Define The Relationship (Novel) - Capítulo 40
Capítulo 40
Já fazia um tempo desde que Ash havia saído cedo do trabalho. Londres, no auge do outono, estava se preparando rapidamente para mudar para o inverno. O ar agradavelmente fresco estava se tornando mais gelado, e os dias estavam ficando mais curtos. Outubro havia chegado antes mesmo de Ash perceber. Enquanto caminhava entre os turistas que tiravam fotos descontraidamente, ele olhava para o horizonte.
Mackenzie estava certa. Aquele sentimento estranho, uma sensação persistente de ter perdido algo, já durava há bastante tempo. Não importava o quanto pensasse a respeito, ele não conseguia identificar a causa. O trabalho deles progredia perfeitamente à medida que os cronogramas no gráfico de Gantt eram cumpridos, e nada estava errado, contudo a inquietude permanecia. Em vez de entrar no estacionamento de vários andares para localizar seu carro, Ash passou direto, seguindo para algum lugar a pé.
Depois de se aventurar por um beco tranquilo, passando por uma loja de artigos de arte e um teatro, Ash finalmente emergiu na rua principal. Do outro lado da estrada, por onde circulavam ônibus vermelhos e táxis pretos, ficava um lugar que ele frequentava — a National Portrait Gallery.
Ash olhou fixamente para a galeria de arte por um momento antes de atravessar a rua na mudança do sinal. Ele não estava no clima para uma exposição, mas, ainda assim, seus pés o estavam levando até lá. Era um impulso que nem ele mesmo conseguia entender. Ir para casa e descansar teria sido a melhor escolha, ou talvez assistir a um filme para descontrair. Como sempre, ele não deu atenção aos olhares — alguns passageiros, outros duradouros — que o acompanhavam. Olhando fixamente para frente, ele continuou caminhando com determinação, parando apenas quando avistou as costas de alguém.
Costas eretas com uma cintura esguia, elegantemente vestido em um terno sob medida, e cabelos grisalhos-escuros penteados para trás.
Assim que viu essa silhueta, ele não conseguiu pensar em mais nada. Ignorando a razão, Ash apressou o passo, seus sapatos batendo com urgência contra o chão. Seu peito se contraiu dolorosamente, como se seu coração estivesse sendo esmagado até virar nada. A distância entre eles se fechou em um instante. Ele alcançou o homem, e sua mão se estendeu. Naqueles breves segundos, enquanto tudo isso se desenrolava —
— Karlyle.
— sua mente não teve tempo para pensar, e seu corpo se moveu subconscientemente, movido pela impaciência. Sem que sua mente registrasse, suas mãos agarraram as roupas do homem com uma força não intencional. O homem, que vinha caminhando com passos firmes, tropeçou levemente devido à resistência e se virou. Antes mesmo de ver o rosto dele, Ash soube; aquele não era Karlyle.
— …Com licença?
O cheiro estava errado.
Os feromônios acres que emanavam de outro alfa não tinham nada a ver com os de Karlyle. O aroma sutil de Karlyle carregava um toque das flores de manacá-da-serra. Era um perfume tímido — um que Ash só conseguia sentir ao respirar fundo com o nariz aninhado contra a pele de Karlyle.
— Minhas desculpas — Ash murmurou, soltando rapidamente o homem. Seu rosto se recompôs em um sorriso perfeito.
O homem, que olhara para trás com uma mistura de irritação e perplexidade, relaxou a expressão diante da bela curva dos lábios de Ash. Inicialmente, ele pareceu conflituoso, dividido entre sua aversão inata a outro alfa e sua receptividade à aparência gentil de Ash, mas logo balançou a cabeça, sinalizando que estava tudo bem.
— Está tudo bem. Você me confundiu com outra pessoa?
O homem parecia mais jovem que Karlyle e, ao observar mais de perto, Ash percebeu que o terno dele, ao contrário do de Karlyle, não tinha um corte perfeito para o seu corpo. Era o tipo de terno pronto que se veria no distrito financeiro, perto das estações de Liverpool Street ou Bank. Seu porte, seu rosto — tudo era diferente.
Ash se repreendeu com uma risada incrédula.
“Olha que ridículo estou sendo agora.”
Apesar das diferenças gritantes, a fala polida do homem trouxera o rosto de Karlyle à mente mais uma vez. Ash balançou a cabeça.
— Por favor, me dê licença.
Ignorando as tentativas do homem de continuar a conversa, Ash passou por ele.
Em seu passo rápido, ele puxou o colarinho desabotoado de sua camisa azul e soltou uma risada curta, perplexo com a própria ignorância.
“Ah…”
“Isso é ruim.”
No caminho para casa, Ash se viu profundamente imerso em pensamentos, mas, ao contrário do que acontecera mais cedo na sala de reuniões, sua mente não vagou — agora ela tinha um assunto no qual se concentrar.
A primeira coisa de que ele se lembrou foi do silêncio dele. Aquele homem era a pessoa mais taciturna que Ash conhecia. Ele não conseguia se lembrar de jamais tê-lo ouvido falar sobre assuntos mundanos e cotidianos, muito menos expressar queixas sobre o trabalho. No entanto, sempre que Ash falava, ele sempre respondia.
E o fazia da maneira mais diligente.
O homem respondia a cada pergunta cuidadosamente, com uma voz agradável e um sotaque elegante, algo raramente ouvido de outros no círculo de Ash. O que havia começado como respostas breves e ríspidas mudara gradualmente. O número de palavras que ele usava aumentara — assim como a amplitude de seus assuntos — até que, eventualmente, aquelas respostas outrora ríspidas se metamorfosearam em belas frases.
Mesmo assim, Ash percebeu que ainda não sabia nada sobre ele. O que o homem fazia no trabalho? Como ele se sentia em dias específicos? O que ele estava pensando por trás daquela máscara sempre estoica? Ash não tinha nenhuma das respostas.
O homem era tão silencioso quanto a neve que cai durante a noite acumulando-se sem som em uma duna. Com aqueles olhos cinzentos e calmos que se assemelhavam a uma fina camada de cinza assentada, ele simplesmente olhava para ele.
Embora Ash sentisse que havia descoberto muitas das preferências do homem, quando pensava realmente a respeito, nenhuma lhe vinha à mente. Ele então percebeu que nunca havia descoberto o que o homem verdadeiramente desejava.
“Eu deveria ter feito mais perguntas.”
Sua mente então vagou para os lábios do homem — aquelas fitas finas que ganhavam um tom vermelho sedutor quando beijadas.
Para alguém que, sem piscar, referia-se a sexo e discutia a frequência como se tratasse de uma série de reuniões de negócios, o homem era inacreditavelmente inexperiente. No entanto, chocantemente sensual.
Ash não esperava que o homem fosse capaz de fazer aquele tipo de expressão. Ver um rosto tão frio derreter sob o seu toque era insuportavelmente erótico… Se ele próprio não tivesse vivenciado isso, jamais teria sequer adivinhado.
Quando suas línguas se entrelaçaram apaixonadamente, os lábios do homem estremeceram. Às vezes, sua língua hesitava antes de corresponder aos movimentos de Ash, como se ele fosse adepto do beijo; contudo, no momento em que Ash se aprofundava e roçava o céu de sua boca, seus lábios tremiam como se ele estivesse vivenciando seu primeiro beijo de novo.
Sempre que Ash provocava aqueles lábios doces, arrancando lamentos e gemidos suaves, o homem soltava um leve lamento, que se transformava em um suspiro mais caloroso e prolongado, e depois em um gemido cativante. Embora Ash tivesse se divertido com vários amantes diferentes, era a primeira vez que ouvia um som que despertava seu desejo de forma tão implacável. Com a lembrança do homem esfregando os lábios e recuando apressadamente após o beijo deles, Ash sorriu.
“Que adorável.”
Ele refletiu que o homem era tão cativante, de fato, que se tivessem se conhecido em circunstâncias normais, sem complicações, e namorado por um tempo, ele provavelmente teria se apaixonado por ele imediatamente…
Mas, toda vez que Ash sentia seus sentimentos crescerem nessa direção, algo sempre o puxava de volta. Antes mesmo de o relacionamento deles começar, o homem havia traçado uma linha clara.
“Eu preferiria que não desenvolvêssemos sentimentos desnecessários neste relacionamento.”
A declaração desapaixonada do homem havia sido arrogante, mas não inteiramente incorreta. Envolver-se com alguém que nutria sentimentos indesejados era tanto difícil quanto exaustivo. No entanto, mesmo que Ash compreendesse a razão por trás das palavras do homem, a declaração ainda o incomodava. Talvez conhecer a própria superioridade e traçar uma linha para evitar o que era desnecessário fizesse parte da etiqueta nobre.
A imagem do homem naquele dia, quando ele havia olhado silenciosamente para Ash antes de virar a cabeça sem expressão e repreender Nicholas, sobrepunha-se à memória dos encontros subsequentes deles. Mesmo agora, ele não conseguia entender por que o homem o havia escolhido, apesar da frágil primeira impressão deles, que por si só era uma exceção para Ash.
Ash mal conseguia se lembrar de já ter perdido a paciência. Ao longo de seus relacionamentos anteriores, ele fora o paciente, aquele que sempre se reconciliava antes que quaisquer discussões surgissem e que falava calmamente quando precisava lidar com um conflito. Nunca houvera a necessidade de aumentar o tom de voz. A única vez em que ele ficara verdadeiramente zangado fora quando era criança. Mesmo assim, Ash não demonstrara suas emoções brutas. Sua raiva não teria mudado nada.
Mas Karlyle trazia emoções diferentes dele. Karlyle era o único para quem ele dissera algo rude quando mal se conheciam e a quem ele havia revelado o seu eu sem sorrisos.
Eles não estavam namorando, mas tinham feito sexo. Karlyle, o homem que nunca estivera com outro alfa ou recebido ninguém por trás antes, havia permitido a entrada de Ash, o que tinha deixado Ash sem saber direito como se comportar perto dele.
Por isso, Ash havia tratado Karlyle da mesma forma que trataria seus outros parceiros românticos.
No entanto, uma pergunta permanecia.
Se Ash estivera tratando Karlyle como se estivessem namorando, mas não podia desenvolver nenhum vínculo emocional… como exatamente ele poderia chamar esse relacionamento?
Enquanto Ash ponderava sobre esse dilema não resolvido, o tempo havia passado. O homem continuará a se encontrar com ele de maneira diligente. Após dois ou três encontros, Ash achou que deveria ter obtido uma percepção mais clara a respeito dele, mas ele ainda não conseguia decifrar totalmente as expressões de Karlyle.
Por isso, Ash continuará tocando o homem, porque toda vez que o fazia, seus lábios firmemente selados se entreabriam uma fração, liberando respirações ansiosas e gemidos provocantes dos quais Ash nunca se cansava. E, finalmente, o homem começara a falar, compartilhando pensamentos que só podiam ser ouvidos na intimidade do quarto.
Ash suspeitava que tudo havia começado a mudar por essa época — no início do rut de Karlyle.
No meio do torpor induzido por seu rut, Karlyle havia ligado para Ash. O homem que havia rompido friamente o vínculo entre Ash e Nicholas na National Portrait Gallery tomara a iniciativa primeiro. Com uma voz baixa, ainda polida, mas colorida pela fragilidade, ele pedira para Ash ir até lá. Ao ouvir aquela voz, Ash seguira até Karlyle, apesar de seu coração em conflito.
Ao ver Karlyle, que olhava para Ash, com o lubrificante a postos e com olhos suplicando para que ele fizesse algo, Ash o possuíra de forma selvagem, como se ele próprio fosse o único no rut, e não Karlyle. Karlyle, perdido no ápice daquele fervor, parecia incapaz de registrar totalmente o que estava acontecendo, mas qualquer observador certamente teria presumido o mesmo.
Ash sabia agora que o homem, embora ainda fosse um mistério, era irresistivelmente atraente. Suas orelhas, seu pescoço, as linhas retas de suas clavículas, a leve depressão de seu peito, a pele sensível no lado interno de seus pulsos, seus tornozelos, suas coxas — cada parte do corpo de Karlyle era deslumbrantemente bela e inacreditavelmente sensível.
Se Karlyle tivesse sido seu amante, Ash teria gravado traços de si mesmo por todo aquele corpo magnífico, incapaz de resistir a provar cada pedaço dele. No entanto, Ash reprimira com destreza seu desejo instintivo crescente. O relacionamento deles não era algo que duraria mais do que um mês, e homens como Karlyle não tinham motivos para continuar se encontrando com Ash.
Quando Karlyle expressara a intenção de abrir mão de qualquer conexão emocional, Ash havia se lembrado do outro único nobre que conhecia, embora com uma personalidade completamente diferente. Ash compreendia que os nobres viviam em uma sociedade própria, que era governada por suas próprias regras e expectativas distintas.
“Por favor… fique ao meu lado… só por um tempinho.”
Se Karlyle ao menos não tivesse dito aquelas palavras, então Ash não teria esperado por algo mais, mesmo até o fim. Se ao menos ele não tivesse sussurrado tão docemente antes de pegar no sono.
“Sinto muito, não poder ajudar.”
Se ao menos ele não tivesse expressado aquele pedido de desculpas e olhado para ele com tanta saudade. Se ao menos ele não tivesse dito timidamente a Ash e Natalie que nunca tinha saído com ninguém, ou admitido que nunca havia beijado ninguém mais de uma vez.
Se Karlyle não tivesse feito ou dito tantas coisas que despertavam dúvidas, Ash estaria enfrentando o dia com leveza agora. Mas ele não conseguia. Com o passar do tempo, Karlyle falara e se comportara de maneira inesperada.
Sempre que um traço de emoção surgia nas feições frias de Karlyle, Ash sentia que estava testemunhando uma cena da mitologia romana. Como se a própria vida tivesse sido soprada no mármore, o calor tocou a tez pálida de Karlyle.
Pouco a pouco, seus lábios se suavizaram como uma flor de desabrochar lento. Então finalmente chegou o dia em que aqueles lábios firmemente fechados se transformaram em um sorriso radiante. Ash ficara encantado com a visão.
Sempre atraído por coisas belas, Ash vira inúmeras maravilhas ao longo de sua vida, mas o sorriso de Karlyle naquela manhã seguinte específica foi diferente de tudo o que ele já tinha visto. Foi a visão mais bonita que ele já havia contemplado, tão totalmente cativante que ele não conseguia desviar o olhar.
A curiosidade surgiu dentro dele. Perguntas que Ash anteriormente havia varrido para debaixo do tapete para evitar conflitos ou envolvimentos desnecessários o inundaram de uma só vez.
Por que você sorriu para mim?
Por que você disse que queria me ver de novo?
Por que você não gostou que eu mencionasse outros alfas?
Karlyle, você… gosta de mim?
Havia inúmeros momentos aqui e ali que confundiam Ash — as respostas inesperadamente rápidas, a maneira como ele dava o nó enquanto recebia Ash, seus olhos avermelhados e cheios de lágrimas. Todas essas coisas o deixavam perplexo porque estavam em completa contradição com o suposto desejo de Karlyle de manter quaisquer sentimentos fora disso.
Ash nunca conhecera ninguém tão difícil de entender. Às vezes, Karlyle começava a aceitar seu toque silenciosamente, mas em outras ocasiões, olhava de volta para ele sem expressão. Isso fazia Ash se perguntar se os momentos de ternura, quando Karlyle se inclinava contra a mão de Ash, não passavam de um mal-entendido. Sua expressão era muito difícil de decifrar.
No entanto, seu rosto sorridente era diferente.
Olhando para aquele homem sorrindo para ele com os olhos suavemente arqueados, Ash sentira um desejo avassalador de saber o que se passava por sua mente, mesmo sabendo que não tinha o direito de perguntar. Afinal, eles não estavam em um relacionamento. Mesmo após se separar de Karlyle, Ash não conseguia parar de pensar nele; a imagem do sorriso silencioso de Karlyle pairava em sua mente.
No dia em que recebera uma mensagem de texto de Karlyle dizendo que tinha algo para lhe contar, muitas perguntas haviam ressurgido em sua mente. Ele quisera perguntar o que Karlyle realmente pensava dele. Sentia que apenas receber a resposta acalmaria seu coração turbulento.
No entanto, quando Karlyle veio buscá-lo, ele nem sequer dera tempo para Ash perguntar. Em vez disso, ele havia deixado escapar algo completamente inesperado:
“O que eu queria te dizer hoje é… não há necessidade… de continuarmos com os nossos encontros.”
O homem sempre superava as expectativas de Ash, então isso não deveria ter sido surpreendente. Mesmo assim, ele se sentiu estranhamente amargurado por aquelas palavras. Ash havia estudado o rosto de Karlyle sem se mover, procurando por algo.
Mas ele não conseguiu encontrar. O sorriso de dentro daquele exterior frio havia sumido sem deixar vestígios. Um sentimento complicado havia crescido dentro dele.
Era isso?
Ash havia sorrido, embora intimamente pudesse estar mais zangado do que imaginava. Ele havia se perguntado o que Karlyle queria lhe dizer, tendo inclusive feito o esforço de ir buscá-lo, mas, em vez disso, estava ouvindo aquilo.
Na verdade, Ash não tinha o direito de estar zangado com Karlyle, mas, da mesma forma, ele sentia que a reação era justificada — já que o relacionamento que havia começado por boa vontade tinha se tornado um que ele agora desejava manter.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr