Define The Relationship (Novel) - Capítulo 00
Prólogo
Véspera de Ano Novo
A contagem regressiva começou.
Um fluxo interminável de pessoas passava empurrando Karlyle Frost. Na véspera do Ano Novo, a Times Square estava completamente lotada, não deixando nenhum espaço vazio. Até o céu escuro estava ocupado pela luz deslumbrante dos outdoors. Karlyle analisou os arredores. O culpado que o havia importunado para ir até aquele lugar não estava em lugar nenhum. A multidão devia ter separado os dois.
O indivíduo que havia trazido Karlyle para a Times Square hoje era o filho imaturo do CEO de uma empresa cliente. Ele também era um ômega. Desde o momento em que viu Karlyle pela primeira vez, ele deixou sua atração clara. Como Karlyle precisava manter o relacionamento deles amigável até que o acordo comercial fosse finalizado, ele havia passado três dias com o homem.
O homem provavelmente havia mencionado a festividade de Véspera de Ano Novo para Karlyle com a intenção de passarem a noite juntos. Ele parecia pensar que seria romântico. Mas Karlyle era alguém que considerava a palavra romântico totalmente sem sentido. Ele, sem dúvida, não aproveitaria a noite.
Mas sua preferência pessoal não tinha importância ali. O que importava era o resultado do acordo comercial. Para garantir isso, Karlyle não desejava considerar algo tão insignificante quanto uma preferência pessoal. Ele apenas cedia aos caprichos do homem. Depois que a bola caísse na Times Square, o homem certamente sugeriria que eles fossem para um dos hotéis da empresa afiliada.
Se Karlyle conseguisse encontrá-lo, é claro. Karlyle estava agora em algum lugar bem distante do centro da Times Square. Ele se afastou da multidão que avançava. Procurar por alguém em um lugar como este era uma tolice. Após avaliar a situação, ele concluiu que seria melhor ir para o hotel primeiro.
Dez…
Os aplausos e gritos distantes ecoavam da praça, agora deixada bem para trás. O vento, impregnado pelo cheiro forte de maconha e cerveja, carregava até ele o rugido da multidão.
Nove, oito…
Alguém esbarrou em seu ombro. A pessoa que passava de raspão por ele parou.
— Sinto muito. Você está bem? — perguntou.
Sete, seis…
Karlyle sentiu um toque suave em seu ombro. Ele se virou e ergueu a cabeça em direção à voz preocupada. O estranho o observava. E as primeiras coisas que notou nele foram um nariz finamente esculpido e lábios harmoniosamente desenhados.
Cinco, quatro…
— Estou bem.
Seus olhares se encontraram. E naquele piscar de olhos, todas as luzes se apagaram. O brilho da rua comercial ainda aberta, a luminosidade alaranjada dos postes — tudo desapareceu.
— Que alívio.
Três, dois…
Estava tudo um breu ao redor. Karlyle não conseguia distinguir o rosto do homem, mas tinha certeza de que seus olhos estavam fixos um no outro.
Um…
A contagem regressiva final para o Ano-Novo explodiu em comemoração, seguida por um breve instante de silêncio. A mão sobre o ombro de Karlyle apertou-o levemente.
— Feliz Ano-Novo — sussurrou uma voz suave.
“Será verdade que, nos Estados Unidos, as pessoas se beijam quando o Ano-Novo chega?”
Karlyle já tinha ouvido dizer que, embora isso variasse de região para região, era comum que as pessoas beijassem um completo desconhecido que estivesse ao seu lado quando o relógio marcasse meia-noite na véspera de Ano-Novo.
O rosto do ômega que havia falado sobre o famoso beijo da meia-noite surgiu em sua mente. Porém, ele não estava ali. Em seu lugar estava aquele desconhecido.
Karlyle não se moveu quando o homem se aproximou, trazendo consigo uma fragrância fresca e agradável.
“Ele é um alfa”, pensou Karlyle.
Ele nunca sequer havia tocado nas mãos de um alfa, mas, naquele momento, não sentiu qualquer repulsa.
Então, seus lábios se tocaram.
Uma leve mordida seguiu-se ao toque suave. Um formigamento desceu por seu ombro.
Ah…
Seus lábios se entreabriram levemente, deixando escapar um suspiro semelhante a um gemido. Uma língua deslizou pela abertura. Em um instante, o beijo suave se tornou intenso. A língua que o explorava era quase assustadoramente habilidosa. Karlyle foi arrastado pela sensação, mal tendo tempo de compreender que estava beijando um alfa — e, além disso, um alfa que acabara de conhecer.
A saliva viajou do estranho para ele, que a engoliu sem perceber. A mão que segurava seu ombro apertou ainda mais. Um arrepio percorreu sua espinha.
— Hmn…
Quando um gemido de desejo escapou de Karlyle, uma risadinha ecoou em sua boca. O homem fazia parecer tão natural.
Aquilo parecia injusto — e perigoso. Dominado por uma inexplicável sensação de alerta, Karlyle interrompeu o beijo. Uma gota de saliva escorreu pelo canto de seus lábios, e ele a limpou com os dedos. Então o homem segurou esses dedos.
Naquele momento, as luzes se acenderam novamente.
Emanando da Times Square, um feixe de luz expandiu-se gradualmente em direção a Karlyle. Assemelhava-se a uma onda de maré.
— Você me diria seu nome? — perguntou o estranho.
Olhando para os dedos presos pela mão do homem, Karlyle refletiu sobre aquilo. A luz já estava praticamente diante dele. Não havia motivo para pensar duas vezes. Dizer seu nome a um estranho? Ridículo.
De qualquer forma, eu não vou vê-lo novamente.
— Lyle. — Apesar de seus pensamentos, Karlyle abriu a boca. Era uma meia verdade, meia mentira. Era um apelido seu pelo qual ninguém o chamava.
— Lyle. Eu sou Ash.
Sob a luz restaurada, o rosto do homem revelou-se completamente. Seus cabelos negros, que lembravam o céu noturno, transmitiam um calor diferente do de Karlyle. Uma testa lisa, sobrancelhas suavemente arqueadas e os olhos abaixo delas completavam seus traços.
Karlyle prendeu a respiração ao notar que o homem tinha olhos de cores diferentes.
— Se estiver tudo bem para você… — começou ele.
Antes que o homem pudesse terminar a frase, alguém agarrou a manga de Karlyle
— Finalmente te encontrei! O que você está fazendo aqui?
Era o homem com quem Karlyle tinha vindo até aqui. O aroma de um ômega flutuando atrás dele pareceu desagradável.
Karlyle não se virou para encará-lo. Em vez disso, seu olhar permaneceu nos lábios suavemente curvados à sua frente. Eles brilhavam e estavam avermelhados pelo beijo.
— Da próxima vez — disse Karlyle.
Então, ele soltou o dedo da mão do homem.
— Até a próxima.
Falou sobre uma “próxima vez” para alguém que nunca teve a intenção de ver novamente.
O homem sorriu.
“Ash.”
Karlyle repetiu o nome em silêncio, saboreando-o na ponta da língua.
A manga de Karlyle foi puxada novamente.
— Nós não vamos? — resmungou o ômega, em tom manhoso.
Karlyle lançou um último olhar para os olhos do estranho. Então se virou, como se quisesse se livrar de qualquer sentimento que ainda restasse. No entanto, seus passos pareciam pesados. Sentia-se tentado a olhar para trás, como se tivesse deixado algo. Reprimiu esses impulsos e seguiu o ômega, que o conduzia com um semblante emburrado.
Mas não havia necessidade de acalmá-lo. Mesmo que ele estivesse fingindo irritação, tudo estaria resolvido assim que chegassem ao hotel e Karlyle o fodesse com força suficiente para fazê-lo se derreter.
Com uma expressão indiferente, Karlyle antecipou o que aconteceria até o amanhecer. Sua animação sutilmente despertada voltou ao estado habitual.
Imóvel e tranquilo, sem sequer uma ondulação de perturbação — ele voltou a ser aquele homem.
…Que sonho sem sentido.
Eram 5h da manhã. Karlyle abriu os olhos exatamente no horário em que sempre despertava. Não precisava confirmar olhando as horas. No entanto, algo parecia diferente naquele dia. Um acontecimento de seu passado, há muito esquecido, havia ressurgido em seu sonho, deixando uma sensação estranha.
Ele cobriu os olhos com a mão fria. Após soltar um suspiro silencioso, sentou-se na cama.
— …Já vai se levantar? — murmurou Rupert, que tinha adormecido como se tivesse desmaiado. Ele devia ter acordado com o som dos movimentos de Karlyle.
Karlyle saiu da cama e pegou um copo.
— Pode continuar dormindo.
— Mas você também não dormiu muito, Karlyle.
Rupert era um ômega que Karlyle encontrava cerca de uma vez por ano. Eles se conheceram cinco anos antes, mas, excluindo os encontros casuais, o número de vezes que se viram não chegava nem a uma dúzia.
Karlyle Frost era um alfa. Ele levava uma vida um tanto diferente da maioria das pessoas. Metade de seu sangue possuía linhagem nobre, já que sua mãe era filha de um marquês. Seu avô, Lord Frost, era rigoroso quanto à preservação da linhagem familiar, acreditando que apenas aqueles de ascendência nobre pura poderiam gerar alfas dominantes, que representavam apenas 1% da população.
Por esse motivo, seu avô proibia Karlyle de se encontrar com o mesmo ômega por mais de um período de cio. Suas necessidades físicas podiam ser satisfeitas, mas ele jamais deveria se apaixonar por um ômega que não tivesse sido escolhido pela família. Consequentemente, Karlyle passava cada rut mensal com um ômega diferente. Como havia feito durante toda a sua vida.
De vez em quando, quando se cansava da rotina, ele tomava supressores. No entanto, como seu irmão mais novo havia sofrido efeitos colaterais graves devido a uma overdose desses medicamentos, esse não era um método que Karlyle pudesse usar com frequência. A vida de Karlyle era composta por questões triviais que estavam sob seu controle e questões cruciais que estavam além dele. A questão dos supressores pertencia à segunda categoria.
Karlyle não respondeu à preocupação de Rupert. Em vez disso, ofereceu-lhe um copo de água. Rupert o aceitou com um agradecimento. Karlyle assentiu.
Rupert bebeu em silêncio e então pousou o copo com cuidado. Seu olhar se voltou para o lado da cama de Karlyle, que parecia quase intocado.
— Karlyle… Posso te perguntar uma coisa? — Rupert finalmente falou após um longo silêncio.
— Pode perguntar.
Os perturbados olhos castanhos de Rupert encontraram os dele. Um silêncio pesado preencheu o quarto escuro, tingido por tons violáceos. Karlyle já conseguia prever o que viria a seguir. Depois de passarem horas juntos, seria impossível não perceber.
— Você não chegou lá, não é?
— Não fez o quê, exatamente? — retrucou Karlyle secamente, fingindo não entender.
— …Eu sei que você não gozou nenhuma vez, Karlyle.
A frase se alongou, suas palavras se tornando mais diretas.
Karlyle passou os dedos pelos cabelos, sem alterar a expressão. Não havia qualquer sinal de desconforto em seu rosto impassível.
— Se você está se referindo ao número de vezes que ejaculei, então sim, você está correto — admitiu Karlyle em um tom monótono.
Ele não havia gozado nenhuma vez desde que seu rut começara na noite anterior.
— Isso não é… um problema? — perguntou Rupert com cautela.
— Você sentiu algum desconforto durante o sexo?
— Não. Foi bom. Mas… acho que há algo errado quando um alfa em rut não consegue gozar.
Karlyle concordou permanecendo em silêncio. Era a primeira vez que o problema chegava a esse ponto, mas ele já vinha notando alguns sinais nos últimos meses.
Ultimamente, Karlyle estava demorando cada vez mais para gozar. Como resultado, seus parceiros ômegas estavam chegando ao limite da exaustão. Karlyle também considerava isso angustiante, especialmente porque não gostava de fazer sexo.
De acordo com seu ciclo, o corpo de Karlyle produzia feromônios, despertando excitação, mas seu coração permanecia distante. Ele sentia como se seu corpo excitado o obrigasse a fazer sexo. Com o passar do tempo, percebeu que a conexão entre seu corpo e sua mente estava se deteriorando gradualmente. Agora, Karlyle estava exasperado com esse alívio mecânico do desejo.
E o resultado disso o havia levado à situação atual.
— Certo.
Karlyle estava levemente irritado, pois conseguia prever claramente o que aconteceria em seguida. Rupert seguiria as instruções que lhe haviam sido dadas.
— O nome dele é Dr. Milan, certo? Meu contrato diz que preciso avisá-lo se alguma coisa acontecer com você.
— Eu sei — respondeu Karlyle, ainda ocultando suas emoções sob um tom indiferente.
Ele pegou o celular ao lado do travesseiro. Conferiu as horas, esperando que fossem por volta de cinco e dez da manhã, mas era muito mais tarde do que imaginava: seis horas.
Ele havia acordado mais tarde do que o habitual.
Ou seja, tinha dormido além da hora.
Com aquele despertar tardio, Karlyle sentiu como se as engrenagens cuidadosamente ajustadas de sua vida tivessem saído de alinhamento. Diante do absurdo de ser um alfa em rut incapaz de ejacular, ele cerrou os lábios em uma linha rígida.
Ele não estava de bom humor.
Nem dormir além da hora nem se sentir abatido eram coisas comuns para Karlyle. Suas emoções eram sempre linhas retas — nunca ruins, nunca boas. Nunca infeliz, nunca feliz — apenas linhas paralelas.
— Entre em contato com o Dr. Milan mais tarde.
Com essas palavras encerrando seus assuntos com Rupert, Karlyle deixou o quarto.
Enquanto atravessava o piso de madeira em direção ao banheiro, pensou silenciosamente:
Pode ser por causa do sonho desta manhã.
↫─☫ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr