Define The Relationship (Novel) - Capítulo 01
VOLUME 1
Semana 1
Capítulo 1
— Quanto tempo faz? Parece uma eternidade desde a última vez que nos vimos assim, Karlyle — chamou uma voz assim que a porta se abriu.
Karlyle ergueu os olhos do tablet no qual revisava a agenda da tarde enviada por sua secretária. Quando desviou o olhar para a porta, viu um homem sorridente entrar. Era Luther Milan, o médico da família Frost.
— É mesmo?
— Sim, já faz seis anos. Não, sete, para ser exato.
Com um leve aceno de cabeça, Luther caminhou até o lado oposto ao de Karlyle. O laboratório de Luther, cercado por paredes de vidro, ocupava o nono andar do Hospital Royal, em Whitechapel. Ele também era o responsável pelo único laboratório de sexologia secundária de Londres.
— Acredito que tenha sido logo depois de você voltar da sua viagem de negócios aos Estados Unidos.
Luther puxou uma cadeira para o outro lado da mesa de ébano e sorriu novamente. A luz do sol entrava pela parede de vidro atrás dele, iluminando partículas de poeira que flutuavam pelo ambiente.
Embora a claridade fosse intensa, Karlyle não estreitou os olhos. Apenas entrelaçou as mãos e fixou o olhar em Luther — mais precisamente, nos papéis sob a mão dele, que continham os resultados de seus exames.
— Você tem uma memória impressionante, Luther.
— Não se compara à sua.
— Se estava tentando me deixar mais tranquilo, já conseguiu. Agora, por favor, diga-me os resultados.
Os documentos que Luther havia trazido continham os resultados da consulta realizada com Karlyle meia hora antes, juntamente com os resultados de um exame físico básico feito anteriormente.
Afinal, a consulta daquele dia tinha sido marcada especificamente para descobrir a causa dos sintomas anormais que Karlyle vinha apresentando. Rupert havia contatado Luther com extrema diligência assim que o relógio marcou nove horas da manhã e, naquela mesma tarde, Karlyle foi convocado ao laboratório dele.
Os cantos de seus olhos, que permaneciam firmes apesar da luz intensa do sol, se contraíram levemente em irritação. Karlyle ergueu a mão e pressionou os dedos contra as têmporas. Ele já conseguia imaginar o resultado antes mesmo de Luther falar.
— Você provavelmente já esperava isso, mas…
— Por favor, continue.
— Parece ser uma disfunção psicossexual, Karlyle. Isso se enquadra na categoria dos transtornos orgásmicos. Não há nada de errado com suas funções físicas.
Embora já esperasse por aquilo, o desconforto de ouvir o termo fez Karlyle conter um suspiro. O fato de ele, justamente ele, estar naquela situação despertava irritação.
Era ridículo.
Patético.
— De acordo com a avaliação da Hannah, seu senso de responsabilidade e a pressão relacionada às questões sexuais podem ser a causa principal.
Karlyle recordou a consulta que havia durado uma hora. Como alguém que jamais expressava seus pensamentos mais profundos e sinceros, participar de uma consulta psicológica tinha sido difícil. Para começar, ele nem queria estar ali.
Durante toda a sua vida, Karlyle nunca havia passado por acontecimentos dramáticos nem sofrido traumas decorrentes deles. Jamais imaginou que chegaria o dia em que precisaria de acompanhamento psicológico.
Sua consulta havia sido conduzida por uma alfa chamada Hannah, uma mulher na casa dos quarenta anos. Ela provavelmente chegara àquela conclusão a partir das poucas frases relutantes que Karlyle se dispôs a dizer.
— Essa é a opinião dela? — perguntou Karlyle.
— Sim, essa é a análise dela com base no que você compartilhou. E eu concordo com essa análise.
Luther, que completara quarenta e sete anos naquele ano, era o diretor do centro de pesquisa e um alfa competente que cuidava da saúde de Karlyle desde que ele tinha dezesseis anos. Como era de se esperar de alguém que o acompanhava há tanto tempo, Luther falava com confiança ao expressar suas opiniões.
Karlyle refletiu em silêncio sobre aquela análise.
Sobre a possibilidade de aquilo realmente ser a causa.
— Afinal, você é mais comprometido com seus deveres do que qualquer outra pessoa que conheço. Foi assim que você conduziu sua vida, Karlyle — continuou Luther.
— Tenho dificuldade em enxergar uma ligação entre meus sintomas e os pontos que você está mencionando.
Essa também era a razão pela qual o médico de Karlyle conhecia o histórico de sua vida sexual, algo que deveria ser privado e confidencial. Embora Karlyle não fosse um alfa dominante, ele ainda possuía sangue nobre e, portanto, existia a possibilidade de que um descendente excepcional surgisse em sua linhagem na geração seguinte.
Consequentemente, desde seu primeiro rut, seu avô o advertira para não se envolver com um ômega que pudesse causar problemas e fazê-lo se desviar do plano. Karlyle sempre teve olhos o observando. Ele era proibido de viver o amor juvenil e despreocupado que era comum para outras pessoas de sua idade.
O único ômega por quem Karlyle tinha permissão para se apaixonar era alguém pertencente a uma família distinta, uma escolha que sua própria família faria por ele no futuro. No entanto, nem mesmo isso havia sido decidido ainda.
A visão convencional sobre sexo era algo estranho para Karlyle. Para ele, aquilo era apenas um meio de aliviar o desejo provocado pelo rut ou uma ferramenta para facilitar seus negócios.
— Isso é um problema? — perguntou Karlyle.
— Sexo está intimamente ligado à mente.
Ao ouvir a palavra sexo, Karlyle fez uma leve careta. Ele estava mais acostumado ao termo cópula, de modo que as diversas palavras relacionadas ao sexo lhe causavam um desconforto estranho.
— A carga emocional afeta nossa função sexual.
Karlyle pensou em rebater, mas se conteve. Se seu corpo estava funcionando perfeitamente, não deveria ser capaz de ter ereção e ejacular sem problemas? Para ele, a cópula era, em última análise, um ato reprodutivo, um imperativo biológico para impedir a extinção da espécie. Na visão de Karlyle, sexo era simplesmente acasalamento.
Ainda assim, ele não expressou esse pensamento e permaneceu em silêncio. O homem à sua frente era um médico com uma compreensão muito maior da fisiologia humana do que ele. Sua própria opinião era irrelevante. Seria mais produtivo perguntar pela solução.
— Entendo.
— Veja bem, Karlyle, embora o sexo possa estar relacionado à reprodução, sua importância vai além disso no mundo moderno. Pode ser uma forma de confirmar o amor ou até mesmo uma forma de entretenimento.
Karlyle não tinha interesse nisso. De qualquer forma, aquilo não tinha relação com ele.
Em um tom indiferente, pediu uma solução.
— Diga-me qual é a prescrição, Luther.
— Eis o que eu penso.
— Certo.
— Acho que seria bom você tentar se relacionar com alguém que não seja um ômega.
Karlyle parou de pressionar as têmporas com o osso do dedo indicador e se endireitou na cadeira. A perplexidade atravessou seu rosto.
— O que você quer dizer com isso?
— Bem, se essa pessoa for excepcionalmente boa nisso, não importaria se fosse um ômega… Mas não acredito que Lord Frost aprovaria.
— Em primeiro lugar, é impossível fazer isso com alguém que não seja um ômega.
Um sorriso astuto surgiu no rosto de Luther.
Karlyle continuou com uma expressão fria:
— Que solução absurda.
— Karlyle, fico feliz em ver que ainda resta um pouco daquele inocente jovem de dezesseis anos dentro de você.
Karlyle fechou a boca diante da estranha escolha de palavras de Luther.
“Inocente?”
Ele ficou perplexo.
Rapidamente ocultou sua expressão desconfiada e respondeu em seu habitual tom frio:
— Já chega dessa bobagem, Luther.
— Muitos atos sexuais não exigem penetração, Karlyle. Embora, é claro, a penetração também seja possível.
Karlyle ficou em silêncio. Porque começava a entender aonde Luther queria chegar.
— Não acho que eu seria capaz.
— Karlyle, alfas e betas também podem sentir prazer dessa forma, desde que tenham uma próstata perfeitamente saudável.
— O que eu quis dizer é que nunca me envolvi em algo assim, então não acredito que conseguiria satisfazer meu parceiro.
— Ah, Karlyle… — suspirou Luther.
Karlyle sentiu-se desconfortável quando a conversa mudou para um território que ele não havia previsto. Ele não se sentia à vontade com situações além de seu controle.
— Estou sugerindo que você experimente algo novo.
A sugestão carregava uma implicação estranha. Karlyle tentou decifrar a intenção oculta por trás das palavras de Luther. Ele não podia estar sugerindo que…
— Inverta o que você tem feito e encontre um parceiro que possa lhe proporcionar prazer em vez disso.
Sem pressa, Karlyle abaixou as mãos e segurou os apoios da cadeira.
— Se você está cansado de ser sempre quem toma a iniciativa, não seria bom experimentar o oposto?
Uma zombaria escapou de seus lábios e se transformou em uma risada contida. Apenas seus lábios se moveram em seu rosto impassível.
— Você enlouqueceu?
— Claro que não. Minha inteligência e minha racionalidade brilham tanto hoje quanto em qualquer outro dia. É uma sorte para a humanidade ter um especialista em sexologia secundária tão competente quanto eu.
— Vou fingir que não ouvi isso. Por favor, procure outra solução.
— Karlyle. — Luther manteve o sorriso e falou em um tom sério. Assim como Luther conhecia bem Karlyle, Karlyle o conhecia bem. Quando ele fazia aquela expressão, significava que estava sendo sincero.
— Se não resolvermos isso em seus estágios iniciais, poderá eventualmente afetar sua vida cotidiana. O fato de você estar passando por isso até mesmo durante o seu rut sugere que o problema psicológico vem persistindo há bastante tempo.
— Esta não pode ser a única maneira de resolver o problema.
— Estou sugerindo isso porque tentar algo novo com um alfa ou beta seria a solução mais eficaz na sua situação atual.
— Luther.
— No momento, um ômega não pode ser um parceiro sexual normal para você. Mesmo que você faça sexo com um ômega, você simplesmente sentirá a mesma pressão e exasperação.
Karlyle não conseguiu dizer nada, pois Luther havia acertado em cheio. Karlyle tinha que admitir. Ele detestava fazer sexo com ômegas. Inúmeras considerações o pressionavam sempre que estava com um.
“Não devo desenvolver afeto. Devo ter cuidado com o controle de natalidade. Devo satisfazê-los, mas não dar a impressão de estar iludindo-os…”
Karlyle estava farto e cansado do rut que vinha todo mês. Karlyle fechou os olhos brevemente antes de abri-los novamente.
Embora ainda fosse difícil decidir quem seria o parceiro penetrante, Luther não estava errado. Karlyle teria menos preocupações se fizesse sexo com um alfa ou beta, em comparação com um ômega.
Sua inclinação para chegar a tais extremos apenas para fazer sexo era quase inexistente… No entanto, suportar tais sintomas poderia, de fato, tornar-se um problema a longo prazo. Os erros tinham de ser corrigidos cedo para evitar problemas futuros. Ele precisava tomar uma decisão racional. Sentimentos pessoais como orgulho ou preferência não tinham lugar na situação atual.
— …Eu entendo.
— Eu sabia que você compreenderia, Karlyle.
Um curto silêncio se seguiu. Karlyle entendeu que precisava conhecer um alfa ou beta. Mas onde ele encontraria tal parceiro?
— Você estava pensando em como encontrar um parceiro?
Luther o lia como um livro aberto. Ele sempre percebia as coisas tão rápido que, às vezes, chegava a ser irritante. Karlyle deu um aceno quase imperceptível.
— Seu parceiro precisa ser mais experiente sexualmente do que você. Alguém que seja muito habilidoso.
— …Isso é realmente necessário?
— Não seria alguém que atendesse a pelo menos todos esses critérios capaz de lhe proporcionar uma experiência nova?
— Suponho que pedirei a alguém que encontre uma pessoa assim para mim.
Mais uma vez, Karlyle ficou perplexo. Sua agenda em Londres já estava lotada devido aos inúmeros projetos em andamento. Gastar seu tempo e energia com uma questão tão absurda parecia nada mais do que um desperdício.
Luther deu de ombros diante da resposta de Karlyle e então se levantou.
— Acho que posso ajudá-lo com isso.
Karlyle arqueou uma sobrancelha.
Você pode?
— Creio que nós dois conhecemos alguém que talvez saiba de uma pessoa assim.
— Você disse “nós dois”?
Soltando uma breve risada, Luther pegou uma pasta sobre a mesa e empurrou a cadeira para trás. Karlyle também se levantou, colocou sua cadeira no lugar e seguiu atrás dele. Luther parou diante da porta.
— Você também conhece muito bem essa pessoa, Karlyle. Por coincidência, ela é minha próxima consulta. Acho que se pode dizer que o céu está ao seu favor — disse Luther, com um tom sutilmente malicioso.
Então abriu a porta para o corredor.
Duas pessoas estavam sentadas na área de espera.
A primeira pessoa que chamou a atenção de Karlyle foi um homem que se parecia com ele. A bela figura de pele clara e cabelos negros cuidadosamente penteados era seu irmão mais novo, Kyle. Sentado ao lado dele estava…
— Kyle, Nicholas. Vocês chegaram cedo — disse Luther.
Por um instante, Karlyle ficou surpreso ao ver aqueles dois rostos inesperados naquele lugar e naquele momento. Então percebeu quem era a “pessoa” a quem Luther havia se referido.
Era o belo loiro que naquele momento segurava a mão de Kyle — o amante de Kyle e agora seu marido, Nicholas White.
Karlyle conhecia Nicholas havia anos, desde que ele resgatara Kyle de um sequestro. Desde aquela época, seu irmão era apaixonado por Nicholas. Após dezesseis anos de amor não correspondido, finalmente havia conseguido iniciar um relacionamento com ele.
Era algo digno de comemoração.
Afinal, Kyle passara por uma experiência traumática durante o sequestro e não conseguira abrir seu coração para mais ninguém além de Nicholas.
Mas por que Luther estava dizendo que Nicholas, de todas as pessoas, deveria apresentá-lo a alguém…?
Karlyle recordou tudo o que sabia sobre Nicholas. Antes de ficar com Kyle, Nicholas havia se relacionado com muitas pessoas. Karlyle sabia o quanto tinha sido doloroso para Kyle assistir a tudo aquilo, portanto não era uma lembrança particularmente agradável.
Ainda assim, ele conseguia entender o ponto de vista de Luther. Ele estava sugerindo que, dada a experiência de Nicholas, talvez ele conhecesse alguém que se encaixasse nos critérios necessários.
Ao compreender a implicação, Karlyle pressionou os lábios firmemente.
Um leve constrangimento surgiu por trás de sua expressão severa.
─── ⋆⋅☆⋅⋆ ───
— Ash, posso entrar?
Uma batida ecoou na porta do escritório privativo localizado no extremo do estúdio. Ash Jones ergueu a cabeça. Cercada por paredes de vidro em todos os lados, a sala retangular permitia que as pessoas vissem tanto quem estava dentro quanto fora dela, de modo que Ash conseguiu identificar imediatamente a visitante. Era Olivia, do departamento de Recursos Humanos.
O estúdio de design de Ash, chamado Unexpected, gerenciava todos os aspectos de design gráfico para clientes das áreas de publicidade, publicação e organizações culturais. Era uma empresa de médio porte com quarenta funcionários, e Olivia liderava a equipe de RH, composta por duas pessoas.
— Entre.
Ash fechou a janela que exibia a proposta de projeto colaborativo da Magma Books em seu computador e recostou-se na cadeira.
Olivia entrou na sala com um sorriso discreto. Como de costume, assim que o viu, seus olhos percorreram rapidamente o corpo de Ash. Era um hábito que ela mantinha diariamente desde que entrou na empresa, três anos antes. A essa altura, Ash já nem se incomodava mais com esse comportamento. Desde jovem, estava acostumado a receber esse tipo de atenção descarada por causa de sua aparência.
— O estágio do Daniel termina hoje, então vim pedir sua avaliação.
— O tempo realmente passa rápido. Você pode marcar uma reunião para daqui a uma hora?
Olivia parou diante da mesa. Inclinou-se levemente para a frente e olhou para ele de cima, sem perder o sorriso.
Olivia era uma beta e, apesar de saber que Ash só se relacionava com alfas, de tempos em tempos o convidava para fazer coisas juntos. Era uma paixão antiga.
Muitas pessoas se perguntavam como Ash não se deixava influenciar nem um pouco por ela, mas ele nunca havia se encontrado com Olivia fora do ambiente de trabalho. Não importava o quanto ela fosse bonita; simplesmente não era o tipo dele.
Nesse aspecto, Ash era bastante firme.
— Claro. Então o Daniel fará parte do projeto M&S?
— Sim. Acho que, trabalhando junto com Neilson na equipe, isso nos dará uma vantagem sobre a GTF.
Olivia apoiou as duas mãos sobre a mesa. O olhar de Ash recaiu sobre o esmalte azul-cobalto de suas unhas e então se deslocou para o celular ao lado delas.
Uma mensagem havia chegado.
— Com licença.
Ash pegou o celular.
A mensagem que apareceu na tela era de alguém de quem ele jamais esperaria receber notícias.
Ash, como você tem passado?
O número que ele ainda não havia apagado pertencia a alguém que Ash acreditava já tê-lo esquecido havia muito tempo.
A pessoa por quem ele nutriu um amor não correspondido, que terminou em um fracasso devastador, havia entrado em contato.
Ash piscou.
Sem dizer uma palavra, moveu os dedos para desbloquear a tela.
Foi recebido pelo histórico de conversa que nunca teve coragem de apagar. Já fazia mais de meio ano desde o último contato entre eles; a mensagem anterior tinha sido enviada oito meses antes.
A mais recente adição àquela conversa era justamente a mensagem que acabara de chegar.
Tomado pelas emoções complexas que aquela constatação despertava, Ash ficou olhando para a mensagem.
O nome do remetente era Nicholas White.
Nicholas era um homem que lhe havia sido apresentado. Também era o ômega que o fez abandonar facilmente seu tipo ideal e sua regra de sair apenas com alfas, porque Ash se apaixonara perdidamente por ele à primeira vista. Curiosamente, Nicholas havia sido originalmente um beta, o que talvez tivesse contribuído para a atração de Ash.
No entanto, seus sentimentos não tiveram um final feliz.
Ash nunca havia experimentado um fracasso ou uma amargura tão grandes em uma tentativa de conquista.
Nicholas já havia entregado seu coração a outro alfa.
A ironia era que Nicholas só percebeu isso depois de conhecer Ash. O relacionamento dos dois terminou com Ash desempenhando, sem querer, o papel de cupido.
Mas Ash não conseguia deixá-lo para trás com facilidade.
O tempo que passaram juntos havia sido breve, porém intenso.
E justamente quando suas lembranças de Nicholas começavam a se apagar…
— Ash, aconteceu alguma coisa? Você está bem?
Olivia interrompeu seus pensamentos.
— Ah.
Ash não havia percebido que estava encarando o celular em silêncio. Ele ergueu os olhos para Olivia e lhe ofereceu um sorriso.
Ela ficou momentaneamente hipnotizada por seus olhos, que se curvaram em duas suaves luas crescentes.
— Me desculpe. Recebi uma mensagem urgente. Você se importaria de me deixar sozinho por um momento?
— Sim, claro.
Olivia assentiu imediatamente e deixou a sala após o pedido educado de Ash.
Assim que ficou sozinho, a expressão de Ash se transformou em um leve franzir de cenho enquanto ele afundava ainda mais na cadeira.
Embora tivesse muito trabalho a fazer, sua mente estava completamente vazia.
O bom senso dizia que ele não deveria responder à mensagem.
O relacionamento deles havia terminado, e era óbvio que qualquer interação apenas deixaria seus pensamentos ainda mais confusos.
Ainda assim, às vezes as pessoas escolhiam a alternativa mais tola, mesmo sabendo qual era a resposta correta.
Ash suspirou e pegou o celular.
Nicholas respondeu rapidamente.
Exatamente dez minutos depois, Ash concordou em encontrá-lo para jantar naquela mesma noite.
─── ⋆⋅☆⋅⋆ ───
— Quanto tempo, Ash.
Já haviam se passado bons oito meses desde o último encontro dos dois, e Nicholas tinha emagrecido um pouco. Ao ver o belo loiro de maxilar definido, sobrancelhas grossas castanho-douradas e olhos verdes calorosos, Ash sorriu. Um leve traço do aroma de Nicholas chegou até ele — um cheiro do qual sentira falta. Era tão luminoso e encantador quanto seus cabelos e tão suave quanto a luz do sol.
— Faz tempo mesmo, Nick.
Ash voltou a um velho hábito e o chamou pelo apelido. Nicholas não viu motivo para corrigi-lo.
Eles estavam em Covent Garden, perto do escritório de Ash, sentados em uma unidade da Costa Coffee não muito distante da estação de metrô.
Assim que viu Nicholas vestido de terno, uma onda de saudade o atingiu.
Ele ainda desejava profundamente aquele homem; era quase lamentável.
Eles haviam saído juntos por apenas algumas semanas, no máximo, então Ash não conseguia entender por que ainda guardava sentimentos tão fortes por ele. Achava ridículo que, quanto mais envelhecia, mais difícil se tornava dizer adeus a alguém que havia permitido entrar em seu coração.
Ash reprimiu um sorriso de autodepreciação e apoiou o queixo em uma das mãos. Com a outra, apertou discretamente o copo de café.
— Você tem passado bem? — perguntou Nicholas.
— Sim, tenho passado bem. E você, Nick?
Nicholas hesitou.
Ash conseguia adivinhar o motivo.
Devia ser por causa da aliança em sua mão, envolvida ao redor do copo vermelho de café.
Só podia ser isso.
— …Tenho passado bem — respondeu Nicholas por fim.
Seguindo a direção do olhar de Ash, Nicholas também observou a própria mão.
Ash já esperava aquilo.
E, ao mesmo tempo, não esperava.
— Ash.
O rosto de Nicholas estava rígido, marcado por uma expressão atribulada. Sua voz carregava arrependimento e, por fim, ele balançou a cabeça.
— Eu não deveria ter pedido para nos encontrarmos. Alguém me pediu um favor que eu também não estava muito disposto a aceitar e… Por favor, esqueça que isso aconteceu. Me desculpe.
— Tudo bem — respondeu Ash suavemente.
Doía.
Doía mesmo.
Mas, ao mesmo tempo, estava tudo bem.
Ele já havia previsto que algo assim aconteceria.
Só não imaginava que eles se casariam tão rápido.
Sem dizer mais nada, Ash levou o copo aos lábios e tomou um gole do café.
Estava um pouco amargo.
Nicholas permaneceu em silêncio, esperando.
Ash rapidamente recuperou a compostura e falou com um sorriso:
— Eu concordei em vir. E estou feliz por vê-lo novamente depois de tanto tempo.
— …Você ainda pensa assim depois de eu ter contado o motivo pelo qual pedi para encontrá-lo hoje?
— Claro.
Dando de ombros, Ash pousou o copo de volta sobre a mesa.
— Você pensou em me procurar para pedir um favor. Eu jamais poderia deixar de ficar feliz com isso.
— Mesmo que esse favor possa ser um pouco estranho?
— Isso quem vai decidir sou eu.
Ash não tinha aceitado aquele encontro para fazer Nicholas sentir pena dele. Ele apenas queria ver com os próprios olhos. Queria saber se seu coração continuava o mesmo e se a pessoa que amava ainda era feliz.
Era só isso que queria descobrir.
— Tudo bem.
Nicholas assentiu.
Ash sorriu.
Ele gostava dessa característica de Nicholas. Da forma como ele se tornava decidido assim que tomava uma resolução.
— Então vou começar com uma pergunta, Ash.
— Pode perguntar.
Ash abriu um sorriso radiante e retirou a mão do queixo.
Usando uma expressão hesitante, Nicholas esfregou a testa antes de perguntar:
— Você está saindo com alguém?
— Essa não era uma pergunta que eu esperava.
Ash inclinou a cabeça e sorriu com os olhos.
— Sentiu minha falta depois de se casar, Nick? Eu também aceito homens casados, se você estiver interessado. Gosto do fato de eles terem experiência.
— Não é isso que eu quero dizer.
Ash soltou uma risada baixa, e Nicholas continuou após um suspiro.
— Eu sei que estou sendo um completo idiota ao te perguntar isso.
— Não seja tão duro consigo mesmo. Você está me fazendo sentir mal.
— Acredite em mim, Ash. Eu realmente não queria fazer isso.
— Foi uma brincadeira, Nic. Então, por favor, continue.
Mencionar que aquilo havia sido uma piada pareceu aliviar um pouco Nicholas, porque ele realmente continuou após uma breve hesitação.
— Então… se você não estiver saindo com ninguém, tenho uma proposta para você.
— Uma proposta?
— Você será recompensado da forma que preferir. Ele pode ajudá-lo a conseguir o emprego que desejar ou, se preferir receber em dinheiro, é capaz de lhe dar a quantia que quiser.
À medida que a conversa tomava um rumo que ele não esperava, Ash baixou o olhar.
— Que tipo de trabalho é esse?
— Não é nada estranho.
Ash assentiu. Afinal, o homem à sua frente era advogado. Ele não ofereceria a Ash algo que fosse contra a lei.
Com uma expressão determinada, Nicholas perguntou solenemente:
— Você teria interesse em ser o parceiro sexual de alguém por alguns meses, Ash?
Ash o encarou com calma.
— Não foi você quem acabou de dizer que não sentiu minha falta?
— Não estou perguntando por mim, mas por outra pessoa.
Quando a verdadeira intenção de Nicholas finalmente veio à tona, Ash sorriu.
Então era por isso que ele havia pedido desculpas.
Era realmente um pedido estranho.
Ele procurou alguém com quem havia saído — e que, na verdade, havia dispensado — para perguntar se estaria disposto a ser o parceiro sexual temporário de outra pessoa.
Considerando que Nicholas havia recorrido a ele para um favor desses, a pessoa que lhe fizera esse pedido devia ser extremamente importante para ele.
— Não é de se admirar que você estivesse se sentindo culpado.
— Eu sinto muito, de verdade.
— Acho que precisaria conhecer essa pessoa antes de decidir.
Então Ash acrescentou:
— Eu tenho meus próprios tipos.
Nicholas assentiu, como se isso fosse perfeitamente natural. Em seguida, colocou o celular diante de Ash.
— Na verdade, é alguém que você já conheceu.
Enquanto falava, Nicholas mostrou uma fotografia.
Ash lentamente endireitou a postura.
Seu olhar percorreu o rosto do homem exibido na tela.
E, de fato, como Nicholas havia dito, ele já o conhecia.
Lembrou-se de tê-lo encontrado no dia em que Nicholas o rejeitou.
— O irmão mais velho do Kyle, certo? É ele.
— Sim. O nome dele é Karlyle Frost. Se isso não for um problema para você, a oferta, como mencionei antes…
Por um instante, Ash deixou as palavras de Nicholas se tornarem apenas ruído de fundo enquanto observava a fotografia.
Ela mostrava um homem de cabelos escuros com leves fios grisalhos, olhos cinzentos e frios e lábios avermelhados pressionados firmemente um contra o outro. Sua pele pálida combinava com o tom frio de seus cabelos.
Na foto, o cabelo estava penteado para trás, revelando completamente a testa, e ele vestia um terno elegante e perfeitamente ajustado.
Sua expressão não transmitia calor nem afeto algum, mas era inegavelmente bonito.
Os traços faciais afiados, quase esculpidos, lhe conferiam um charme frio e intimidador.
Apenas pela aparência, ele era exatamente o tipo de homem que atraía Ash.
Havia algo satisfatório em imaginar um homem com um rosto daqueles perdendo a compostura.
Mas…
— Isso é uma surpresa — disse Ash.
— Perdão?
— Eu me lembro de que, quando nos encontramos brevemente antes, ele não teve uma impressão muito favorável de mim.
— É verdade.
Ash se recordou do dia em que conheceu aquele homem.
Ele estava acompanhando Nicholas até em casa depois que Nicholas havia encerrado o relacionamento entre os dois. O homem entendeu a situação de forma errada, achando que eles estavam em um encontro, e lançou comentários frios na direção deles.
Foi um encontro repentino, sem nada que se parecesse com uma apresentação formal.
Os olhos do homem, aparentemente cheios de desprezo, pousaram sobre Ash, mas ele não lhe dirigiu uma única palavra. Ignorando-o completamente, repreendeu apenas Nicholas.
Também não foi uma experiência agradável para Ash.
Embora o rosto daquele homem fosse exatamente do seu gosto, sua primeira impressão dele foi bastante infeliz.
Além disso, sua personalidade não era do tipo que se encontrava com frequência.
Na verdade, ele não era o tipo de pessoa de cuja companhia Ash gostava e, sendo sincero, Ash não gostava de sua personalidade.
Seu rosto inexpressivo traçava limites claros que não deveriam ser ultrapassados, sem revelar absolutamente nada do que se passava por trás dele.
Somava-se a isso uma postura levemente arrogante.
O fato de ele ter surgido do nada, ignorado Ash completamente e pressionado Nicholas havia sido, francamente, desagradável.
Seria estranho enxergar alguém assim de forma positiva.
Como Ash normalmente não gostava nem desgostava de ninguém em particular, sentir antipatia por alguém era algo raro para ele.
— Se isso for desconfortável para você, por favor, sinta-se à vontade para ignorar tudo o que eu disse hoje. Mais uma vez, peço desculpas, Ash.
Nicholas interrompeu suas lembranças.
— Nick, está tudo bem.
Ash tentou tranquilizá-lo.
Ele não sentia nenhum prazer ao ver Nicholas se desculpar de forma tão educada.
Embora estivesse, aos poucos, deixando-o ir, Nicholas ainda ocupava um lugar em seu coração.
Ash jamais conseguiria sentir satisfação ao vê-lo se diminuir daquela maneira.
No fundo, Ash era alguém que encontrava sua maior felicidade em ver as pessoas que amava felizes.
Sim…
Era exatamente isso.
— Eu não preciso de nenhuma compensação, Nick.
Sem conseguir entender a intenção de Ash, Nicholas estreitou ligeiramente os olhos.
— Se você responder à minha pergunta, eu farei esse favor para você — disse Ash, exibindo um sorriso caloroso.
— …Pode perguntar.
Como se aquela fosse a última — a última de todas — vez que veria Nicholas diante de si, Ash o observou por um longo momento.
Por fim, abriu a boca.
— Se eu fizer isso…
Ash fez uma pausa.
— Isso te faria feliz?
O silêncio se instalou.
Mantendo o sorriso, Ash tomou um gole tranquilo de seu café.
Após refletir por alguns instantes, Nicholas finalmente respondeu:
— Sim. Colocando dessa forma, me faria feliz.
Claro que faria.
Ash já sabia que Nicholas responderia aquilo.
Nicholas amava Kyle.
Ele faria qualquer coisa por ele, e isso incluía fazer qualquer coisa pelo irmão de Kyle.
Ash havia conseguido sua resposta.
Era tudo o que precisava.
Ele fez um leve aceno de cabeça para Nicholas.
— Então ficarei feliz em fazer isso por você, Nick.
Se fosse algo que deixaria a pessoa que ele amava feliz, se suas ações significassem alguma coisa para Nicholas, mesmo que fosse apenas um pouco…
Isso também faria Ash feliz.
— Então você poderia me dizer o que exatamente eu preciso fazer?
A única recompensa de que precisava era ver um sorriso no rosto de Nicholas.
─── ⋆⋅☆⋅⋆ ───
Já eram seis da tarde, mas o céu ainda permanecia claro. Fazia algum tempo que o sol passava das sete horas sem se pôr durante o verão londrino.
Acostumado a ambientes serenos e tranquilos, Karlyle sentia-se deslocado naquela atmosfera animada e vibrante do início da noite. Com um dedo, puxou e afrouxou a gola da camisa social clara que vestia. Sentia-se desconfortável, como se tivesse entrado em um lugar ao qual não pertencia. A nuca estava rígida.
Ainda não é tarde demais para…
Ainda havia tempo. Karlyle podia cancelar o encontro e fingir que nada daquilo tinha acontecido.
Ele poderia ser tratado com medicamentos ou consultas psiquiátricas e, no pior dos casos, sempre existia a alternativa do uso prolongado de supressores e da abstinência completa.
O arrependimento o invadiu assim que esses pensamentos surgiram.
Aquilo era uma escolha imprudente sob qualquer perspectiva.
Ter relações com um alfa?
Era absurdo, pouco profissional e arriscado.
Aquela decisão representava um afastamento significativo de sua política habitual de investir em negócios estáveis com retorno garantido.
Seu pai, Jonathan, costumava dizer que, às vezes, era necessário correr riscos para alcançar o que os outros não conseguiam. Jonathan acreditava que momentos assim surgiam pelo menos uma vez na vida, fosse nos negócios ou na vida pessoal.
Karlyle, por outro lado, não gostava da palavra risco.
Depois que seu irmão foi sequestrado quando era jovem e submetido a coisas horríveis demais para sequer serem mencionadas, algo que abalou toda a família profundamente, Karlyle passou a preferir jogar pelo seguro.
Ele se movia apenas dentro dos limites de seu controle.
E, ainda assim, a razão pela qual havia escolhido fazer algo como aquilo era…
— Você chegou cedo.
Karlyle se virou ao ouvir a voz vinda de trás.
Uma sombra caiu sobre ele.
Ergueu muito levemente o olhar.
Então encarou os olhos que o observavam de cima. Você se lembra de mim?
— Boa noite.
Uma voz baixa e neutra saiu dos lábios de Karlyle. Ele ergueu o olhar para observar o rosto do homem que o cumprimentava. Os cabelos negros levemente desalinhados e os lábios curvados em um sorriso gentil lhe conferiam uma aparência extremamente amigável.
Ash era um homem alto e bonito.
Muito tempo havia passado, mas seu rosto não era do tipo que se esquecia facilmente.
Parecia um pouco mais maduro do que seis anos atrás e um pouco mais gentil do que alguns meses antes.
Os dois encontros que tiveram foram breves, nenhum deles durando mais de cinco minutos.
Ainda assim, Karlyle se lembrava dele com clareza.
— Sr. Jones.
Seria compreensível se a memória de Karlyle estivesse um pouco equivocada, mas Ash parecia quase exatamente o mesmo.
Continuava com a mesma voz suave de barítono e o mesmo sorriso capaz de derreter qualquer pessoa que o visse.
Mais uma vez, Karlyle se perguntou se Ash se lembrava da véspera de Ano-Novo de seis anos atrás.
Será que ele sabia que já haviam se encontrado antes?
E que até tinham se beijado?
— Está esperando há muito tempo? — perguntou Ash.
— Não, não estou — respondeu Karlyle.
Os olhos de Ash se curvaram em um sorriso caloroso. Suas pálpebras formaram arcos perfeitos e, abaixo delas, estavam seus olhos peculiares: um cinza e o outro azul.
Nenhuma obra de arte, escultura ou mesmo pessoa bonita era capaz de despertar algo em Karlyle, mas aqueles olhos chamavam sua atenção.
Eram os primeiros olhos de cores diferentes que ele havia visto.
Talvez fosse por isso.
— A brisa está um pouco fria, então reservei uma mesa no pátio — disse Ash. — Vamos?
Karlyle assentiu.
O homem girou nos calcanhares e começou a caminhar à frente, enquanto Karlyle o seguiu.
O restaurante não ficava longe da estação Notting Hill Gate.
Durante a breve caminhada de cinco minutos, os dois permaneceram em silêncio. A atmosfera quieta tornou-se gradualmente tão sufocante que Karlyle ajustou a gola da camisa mais uma vez.
Era a primeira vez que participava de um encontro daquela natureza.
Ele não fazia ideia de como iniciar uma conversa nem de que tom deveria adotar.
Chegou até a pensar que lidar com um cliente difícil seria mais simples do que aquela situação.
Conduzir reuniões de negócios sempre fora algo natural para ele.
Por isso, aquela sensação de desconforto era estranha.
Enquanto Karlyle estava momentaneamente perdido em seus pensamentos, Ash parou de repente e se virou.
Sem perceber, Karlyle acabou esbarrando diretamente nele.
Seus corpos colidiram de leve.
Karlyle se sobressaltou e, no instante em que abriu a boca para se desculpar, visivelmente constrangido, a mão de Ash pousou em suas costas. Karlyle enrijeceu quando o braço dele envolveu levemente a parte inferior de suas costas.
— Em que está pensando tão profundamente, Karlyle? — perguntou Ash.
A pergunta veio como uma emboscada inesperada.
Ash pronunciou o nome de Karlyle com carinho, os olhos curvados em um sorriso. Seu tom era gentil, e sua voz carregava um traço de diversão.
A distância entre os dois diminuiu.
O único som audível era a respiração de Karlyle escapando por entre seus lábios ligeiramente entreabertos.
Era como se alguém tivesse roubado sua voz, impedindo-o de dizer qualquer coisa.
Ash soltou uma risada suave.
— Tudo bem se eu chamar você de Karlyle?
Através da fina camisa social, o toque dos dedos de Ash na parte baixa de suas costas parecia estranhamente vívido.
Seu pulso acelerou.
Respirando fundo, Karlyle respondeu cautelosamente:
— …Sim, tudo bem.
— Então, por favor, me chame pelo meu nome também.
Ash retirou a mão.
Quando o toque em suas costas desapareceu, a tensão de Karlyle diminuiu.
Com um leve movimento de cabeça, Ash indicou o restaurante.
Depois de enxugar as mãos na calça, Karlyle o seguiu.
O pub, pintado em um tom turquesa claro quase branco, tinha uma aparência luminosa e acolhedora.
Eles foram conduzidos a uma mesa em uma área reservada do estabelecimento, em um pátio isolado cercado por um jardim.
O espaço era decorado com vasos coloridos de diversos tipos.
O céu assumia tons cada vez mais arroxeados, enquanto as luzes de cor âmbar espalhavam um brilho aconchegante pelas paredes.
Naquele ambiente mais tranquilo do que o interior do pub, os dois se sentaram frente a frente.
Ash passou a ponta do dedo sobre o cardápio antes de deslizá-lo na direção de Karlyle.
Por hábito, Karlyle quase entregou o cardápio ao acompanhante, mas interrompeu o movimento e olhou para Ash.
— Devemos pedir algo para beber primeiro?
Apoiando o queixo na mão, Ash olhou diretamente para os olhos de Karlyle.
Diante daquele olhar gentil, Karlyle desviou os olhos para o cardápio.
— Claro.
— Você deveria escolher primeiro, Karlyle.
— Eu preferiria que você escolhesse primeiro, Sr. Jones.
As palavras rígidas saíram por puro hábito.
O próprio Karlyle se surpreendeu com o tom autoritário demais para ser chamado de sugestão.
Mas Ash apenas o observou por um instante e soltou uma risada baixa.
— Então vou pedir uma cidra.
A voz gentil de Ash não pareceu nem um pouco incomodada pelo tom rígido de Karlyle.
— Tudo bem.
Depois que Ash escolheu uma cidra com alto teor alcoólico, Karlyle ergueu a mão para chamar um funcionário.
Pouco depois, uma garçonete usando um avental preto na cintura aproximou-se da mesa.
A princípio, a garçonete dirigiu o olhar para Karlyle, anotando o pedido, mas continuava lançando olhares discretos para Ash.
Após confirmar se precisavam de mais alguma coisa e perguntar se gostariam de água da torneira, ela finalmente se afastou, depois de trocar algumas palavras com Ash sobre o clima.
Durante toda a interação, o olhar de Karlyle permaneceu fixo em Ash, observando como ele conversava com naturalidade, claramente acostumado a situações daquele tipo.
Uma sensação de que os dois não combinariam o atingiu.
Eles eram simplesmente diferentes demais.
Karlyle entendia que a relação entre eles, construída sobre uma condição específica, provavelmente seria breve.
Ainda assim, não conseguia ignorar o quão opostos eram.
Interações desnecessárias, conversas sem propósito e sorrisos radiantes dirigidos a qualquer pessoa…
Ash incorporava tudo aquilo que não existia no mundo de Karlyle.
Mais uma vez, uma onda de arrependimento o atravessou.
Há realmente necessidade de fazer isso?
Mesmo assim, havia algo importante que ele queria confirmar: se Ash se lembrava dele.
Esse impulso aparentemente trivial era, na verdade, o principal motivo de ele ter vindo até ali naquele dia.
Por isso, precisava descobrir.
A lembrança do olhar descontente de Ash, direcionado a ele ao lado de Nicholas alguns meses atrás, permanecia vívida na mente de Karlyle.
Karlyle jamais imaginou encontrar, em circunstâncias como aquelas, alguém que havia enterrado nas profundezas de suas memórias.
Aquele encontro de alguns meses atrás desenterrou lembranças há muito esquecidas, trazendo algo inesperado à superfície.
Desde então, Karlyle sonhava com Ash de tempos em tempos.
Mais especificamente, sonhava com a noite em que os dois se beijaram, tantos anos atrás.
Ash havia sido a primeira obsessão de Karlyle.
Talvez fosse por isso que deixara uma marca em seu coração.
Quando voltou a encontrar Ash, Karlyle não perguntou seu nome.
As circunstâncias do reencontro não favoreciam esse tipo de formalidade.
Além disso, ele já sabia qual era o nome dele.
No entanto, Ash não demonstrou nenhum sinal de reconhecimento ao ver Karlyle.
Karlyle também não revelou nada, já que raramente demonstrava qualquer mudança de expressão para começar, mas…
Ash talvez se lembrasse.
Karlyle pensou na mão que havia envolvido intimamente a parte inferior de suas costas alguns minutos antes.
Talvez ele estivesse apenas esperando o momento certo para mencionar aquilo.
Afinal, não seria lógico trazer à tona um encontro do passado logo durante os cumprimentos iniciais.
— Karlyle.
Como se tivesse lido seus pensamentos, Ash chamou seu nome.
— Por favor, prossiga.
— Enquanto esperamos nossas bebidas, que tal começarmos a discutir nosso plano?
A voz de Ash tornou-se um pouco mais séria, como se estivesse tratando de assuntos profissionais.
Karlyle endireitou as costas.
Com as mãos repousadas sobre os joelhos, abriu os lábios sem alterar a expressão.
— Claro.
— Fui informado de que você está passando por uma certa situação.
Ash resumiu todas as circunstâncias de Karlyle a uma simples situação.
Estava tentando ser gentil?
Karlyle fez um leve aceno de cabeça.
— Está correto.
— Isso também é uma novidade para mim, então quero deixar claro que não tenho certeza se poderei de fato ajudá-lo.
— Estou ciente disso.
Karlyle apertou os joelhos por um instante e depois os relaxou.
Ash continuava sorrindo, mas seu tom era nitidamente profissional.
— Acho que seria bom estabelecermos algumas regras básicas.
— Como, por exemplo?
— Hum…
Ash apoiou o queixo na mão, inclinando levemente a cabeça enquanto curvava os lábios em um sorriso.
— Para ser sincero, nosso primeiro encontro não foi muito agradável.
Karlyle permaneceu em silêncio por um momento.
…Então ele não se lembra.
Era o resultado esperado.
Ele zombou de si mesmo em pensamento.
Afinal, já haviam se passado seis anos.
Nem ele próprio teria se lembrado se não fosse pelo sonho recente.
Não.
Tratava-se de um vestígio do passado que sequer teria aparecido em seus sonhos se ele não tivesse encontrado Ash novamente.
Além disso, Karlyle suspeitava que Ash tivesse vivido inúmeras experiências semelhantes.
Por isso, aquele beijo provavelmente não significou nada.
O coração de Karlyle afundou.
Desde o princípio, aquilo nunca teve significado algum.
O sonho.
A culpa de tudo aquilo era do sonho.
— Ainda assim, você considerou aceitar a proposta? — perguntou Karlyle.
— Era exatamente isso que eu queria perguntar a você também. Não acredito que sua primeira impressão de mim tenha sido particularmente positiva — respondeu Ash em um tom moderado. — Se eu fosse julgar apenas pela forma como você olhou para mim, pareceria que nunca mais gostaria de me ver.
Ao contrário de sua aparência calorosa e amigável, ele era direto e ousado.
Karlyle manteve a expressão neutra e escolheu cuidadosamente suas palavras.
Ash estava parcialmente certo e parcialmente errado.
Karlyle havia detestado o fato de Nicholas estar saindo com outro homem em vez de com seu irmão mais novo e, ao mesmo tempo, ficara perplexo ao descobrir que aquele homem era alguém que ele já havia encontrado antes.
Quando esses dois fatos se misturaram, transformaram-se em uma única emoção ambígua.
Karlyle não sabia como nomeá-la.
Depois de permanecer em silêncio por alguns segundos, abriu a boca.
— Peço desculpas por aquilo.
— Não, eu não mencionei isso para receber um pedido de desculpas. É só que…
No momento exato, as bebidas chegaram.
A garçonete permaneceu por perto, aparentemente esperando uma oportunidade para conversar novamente com Ash, mas recuou com certa relutância ao perceber que eles estavam no meio de uma conversa séria.
Karlyle sequer olhou para ela.
Seu olhar permaneceu fixo em Ash.
— Já que vamos nos ver mais algumas vezes, eu só queria dizer que não apreciaria esse tipo de atitude direcionada a mim — concluiu Ash.
— Garanto que nada parecido acontecerá.
— Ótimo. Bem, agora é a sua vez, Karlyle.
Ao ouvir seu nome de repente, Karlyle hesitou.
— O que quer dizer?
— Sua vez de me dizer quais comportamentos você não gosta ou sobre o que quer que eu tome cuidado — respondeu Ash.
Então piscou e acrescentou:
— Quanto às questões relacionadas ao sexo, podemos falar disso mais tarde.
Karlyle pegou a taça colocada diante dele, deslizando os dedos pensativamente pelo gargalo estreito.
Ele hesitou.
Não estava acostumado a expressar aquilo de que não gostava e se viu sem palavras.
Quando se tratava de trabalho, não era prudente abrir o coração à mesa onde acordos eram feitos.
Seus pensamentos e desejos deveriam ser comunicados apenas por meio dos resultados das negociações.
Por isso, expressar sentimentos pessoais, como desgostos ou preferências, era um ato tolo.
Seu avô havia repetido isso inúmeras vezes.
— Comporte-se como o nobre que você é, Karlyle.
Mostrar o próprio coração não era diferente de expor as próprias fraquezas.
Isso também era verdade em relação às pessoas de seu círculo pessoal.
Todos conheciam muito bem a origem de Karlyle, e todos queriam alguma coisa dele.
Consequentemente, não havia absolutamente nenhuma razão para revelar seu verdadeiro eu a qualquer um deles.
Ash, porém, não se encaixava em nenhuma dessas categorias.
Para ser sincero, Karlyle praticamente não sabia nada sobre ele.
Portanto, não tinha expectativas específicas a seu respeito.
Após refletir por um longo momento, Karlyle finalmente pensou em uma única coisa.
Era uma regra simples e curta, uma que seguira durante toda a vida.
— Eu preferiria…
Como se quisesse mostrar que estava prestando total atenção, Ash apenas o observou em silêncio.
— …que não desenvolvêssemos sentimentos desnecessários nesta relação.
Houve um breve silêncio.
Ash sorriu.
Ele retirou a mão debaixo do queixo e endireitou as costas.
— Sentimentos desnecessários?
Sua voz continuava calorosa, mas carregava uma nitidez avaliadora.
Karlyle lembrou-se da expressão que Ash exibira no dia em que estava ao lado de Nicholas.
A mesma expressão de desagrado parecia surgir agora no rosto do homem sentado à sua frente.
— Meu pedido o ofendeu? — perguntou Karlyle.
Ash, que tamborilava um dedo sobre a mesa, soltou um suspiro leve.
— Não. Acho que é uma preocupação razoável.
Então continuou.
O sorriso anterior havia desaparecido de seu rosto.
— Com a sua aparência, imagino que isso seja algo que você já tenha vivenciado antes.
Apesar de dizer que compreendia, seu rosto permanecia completamente sem sorriso.
— Mas, Karlyle, permita-me esclarecer uma coisa.
Ash inclinou-se para frente, aproximando-se dele.
Depois de diminuir a distância entre os dois, sussurrou:
— Estou ajudando você apenas porque o Nick me pediu.
O nome de Nicholas entrou na conversa.
— Então você não precisa se preocupar com o fato de eu desenvolver sentimentos desnecessários.
Naquele instante, a resposta para sua dúvida tornou-se clara.
Ash não se lembra de mim.
Só existia um motivo para Ash ter aceitado aquilo.
— Porque não há a menor possibilidade de eu desenvolver sentimentos por alguém como você.
Ele ainda estava apaixonado por Nicholas White.
A antipatia de Ash em relação a Karlyle e os sentimentos que nutria por Nicholas, antes ocultos por trás de uma fachada elegante e de modos impecáveis, finalmente vieram à tona.
O verdadeiro motivo daquele homem, completamente diferente do que Karlyle havia imaginado, o deixou sem palavras.
Para Ash, Karlyle era apenas um intruso que havia causado uma péssima primeira impressão e o irmão de Kyle Frost, o alfa que disputara o amor de Nicholas.
Para Ash, a existência de Karlyle tinha pouco ou nenhum significado.
Ele havia concordado com aquele encontro absurdo apenas por causa da pessoa que amava.
A mente de Karlyle ficou agitada pelo impacto daquela constatação.
Seu humor, que até então estava tranquilo, despencou.
Pensou na pergunta sem sentido que havia vindo responder naquele encontro e na esperança tola que alimentara.
Sentiu-se a pessoa mais patética do mundo.
A vergonha o envolveu por ter interpretado tão mal o homem à sua frente.
Era como se seus defeitos e erros tivessem sido expostos diante de todos.
Apesar do tumulto interior, sua expressão permaneceu inalterada.
Afinal, aquilo era o que fazia de melhor: esconder seus pensamentos e mascarar seus sentimentos.
— É reconfortante ouvir isso.
Quebrando o silêncio, ao mesmo tempo longo e breve, Karlyle ergueu a taça de vinho.
Nem o menor vestígio de emoção atravessou seus frios olhos cinzentos.
Ash o observou em silêncio, como se estivesse tentando decifrar suas intenções, e então sua expressão suavizou.
— É mesmo?
— Certamente. Prefiro manter as coisas bem definidas — respondeu Karlyle.
Dessa vez, Ash ficou em silêncio.
Passou o dedo pela lateral de seu copo de cidra, parecendo incomodado.
Por fim, soltou um suspiro.
— Me desculpe, Karlyle.
— Não entendo porque está se desculpando.
— O que eu acabei de dizer foi rude. Desculpe.
Karlyle não soube como responder.
Sem conseguir engolir o vinho que havia levado aos lábios, afastou a taça e baixou o olhar.
A expressão de Ash havia retornado ao estado habitual, como se a dureza que demonstrara momentos antes fosse apenas uma máscara.
— Fui eu quem o ofendeu primeiro, Sr. Jones. Está tudo bem.
— Não, sinto que fui imaturo — concluiu Ash, pegando o cardápio.
Então exibiu um sorriso que suavizou o clima, dissipando toda a tensão anterior.
— Nunca conheci alguém exatamente como você, Karlyle.
Karlyle duvidava que aquilo fosse um elogio.
— Não quero dizer isso de forma negativa.
Karlyle colocou a taça de vinho de volta sobre a mesa.
No fim, nem sequer havia tocado na bebida.
Ash continuou:
— É só que você parece ter uma maneira diferente de se expressar.
— Você não precisa se esforçar tanto.
— É exatamente disso que estou falando — respondeu Ash com uma risada leve.
Ele colocou o cardápio diante de Karlyle, parando os dedos pouco antes de tocar os dele.
Karlyle baixou os olhos para a mão de Ash.
Era uma mão fina e bonita.
As unhas estavam cuidadosamente aparadas, com as pontas arredondadas e um leve tom rosado.
— Se eu te magoei de alguma forma, por favor, me diga agora.
Então, em um sussurro suave, acrescentou:
— Afinal, você não pode fazer esse tipo de coisa com alguém de quem não gosta, certo?
Diante disso, Karlyle pensou:
Eu desgosto deste homem?
Não.
Não era esse o caso.
Ele apenas se sentia desconfortável.
Havia algo que o incomodava, algo que o perturbava.
Mas não o odiava.
A ideia de se levantar e ir embora jamais passou por sua cabeça.
Foi assim que Karlyle definiu seus sentimentos.
Ash ainda nutria sentimentos por Nicholas.
Se era assim, então, pelo bem de Kyle — pelo bem de seu irmão — era imprescindível manter um olhar atento sobre aquele homem.
Karlyle não podia permitir que qualquer impureza colocasse em risco a felicidade recém-conquistada de seu irmão.
Sim.
Esse era o motivo.
— Não, você não me incomodou — respondeu Karlyle.
— Tem certeza? — perguntou Ash.
— Sim.
Karlyle sabia que ninguém poderia se colocar entre Nicholas e Kyle, mas manter qualquer risco em potencial sob sua vigilância o deixaria mais tranquilo.
Era só isso.
— O mesmo vale para você, Sr. Jones. Se eu o deixei desconfortável de alguma forma…
— Estou bem.
Então Ash acrescentou com um sorriso:
— Já coloquei tudo para fora.
— Nesse caso, agora que esclarecemos aquilo de que não gostamos, vamos tratar dos negócios?
Ash falou de forma a renovar o clima da conversa.
— E vamos pedir algo para comer também, se estiver tudo bem para você. Consigo praticamente sentir os olhares nas minhas costas.
Ao comentário astuto de Ash, Karlyle baixou o olhar.
— Certamente — respondeu em seu tom calmo e uniforme.
Depois de fazerem os pedidos, Karlyle recebeu uma ligação do Catar.
Ele se desculpou e se afastou para atender.
Enquanto isso, Ash o observava tranquilamente.
Karlyle presumiu que ele se ocuparia com outra coisa, mas, em vez disso, Ash permaneceu ouvindo sua voz, com o queixo apoiado na mão como antes.
Karlyle percebeu que não conseguia se concentrar na conversa e acabou encerrando a ligação rapidamente.
— …Espero não tê-lo entediado demais.
— De forma alguma. Eu gostei de ouvir sua voz. É sexy.
Ash deu de ombros levemente enquanto lhe entregava um garfo.
A comida já havia chegado.
Ao ouvir a palavra sexy, a expressão perfeitamente controlada de Karlyle vacilou pela primeira vez.
Seus lábios se moveram quase imperceptivelmente.
A palavra não lhe era estranha.
Ele sabia muito bem que sua aparência era considerada atraente pelos padrões da sociedade.
Ter uma aparência impecável também era uma vantagem nos negócios.
No entanto, era aí que o valor de seu rosto terminava.
Normalmente, ele ignorava esse tipo de comentário.
Mas, naquele momento…
— Foi a primeira vez que alguém disse isso para você? — perguntou Ash, os olhos curvados em um sorriso.
A mão de Ash, que segurava o garfo, parou bem diante da mão de Karlyle, apoiada sobre a mesa.
Karlyle enrijeceu e respondeu:
— Não, não foi.
— Tenho quase certeza de que você escuta isso com frequência.
Aquele era o momento apropriado para retribuir o elogio.
Trocar gentilezas era uma cortesia fundamental nas relações sociais.
Infelizmente, retribuir elogios relacionados à aparência física ou ao apelo sexual de alguém era um território desconhecido para Karlyle.
— …Tenho certeza de que o mesmo acontece com você, Sr. Jones.
— Obrigado.
Ash recebeu o elogio com naturalidade, enquanto os cantos dos lábios se erguiam em um sorriso.
— Posso cortar para você? — perguntou ele, olhando para o bife que Karlyle havia pedido.
— Eu consigo fazer isso sozinho. — respondeu Karlyle de forma direta.
— Me avise se mudar de ideia, Karlyle.
A mão rígida de Karlyle pegou o garfo e a faca.
Ele piscou rapidamente antes de suas mãos começarem a se mover com a eficiência de quem já estava acostumado.
A faca deslizou elegantemente pelo bife, cortando-o sem produzir sequer o som de talheres se chocando.
Ash o observou com interesse por algum tempo antes de mudar de assunto.
— Devemos voltar à nossa conversa de antes?
Ele certamente estava falando dos encontros que teriam dali em diante.
Karlyle concordou.
— Eu estava pensando em uma duração de cerca de dois meses — começou Ash.
— Com que frequência você gostaria de nos encontrarmos?
— Parece que ambos temos vidas ocupadas, então que tal nos encontrarmos nos fins de semana?
— Parece bom.
A conversa continuou enquanto comiam em silêncio.
Enquanto isso, sob a mesa, Karlyle moveu discretamente uma das pernas.
Seu sapato tocou o de Ash.
O garfo de Karlyle parou no meio do caminho.
— Se surgir alguma emergência e precisarmos cancelar, vamos avisar um ao outro com pelo menos duas horas de antecedência — sugeriu Ash.
— Eu me certificarei de avisá-lo com um dia de antecedência.
— Tudo bem, se é isso que você prefere, Karlyle.
Um sapato deslizou entre os dele.
Mesmo sem contato direto com a pele, a sensação foi estranhamente intensa.
Karlyle finalmente pousou o garfo sobre a mesa.
Ele havia perdido o apetite.
Em seu lugar, outra coisa começou a despertar lentamente dentro dele.
— …Então você está considerando um total de oito encontros?
— Sim. E, se nada mudar mesmo depois disso… acho que seria bom você consultar outro especialista.
Ash também colocou o garfo de lado.
Metade do salmão sockeye que havia pedido já desaparecera completamente do prato.
Os olhares dos dois se encontraram.
Por causa da mistura da iluminação púrpura e avermelhada do ambiente, os olhos de Ash pareciam mais profundos do que antes.
— Ah, tenho mais uma pergunta.
— …Sim.
Dessa vez, o tornozelo de Ash roçou levemente no de Karlyle, que ficava parcialmente exposto abaixo da barra da calça do terno.
A sensação do osso de seu tornozelo tocando o dele foi inesperadamente perturbadora.
— Você não gosta de ser tocado? — perguntou Ash.
Sua mão se aproximou um pouco mais da de Karlyle, e as pontas de seus dedos o tocaram de leve.
Aquela mão pairando próxima continuou ocupando os pensamentos de Karlyle, como se pudesse tocá-lo novamente a qualquer instante.
E aquelas unhas arredondadas.
— …Não exatamente.
— Então imagino que você não se importe com o meu toque?
— Não.
A resposta saiu em um sussurro rouco.
O silêncio se instalou entre eles.
Gradualmente, os dedos de Ash percorreram os de Karlyle, começando pelas unhas e seguindo até o dorso da mão.
Uma leve sensação de calor percorreu seus dedos.
Por fim, a mão de Ash cobriu completamente a de Karlyle, ocultando os contornos de seus ossos sob a própria palma.
O peso suave daquela mão fez Karlyle prender a respiração.
— Tudo bem, então.
Mas aquilo não foi o fim.
Os tornozelos dos dois se tocaram novamente, e Ash encaixou o seu contra o de Karlyle.
Não havia força naquele gesto, mas Karlyle sentiu como se estivesse sendo puxado.
— De agora em diante, não vou parar de tocar em você.
O dedo de Ash acariciou suavemente o dorso da mão clara de Karlyle, marcada por veias delicadas.
Uma sensação leve e incômoda espalhou-se por sua pele.
Parecia que algo se infiltrava sob sua superfície, subindo por seu pulso, percorrendo seu braço e se espalhando gradualmente pelo resto do corpo.
— Como alguém que não consegue tirar as mãos de você nem por um momento — Ash sussurrou —, vou continuar tocando você.
Ash, que antes acariciava o dorso de sua mão, então segurou seu pulso.
Seu polegar pressionou-o suavemente.
E a respiração que Karlyle vinha prendendo escapou em silêncio.
— Então tenha isso em mente.
Quando Ash terminou de falar, a pressão em torno do pulso de Karlyle diminuiu.
Ash endireitou a postura, e os tornozelos que antes estavam entrelaçados — e que haviam despertado em Karlyle uma sensação indevidamente provocante — voltaram às suas posições originais.
Como se nada tivesse acontecido, Ash pegou um garfo da mesa e o colocou na palma da mão de Karlyle.
Seus dedos envolveram cuidadosamente os dele, um gesto carregado de um calor muito diferente daquele toque anterior que havia feito um lento ardor percorrer suas veias.
— Se eu estivesse no seu lugar, não acho que gostaria de dormir comigo logo de cara.
Ash sorriu, como se pudesse imaginar isso.
A mão de Karlyle, ainda segurada por Ash, queimava.
— Não vamos fazer sexo até que você tenha vontade.
Karlyle queria olhar para um espelho.
Ele não fazia ideia de que expressão estava estampada em seu rosto naquele momento.
Resistiu ao impulso de erguer a mão e tocar o próprio rosto, conseguindo, por pouco, manter sua expressão neutra.
Então perguntou:
— Quando eu tiver vontade… devo avisá-lo?
Erguendo as sobrancelhas, Ash respondeu com uma voz carregada de diversão:
— Não.
A mão que antes o prendia o soltou.
— Você não precisará me dizer.
Sua mão estava livre agora, mas Karlyle sentia como se ainda estivesse preso ao toque de Ash.
Aquilo não fazia sentido.
E ele também não conseguia se mover.
Depois de encarar a própria mão por um instante, Karlyle ergueu o olhar para os olhos de Ash.
O olho azul.
E o olho cinza, cuja tonalidade lembrava a sua própria.
Seus olhares se encontraram.
— Porque eu vou saber.
O sussurro grave soou… insuportavelmente sedutor.
↫─☫ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr