Define The Relationship (Novel) - Capítulo 27
Capítulo 27
Semana 6
Karlyle estava no carro a caminho de Bath, onde seu avô, o Marquês de Bath, residia, quando notou a notificação de mensagem. Suas mãos, que pairavam sobre o laptop, pausaram e se moveram para o celular. Era de Ash.
Você já almoçou?
No último fim de semana, quando Karlyle havia retornado para casa, ele tinha enviado diligentemente uma mensagem conforme Ash havia dito. Ash respondera logo em seguida, como se estivesse esperando pela mensagem de Karlyle. Eles haviam trocado mais duas mensagens, cada um desejando ao outro bons sonhos.
Essa breve interação fizera o coração de Karlyle palpitar, de modo que ele passara um tempo considerável elaborando cada resposta. Ele também se preocupara de que responder rápido demais pudesse dar a impressão de que ele não tinha nada melhor para fazer além de esperar pelas mensagens de Ash. Reconhecidamente, isso não era totalmente mentira.
Ele presumira que aquilo seria um evento único, contudo, a partir daquele fim de semana, Ash vinha enviando mensagens ocasionais. Embora as mensagens deles não fossem excessivamente íntimas, eram o suficiente para colher informações sobre o bem-estar um do outro.
As mensagens de Karlyle eram concisas a ponto de serem ríspidas, seu tom rígido não muito diferente de sua fala pessoalmente. Em essência, elas não eram particularmente interessantes de se ler. Apesar disso, Ash conseguia guiar a conversa da maneira mais natural possível, o que os levava a trocar pelo menos quatro mensagens por dia.
Essa interação por si só mantivera Karlyle radiante por três dias inteiros, para seu próprio embaraço. Havia muitas emoções que ele estava vivenciando pela primeira vez com Ash, emoções que não conseguia controlar bem. Embora não tivesse se comportado ou sorrido de maneira diferente, o tempo de uso de seu celular pessoal havia aumentado um pouco.
— É aquela pessoa?
Como era de se esperar, Kyle foi o primeiro a reconhecer a mudança em Karlyle. Quando não estava com Nicholas, que trabalhava como orientador jurídico da família, Kyle frequentemente acompanhava Karlyle ou Jonathan. Assim, Karlyle naturalmente passava um tempo considerável com Kyle, para a alegria de Karlyle, já que ele amava profundamente seu irmão mais novo.
Pelo que conseguia se lembrar, Kyle tivera problemas para interagir com outras pessoas quando era mais novo, mas, depois de frequentar a universidade com Nicholas e trabalhar como advogado em um escritório de advocacia, ele havia se tornado bastante adepto em gerenciar funcionários e negociar com parceiros de negócios.
Agora que Kyle estava se imergindo nos negócios da família, não havia dúvidas sobre o quão rapidamente ele estava aprendendo. Como resultado, o papel de Karlyle havia sido reduzido a simplesmente introduzir Kyle nas reuniões de negócios.
— Sim — Karlyle respondeu. Seu olhar permaneceu em Kyle por um momento antes de retornar ao celular para se concentrar em organizar seus pensamentos sobre o que escrever.
No almoço, Karlyle e Kyle haviam comido culinária japonesa em um restaurante com chefs altamente experientes.
Eu comi sushi. E o senhor, Sr. Jones?
Ele havia hesitado por um longo tempo antes de direcionar a mensagem ao “Sr. Jones” e, finalmente, enviá-la. Teria sido na segunda-feira? Ash havia mencionado algo na ocasião.
Voltamos para Sr. Jones? Mesmo depois de você ter me chamado de Ash na casa da Natalie perfeitamente bem.
Não era uma crítica, mais como uma reclamação leve. Com a adição dos símbolos de risada que Karlyle já tinha visto antes, parecia até um tanto cativante.
No entanto, Karlyle ficou encabulado. Ele não se lembrava exatamente do porquê de ter chamado Ash pelo seu primeiro nome naquele dia. Ele fizera isso inconscientemente, provavelmente para garantir que Natalie, que pensava que eles estavam namorando, não achasse estranho.
Agora que ele estava consciente disso, chamar Ash pelo seu primeiro nome parecia um tanto embaraçoso. Não era que ele não quisesse; apenas parecia íntimo demais. Ele se preocupava que, ao fazer isso, pudesse agitar além da conta seu coração que já estava deslumbrado.
Enquanto ele contemplava, a resposta de Ash chegou. Havia se passado cerca de cinco minutos. Uma foto estava anexada desta vez.
Parece que estamos em sintonia. Estou comendo a mesma coisa que você, Karlyle.
A foto mostrava sashimi e sushi de salmão em uma embalagem plástica para viagem. Um vislumbre da mão bem moldada de Ash também fora capturado na foto. A foto exibindo a comida em uma composição limpa, porém apetitosa, refletia a personalidade de Ash.
Embora o fato de terem comido o mesmo prato não significasse realmente nada, aquilo inexplicavelmente deixou Karlyle ainda mais contente.
O almoço de caixa que Ash estava comendo era de uma rede de restaurantes japoneses, com a qual Karlyle estava familiarizado por monitorar as tendências de mercado para o seu trabalho.
Pergunto-me se isso será o suficiente para saciá-lo.
Karlyle estava genuinamente preocupado. Considerando o gasto energético da atividade diária e a taxa metabólica basal de um homem adulto e musculoso, a porção parecia insuficiente.
Costumo ter almoços leves, então isso é mais do que suficiente para mim.
Ultimamente, as mensagens eram trocadas quase sem nenhuma pausa. Karlyle deu-se conta de que estava totalmente focado em cada palavra antes de piscar de surpresa. Sentiu-se culpado por desperdiçar tempo. Isso ocorria especialmente porque ele nunca havia enviado ou recebido tantas mensagens sobre assuntos tão triviais e mundanos.
Ainda assim, como Ash havia iniciado a conversa, Karlyle não podia interromper a troca sem antes responder de volta. Reprimindo o impulso de estender o diálogo, ele digitou um texto para encerrá-lo. O arrependimento retardou seus dedos que já estavam relutantes.
Tenho alguns assuntos de trabalho a tratar.
Uma frase formal e profissional havia sido formada. Ele a encarou por algum tempo e então, insatisfeito, adicionou outra frase.
Se não for incômodo, posso lhe enviar uma mensagem novamente esta noite?
Olhando para as duas frases finalizadas, Karlyle deliberou por mais um tempo. Ele não conseguia prever se Ash gostaria ou não. Estivera hesitando com o dedo pairando sobre o botão de enviar, mas finalmente o pressionou. Sua respiração ficou presa na garganta.
A resposta não veio tão rapidamente quanto antes, levando bem mais de dez minutos. Karlyle deixou o celular de lado e tentou ler os documentos em seu laptop novamente, mas não conseguiu se concentrar de forma alguma.
A concentração era um traço inato, mas também o resultado de treino. A concentração que Karlyle havia aprimorado ao longo dos anos desmoronou com uma única mensagem de Ash.
Karlyle lutava para resistir à tentação de olhar para o celular a cada instante. O destino deles estava logo virando a esquina e, como nenhuma falha seria tolerada diante de seu avô, não restava tempo para tais distrações.
Embora o avô indubitavelmente já estivesse ciente dos resultados dos investimentos que Karlyle lhe reportaria, Karlyle não podia se dar ao luxo de cometer qualquer deslize. Por isso, ele precisava se preparar para a perfeição.
Apesar de sua resolução, assim que o celular vibrou, Karlyle não conseguiu resistir à tentação de verificar o conteúdo da mensagem. Ele conseguia sentir o olhar de Kyle. Seu coração disparou de apreensão com a ideia de dar um exemplo tão ruim diante de seu irmão.
Desculpe pela resposta tardia. Tive que receber o briefing de um relatório agora pouco. Você faria isso, Karlyle? Então trabalhe duro, e nos falamos à noite. Ficarei esperando.
No entanto, o coração pesado de Karlyle se aliviou sem deixar vestígios de preocupação diante da resposta gentil de Ash. O coração de Karlyle batia forte. Ele temia que o som de seus batimentos acelerados, junto com sua respiração abafada, pudesse ser ouvido.
Ele nunca soubera, até agora, quão ardentemente a palavra esperando podia agitar o coração de alguém. Karlyle, cujos minutos e segundos sempre foram ocupados com deveres e valores, agora se pegava desejando, pela primeira vez, que o tempo acelerasse o seu passo.
Seu rosto habitualmente inexpressivo suavizou-se, e um sorriso terno formou-se ao redor dos olhos de Karlyle. Kyle piscou surpreso, pois o sorriso de Karlyle era uma raridade que até mesmo ele, seu irmão mais novo, raramente tinha visto desde a infância.
— Karlyle.
Karlyle virou a cabeça ao chamado de Kyle. Tendo terminado sua troca de mensagens com satisfação, ele agora podia dar total atenção a Kyle.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
— A pintura que você está procurando… É para o Ash Jones?
Como havia sido Nicholas quem apresentara Ash a Karlyle, Kyle naturalmente sabia sobre ele também. Eles provavelmente já tinham se encontrado uma vez.
Até mesmo Karlyle sabia que eles não tinham uma alta consideração um pelo outro. Ele hesitou, mas não conseguiu mentir para Kyle. — Sim — isto é, se eu conseguir encontrá-la.
Kyle franziu levemente suas belas sobrancelhas enquanto fitava Karlyle. A expressão sutil mostrava seu desagrado com a situação.
Achando aquilo cativante, Karlyle estendeu a mão para Kyle. Conforme ele acariciava gentilmente a bochecha do irmão, a expressão de Kyle suavizou um pouco. Após alguns momentos de silêncio, Kyle falou novamente.
— … Acho que pode ser encontrada. Nós restringimos a região onde ela foi vendida pela última vez.
Apesar de pesquisar consistentemente sobre a pintura de Philip Whitewood ao longo das últimas semanas, ele não havia encontrado nenhuma informação. Não havia sequer nada a respeito disso na internet, como Ash já havia mencionado antes.
A pintura, criada há muito tempo, tinha sido vendida por meio de uma galeria. Após a venda inicial, ela mudou de mãos mais duas vezes, tornando o seu paradeiro atual ambíguo.
Embora Karlyle tivesse descoberto que a pintura havia sido fotografada, a própria fotografia permanecia elusiva. Portanto, a investigação dependia unicamente do nome da pintura, o que se provou um grande desafio. Isso necessitava não apenas de recursos financeiros, mas também de um tempo considerável. Contudo, ele já havia antecipado essas dificuldades.
Karlyle tinha conhecidos cujo hobby era colecionar pinturas, incluindo várias famílias nobres com uma longa tradição de acumular obras de arte como passatempo e como um símbolo essencial de status. Muitos outros também gostavam de colecionar itens variados por um amor genuíno pela arte, então ele utilizou sua rede de contatos extensivamente. No entanto, durante o processo, pareceu que o fato de Karlyle estar procurando por uma pintura específica tornou-se conhecido, já que indivíduos em busca de favores começaram a contatá-lo em troca de informações.
Como Kyle havia auxiliado na busca enquanto Karlyle estava ocupado, ele estava bem ciente da situação.
— Obrigado por me ajudar com isso, Kyle.
— … Sem problemas.
Karlyle observou os lábios lindamente vermelhos de seu irmão se curvarem em um sorriso silencioso antes de desviar o olhar para a frente. O carro parou.
O portão principal, ornamentado em estilo elizabetano, abriu-se pesadamente. Além dos portões estendia-se um vasto jardim, significando apenas uma coisa: eles haviam chegado à histórica mansão da família Frost.
A escala da casa há muito tempo servia como um testemunho de riqueza. As pinturas, esculturas e outras coleções que se alinhavam pelos extensos corredores exigiam custos enormes de manutenção. Os cuidados com a propriedade inteira e o gerenciamento dos funcionários não eram diferentes.
Por essa razão, muitos, apesar de suas linhagens nobres, acabavam vendendo as propriedades herdadas que não podiam mais manter. Geralmente, tratava-se de nobres de patentes mais baixas que já estavam à beira da ruína, mas, ocasionalmente, até mesmo nobres de títulos mais altos, como condes ou acima, enfrentavam tais dilemas devido a uma má gestão de ativos.
A esse respeito, Lorde Arthur Frost era um dos seletos aristocratas que haviam conseguido preservar seus privilégios herdados: o título, as conexões e a linhagem familiar que consistentemente produzira alfas dominantes geração após geração.
Com todos esses elementos combinados, Arthur possuía uma autoridade formidável que o envolvia. Sem dúvida, o fato de ser um alfa dominante também contribuía para essa aura de poder.
— Boa tarde, vovô.
Arthur estava sentado em uma cadeira minuciosamente entalhada. De pé diante dele, Karlyle o cumprimentou primeiro, seguido por Kyle.
Embora para a maioria das pessoas nos tempos modernos certas formalidades fossem meros resquícios do passado, existindo apenas em romances e dramas, no mundo de Karlyle era diferente. A gramática, o tom, a fala e até mesmo a etiqueta permaneciam muito vivos. Karlyle teve que dominar essas habilidades desde cedo e, simultaneamente, aprender a não parecer desconectado demais do público geral. No entanto, exigia-se que ele exibisse as qualidades de um perfeito cavalheiro, um nobre, sempre que estivesse na presença de Arthur. Qualquer erro que cometesse refletiria nas imperfeições de sua mãe, Alice, e incitaria críticas ao sangue plebeu de seu pai, Jonathan.
Arthur estava tomando chá. Ao ouvir o cumprimento de Karlyle, ele ergueu os olhos. Ele tinha olhos azuis penetrantes e cabelos grisalhos elegantemente penteados, e examinou Karlyle e Kyle por sua vez com uma expressão desapaixonada.
Não muito depois, um sorriso agraciou o rosto de Arthur. Embora inteiramente artificial, irradiava brilhantismo. Se alguém fosse julgá-lo unicamente pelas linhas suaves de seu rosto, Arthur poderia até ser percebido como um cavalheiro gentil.
— Vocês devem estar cansados da longa jornada — Arthur comentou.
Diante do convite para se sentarem, Karlyle e Kyle ocuparam seus lugares. Conforme se acomodavam em seus postos designados, um servo à espera serviu o chá. Apesar do aroma do chá perfeitamente infundido flutuar pelo ar, uma onda de tensão atingiu Karlyle.
Um breve silêncio se seguiu. Com um olhar inscrutável, Arthur beberricou seu chá. Exatamente quando Karlyle estava prestes a erguer sua xícara, Arthur falou.
— Karlyle. — Em um tom suave, porém severo, Arthur o chamou. Karlyle recolheu a mão e olhou para cima. Seu avô o observava. — Eu o convoquei hoje para discutir o assunto do seu casamento, já que é um momento oportuno. —
Ah. A mão de Karlyle, que havia se afastado da xícara de chá, parou no ar. Ele piscou em silêncio, sentindo uma sensação de dormência sob as pálpebras.
— Eu coloquei em espera as propostas de casamento que têm chegado de forma constante ao longo dos últimos anos. Se houver alguém entre os nomes da lista de finalistas que você favoreça ou com quem tenha familiaridade, avise-me — disse Arthur com a voz mais benevolente, concedendo a Karlyle o privilégio da escolha.
Era um ato de generosidade, um gesto sem precedentes concedido a Karlyle, que sempre fora considerado inadequado por Arthur. Karlyle ficou genuinamente surpreso, pois presumira que sua opinião não seria levada em conta na seleção de um cônjuge.
— Claro, confio que você conduzirá este assunto com prudência — continuou Arthur.
Era o correto que Karlyle expressasse sua gratidão pela leniência de seu avô, que manifestasse seu apreço com o devido decoro.
— Agora que você completou trinta e três anos este ano, acredito que seja um momento excelente. É uma grande sorte que existam famílias interessadas em você, apesar de suas imperfeições.
Contudo, Karlyle não conseguiu reunir palavra alguma. Era difícil formular uma resposta. Em vez disso, sua mente estava ocupada com o pensamento inútil de que ele ainda não havia completado trinta e três anos, já que seu aniversário ainda estava por vir.
— Informarei sua mãe, então discuta com ela e tome uma decisão.
O peito de Karlyle latejou, sua garganta se estreitou. A gravata deveria ser o único item ao redor de seu pescoço, mas a sensação de ter suas vias aéreas se fechando quase o levou a erguer a mão e tocar o pescoço involuntariamente. Ele se viu compelido a olhar para baixo e verificar se havia, de fato, uma corda se apertando ao redor de sua garganta.
— Você não respondeu, Karlyle — Arthur comentou gentilmente diante da rude falta de resposta. A autoridade permanecia em sua voz, mesmo através daquela declaração silenciosa.
Os feromônios de Arthur, eriçados de desagrado, preencheram a sala. Karlyle achou desafiador suportar a presença do alfa dominante, e uma onda de tontura o dominou. Ele mal conseguiu abrir a boca.
— Minhas desculpas, vovô. Por favor, perdoe minha descortesia, pois meu estômago está indisposto, possivelmente devido à viagem até aqui.
Com o mesmo sorriso indiferente adornando o rosto, Arthur escrutinou Karlyle. Era um olhar que Karlyle conhecia bem, um que ele via sempre que seu aprendizado era lento.
Achando difícil respirar uniformemente, Karlyle optou por prender a respiração brevemente em vez disso, e soltou: — Obrigado por sua gentileza.
Embora Karlyle temesse reconhecer a decepção sem filtros e ver seu próprio reflexo insignificante e carente nos olhos azuis de Arthur, ele não desviou o olhar.
No entanto, Karlyle ainda estava com medo. Por isso, não ousou rebater; não ousou dizer —
— Não irei decepcioná-lo, vovô. Eu vou…
A verdade é que me apaixonei por alguém.
— … encontrar um parceiro adequado.
Não sei o que essa pessoa pensa de mim, mas nunca fui tão feliz em toda a minha vida…
— Muito bem — disse Arthur. — Agora vamos prosseguir para discutir os seus assuntos, Kyle.
Por isso, eu quero acalentar esses sentimentos, apenas por mais um pouco.
Karlyle fechou a boca em silêncio. Ele não poderia, de forma alguma, expor seu coração ansioso. Se seu avô descobrisse, ficaria desagradado além da conta.
Além disso, o objeto do afeto de Karlyle não era um ômega, mas sim um alfa — algo indubitavelmente além da compreensão de seu avô.
No fim das contas, aquilo não passava do afeto não correspondido de Karlyle. Seu relacionamento com Ash havia começado a pedido de Karlyle, nascido de uma necessidade, e Ash havia rotulado a relação deles meramente como parceiros de sexo. Não era como se estivessem namorando oficialmente, então permitir que seus sentimentos interferissem em seus deveres era inconcebível.
Essa análise o deixou desanimado. Uma dor surda ecoou por todo o seu corpo à medida que seu ânimo despencava. Memórias de sua juventude, perturbada pelo medo de não ser útil para sua família, ressurgiram. A dor que ele havia vivenciado naquela época lançou uma sombra sobre o presente, consumindo-o.
Ele sabia que seu casamento seria arranjado, que havia sido criado com um propósito e que seu relacionamento com Ash não tinha nada de especial. Ainda assim, seu coração tolo não conseguia aceitar essa realidade. Era mortificante. Enquanto Arthur e Kyle conversavam, Karlyle manteve seu olhar fixo em sua xícara de chá. Ele observou silenciosamente seu reflexo no líquido rubi translúcido. O homem com o semblante gélido que ele sempre via no espelho o encarava de volta.
Apesar de frequentemente receber elogios por sua aparência impecável, Karlyle não conseguia ver valor em suas próprias feições. A beleza era comum entre seus conhecidos; portanto, seu visual dificilmente era excepcional. Em vez disso, ele costumava ouvir comentários de que sua expressão impassível e rígida o tornava inacessível. Seria uma sorte, ele refletiu, se alguém mostrasse interesse genuíno por ele, apesar desse exterior distante.
Enquanto Karlyle lutava contra suas próprias inadequações e se esforçava para conter suas emoções crescentes, Arthur dispensou a ele e a Kyle. Como Arthur sempre gerenciava uma agenda lotada, mantendo uma energia robusta mesmo em sua idade avançada, a reunião deles hoje era provavelmente apenas mais um compromisso na agenda exigente de Arthur.
Karlyle saiu do escritório de Arthur com Kyle logo atrás. Os sons de servos e convidados movimentando-se ecoavam da escadaria central da mansão. A residência do marquês sempre vibrava com a presença de visitantes. Esta noite, como era de costume, provavelmente haveria um jantar semelhante a um grande banquete.
E Karlyle tinha certeza de que os candidatos para o seu casamento estariam presentes no jantar. Arthur era um homem meticuloso. Karlyle agora podia prever o que Arthur teria planejado com base em anos de experiência.
Karlyle estava incrivelmente exausto, mas ainda tinha trabalho a supervisionar. Ele estava subindo em direção ao corredor do quarto andar, onde quartos haviam sido designados para ele e Kyle, quando Kyle parou e o chamou. Parando nos degraus, Karlyle virou-se.
— Podemos conversar por um momento? — Kyle perguntou.
Apesar de sua exaustão, Karlyle achou melhor aceitar se Kyle assim desejasse. — Tudo bem.
Kyle baixou seus cílios longos e finos.
Vendo o rosto perturbado do irmão, Karlyle desceu os degraus para se colocar diante dele. — Por que essa expressão preocupada?
— Karlyle, eu… — Kyle cerrou os lábios como se estivesse organizando seus pensamentos e então continuou: — Eu acho que você não deveria seguir em frente com um casamento que não quer.
Karlyle piscou diante das palavras inesperadas. — Kyle.
— Foi a primeira vez que vi você sorrir por causa de outra pessoa. — Os olhos azuis de Kyle, semelhantes aos de Arthur, porém muito mais quentes e brilhantes, fitaram Karlyle com afeto.
— Eu sorri?
— Sim, no carro mais cedo. — Kyle acrescentou: — Foi apenas um sorrisinho, mas você sorriu.
Karlyle esfregou a testa. “Isso não pode ser verdade.”
— Se você não tivesse ninguém especial e quisesse se casar dessa forma, eu não o impediria… mas esse não é o caso agora, é? — Kyle falou suavemente, com a voz tingida de tristeza.
Embora fosse embaraçoso ter demonstrado um lado tão vulnerável na frente de seu irmão, as palavras de Kyle agitaram o coração de Karlyle. Ele tentou se recompor.
— Este é o meu dever e algo que já foi planejado há muito tempo. Agradeço sua preocupação, mas o vovô nunca permitiria…
— Continuar a linhagem sanguínea não é a coisa mais importante? Há o Nick e eu para isso.
Assim que Kyle mencionou Nicholas, um sorriso deslumbrante floresceu em seu rosto. “O que poderia deixá-lo tão alegre?”, o antigo Karlyle teria pensado.
Ele sabia que Kyle amava Nicholas há mais de dez anos, desde a infância. Ele torcera para que os desejos de Kyle se realizassem, mas não tinha compreendido totalmente a emoção subjacente de amar alguém até agora.
Agora ele entendia. A emoção que fazia o rosto de alguém se iluminar de alegria apenas ao mencionar um nome.
— Honestamente, o Nick se tornou um ômega de forma muito inesperada, mas, graças a isso, ele e eu agora podemos dar continuidade à linhagem da família — disse Kyle. — Karlyle, eu sei que você se sacrificou porque eu não pude cumprir meu papel adequadamente até agora. Então…
Lágrimas brotaram nos olhos azuis de Kyle. Mesmo que às vezes ele pudesse parecer indiferente com os outros, era extremamente afetuoso com os seus. Karlyle sempre quisera proteger seu irmão de coração mole. Desconcertado com as lágrimas dele, Karlyle estendeu a mão e as enxugou gentilmente.
Aceitando o toque de Karlyle em silêncio, Kyle concluiu de forma suave, mas firme: — Então, deixe que eu convença o vovô.
Karlyle não conseguiu formular uma resposta de imediato. Seria uma tarefa difícil, e ele não conseguia se livrar da sensação de estar a colocar um fardo sobre Kyle. O pensamento de abandonar um dever de uma vida inteira também pesava bastante sobre Karlyle. No entanto, em meio a essa profunda preocupação, algo esperançoso começou a brotar dentro dele.
E se suas suposições não fossem apenas fantasias? E se Ash realmente nutrisse alguns sentimentos por ele e estivesse disposto a buscar um relacionamento mais profundo? Se houvesse uma possibilidade de eles irem mais longe?
Então, talvez ele pudesse reconsiderar a sugestão de Kyle.
— Vou pensar a respeito — Karlyle finalmente disse, incapaz de rejeitar a ideia por completo.
A resposta afirmativa fez Kyle sorrir, e seus olhos se enrugaram de forma charmosa. — Tudo bem.
— Agora você deveria subir e descansar um pouco, Kyle.
— Certo. Vejo você no jantar.
Após observar Kyle acenar com a cabeça e se dirigir ao seu quarto, Karlyle voltou seu olhar para a grande janela em frente às escadas. O jardim verdejante banhado pela luz solar dourada o lembrava de Hampstead Heath. As árvores exuberantes, os arbustos que cresciam de forma selvagem e as flores desabrochando, belamente arranjadas no estilo tradicional inglês, o faziam pensar em Ash. Ash talvez gostasse desta vista.
Assim que pensou em Ash, a saudade o arrebatou. Karlyle virou-se em silêncio e desceu as escadas. Ele caminhou até o jardim, passando por todos os rostos familiares e desconhecidos que o cumprimentavam. O chilrear dos insetos e dos pássaros preenchia o verde pacífico, acompanhado por uma brisa calorosa.
Karlyle pegou o celular e leu novamente as mensagens de texto que havia trocado com Ash. Seus dedos se agitaram, querendo digitar que sentia sua falta. De verdade, e profundamente, ele sentia a falta dele. Embora não fizesse tanto tempo assim, parecia que um ano havia se passado desde a última vez que tinha visto seu rosto, o qual ele imaginava com anseio.
Apesar de saber que se arrependeria, e totalmente consciente de que era um ato vergonhoso e até infantil, Karlyle não conseguiu resistir ao impulso.
Espero que possamos nos ver em breve.
Ele hesitou por um longo tempo antes de finalmente pressionar o botão de enviar, exatamente como fizera no carro. Sua nuca ardeu. Ele cobriu a tela do celular com a palma da mão, como se para escondê-la. Ash não teria terminado o trabalho ainda, então sua resposta seria demorada.
No entanto, o celular começou a vibrar quase imediatamente. Ele pensara que seria um zumbido curto, contudo ele persistiu. Karlyle piscou e, em seguida, olhou para a tela com pressa — era uma chamada de voz de Ash.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr