Define The Relationship (Novel) - Capítulo 17
Capítulo 17
— Karlyle, não falta nada na sua geladeira. — A observação alegre de Ash trouxe Karlyle de volta ao presente. Ele estava preparando a massa para a torta. Mariam adorava confeitaria, então aquilo fazia sentido. Além disso, sempre que Karlyle ficava em Londres, ela prestava atenção especial às refeições, garantindo que a geladeira permanecesse sempre totalmente abastecida com carnes e vegetais frescos. A adega de carnes no porão provavelmente continha até mesmo carne de cervo.
— Você encontrou tudo de que precisava? — Karlyle perguntou.
— Sim. Eu poderia até fazer morcela se quisesse — Ash respondeu.
Karlyle torceu o nariz de leve. *morcela? Aquilo era inesperado.
(N/T: conhecido no Brasil como morcela ou chouriço de sangue é um tipo de embutido escuro tradicional da culinária do Reino Unido e da Irlanda. É feito com sangue de porco ou, ocasionalmente, de boi.)
— Você gosta de morcela?
— Não. E você?
— Não gosto nem um pouco.
Ash riu alegremente enquanto forrava com cuidado a forma de torta com a massa. Sua habilidade era evidente na disposição organizada e com espessura uniforme.
— Eu estava brincando. Mas é empolgante descobrir que não gostamos da mesma coisa.
— Você parece encontrar alegria em pequenas coisas.
— É mesmo? — Ash sorriu. — Tem mais alguma coisa de que você não goste? — Ash perguntou com interesse genuíno.
Karlyle não conseguia entender a curiosidade de Ash, mas ainda assim refletiu sobre a pergunta. Ele agora conseguia se lembrar mais facilmente de coisas que antes não teriam vindo à sua mente.
— Eu não como escargot.
— Ah, você não está falando sério. Nem mesmo os pequenos, como crustáceos?
— Presumo que essa seja a sua preferência, Sr. Jones.
Embora não tivesse a intenção de ser uma piada, Ash riu abafado. Seus lábios deram um rápido selinho na bochecha de Karlyle. Karlyle, que estava preparando as ervas aromáticas, congelou.
— Com certeza. Sou um verdadeiro carnívoro. Como caracóis tanto pequenos quanto grandes. É melhor tomar cuidado comigo, Karlyle.
Karlyle riu internamente do aviso brincalhão de Ash. Embora Karlyle não tivesse sorrido, sua expressão suavizou. Ash notou essa mudança, e seu olhar demorou-se nele. Karlyle, contudo, não percebeu esse olhar.
Enquanto trocavam conversas triviais, porém altamente importantes, o ato de cozinhar continuava. Ash preencheu a massa da torta com o recheio antes de colocá-la no forno. Em seguida, ele começou a trabalhar no merengue.
A conversa mudou para sobremesas, um tópico sobre o qual Karlyle não tinha opiniões fortes, então Ash fez perguntas do tipo “isto ou aquilo”.
— O que você prefere, ruibarbo ou figo?
— Ruibarbo seria melhor.
Mariam não gostava de usar máquinas, alegando que era incômodo, e preferia bater o merengue à mão. Por isso, não havia uma batedeira planetária na casa. Apesar disso, Ash bateu o merengue com maestria, em movimentos graciosos, porém poderosos, com as veias saltando levemente em seus antebraços.
Karlyle assumiu o papel de adicionar o açúcar às claras com uma colher enquanto Ash as batia. Um jazz relaxante e suave tocava ao fundo enquanto cozinhavam juntos. Toda aquela experiência era muito pouco familiar para ele, mas ele a estava desfrutando imensamente.
— Eu gosto de pêssegos — Ash disse.
— Bem, não parece — Karlyle apontou.
— Sua língua é afiada. Como recompensa, você será o meu provador — Ash respondeu, fazendo Karlyle piscar. Ash mergulhou o dedo no merengue branco em picos perfeitos.
Karlyle ficou perplexo.
— Você quer que eu…?
— Sim, experimente.
Ash estendeu o dedo com um olhar inocente. Karlyle hesitou. Ash aproximou-o ainda mais da boca de Karlyle. Por fim, Karlyle abriu a boca e inclinou a cabeça para colocar o dedo de Ash entre os lábios. A nuca dele esquentou.
O merengue branco no dedo de Ash tinha um gosto simples, mas doce. Colocando a língua para fora, Karlyle o limpou por completo. Seus lábios envolveram o dedo de Ash. Com os olhos baixos, Karlyle lambeu diligentemente cada pedacinho do merengue. Ele sentiu uma onda de calor.
Ash retirou o dedo. Enquanto Karlyle olhava para cima com uma estranha sensação de decepção pelo doce que desaparecia, a língua de Ash invadiu sua boca. Ash inclinou apenas o rosto e o beijou.
A língua de Ash enredou-se à de Karlyle onde o merengue havia derretido. Em vez de desaparecer, o gosto doce se intensificou. Sua língua também parecia derreter no entrelaço. Era doce, muito doce.
— Hngh. — Um gemido curto escapou dos lábios de Karlyle. Ele fechou os olhos sem sequer perceber. Os feromônios de Ash cercaram os dois. Justo quando Karlyle sentiu que estava prestes a ansiar por mais, Ash se afastou — o cronômetro do forno havia tocado.
Seus olhares se fixaram. Ash riu abafado enquanto passava a língua pelos lábios avermelhados.
— Quase queimamos a massa — disse ele, pousando a tigela de merengue e estendendo os braços ao redor de Karlyle como se fosse encurralá-lo. O forno estava logo atrás dele. Ainda segurando Karlyle, Ash o desligou.
Ash sussurrou em seu ouvido: — Então, que gosto tinha, Karlyle?
O gosto doce permanecia na boca de Karlyle. Ele desviou os olhos e respondeu baixinho: — …estava doce.
— De um jeito bom? — Ash perguntou.
Karlyle não sabia dizer. — Não tenho certeza.
— Você não quer comer mais disso?
Karlyle balançou a cabeça. — Eu quero. — Ele queria comer. Queria continuar provando.
Ash sorriu, satisfeito com a resposta de Karlyle.
O preparo do jantar continuou sem sobressaltos. Depois de uma hora, tanto a torta quanto o confit estavam prontos. Eles dispuseram o pão de soda que Mariam havia feito como entrada e serviram a salada de cuscuz que haviam preparado juntos, o que tornou a refeição um verdadeiro banquete. Karlyle não sabia como categorizar esse tempo passado com Ash. A única coisa que sabia era que estava desfrutando daquilo mais do que esperava.
Havia muito tempo que ele não desfrutava de algo tanto assim. Essa também era a primeira vez que Ash permanecia ao seu lado por um longo período — desde a tarde até as nove da noite. Karlyle sentia-se satisfeito com esse fato.
— Está delicioso — disse Ash, provando o confit. Indicando que realmente falava sério, ele deu várias mordidas grandes no pato, devorando mais da metade de uma vez só. A memória de Alice deixando seu prato frio e intocado foi sobreposta pelo prato quente e semi-consumido de Ash à sua frente. O sangue fluiu calorosamente pelas veias de Karlyle.
— Fico feliz que goste.
— Quem quer que acabe em um relacionamento com você terá muita sorte. Porque realmente não há nada que você não saiba fazer, Karlyle.
O garfo de Karlyle parou no ar. Sua mão, que estivera cortando a carne com elegância, enrijeceu. Ignorando o turbilhão interno, ele continuou a conversa.
— Sr. Jones… é assim que você é com todo mundo com quem sai?
Assim que perguntou, arrependeu-se. Fora tão desnecessário quanto a vez em que questionara sobre o tipo ideal de Ash.
Ash apoiou o queixo na mão. A mão de Karlyle, que havia pousado o garfo por um breve instante, agora segurava sua taça de vinho. Como sua casa só tinha vinho, Ash escolhera o de menor teor alcoólico para acompanhar a refeição.
— Depende de quem seja — Ash respondeu com honestidade. Karlyle permaneceu em silêncio.
— No seu caso, Karlyle, é a sua primeira vez. E, além do mais, você está fazendo isso com alguém de quem nem gosta, então estou fazendo o meu melhor para cuidar de você.
Karlyle baixou o olhar diante da menção a “alguém de quem nem gosta”.
— …Eu não desgosto de você — ele murmurou.
Ash piscou. Em seguida, um sorriso floresceu em seu rosto, tão brilhante quanto as rosas que ele havia trazido.
— Melhorei de posição desde que era o pior? Isso é um alívio.
Karlyle desejou que fosse exatamente como ele dizia. Enquanto Ash falava, Karlyle começou a compreender a profundidade de seus próprios sentimentos, percebendo que eles iam além de um mero afeto. Talvez ele…
— Ah, é verdade — disse Ash, tirando a mão do queixo. Karlyle olhou para ele, intrigado. — Seu pescoço. Desculpe por isso.
Karlyle olhou para baixo. As marcas ao redor de seu pescoço e da parte superior do peito eram tão proeminentes que uma camisa leve de verão não seria capaz de cobri-las.
Se ele saísse na rua assim, as marcas ficariam visíveis para os outros. Ele precisaria usar um terno para escondê-las. Embora fosse de fato incômodo, Karlyle sentiu um desconforto estranho quando Ash se desculpou por isso.
— Eu costumo me conter e não fazer isso se não estiver em um relacionamento, mas esqueci no momento.
“Em um relacionamento”. Karlyle ergueu a mão para tocar o pescoço, mas logo se conteve com um sobressalto. A marca de mordida era um sinal de posse, um comportamento comum entre alfas, embora não exclusivo deles.
Karlyle de repente pensou nas pessoas com quem Ash estivera “em relacionamentos”, aquelas que deviam ter carregado suas marcas. Rostos e nomes que ele sequer conhecia o incomodavam. Não devia ter sido apenas uma pessoa. Esse fato abateu o seu ânimo.
Mas por quê?
Para responder a essa pergunta, Karlyle precisava reconhecer seus próprios sentimentos. No entanto, a linguagem dava forma aos pensamentos. Emoções antes nebulosas se tornariam concretas quando verbalizadas. Se ele definisse seus sentimentos, mesmo que silenciosamente para si mesmo, seria um caminho sem volta.
Karlyle queria adiar esse momento pelo maior tempo possível. Talvez, com o tempo, esses sentimentos desaparecessem por conta própria. Quem sabe eles não minguariam naturalmente após o término do acordo entre eles?
Enquanto terminavam a refeição e desfrutavam da sobremesa, e mesmo quando davam as mãos e caminhavam pelo jardim, ele se manteve firme nessa decisão.
O aroma sutil de grama vinha na brisa quente de verão, e o zumbido suave dos insetos soava à distância enquanto Ash admirava as peônias em seu pleno esplendor sob o céu noturno. No meio de tudo isso, Karlyle lutava contra a admissão de seus sentimentos.
Contudo.
Quando ele parou diante de Ash ao final da noite, não pôde deixar de se render à verdade incontestável.
Como ele poderia resistir. — Você me daria um beijo de boa noite, Karlyle? — A se apaixonar pelo homem que apontava para os próprios lábios com a voz mais gentil do mundo?
— Acho que me trará bons sonhos.
Como ele seria capaz, algum dia, de não se apaixonar por ele?
— Por favor? — Ash pediu, com as estrelas dançando acima dele como se fossem uma cascata luminosa.
O peito de Karlyle se apertou e depois se abriu, apenas para se expandir amplamente mais uma vez. No meio daquele doce tormento, Karlyle finalmente ergueu o queixo. Seus lábios se encontraram suavemente, a acidez doce da torta de limão com merengue passando entre eles a cada respiração. As estrelas atrás de Ash brilhavam como um campo de margaridas.
Era tudo belo demais para se contemplar.
Lentamente, seus lábios se separaram. Karlyle já ansiava mais uma vez pela brisa quente de verão que o envolvia, pelo aroma fresco de Ash e pelo toque cítrico de limão vindo de sua boca. Cada momento parecia passar rápido demais quando ele estava com Ash.
— Tenha uma boa noite.
Ash endireitou as costas. Ele se virou e caminhou em direção ao seu carro, sem olhar para trás uma única vez. A pergunta sobre se ele poderia passar a noite e a sugestão de chamar um motorista — nenhum desses pensamentos conseguiu passar pela boca de Karlyle.
Karlyle permaneceu no mesmo lugar por um longo tempo, encarando o ponto de onde o carro havia partido. O céu noturno parecia vasto e imensuravelmente profundo sem Ash. Na escuridão, onde a solidão chovia sobre ele, Karlyle passou a mão pelo rosto e contou silenciosamente.
Mais cinco vezes.
Ele só poderia ver Ash mais cinco vezes. Três semanas já haviam se passado. Karlyle foi dominado por uma apreensão que não sentia há anos. Era semelhante ao medo que tivera quando criança de que nunca mais veria Kyle vivo.
O sorriso direcionado a ele, os carinhos gentis daquelas mãos, a voz carinhosa indagando sobre os pensamentos de Karlyle, o aroma sutil que Ash emanava e os beijos que derretiam Karlyle tão profundamente que o assustavam — toda essa felicidade que Ash apresentava estava caminhando para um fim inevitável. Isso agonizava Karlyle.
A solidão intensa e o pavor despedaçaram tudo o que um dia fora Karlyle. As partes dispersas lentamente se uniram de volta, moldando-se em uma nova forma.
Ao retornar para o seu quarto, Karlyle acariciou os lençóis que ainda guardavam os vestígios deles. Ele finalmente admitiu para si mesmo.
Pela primeira vez em sua vida, havia se apaixonado por alguém.
E aquela pessoa adorável, para Karlyle não era outro, senão Ash.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr