Define The Relationship (Novel) - Capítulo 25
Capítulo 25
O olhar de Karlyle acompanhou a voz de Ash. Uma mulher com cabelos loiros presos em um penteado alto notou Ash e correu em direção a ele freneticamente, gritando: — Você está atrasado!
— Desculpe. Demorou um pouco mais porque estou com um convidado.
— Oh, nossa. Olá — cumprimentou Natalie, seus grandes olhos verdes arregalados de surpresa.
Com sua figura alta, esguia e elegante, ela tinha a aparência de uma modelo. Essa mulher deslumbrante lembrou Karlyle de Nicholas, fazendo seu coração acelerar e a ansiedade crescer dentro dele. Como ele não tinha certeza sobre a natureza do relacionamento de Ash com essa mulher, uma dúvida cruel tolamente cruzou a mente de Karlyle.
Será que ela poderia ser sua antiga amante?
Karlyle retribuiu o cumprimento educadamente, embora tenha apertado a mão de Ash com mais força devido à tensão. — Prazer em conhecê-la, meu nome é Karlyle Frost.
— Quem é esse cavalheiro bonito? Seu namorado? — Natalie perguntou animada.
— Algo assim.
Ash piscou para Karlyle. Karlyle ficou ainda mais confuso. A conversa deles era um pouco estranha para ex-amantes.
— Eu interrompi o seu encontro com uma pessoa tão charmosa? Sinto muito.
— Tudo bem. Eu sei que é urgente. Deixe ela comigo e vá logo para o hospital.
A mulher assentiu e conduziu Ash e Karlyle para dentro da casa. A casa tinha três andares, mas ao contrário da casa de Kyle, era mais estreita na largura e mais longa na profundidade, em um estilo inglês clássico. Embora não fosse particularmente espaçosa, sua localização a tornava uma propriedade difícil de se manter com uma renda média. As perguntas de Karlyle sobre a identidade dela foram respondidas ao entrar na casa. Na sala de estar, uma garotinha que parecia ter cerca de cinco anos estava sentada olhando para eles com uma expressão doentia.
— Mamãe…
Ouvindo a voz chorosa da menina, Natalie correu em direção a ela com um rosto desolado. Pegando a criança em seus braços, ela rapidamente se introduziu a Karlyle. — Eu sou Natalie, a irmã mais velha de Ash. Peço desculpas por interromper o seu encontro, Sr. Frost. Minha filha está muito doente e, além de Ash, não há mais ninguém que possa cuidar do meu mais novo enquanto eu a levo ao hospital.
Karlyle ficou um pouco surpreso, pois não teria adivinhado que ela e Ash eram irmãos devido às suas aparências contrastantes. Ash acariciou a cabeça da menina nos braços de Natalie, sua expressão cheia de preocupação.
— O que a está deixando doente? — Ash perguntou.
— Acho que é gripe. Fomos ao clínico geral dois dias atrás porque a febre dela estava muito alta, mas teremos que ir ao pronto-socorro hoje.
Karlyle refletiu sobre isso brevemente. Os hospitais britânicos eram conhecidos pelos longos tempos de espera e, mesmo se fossem ao pronto-socorro, a menos que fosse uma questão de vida ou morte, eles provavelmente teriam que esperar um bom tempo. A pediatria não seria diferente. Embora claramente não fosse o seu lugar intervir, ele pensou que seria melhor pelo menos mencionar se pudesse ajudar. — Se você não se importar, acho que posso ajudar — Karlyle sugeriu.
— Como? — Natalie perguntou.
— Se você for para o Hospital Great Ormond Street, poderá receber atendimento sem esperar.
Os olhos de Natalie se arregalaram. Ash também encarou Karlyle.
— Sério? — Natalie disse. — O Great Ormond seria ótimo. Mas…
— Eu vou avisá-los para esperar por você. Se disser o meu nome assim que chegar, eles a conduzirão para dentro imediatamente.
Karlyle colocou a mão no bolso interno e tirou o celular. A garotinha piscou para ele. Ela era uma criança bonita, tendo herdado os cabelos loiros de sua mãe. De repente, Kyle veio à mente com o pensamento do futuro sobrinho ou sobrinha que Kyle e Nicholas estavam esperando.
Embora não ficasse particularmente confortável com crianças, Karlyle na verdade não desgostava delas. Era simplesmente a natureza pequena e frágil delas que o deixava inseguro sobre como interagir com elas.
Ele olhou gentilmente para a criança, então falou ao celular assim que o tom de chamada parou e ele ouviu a voz de Luther do outro lado. — Boa tarde, Luther.
— Olá, Karlyle. Como posso ajudar você? — Luther perguntou, seu tom natural como se ele já soubesse o motivo da ligação. — Você poderia perguntar ao Dr. Middleton se ele estaria disposto a esperar por um paciente que eu gostaria de encaminhar para ele?
Middleton era um especialista competente no Hospital Ormond que havia recebido uma oferta de contrato exclusivo da família Frost para supervisionar os cuidados com o futuro filho que Kyle e Nicholas estavam esperando.
— Oh — Luther deu uma risada abafada, seu riso carregando um tom estranho e cúmplice. — Isso está relacionado à pessoa com quem você está se encontrando atualmente, por acaso?
Luther tinha um interesse desmedido nos encontros arranjados de Karlyle com Ash. Karlyle ficou brevemente sem palavras com o comentário dele, que era semelhante ao de Mariam, sugerindo que eles poderiam estar naquele tipo de relacionamento. Uma onda de constrangimento o invadiu por um momento, mas Karlyle rapidamente recuperou a compostura.
— Isso seria possível?
— Claro. O seu pedido tem prioridade. Eu vou avisá-lo. Quando eles vão chegar?
Karlyle cobriu brevemente o celular e se virou para Natalie, que o encarava surpresa.
— Acredito que seria melhor se você partisse agora.
— Ah, sim! Muito obrigada. De verdade, mesmo. Por favor, permita-me retribuir a você. Você não pode ir embora! — Expressando repetidamente sua gratidão, Natalie pegou a bolsa que já estava arrumada e saiu com a menina em seus braços. Pouco antes de fechar a porta, ela fez questão de fazer um gesto para Ash para evitar que Karlyle fosse embora. Mesmo a partir dessa breve interação, ficava evidente o quanto ela era uma pessoa viva. Karlyle descobriu o celular e disse: — Eles vão chegar dentro de vinte minutos.
— Entendido. Eu os conduzirei assim que chegarem — Luther observou.
— Obrigado. — Karlyle encerrou a ligação.
Ash, que estivera olhando para ele em silêncio, envolveu os braços ao redor da cintura de Karlyle com uma expressão pensativa. — Parece que não há nada que você não possa fazer, Karlyle. Obrigado.
— Espero ter sido de alguma ajuda. — Sentindo-se sem jeito, Karlyle desviou o olhar por um momento.
Os lábios de Ash se pressionaram brevemente contra a bochecha dele. — Você foi de grande ajuda. Natalie é muito querida para mim, assim como minhas sobrinhas. Sou muito grato pelo que você fez por nós.
Ash o agradeceu cortesmente. Essa era uma experiência nova para Karlyle. Em seu mundo, favores eram tipicamente trocados com base em interesses acumulados e no valor de potenciais retornos futuros. Em tais relacionamentos, mesmo quando a gratidão era expressa, raramente era transmitida com tanta autenticidade.
— …O prazer é meu. — Karlyle mal conseguiu encontrar as palavras para responder.
Os lábios de Ash roçaram a bochecha de Karlyle novamente — uma, duas vezes, repetidamente enquanto ele abraçava Karlyle com firmeza por trás, apoiando o queixo em seu ombro. — Agora… você está pronto para a parte difícil?
Bem no momento em que Ash falou, o choro alto de um bebê ecoou do andar de cima com um sincronismo impecável. Karlyle piscou surpreso. Ash soltou uma risada parecida com um suspiro.
— É hora de bancar a babá — disse Ash seriamente, soltando Karlyle para ir lavar as mãos.
De acordo com Ash, o bebê era uma menina e beta, igual à mais velha, Susie. Ash explicou que alimentar Sara, que tinha acabado de completar seis meses e estava agora no período de desmame, levaria mais de uma hora.
— É difícil para a governanta cuidar da Sara — disse Ash ao entrar no quarto onde Sara estava.
Sara, que estava berrando tão alto que seus choros ecoavam por toda a casa, piscou e parou de chorar assim que viu Ash. Então, ela acenou com os braços e pernas como se estivesse pedindo um abraço. Ash a aninhou em seus braços com destreza.
— Existe um motivo para isso? — Karlyle perguntou.
— Ela é muito tímida, então se a Natalie, o marido dela, Clark, ou eu não cuidarmos dela, ela não para de chorar. Não importa o quão cansada ela fique, ela continua chorando.
O problema era que Clark estava em uma viagem de negócios, deixando Ash como o único que poderia cuidar dela. Karlyle se perguntou sobre os pais de Ash, mas parecia haver uma razão pela qual ele não compartilhava mais informações.
Enquanto Karlyle observava Ash dar tapinhas gentis no bebê em seus braços, uma onda de uma emoção estranha surgiu dentro dele.
Ash se dava muito bem com o bebê. Karlyle conseguia ver que Ash seria um ótimo pai. Havia tantas coisas que ele queria saber sobre Ash, mas, neste momento, ele estava mais curioso para saber se Ash queria ter filhos.
Ele tinha ouvido falar que Ash só se encontrava com alfas, mas se perguntou se ele poderia querer se encontrar com um omega um dia e ter filhos. Conforme esse pensamento cruzou sua mente, seu coração ficou pesado, embora Ash não tivesse um relacionamento real com Karlyle.
Capturando o olhar de Karlyle, Ash perguntou:
— Você parece estar pensando em algo?
— …Você está falando de mim?
— Sim. — Ash conduziu Karlyle até a sala de estar. Eles se sentaram no sofá, preparando-se para dar um pouco de papinha de bebê para Sara.
— Karlyle, as pessoas te falam que você não é muito expressivo?
Foi assim que Karlyle foi criado, então era assim que ele tinha que ser; era natural.
— Sim, dizem — ele respondeu.
— É por isso que é difícil para mim saber o que você está pensando, Karlyle — disse Ash, com os joelhos deles esbarrando um no outro. — Mas acho que já consigo ler algumas expressões agora.
As sobrancelhas de Karlyle se franziram de leve. Ele tentou se lembrar se havia se comportado de maneira inadequada na frente de Ash. Talvez tivesse, por falta de experiência. Ele nunca havia interagido com alguém como Ash, muito menos com alguém que despertasse tais emoções nele.
— …Você me diria quais são?
— Como agora há pouco, a expressão que você faz como se estivesse reprimindo algo… — disse Ash, inclinando-se para frente. — Ou a expressão que você faz quando está arrependido.
Os joelhos deles se roçaram. Karlyle mordeu o lábio diante do sutil estímulo decorrente do toque. Karlyle baixou o olhar. Ash olhou para cima em direção a Karlyle, ligeiramente abaixo do nível dos seus olhos, observando-o atentamente. — Ou quando você está excitado — sussurrou Ash, com sua voz profunda.
Naquele momento, Sara caiu no choro, como se tivesse percebido a tensão palpável entre eles. Era fascinante como ela parecia notar que não era o centro das atenções.
A nuca de Karlyle ardeu. Ele se sentiu envergonhado como se tivesse sido pego fazendo algo travesso, mesmo que eles não tivessem realmente feito nada.
— Eu… não sabia.
— Não consigo acreditar no quão provocador você é, Karlyle.
— Isso é porque você… — Karlyle deixou a frase incompleta, perplexo. Ele não era o provocador ali. Estar com Ash o havia deixado assim. Antes, Karlyle não tinha se dado conta de que era capaz de sentir tais emoções.
Ash fez um som pensativo, um “mmm”, antes de rir baixinho. Ele se empertigou, olhando para frente com uma expressão preocupada.
— Acho que não vou conseguir me conter se disser mais alguma coisa, então vamos falar de outro assunto.
Karlyle assentiu. Sempre que estava com Ash, ele se via com falta de autocontrole.
— Se houver algo sobre o qual você tenha curiosidade, não tem problema perguntar. — Ash mudou de assunto como se pudesse ouvir os pensamentos de Karlyle. Era uma pergunta que não precisava ser dita em voz alta. No entanto, Ash olhou para ele de forma expectante. Diante daquele olhar afetuoso, Karlyle cedeu.
— Você parece gostar de crianças — observou Karlyle.
— Eu gosto, eles são tão fofos — Ash disse com naturalidade.
— No futuro, se estiver pensando em casamento… gostaria de ter filhos seus?
— Hum. — Ash ponderou, erguendo as sobrancelhas. Então, de forma travessa, ele perguntou: — Era sobre isso que você estava curioso?
O comentário de Ash carregava um tom significativo que investigava a intenção de Karlyle, a qual nem mesmo Karlyle havia percebido totalmente.
Karlyle levantou-se um tanto apressado.
— Por favor, desconsidere a minha pergunta. Peço desculpas por perguntar algo tão irrelevante.
— Karlyle — Ash chamou, de forma gentil, mas firme. — Você poderia se sentar de novo?
Ash então acrescentou:
— E, por favor, não fuja.
Karlyle congelou, permanecendo de pé, ereto e imóvel. Seu interior revirou. Ele se sentia envergonhado e patético. Um desprezo por si mesmo o inundou.
Embora Karlyle nunca a tivesse visto, ele conseguia imaginá-la em sua mente. Ash era incrivelmente gentil e atencioso até mesmo com um encontro como Karlyle. Não, nem mesmo um encontro, apenas um parceiro sexual. Karlyle não conseguia sequer conceber o quanto mais dedicado e amoroso Ash seria com alguém por quem ele realmente se apaixonasse.
A dor brotou dentro dele. Seu coração despedaçou-se com o mero pensamento do futuro parceiro de Ash que reivindicaria seu coração. Ele tinha tanto ciúme da pessoa que seria o objeto do afeto de Ash que suspeitava que poderia enlouquecer de inveja. Era agonizante.
— E você, Karlyle?
Karlyle ficou incapaz de responder à pergunta de Ash por um momento. Sua mão na coxa agarrou a calça do terno e depois soltou.
— Eu…
O futuro de Karlyle carregava apenas uma possibilidade — ele entraria em um casamento arranjado e teria um filho brilhante que daria continuidade ao nome da família. Ele conseguia ver que esse futuro traçaria linhas paralelas com o de Ash, os dois destinados a nunca se cruzarem.
— … não sei. — Era doloroso para Karlyle discutir um futuro que ele considerava predeterminado desde a sua juventude, então ele escolheu mentir. A vida sobre a qual ele poderia ter falado casualmente dentro de seu círculo social tornou-se um fardo pesado demais para compartilhar com Ash.
— Sério?
— É vergonhoso, mas sim.
— Espero que você também conheça uma boa pessoa, Karlyle.
As palavras de Ash foram gentis. E, ao mesmo tempo, cruéis. Elas pareciam implicar que Karlyle nunca poderia ter aquele tipo de relacionamento com o próprio Ash.
Karlyle decidiu não pensar mais nisso. Interpretar mal as intenções dos outros deveria ser evitado e, independentemente do que Ash pudesse pensar, Karlyle não havia feito nada de errado.
Ele precisava evitar levar cada palavra que Ash dizia tão para o lado pessoal. Olhando calmamente para as costas de sua mão apoiada na coxa, Karlyle murmurou:
— Obrigado — com uma expressão indecifrável.
No entanto, ele não conseguiu responder que desejava o mesmo para Ash, que conhecesse uma pessoa assim. Ele não tinha forças para fazer isso.
Ash ainda sorria suavemente para Karlyle. Ele sempre fora uma pessoa difícil de ler, mas nunca parecera tão difícil quanto agora.
Karlyle baixou o olhar para Sara, aninhada nos braços de Ash. Os olhos dela brilhavam de curiosidade enquanto ela abria e fechava os dedinhos. Então, o rostinho dela se iluminou com um sorriso. Diante daquele sorriso inocente, o coração dele se acalmou um pouco.
— Agora, vamos passar para a tarefa mais difícil? — Olhando diretamente nos olhos de Karlyle, Ash estendeu Sara em direção a ele.
— … O Sr. Jones quer que eu a segure? — Karlyle perguntou, com o rosto endurecendo.
— Sim. Você se importaria de fazer isso enquanto eu preparo a papinha?
— Mas…
Karlyle relutantemente pegou Sara enquanto Ash o olhava com expectativa. Como não era muito mais velho que Kyle quando eram crianças, ele nunca havia segurado um bebê tão pequeno antes.
— É melhor apoiar a cabeça dela assim — Ash instruiu Karlyle para melhorar sua postura desajeitada, ajustando os braços dele com cuidado. — Ela já ganhou bastante força no pescoço, mas ainda é melhor fazer isso por enquanto.
Karlyle dominou a postura de ninar em poucos minutos. Ele não pôde deixar de se sentir tenso porque a vida em seus braços parecia muito frágil, mas não era particularmente difícil. Felizmente, Sara sorriu abertamente para ele e estendeu as mãos em sua direção.
Ash sorriu de leve. — Está vendo, a Sara só gosta de homens bonitos.
Karlyle ergueu os olhos para os de Ash, captando uma piscadela astuta. Ele compreendeu tardiamente o que Ash quisera dizer. — Então isso explica por que ela gosta do senhor, Sr. Jones.
Ash caiu na gargalhada. Após balançar a cabeça, ele se inclinou na direção de Karlyle, e os lábios deles se encontraram em um beijo firme. Ele roçou a língua pelos lábios de Karlyle antes de se afastar. Os lábios de Karlyle formigaram.
Depois de rir baixinho, Ash virou-se, murmurando para si mesmo:
— Ele é tão inocente.
Karlyle, momentaneamente congelado pela rápida troca, mal conseguiu acompanhar Ash com os olhos após alguns segundos.
Natalie retornou após algumas horas, sem Susie. Isso aconteceu depois do martírio de uma hora que Karlyle e Ash haviam vivenciado enquanto tentavam dar a papinha para Sara.
Sara havia comido o purê de abacate que Ash tinha preparado, embora tenha se sujado inteira, assim como ao seu redor. Com um apetite pequeno, ela balançava a cabeça a cada colherada. Foi por isso que levou uma hora para alimentá-la com apenas uma pequena tigela de comida. Talvez comer a tivesse exaurido, pois não demorou muito para que ela caísse no sono.
Testemunhar esse esforço fez com que Karlyle se pegasse esperando que o comentário de Mariam, “Você era um bebê tão gentil e calmo”, fosse verdade. Ele teria ficado extremamente envergonhado se tivesse se comportado como Sara.
É claro que Sara era uma criança adorável e encantadora. Ela ria com facilidade e não havia chorado desde que tinha ficado sob os cuidados de Ash e Karlyle.
— Você deveria trocar de roupa — disse Natalie assim que viu Ash, que a encontrou na porta da frente. Karlyle concordou silenciosamente. Ele não se importava com a aparência de Ash, mas a camisa verde de Ash estava salpicada com formatos peculiares de purê de abacate. Era obra de Sara.
— Parece que a Sara herdou o meu talento artístico. — Ash riu de bom coração.
Karlyle de repente se perguntou se Ash era do tipo que demonstrava sua raiva. Parecia improvável, visto como ele sempre exibia um sorriso e como era amigável.
Ele havia demonstrado desagrado em relação a Karlyle no passado, mas, mesmo assim, não parecia estar genuinamente zangado. Além disso, ele era rápido em processar suas emoções.
Isso também significava que Karlyle tinha um histórico de ofender Ash várias vezes. Parecia impossível para Ash gostar de alguém assim. Ele sentiu náuseas com esse pensamento, que sempre erguia a cabeça bem quando ele estava prestes a esquecê-lo.
Enquanto Karlyle estava preocupado com esses pensamentos, Ash pediu licença para trocar de roupa e subiu as escadas. Parecia que ele tinha uma camisa reserva preparada para situações como essa.
— Oh, Sr. Frost, muito obrigada. A Susie conseguiu receber atendimento imediatamente. Não sei como o senhor conseguiu isso, mas foi simplesmente formidável — Natalie dirigiu-se a Karlyle assim que Ash saiu. Ela parecia um pouco fatigada, mas sua expressão estava muito mais radiante do que antes.
— Eu apenas fiz o que era necessário. Fico feliz por ter podido ajudar.
— O senhor realmente fala como um cavalheiro, Sr. Frost. — Natalie olhou para Karlyle com fascínio. — Até mesmo a sua pronúncia.
Era inevitável que o vocabulário e a pronúncia de Karlyle revelassem de certa forma o seu status. Como Karlyle estava cercado em sua maior parte por outros nobres, era incomum ver esse tipo de reação, mas não era algo estranho para ele. Karlyle mudou de assunto com naturalidade.
— A sua filha está bem?
— Sim. A Sara tem o sistema imunológico fraco, então deixei a Susie na casa da minha sogra.
Diante dessas palavras, Karlyle momentaneamente relembrou o passado. Ele não ficava doente com frequência, mas uma vez havia pegado influenza. Durante sua recuperação, Karlyle não teve permissão para se aproximar de Kyle. Isso foi antes de Kyle ter sido sequestrado. Como Kyle era um alfa dominante e o sucessor, ele havia sido criado com o máximo de cuidado.
De fato, era prudente manter aqueles que estavam doentes longe daqueles com o sistema imunológico fraco. Karlyle solidarizou-se.
— Ela não ficou chateada com isso? — Karlyle perguntou com o rosto inexpressivo.
A maioria das pessoas achava a expressão de Karlyle muito difícil, mas Natalie respondeu alegremente: — Oh, não, de modo algum. A Susie gosta mais da avó dela do que de mim.
Natalie piscou, de forma muito parecida com Ash, e conduziu Karlyle até a cozinha. Quando ela perguntou se ele gostaria de uma xícara de chá, Karlyle aceitou. Ele pediu uma colher de chá de açúcar, pois preferia seu chá menos doce.
Logo uma xícara de chá preto com leite e açúcar foi colocada diante dele. Natalie também colocou uma xícara para Ash antes de se sentar em frente a Karlyle.
— O senhor está muito ocupado? Se não estiver, eu gostaria de lhe pagar um jantar — disse Natalie. Então ela declarou em um tom humilde, porém com confiança: — Posso não parecer, mas sou uma cozinheira muito boa.
Talvez Ash seja bom na cozinha devido à influência de Natalie, Karlyle pensou. Tendo conhecido inesperadamente a família de Ash, ele naturalmente ficou curioso para saber mais sobre Ash.
— Seria um incômodo para a senhora, então, por favor, não se dê a nenhum trabalho por minha causa — Karlyle objetou.
— Se o senhor já tiver planos, então não há o que fazer, mas, se não tiver, por favor, deixe-me fazer pelo menos isso — Natalie insistiu sinceramente. A personalidade dela parecia tão vivaz quanto sua aparência. Karlyle viu-se dividido.
Ele normalmente limpava sua agenda nos dias em que se encontrava com Ash, mas, de alguma forma, duvidava se realmente tinha o direito de estar ali. Ainda assim, ele não podia negar que gostava daquilo.
— … Então, por favor, perdoe a minha intrusão.
— Ótimo! Esta é apenas a segunda vez que o Ashley traz um encontro, então eu odiaria perder esta oportunidade.
O comentário de Natalie continha uma quantidade considerável de informações. Primeiro, Ash parecia ser chamado de Ashley por Natalie.
— A senhora disse Ashley? — Karlyle questionou, incerto se havia ouvido corretamente.
Natalie deu uma risadinha e falou prontamente, como se estivesse esperando para explicar isso. — O apelido para Ashley é Ash, certo?
Geralmente, isso era verdade. Karlyle assentiu de leve.
— Então eu o chamo de Ashley — ela concluiu.
Natalie parecia ser bastante travessa, e isso sugeria um relacionamento próximo entre ela e Ash. O pensamento de Ash ser chamado de Ashley de alguma forma tocou o coração de Karlyle. Ele estava curioso para ver como Ash reagiria.
— Ele não desgosta disso?
— De modo algum. Ele é um descarado.
Existe alguma situação em que Ash se sentiria envergonhado? Karlyle ponderou. Isso, também, era difícil de imaginar.
O conhecimento de Karlyle sobre Ash era limitado. Ash era educado, gentil, mas firme em estabelecer limites, e possuía uma maneira adorável pela qual simplesmente não se podia evitar apaixonar-se. Isso resumia a extensão do que Karlyle sabia.
A mente de Karlyle vagou para o primeiro encontro que Ash havia trazido. Apesar de ser um assunto sem importância, estranhamente o desconcertou. Ao mesmo tempo, uma leve excitação cresceu com a menção de que esta era apenas a segunda vez. Pelo menos significava que apenas duas pessoas, incluindo ele mesmo, haviam sido apresentadas à irmã de Ash.
Enquanto Karlyle estava intrigado sobre como interpretar essa informação, Ash desceu as escadas. Ele parecia ter mudado de roupa completamente, vestindo agora uma camiseta branca e jeans. Vestido assim, ele parecia mais jovem do que o habitual.
— Já terminou de falar mal de mim, querida irmã?
— Até o meu coração se dar por satisfeito.
— Karlyle, não acredite no que a Nat lhe disse. A Nat é uma pessoa muito travessa.
Dando risadinhas, Natalie se levantou. Depois, ela abriu um armário da cozinha e tirou um avental, que amarrotou e jogou para Ash.
— De qualquer forma, prepare-se para fazer uma comida deliciosa para o cavalheiro bonito.
— Karlyle, a Nat deu em cima de você? — Ash perguntou, sentando-se de pernas abertas na cadeira que puxou ao lado de Karlyle. Sua mão repousou casualmente na coxa de Karlyle. Natalie riu, como se a ideia fosse absurda.
— Meu Deus. Você acha que eu faria isso, sabendo o quão possessivo você é? — Natalie retrucou, mas o tom implicava que, se não fosse esse o caso, ela de fato poderia ter feito.
Karlyle olhou para Natalie, notando um sorriso travesso se espalhar pelo rosto dela. Conforme os lábios e os olhos dela se curvavam em um belo sorriso, Karlyle viu uma semelhança com Ash. Embora as aparências deles fossem bem diferentes, suas expressões faciais carregavam uma semelhança impressionante.
— É claro que eu amo o meu adorável Clark. — Acenando com a mão de forma reconfortante, Natalie acrescentou: — Eu gosto de ômegas, então você não precisa se preocupar.
— Eu vou te proteger da Natalie — Ash interveio, com a voz carregada de humor. — Em troca de Karlyle me proteger do bando de cisnes. — Com um sorriso brincalhão, Ash deu um beijo estalado na bochecha de Karlyle.
Receber um beijo na frente da família de Ash fez o interior de Karlyle queimar ainda mais intensamente. Temendo que suas ilusões mal reprimidas pudessem vir à tona novamente, ele pressionou os lábios firmemente um contra o outro.
Natalie era mais velha do que ele presumira. Assim como Ash, ela parecia mais jovem do que sua idade. Tendo completado quarenta anos este ano, Natalie poderia facilmente passar por alguém no final dos vinte anos à primeira vista. Como Ash parecia igualmente jovem, quando os irmãos estavam juntos, eles não pareciam ter uma diferença de idade significativa.
Ash explicou que Natalie, que havia trabalhado como chef de hotel antes de administrar um renomado restaurante no Soho, ostentava um histórico de namoros impressionante e não tinha intenção de se casar até que se apaixonou à primeira vista por Clark, um ômega, e decidiu se casar.
À menção de seu “histórico de namoros impressionante”, Natalie deu uma risadinha abafada e lançou a Ash um olhar significativo. Sua risada pareceu repreendê-lo, como se dissesse que ele era o menos indicado para falar.
Natalie acrescentou que agora estava trabalhando como cozinheira na escola particular próxima, um papel que havia escolhido para se concentrar mais em cuidar de seus filhos.
Com isso, a preparação da comida começou.
A culinária de Natalie era tão refinada quanto habilidosa. Sua geladeira estava totalmente abastecida com uma grande variedade de ingredientes, muito parecida com a própria cozinha de Karlyle.
O prato principal trazia uma omelete Arnold Bennett feita com eglefino defumado, acompanhada de um frango assado no forno com cobertura de mel e guarnecido com folhas de ostra. Era uma combinação incomum de ingredientes. As folhas de ostra, uma erva da qual Karlyle nunca tinha ouvido falar, consistiam em pequenas folhas que tinham um gosto notavelmente parecido com o de ostras. Ash preparou a sobremesa, como havia feito anteriormente na casa de Karlyle.
— Eu gosto de trifles — disse Ash, criando as camadas do trifle, com Karlyle ajudando-o.
Natalie havia protestado que não podia deixar um convidado ajudar, mas Karlyle gostava de fazer as coisas com Ash. Era porque ele havia se divertido muito da outra vez. Dizendo a Natalie que Karlyle tinha excelentes habilidades culinárias, Ash trouxe Karlyle para o seu lado para ajudar.
— O senhor disse que não tem nenhuma comida de que desgoste particularmente, certo, Karlyle?
— Sim, você está certo — Karlyle respondeu calmamente enquanto mexia o creme de baunilha.
Os olhos de Ash se curvaram em um sorriso enquanto ele caminhava para se juntar a Karlyle. Parecia que o processo de colocar os ingredientes em camadas nos copos de vidro para os três já estava na metade do caminho.
— Escolha um. Você gosta de rum? Ou compota de framboesa? Também temos morangos.
Embora não fosse exigente com sobremesas, Karlyle preferia sabores que não fossem tão doces. Ele gostava de sobremesas que levassem uma quantidade moderada de álcool, apreciando sua mistura agradável.
— Rum seria bom — Karlyle respondeu.
— Ashley, eu já gosto tanto do Sr. Frost — Natalie declarou seriamente.
Como se estivesse compartilhando um segredo, Ash cobriu a orelha de Karlyle com a mão e sussurrou: — A Natalie é uma grande bebedora. Embora ela esteja se controlando por causa das crianças agora. — Seu sorriso deixou claro que ele estava brincando.
— Eu ouvi isso. Sr. Frost, é verdade que esse garoto é bonito, mas ele é muito ardiloso. Por que o senhor não reconsidera namorar com ele? — Natalie disse, juntando-se à brincadeira.
Ash riu do tom sério de Natalie. Karlyle desviou o olhar do de Ash, dominado por sentimentos que não conseguia nomear. Ele não estava namorando Ash. No entanto, negar isso fazia seu coração parecer pesado. Contudo, de alguma forma, continuar a mentir também o incomodava.
Ash provavelmente tinha dito a Natalie que eles estavam namorando para evitar apresentá-lo como um parceiro sexual combinado ou explicar as circunstâncias de Karlyle. Mesmo no tempo relativamente breve, mas significativo, que havia passado com Ash, Karlyle tinha aprendido que Ash era uma pessoa de consideração e prudência.
— Por favor, me chame de Karlyle — Karlyle disse a Natalie.
— Ótimo, por favor, me chame de Nat, Karlyle. Você não acha que, de todas as pessoas com quem você já se relacionou antes, o Ash é o mais difícil de lidar?
Natalie falou em um tom seguro que assumia que Ash e Karlyle estavam em um relacionamento romântico. Karlyle ficou confuso com a rápida evolução do termo namorando para relacionamento na escolha de palavras dela, o que fez seu coração bater a uma velocidade quase alarmante. No entanto, Karlyle estava preocupado que esse mal-entendido pudesse colocar Ash em uma posição difícil.
— Não tenho certeza, pois nunca estive em um relacionamento.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr