Define The Relationship (Novel) - Capítulo 39
Capítulo 39
— Diretor? — uma voz chamou. Ash, que estivera olhando distraidamente pela janela, ouviu a voz, mas não a assimilou totalmente. Seu olhar estava direcionado para o céu lá fora, que exibia um azul claro e penetrante, tão brilhante que ardia os olhos. O sol alto lançava feixes de luz nítidos sobre os edifícios e o pavimento. Era um dia irritantemente radiante.
— …Diretor?
Ash só desviou o olhar quando ouviu a voz chamando-o novamente.
Ele piscou, seu rosto ainda desprovido de qualquer mudança de expressão. Olhando para ele com uma expressão intrigada estava Mikayla, e ela não era a única. O restante da equipe na sala de reuniões também estava boquiaberto olhando para Ash.
— Desculpe, minha mente divagou por um momento. — disse ele.
Divagou?
Mesmo enquanto dizia isso, ele não tinha total certeza. Ele não estivera pensando em nada em particular. Para falar a verdade, ele estivera a quilômetros de distância por um momento, com a mente completamente em branco.
— Todos nós tivemos um período bem difícil ultimamente. Obrigada a todos por trabalharem extra duro. Estamos na reta final agora, então vamos nos esforçar só mais um pouco. As exibições finalmente entram em cartaz na próxima semana! — anunciou Mackenzie, uma das fundadoras do estúdio. Seu chanel castanho-dourado balançou enquanto ela sorria cordialmente para Ash.
Ash, com a mesma naturalidade de sempre, retribuiu o olhar de olhos castanhos dela com um sorriso polido. Mackenzie arqueou uma sobrancelha e, em seguida, balançou a cabeça antes de bater as mãos.
— Muito bem, pessoal, vamos fazer uma pausa. Vão pegar um café — na verdade, não. Esqueçam a cafeína. Nenhum de nós sente mais o efeito dela mesmo, certo? Bebam um chá de ervas, em vez disso. Isso sim faz bem para o corpo.
Diante disso, várias risadinhas ecoaram pela sala. Nesse ramo de negócios, trabalhar até tarde da noite e nos fins de semana era a norma, mas Mackenzie se esforçava para manter uma atmosfera unida, do tipo familiar, que lembrava o início deles como um pequeno estúdio. Ela também prestava muita atenção ao pagamento de horas extras e ao bem-estar dos funcionários.
Assim que os outros membros da equipe saíram em meio à atmosfera calorosa, Mackenzie cruzou os braços.
— Certo, o que está acontecendo com você ultimamente?
— Comigo? — Ash arqueou uma sobrancelha, intrigado. — Acho que não cometi nenhum deslize — acrescentou ele com um sorriso.
— Geralmente você é tão perfeccionista que me assusta. Agora, te ver tão perdido, é ainda mais assustador.
As rodas de sua cadeira rangeram enquanto Ash mudava de posição no assento. Ele soltou uma risada curta e deu de ombros, voltando a olhar pela janela.
Ele não sabia como explicar a sensação de inquietação que o corroía, mas era como se algo importante tivesse escapado por entre seus dedos. Ele já estava desse jeito há um mês.
— Você está agindo como se tivesse perdido algo precioso.
Mackenzie sempre fora perspicaz, desde os tempos deles na Central Saint Martins. Se ela acreditasse que seu raciocínio era sólido e irrefutável, não hesitava nem uma vez em desafiar até mesmo os professores. Observando-a, sua veterana naquela época, Ash havia aprendido muito — desde como trabalhar até como se apresentar.
Apesar disso, ele ainda achava difícil ser tão direto quanto ela. Ash preferia não revelar os lados mais afiados de sua personalidade, que haviam sido moldados por sua criação. Em vez de demonstrar seu descontentamento abertamente, Ash havia dominado a arte de estabelecer limites no momento perfeito. É claro que essa estratégia não funcionava com todos; seus sorrisos frequentemente pareciam incitar mal-entendidos, ao contrário de suas intenções. Mesmo assim, a vida de uma pessoa que sorria era muito mais fácil do que a de uma que não sorria.
Essa criança, que havia crescido em um lar no qual constantemente precisava avaliar as emoções de seus pais, desenvolvera-se para ser mais perceptiva do que as outras. Ash logo aprendera a ler o humor das outras pessoas e a reconhecer rapidamente suas intenções subjacentes a partir de detalhes tão pequenos quanto a fala e a linguagem corporal.
Desde que sua mãe falecera e seu pai se casara novamente, Ash havia sorrido todos os dias, sem falhar. Sua madrasta, que trouxera seus próprios filhos para o casamento, buscava obsessivamente encontrar defeitos nele, sempre procurando maneiras de criticar Ash sempre que ele não estava sorrindo. Mais cedo ou mais tarde, ela inventaria um motivo para sua desaprovação, aumentaria a proporção das coisas e levaria suas queixas ao pai dele. Mesmo que Ash estivesse simplesmente perdido em pensamentos, a falta de um sorriso era o suficiente para ela acusá-lo de ser um
mau humor ou de estar ignorando-a. Não importava como ele tentasse se explicar, ele nunca conseguia se fazer entender por ela.
Enquanto isso, aquele pai dele permanecia totalmente indiferente — o que era natural, é claro, já que aquele homem nunca havia amado Ash de verdade.
Dez anos de idade era jovem demais para perceber que as pessoas não se importavam de verdade com os sentimentos genuínos dos outros, mas Ash nunca ficara triste com esse fato. Graças à esperada falta de conexão, ele havia aprendido rapidamente a receber amor sem se desgastar emocionalmente.
A partir de um certo momento, Ash passou a ser conhecido como alguém de comportamento gentil, habilidoso em interações sociais, e essa imagem lhe serviu bem para navegar pelo mundo. Conforme amadurecia, ele aprendeu a estabelecer limites, tornando-se uma pessoa charmosa, porém difícil de se aproximar. No entanto, isso parecia atiçar o desejo das pessoas de superar o desafio de chegar mais perto dele.
As regras de Ash eram simples. Para aqueles que ele amava, ele daria tudo de si. Para todos os outros, ele estendia apenas as cortesias predeterminadas. Ele era excepcionalmente bom em manter esse limite.
Contudo…
— Tem algo errado? — Mackenzie perguntou.
Apenas uma coisa. Havia apenas uma pessoa para quem as regras simplesmente não se aplicavam.
— Não — Ash respondeu.
Ou melhor, havia existido tal pessoa.
Inclinando-se para trás em sua cadeira, Ash esfregou o queixo, com os olhos se estreitando em um sorriso.
— Como você disse, temos estado ocupados ultimamente, já que conseguimos aquele novo grande cliente.
Ele não tinha a intenção real de provocar culpa nela, mas Mackenzie fez uma expressão de desculpas. Enquanto passava a mão pelo cabelo, ela admitiu:
— É, graças a isso e por termos que conciliar os projetos em andamento, tivemos que sobrecarregar você.
Ash deu de ombros.
— É igual para todo mundo.
Embora eles estivessem cumprindo uma quantidade semelhante de horas, a intensidade do trabalho vinha sendo vastamente diferente. Até mesmo Mackenzie estivera presa no estúdio, mal conseguindo ir para casa. Nas raras ocasiões em que ela de alguma forma conseguia voltar, ainda assim acabava trabalhando de lá.
Ash estava suportando o mesmo. Ultimamente, o fluxo de trabalho vinha sendo implacável, em grande parte devido a um novo projeto — um projeto desafiador para o qual, tipicamente, seu estúdio, que buscava um design inovador, não teria sido contratado. Eles haviam recebido propostas simultâneas de uma loja de departamentos de alto padrão e de um grande canal de TV que privilegiava o design tradicional.
No momento em que Ash ouviu falar sobre isso, uma pessoa imediatamente lhe veio à mente. Havia apenas uma em seu círculo de conhecidos capaz de mexer os palitinhos para garantir a eles aquela oportunidade. A princípio, Ash tivera a intenção de ligar para Karlyle para recusar, mas decidiu não fazer isso quando viu Mackenzie encantada, expressando animadamente que excelente acréscimo esses trabalhos seriam para o portfólio do estúdio.
Desde o início, Ash nunca tivera a intenção de receber nada de Karlyle. Suas interações com ele haviam sido puramente por favor pessoal — uma extensão de seus sentimentos por Nicholas. Ele não queria adicionar nenhum senso de obrigação à dinâmica deles. No entanto, por alguma razão, ele se viu em apuros para recusar, embora não pudesse ter certeza do porquê.
Enquanto ele ruminava, o trabalho havia começado. Decisões precisavam ser tomadas rapidamente e, antes que se desse conta, ele se viu envolvido em um cronograma absurdamente agitado. Sem exagero, seu telefone celular vibrava incessantemente ao longo do dia enquanto ele tentava dar conta das coisas.
— Não, até eu acho que é demais. Claro, o pagamento é ótimo, mas… me desculpe. Por que você não vai para casa mais cedo hoje? — sugeriu Mackenzie.
Ash balançou a cabeça, interrompendo seus pensamentos, que estavam indo em uma direção diferente.
— Seria melhor se eu colaborasse para deixar isso terminado.
— Esta não é a primeira ou a segunda vez, sabe? Eu peguei você olhando para o vazio várias vezes ao longo das últimas duas semanas. Então eu acho que não. Apenas termine de guardar as coisas e vá para casa. Fim de papo. — O tom dela não deixou margem para discussão. Mackenzie era obstinada com coisas assim. Em vez de desperdiçar sua energia tentando convencê-la do contrário, Ash cedeu.
Afinal, ele estava um pouco cansado.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr