
Decidido, Yurij trocou de roupa rapidamente e calçou os sapatos. Seus tênis pretos, usados durante muito tempo, estavam com a palmilha desgastada e plana, então não eram adequados para caminhar muito tempo. Se caminhasse demais e se cansasse, Cheriot poderia se preocupar, então era melhor caminhar um pouco e voltar.
«Será que eu deveria comprar sapatos novos?»
Enquanto alongava os tornozelos e olhava fixamente para seus sapatos, esse pensamento chegou à sua mente. Já era hora de comprar uns novos depois de usá-los tanto. Já que ia sair, se perguntou como Cheriot reagiria se ele pedisse para irem juntos.
«Com certeza ele ficaria empolgado e tagarelaria pra sair imediatamente e, ao chegar na loja, me recomendaria tênis brancos, algo que eu nunca usaria normalmente.»
«Parece que os meus próximos sapatos vão ser brancos.»
Sorrindo em silêncio ao pensar nele, Yurij saiu de casa e começou a percorrer o bairro. Caminhou gradualmente em direção à costa, onde ressoava o som do mar, passando pelas casas do bairro sob a sombra de árvores grandes e altas. A cada passo, o peso de seu corpo se assentava com firmeza nas plantas de seus pés. Sentiu que estava vivo. «Era uma sensação diferente da de antes, quando nem respirar me fazia sentir vivo.»
«Será porque eu morri e voltei a viver? Por isso agora eu sinto de novo o peso da vida?» Ao ver Timac chorando de preocupação com ele, seu pai que supostamente estava bravo com Alexei, e Alexei, que parecia cansado pela culpa e pela tristeza, pensou que claramente sua vida não carecia de significado.
«Especialmente se eu, o filho dele, tivesse ido primeiro… eu teria causado ao meu pai, que já teve que se despedir dolorosamente da minha mãe, uma dor irreparável.»
Yurij observou em silêncio seu interior. Ali ainda residia o verão de seus dezenove anos, que sempre o atormentava. A emoção fria de seu eu mais jovem, que teve que presenciar impotente o fim dilacerante de sua mãe, cruzou sua mente.
«Essa lembrança ainda dói.»
Era uma lembrança que ele não podia esquecer nem que quisesse, e que também não devia esquecer.
Mas ele já não se sentia esmagado por essa lembrança pungente como antes. O testamento de sua mãe, que gritava —Sobreviva, Yurij!—, também não parecia uma obrigação sufocante. Agora Yurij tinha uma razão para querer viver.
Se tivesse morrido, agora não poderia sentir a brisa marinha que agitava seu cabelo, e teria esquecido como é caminhar.
Também não teria sabido como muda o feromônio de Cheriot ao se misturar com seu perfume, nem teria tido oportunidade de ver o quanto Cheriot era lindo vestido de terno.
E para sempre teria ignorado que gosto tinha o kulebiaka.
Ao pensar isso, sentiu apego pela própria vida, que tinha sobrevivido e agora caminhava por algum bairro de Boston. As palavras de Alexei, que o tinha repreendido dizendo que não desejar nada era coisa de sábios, roçaram seus ouvidos, e Yurij Kiselyov, que não era uma pessoa nobre e grandiosa como um sábio, decidiu aceitar com dificuldade que não era estranho que ele cobiçasse algo.
Ao inspirar profundamente, o ar frio encheu seus pulmões. Ele também continha um tênue cheiro de mar com um toque salino e o aroma de seixos molhados.
Sem fixar nenhum destino, Yurij caminhou sem rumo por um bom tempo. Como tinha facilidade para lembrar os caminhos por onde passava, avançou em silêncio pela estrada costeira sem medo de se perder. Yurij, que sempre tinha se deslocado por obrigação, gostava bastante do presente, em que caminhava sem pensar em nada.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna