Define The Relationship (Novel) - Capítulo 05
Semana 2
O segundo encontro ocorreu em um dia não programado, já era tarde. Karlyle havia acabado de encerrar uma reunião com um cliente no Hotel Connaught, não muito longe da propriedade de sua família em Mayfair.
A programação do dia terminaria com um jantar em um restaurante premiado com estrela Michelin dentro do próprio hotel.
Graças às conexões de sua mãe com o estabelecimento, ele e o grupo de negócios precisavam apenas descer até o andar do restaurante, sem necessidade de reserva.
Quando começaram a se dirigir para lá, seu celular tocou.
O telefone, usado exclusivamente para assuntos pessoais, estava guardado no bolso interno de seu paletó.
Em silêncio, ele o retirou e viu o nome de Ash exibido na tela.
Boa noite, Karlyle. Você está livre hoje?
Surpreso ao ver aquele nome, Karlyle permaneceu olhando para a tela.
Jonathan lançou um olhar para ele.
Assim como Karlyle, Jonathan passava grande parte do tempo viajando a trabalho, mas recentemente havia retornado a Londres após uma longa ausência para reencontrar a esposa e agora acompanhava o filho.
Os olhos de Jonathan, do mesmo tom de cinza que Karlyle herdara, analisaram o filho por alguns segundos.
— Deve ser uma mensagem urgente.
A voz grave fez Karlyle erguer o olhar.
O cliente também o observava.
A família de Karlyle administrava dois negócios.
O primeiro era o setor imobiliário, um legado transmitido pela família Frost por gerações.
O segundo era uma empresa de investimentos pertencente e administrada por Jonathan.
Desde o século XIX, a família Frost havia acumulado uma fortuna considerável por meio da posse de terrenos em áreas nobres de Londres, como Mayfair, além de manter propriedades significativas no Canadá.
Alice Frost, oriunda de uma família influente, casou-se com Jonathan, proprietário de uma empresa de investimentos, e teve dois filhos: Karlyle e seu irmão mais novo, Kyle.
A união dos dois estava longe de ser comum.
Jonathan não possuía sangue nobre e, acima de tudo, tanto ele quanto Alice eram alfas.
Embora casamentos entre alfas não fossem proibidos pela sociedade, a nobreza sempre considerou natural que um alfa formasse par com um ômega.
Por essa razão, o casamento de Alice enfureceu seu pai.
Sua indignação o levou a vigiar de perto os netos, criando-os sob uma disciplina rigorosa para impedir que outro fracasso semelhante acontecesse.
Ele era particularmente severo com Karlyle porque, ao contrário de Kyle, que era um alfa dominante, Karlyle era apenas um alfa comum.
Ao longo das gerações da nobreza, sempre foi costume que os alfas dominantes herdassem a maior parte da fortuna da família e assumissem a administração dos negócios familiares.
Como Kyle era o alfa dominante, ele deveria ter assumido as responsabilidades que Karlyle desempenhava atualmente.
No entanto, o querido irmão de Karlyle foi sequestrado aos treze anos por uma organização criminosa que tinha como alvo alfas dominantes para extorquir resgates de suas famílias.
Embora tivesse retornado para casa, Kyle carregou graves traumas psicológicos durante toda a adolescência.
Como Kyle, o herdeiro designado, não estava em condições mentais estáveis, Karlyle assumiu as responsabilidades temporariamente.
Ainda assim, ele nunca ressentiu essa situação.
Desde o nascimento, tinha plena consciência das tradições de sua família e, acima de tudo, a felicidade de seu irmão era a coisa mais importante para ele.
Por isso, desde os dezesseis anos, Karlyle vinha se preparando para herdar os negócios da família e fez sua estreia na alta sociedade para construir uma rede de contatos.
Nos últimos anos, passou a atuar ao lado de Jonathan no mercado do Catar, concentrando-se na abertura de uma filial da empresa.
O cliente que os acompanhava era uma figura importante no crescente cenário de desenvolvimento imobiliário do leste de Londres, uma região cujos valores imobiliários continuavam subindo constantemente.
Devido à extensa rede de contatos daquele homem, era importante que Karlyle causasse uma boa impressão.
Consequentemente, ele se esforçava para ser especialmente cordial em sua presença.
Um sorriso profissional, reservado exclusivamente para reuniões de negócios, surgiu em seu rosto quase por reflexo.
Sob olhos que permaneciam sem sorrir, seus lábios se curvaram como se fossem uma pintura cuidadosamente desenhada, compondo uma aparência marcante.
Era uma expressão estranha e, ao mesmo tempo, familiar.
— Peço desculpas por isso.
Era quinta-feira e Karlyle já tinha planos.
O pedido de Ash não merecia sequer mais um instante de consideração e não seria aceito.
Eles haviam combinado de se encontrar apenas nos fins de semana, então não haveria problema em responder à mensagem mais tarde.
Sua mão se moveu levemente para guardar o celular de volta no bolso.
…Vai ficar tudo bem.
Mas não deveria responder mesmo assim?
Karlyle hesitou.
Porque o último jantar que tiveram — o terceiro encontro para Karlyle e o segundo para Ash — veio à sua mente.
Naquele dia, eles permaneceram no restaurante por mais algum tempo antes de seguirem caminhos diferentes, conversando sobre os encontros futuros.
Ash apresentou os próximos oito encontros como se estivesse planejando o cronograma de um curso, mas manteve os detalhes vagos.
Ele sugeriu que explorassem cada etapa conforme ela chegasse, acreditando que saber demais antecipadamente diminuiria a empolgação.
Então a imagem dos olhos sorridentes de Ash, vivos e cheios de energia, surgiu na mente de Karlyle.
As suaves linhas que se formavam nos cantos daqueles olhos expressivos possuíam um poder fascinante.
Mas aqueles mesmos olhos, que antes carregavam um sorriso caloroso, haviam se tornado frios em resposta às palavras de Karlyle.
Fosse por sua criação ou simplesmente por sua personalidade, Ash conseguira impedir que a situação escalasse.
Ainda assim, Karlyle tinha certeza de que havia deixado uma impressão negativa nele.
Se agora ignorasse a mensagem sem sequer responder…
Jonathan, que havia percebido a hesitação do filho, abriu a boca para falar.
— Sr. Roman, que tal jantarmos apenas nós dois esta noite?
Ao ouvir a voz elegante de Jonathan, o cliente deles, Roman Milato, assumiu uma expressão como se tivesse entendido alguma coisa.
— Não há necessidade disso — Karlyle se apressou em protestar, com um sorriso já enfraquecido.
Jonathan, porém, o ignorou e falou cordialmente com Roman.
— E, já que estaremos sozinhos, podemos conversar sobre assuntos que os jovens de hoje em dia não entenderiam.
— Suponho que Karlyle ainda esteja na idade em que encontros como este podem ser entediantes para ele — respondeu Roman com bom humor.
Karlyle ocultou sua perplexidade ao ser tratado como um jovem, apesar de já estar na casa dos trinta anos.
Ele não conseguia compreender por que seu pai havia sugerido aquilo.
Com a concordância de Roman garantida, Jonathan voltou-se para Karlyle.
— Parece que você tem algo para resolver, então pode ir na frente.
— Mas…
Como se não tivesse a menor intenção de ouvir mais objeções, Jonathan conduziu Roman até o elevador no fim do corredor assim que as portas se abriram.
Karlyle tentou segui-los, mas Jonathan o impediu com um sorriso.
— Karlyle.
Ao ouvir aquele tom firme, que não deixava espaço para discussão, Karlyle obedeceu relutantemente.
Ele sempre fora um filho obediente, alguém que jamais contrariava os pais.
Assumir as responsabilidades de seu irmão e evitar causar mais preocupações à família eram motivos pelos quais ele havia atendido a todos os pedidos de Alice e Jonathan.
A obediência era uma virtude que Karlyle sempre cultivara e mantivera.
—Então, se me dão licença, vou me retirar primeiro. Peço desculpas, Sr. Milato.
—Não se preocupe, Karlyle. Vejo você na próxima reunião.
Enquanto Roman assentia com a cabeça, a porta do elevador se fechou. Sozinho no corredor silencioso, Karlyle baixou o olhar para a própria mão. Ele encarou a tela por um momento e levou algum tempo para digitar sua resposta.
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Ash sugeriu que se encontrassem em South Bank. Karlyle chegou exatamente dez minutos antes do horário combinado. Hoje, Ash havia chegado antes dele. Não foi difícil localizá-lo, pois ele estava no saguão que ligava o BFI ao South Bank Centre, cercado por pessoas.
Karlyle pôde ver dois ômegas masculinos puxando conversa com ele. Ash estava encostado em uma coluna, de braços cruzados, sorrindo cordialmente para eles. Parecia natural e à vontade.
A naturalidade daquela cena fez Karlyle hesitar em interromper. Toda vez que via Ash, o contraste entre os mundos deles se tornava mais evidente, destacando o quão diferentes eram suas vidas.
Sorrir deve ser um hábito para ele.
A suspeita de Karlyle se transformou em certeza. Em vez de ser uma forma de expressar sentimentos especiais por seus companheiros, o sorriso que Ash carregava era simplesmente um hábito. Portanto, sorrir para Karlyle não devia ter sido algo difícil para ele. De repente, Karlyle se lembrou de um detalhe intrigante que vinha ocupando seus pensamentos desde o fim do último encontro deles.
Ele realmente não se importa de encontrar e tocar alguém de quem não gosta, mesmo que seja para fazer um favor?
Ash percebeu a presença de Karlyle enquanto ele estava imerso em seus pensamentos. Afastou-se da coluna e, educadamente, despediu-se dos homens que continuavam tentando manter a conversa com ele. Então começou a caminhar em direção a Karlyle.
—Boa noite, Karlyle.
Quando a voz suave ecoou, Ash já estava diante dele. Os olhos sorridentes de Ash estavam voltados apenas para Karlyle. Uma fragrância sutil pairava no ar. Os feromônios de Ash exalavam o aroma de madeira seca ao sol. Era um cheiro discreto, mas marcante, e embora fosse o aroma de outro alfa, Karlyle não sentia qualquer repulsa. De fato, era algo bastante curioso.
Tomado por uma sensação estranha, Karlyle baixou ligeiramente o olhar. Ash estava vestido de maneira casual; a camiseta branca ajustada ao corpo e o jeans eram simples, mas elegantes. Isso contrastava com o traje social de verão mais formal de Karlyle. Seus olhos se detiveram brevemente na parte superior do corpo bem definida de Ash e então se voltaram para a direção de onde ele havia vindo.
—…Interrompi alguma coisa? —perguntou Karlyle.
—Interrompeu? Ah.
Ash seguiu o olhar de Karlyle. Seus olhos se curvaram em meias-luas.
—Eu vim aqui para ver você, Karlyle.
—Teria sido mais trabalhoso ignorar as pessoas que estavam falando comigo, então apenas dei atenção a elas por um tempo —acrescentou.
Seu tom era afetuoso, mas o conteúdo de suas palavras era bastante indiferente. Karlyle não soube o que dizer. Precisava de tempo para refletir sobre a resposta de Ash, que parecia sugerir fortemente que eles estavam em um encontro. Não, não era isso. Ash estava apenas dizendo a verdade. Afinal, era um fato que eles haviam combinado de se encontrar.
—Você já jantou? —perguntou Ash.
Karlyle olhou para o relógio de pulso. Eram seis da tarde. Ele não estava com fome, mas já era hora do jantar e, de fato, ainda não havia jantado.
—Ainda não. E você, Sr. Jones?
—Não. Então estou com fome. Vamos comer alguma coisa primeiro?
“O que faremos depois disso?”
Enquanto pensava nisso, Karlyle chegou a uma constatação importante: ele havia concordado com aquele encontro sem sequer saber qual era o propósito dele.
—…Posso fazer uma pergunta?
—Claro.
Ash ficou ao lado de Karlyle, sorrindo cordialmente. Sua mão roçou de leve a cintura de Karlyle, tocando apenas o tecido do terno, como se pretendesse repousar ali, mas sem realmente fazê-lo.
—Não havíamos combinado de nos encontrar apenas nos fins de semana?
—Sim, isso mesmo.
Os olhos de Karlyle demonstraram dúvida. Sua expressão permaneceu praticamente inalterada, mas Ash percebeu sua confusão durante o breve silêncio e soltou uma risada baixa.
—Então você veio até aqui sem nem saber para quê?
Ash lançou um olhar para baixo, um sorriso sugestivo brincando em seus lábios. Seus dedos se estenderam e acariciaram suavemente a bochecha de Karlyle, acabando por repousar em seu queixo.
—Há um lado surpreendentemente ingênuo em você, Karlyle.
—…Se isso foi uma piada, não teve muita graça.
—Estou falando muito sério. Eu não imaginava que você fosse ingênuo, então foi uma descoberta inesperada.
Enquanto falava, Ash deslizou o polegar pelo queixo de Karlyle e depois por seu pescoço. Seus dedos passaram pelo pomo de Adão dele antes de serem recolhidos. Em seguida, Ash puxou Karlyle para mais perto.
Karlyle fechou a boca. Sentia como se estivesse sendo provocado. Não era ofensivo, mas ele não sabia como reagir. Provocações não eram seu forte. Estava acostumado à forma de falar da nobreza — sarcasmo, rodeios ou sondagens indiretas —, mas não àquilo.
—Consegui dois ingressos para um filme, então pensei que seria bom assistirmos juntos.
Dessa vez, realmente parecia que eles estavam em um encontro.
—Tem certeza de que está tudo bem para você passar seu tempo comigo assim?
—Como eu disse, não vou fazer isso até que você tenha vontade —respondeu Ash.
Karlyle olhou para ele, ainda sem conseguir entender o que Ash estava pensando.
—Não sei quanto a você, mas eu só sinto vontade de fazer alguma coisa depois de conhecer a pessoa. E eu ainda não conversei sobre nada com você, Karlyle.
—Conversar, você diz?
—Por exemplo, sobre as coisas de que você gosta ou sobre o que faz…
Eles continuaram conversando enquanto Ash guiava Karlyle até um restaurante no térreo de South Bank, situado às margens do rio Tâmisa. Não possuía a sofisticação dos lugares que Karlyle costumava frequentar, mas tinha um charme simples e agradável, transmitindo uma atmosfera acolhedora.
—Então hoje quero que você me fale sobre você, Karlyle.
Ash acrescentou:
—Eu também vou falar sobre mim.
Depois que foram conduzidos à mesa, ele puxou a cadeira para Karlyle. Por ter perdido o momento certo para responder, Karlyle sentiu-se momentaneamente desconcertado e pressionou os lábios, escondendo sua reação.
Karlyle sentia que estava sendo arrastado pelo ritmo de Ash. Sabia que precisava manter a compostura e retomar o controle; ainda assim, a própria base da dinâmica entre eles já parecia estar vacilando.
Controle-se, Karlyle, repreendeu-se silenciosamente.
Agora sentados, ambos estenderam a mão para o cardápio ao mesmo tempo. Seus olhares se encontraram, e os lábios de Ash se curvaram em um sorriso. Com um sorriso florescendo como uma flor, Ash tomou a mão de Karlyle entre as suas.
—Por favor, escolha primeiro, Karlyle.
A mente de Karlyle entrou em turbulência quando os dedos de Ash se entrelaçaram aos seus, mantendo sua mão presa. Depois de permanecer em silêncio por um breve momento, ele finalmente encontrou a voz e lhe devolveu a mesma cortesia.
—Não. Você deveria escolher primeiro, Sr. Jones.
—Então vamos olhar juntos?
A mão de Ash era ao mesmo tempo macia e firme, além de agradavelmente morna. Karlyle sentiu o frio de sua própria mão desaparecer no toque de Ash. Sem esperar uma resposta, Ash já havia baixado o olhar para o cardápio. Distraidamente, Karlyle observou alguns fios de cabelo que caíam soltos sobre a bela testa de Ash antes de finalmente voltar sua atenção para o menu. Apesar de já ser noite, o calor ainda permanecia no ar.
Ash pediu uma salada antes de ir direto para a sobremesa. Karlyle pediu apenas pão e uma tigela de sopa.
—Isso vai ser suficiente? —perguntou Ash.
Karlyle lhe fez a mesma pergunta.
Durante o tempo limitado que passaram juntos, Ash iniciou uma conversa sobre filmes. Quando perguntou qual era seu gênero favorito, Karlyle demorou bastante para responder. Para ele, apreciar arte era apenas uma forma de aprimorar sua sofisticação cultural. Como tal, era um assunto necessário para conversas, não muito diferente da aquisição de qualquer outro conhecimento obrigatório. Por isso, Karlyle não tinha preferências muito fortes.
Havia, porém, um gênero de que não gostava.
Karlyle, que estava refletindo havia bastante tempo, pensou duas vezes antes de dizer qual era. Não conseguia se lembrar de alguma vez ter contado a alguém algo de que não gostasse. Percebendo sua hesitação, Ash inclinou levemente a cabeça e perguntou:
—Você não tem nenhum gênero de que não goste?
—Não, não é isso.
—Então me conte, Karlyle.
Ash acrescentou em um sussurro:
—Eu quero saber.
Ash realmente queria saber até mesmo detalhes insignificantes, como os filmes de que Karlyle não gostava. Seu sussurro soou quase desesperado, fazendo a garganta de Karlyle se contrair um pouco. Após uma breve hesitação, Karlyle decidiu que aquilo era, de fato, algo trivial. Embora se sentisse estranho ao colocar aquilo em palavras, compartilhar a informação em si não representava problema algum.
—…Eu não gosto de filmes de zumbi.
—Ahaha, sério?
Ash riu como se tivesse achado a resposta adorável. Com um ar claramente divertido, perguntou:
—Posso perguntar por quê?
A garganta de Karlyle pareceu se fechar um pouco mais.
Não era nada demais, apenas algo banal, mas ao mesmo tempo difícil de explicar.
Por quê, ele perguntou.
Ninguém jamais havia ido tão fundo. Ninguém ao seu redor jamais demonstrara interesse em conhecer algo pessoal ou os pensamentos insignificantes que Karlyle guardava para si.
Em seu mundo, composto principalmente por alfas de sangue nobre, fossem eles de linhagem pura ou mestiça, perguntar o motivo de algo era algo reservado para a apreciação de formas de arte mais refinadas.
—É que…
Karlyle evitou discretamente encontrar o olhar de Ash. Em vez disso, seus olhos cruzaram com os de uma garçonete que passava. Desviando elegantemente a atenção de Ash de seu rosto, ele fez um leve aceno para ela. A garçonete aproximou-se da mesa e, a seu pedido, foi buscar a conta.
Os olhos de Ash continuavam fixos nele.
A garçonete retornou rapidamente e se retirou assim que colocou a conta sobre a mesa.
Ash abriu a boca para falar.
—Karlyle.
O chamado suave o pegou de surpresa. Ele estava levando a mão ao bolso para pegar a carteira, mas parou no meio do movimento.
—Você não precisa me contar nada que não queira.
A mão de Ash alcançou o pulso de Karlyle. Perdendo o controle da carteira, Karlyle deixou que sua mão fosse puxada em direção a ele.
—Então não pense tanto nisso.
Segurando o pulso de Karlyle, Ash levantou-se da cadeira. Karlyle se levantou logo em seguida, quase sem pensar, e Ash o puxou para mais perto antes de deixar algumas notas sobre a conta.
—Eu deveria…
—Você pagou da última vez. Deixe que eu pague esta —interrompeu Ash.
Embora nunca tivesse a intenção de ostentar, Karlyle tinha plena consciência de que possuía uma riqueza incomparável à da maioria das pessoas. Enquanto o encarava com uma expressão confusa, Ash o puxou ainda mais para perto. Só então Karlyle percebeu que estava praticamente envolvido pelos braços dele enquanto Ash os conduzia em determinada direção.
—O filme está prestes a começar. Vamos?
Sentindo o contato dos músculos de Ash contra seu braço e suas costas, Karlyle voltou o olhar para a frente. Era o corpo de um alfa, construído de forma não muito diferente do seu próprio. Ao perceber que havia ficado tenso por um contato que não deveria afetá-lo, repreendeu-se mentalmente por sua reação e assumiu uma expressão impassível.
Sentia-se desconfortável e insatisfeito consigo mesmo por estar sendo influenciado e vacilando daquela forma. Em vez de direcionar sua frustração para Ash, encontrava a origem dela dentro de si. Ainda assim, não queria afastá-lo. Seus sentimentos se emaranhavam em uma complexidade difícil de compreender.
Independentemente de seus pensamentos conturbados, os sapatos sociais de Karlyle continuaram avançando.
Pouco depois, chegaram ao cinema.
O cinema estava quase vazio. Ash os conduziu até a última fileira. A sala era relativamente pequena, o que fazia a tela parecer perfeitamente proporcional ao ambiente. Ash sentou-se ao lado de Karlyle e, após observar atentamente sua expressão, quebrou o silêncio desconfortável com uma voz baixa.
—Você está bem?
Karlyle assentiu, embora não encontrasse o olhar de Ash. Estar com ele era como caminhar por areia movediça; fazia-o sentir como se estivesse perdendo o controle sobre si mesmo e afundando cada vez mais.
—Karlyle, olhe para mim.
A voz de Ash ficou ainda mais baixa quando ele falou novamente, levando Karlyle a virar a cabeça em sua direção. Ash estava sorrindo, mas sua expressão também parecia contida.
—Eu fiz alguma coisa que deixou você desconfortável?
—…Não, você não fez.
—Então por que está evitando olhar para mim?
As luzes do cinema diminuíram lentamente até desaparecerem. A claridade da tela branca iluminou o perfil de Ash.
—É porquê…
Karlyle quase franziu a testa, mas rapidamente recuperou a compostura.
Eu não deveria perder a calma.
Ash era apenas um parceiro temporário e, além disso, um alfa. Em dois meses, seguiriam caminhos separados. Embora tivessem compartilhado um beijo, Ash nem sequer se lembrava dele…
—Karlyle, se você não me disser honestamente, eu não vou saber o que fiz de errado.
—Você não fez nada de errado.
—Tem certeza?
A mão de Ash pousou sobre o dorso da mão de Karlyle, que descansava no apoio da poltrona. Karlyle baixou os olhos para as mãos que se tocavam.
—Não é porque você não gosta que eu toque em você?
Não.
Sem perceber, Karlyle balançou a cabeça apressadamente e respondeu com firmeza:
—Acredito que deixei claro da última vez que isso não é um problema.
— Então, por favor, não evite meus olhos — Ash disse em uma voz contida. — Quando você faz isso… fere meus sentimentos.
Algo corroía Karlyle. Ele não conseguia avaliar as intenções de Ash. Sem nenhuma lembrança do passado passageiro deles, Ash estava apenas se envolvendo com Karlyle por consideração. No entanto, ele vinha tratando Karlyle como se genuinamente se importasse com ele. Embora Karlyle soubesse que isso não era verdade.
Ash amava Nicholas. Ele provavelmente ainda nutria algum desgosto por Karlyle também. Apesar de suas tentativas de contê-la, a pergunta que Karlyle vinha reprimindo escapou de seus lábios. — Você… sempre vai a extremos assim?
Ash ergueu um pouco as sobrancelhas.
— Eu não tinha a impressão de que você gostasse particularmente de mim — Karlyle acrescentou, confuso.
— Isso era verdade — Ash admitiu. — Mas eu já te disse da última vez, não disse? Que eu não me apego a esses sentimentos.
— Mesmo assim, a maneira como você está se comportando no momento é…
Quando Ash entendeu o que Karlyle estava querendo dizer, a expressão de Ash suavizou um pouco. — Você tem razão. Nós só vamos nos ver mais algumas vezes e, depois disso, será o fim para nós.
O tom de Ash era gentil, mas definitivo. Algo perfurou o centro das costelas de Karlyle.
— Mas você é o único com quem estou me encontrando agora, Karlyle — Ash disse enquanto entrelaçava os dedos deles mais uma vez. — Pelo menos por este momento, quero dar o meu máximo para o meu parceiro de sexo.
“Parceiro de sexo.”
Karlyle repetiu silenciosamente as palavras que Ash usara para definir o relacionamento deles; aquilo pinicou em sua língua.
—Mas não se preocupe.
Ash ergueu as mãos entrelaçadas dos dois e pressionou os lábios contra as pontas dos dedos de Karlyle.
—Como você pediu, não haverá sentimentos desnecessários envolvidos.
A voz de Ash tinha uma força capaz de inspirar confiança. O fato de ele reafirmar com tanta clareza os desejos de Karlyle despertou uma mistura estranha de emoções dentro dele — um sentimento de alívio e outro mais difícil de identificar.
Karlyle assentiu lentamente.
Nesse momento, os trailers terminaram e o filme começou. Ash, que roçou os lábios nas pontas dos dedos de Karlyle mais uma vez, abriu um breve sorriso. Então colocou as mãos entrelaçadas sobre a própria coxa e voltou sua atenção para a tela. Deixando sua mão capturada daquela forma, Karlyle também se esforçou para concentrar-se no filme.
No entanto, era impossível.
Seus pensamentos estavam inteiramente voltados para a mão que segurava a sua com a pressão exata. A última vez em que se lembrava ter segurado a mão de alguém por tanto tempo havia sido durante a infância, quando guiava seu irmão mais novo, Kyle, enquanto lhe mostrava diferentes lugares.
Karlyle nunca tivera um relacionamento amoroso. Mesmo nos encontros marcados por conveniência ou interesses profissionais, jamais havia dado as mãos a alguém.
Ele considerava aquilo um gesto excessivamente íntimo.
Isso porque sempre havia se relacionado apenas com ômegas e evitava deliberadamente qualquer comportamento que pudesse levar ao desenvolvimento de apego emocional. Agora, não sabia como reagir às atitudes de Ash.
Era estranho porque ambos eram alfas, e justamente esse fato tornava tudo ainda mais ambíguo.
Como Ash havia mencionado, Karlyle insistira que não deveriam surgir sentimentos desnecessários entre eles. No entanto, essa exigência não era direcionada especificamente a Ash, mas sim uma regra geral.
Qualquer envolvimento com outro alfa jamais poderia evoluir para um relacionamento em primeiro lugar. É claro que, devido a circunstâncias peculiares, eles logo teriam uma relação sexual juntos, mas isso era tudo.
O futuro de Karlyle sempre estivera predeterminado. Aproximando-se da idade ideal para o casamento, seria apenas uma questão de tempo até que uma noiva fosse escolhida para ele. Uma vida dedicada a cumprir seus deveres para com sua futura esposa ômega era o único futuro que enxergava para si.
Perdido nesses pensamentos, Karlyle virou a cabeça quando uma respiração roçou sua orelha. Os lábios de Ash estavam próximos, quase tocando-a.
—No que está pensando, Karlyle?
O hálito quente fez cócegas em seu lóbulo, provocando um arrepio que percorreu sua espinha enquanto as palavras sussurradas penetravam fundo em seu ouvido. Karlyle sempre fora sensível nessa região. Embora cumprisse diligentemente as preliminares, não gostava de estar do outro lado. Por isso, sensações que outras pessoas poderiam considerar agradáveis geralmente lhe causavam desconforto.
Sua garganta se contraiu, e sua resposta saiu em um tom tão baixo quanto o de Ash.
—Eu não estava pensando em nada.
Ash se moveu novamente, desta vez mordiscando de leve seu lóbulo com os lábios macios.
Em seguida, seus lábios suaves percorreram a borda da orelha. A cada toque delicado, Karlyle ficava mais tenso, apertando com mais força a mão que ainda permanecia entrelaçada à de Ash, fazendo as veias em sua mão se destacarem. Seu corpo inteiro também se enrijeceu.
—O filme não está interessante? —perguntou Ash.
Para sua vergonha, Karlyle não conseguira prestar atenção ao filme nem por um instante. Sentia-se profundamente constrangido por sua falta de concentração. Se alguém lhe perguntasse sobre a história, ele não saberia responder. Nem sequer conseguia se lembrar de algo tão básico quanto o nome do protagonista. Como normalmente tinha facilidade para ouvir, absorver e memorizar informações, aquela era uma falha particularmente incomum.
—N-Não —conseguiu responder Karlyle.
Ash passou a ponta da língua pela orelha dele. O estímulo, mais intenso do que os mordiscos anteriores, fez Karlyle cerrar os dentes e fechar os olhos com força. Ele engoliu à força a respiração trêmula. Por que estava reagindo daquela maneira?
—A… Ash.
Karlyle sabia que deveria impedi-lo, mas temia que algum som involuntário escapasse caso abrisse a boca. Por isso, manteve os lábios fechados e suportou aquilo pacientemente. Convenceu-se de que aquela sensação desapareceria se apenas a suportasse.
—Acho que o filme não é muito interessante —respondeu Ash.
Então deu um leve beijo na bochecha de Karlyle. Em seguida, seus olhares se encontraram.
—Vamos embora?
Uma onda de calor percorreu o corpo de Karlyle e aqueceu a nuca dele. Quando conseguiu assentir, Ash o guiou gentilmente para fora da sala.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr