Winter Field (Novel) - . ₊ ⊹ Capítulo 01.2
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – O boato sobre o casal de grão-duques
Pt. 02
Tac!
No instante em que o som seco do golpe ecoou, Rensley se sentou no chão, segurando a testa. Diante de Rensley, que gemia baixinho, Stan se aproximou e se abaixou. O rosto dele estava tomado de preocupação.
— Rensi, você está bem?! Por que não se defendeu?
— Desculpa… fiquei meio distraído por um instante.
— Como assim, perder a concentração no meio de um combate de treino? Assim a gente pode acabar se machucando, você e eu.
A voz do instrutor, que passeava entre os cavaleiros aprendizes supervisionando o treino, se elevou.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, instrutor.
Rensley se levantou rapidamente e ficou em posição de sentido. O instrutor caminhou até os dois cavaleiros aprendizes com passos firmes.
Queria fingir que nada tinha acontecido, mas a testa esquerda, atingida pela espada de madeira rígida, ardia. Se apertasse, provavelmente teria surgido um pequeno galo. A voz do instrutor ficou ainda mais severa.
— Durante o combate de treino, não se pode baixar a guarda nem por um instante. Mesmo usando armas de treino, é perfeitamente possível se ferir.
— Desculpe.
Depois de dar o aviso, ele não saiu de imediato; ficou olhando para Rensley por um instante e apontou para perto da testa dele.
— Amanhã tem a cerimônia de ingresso também, não seria melhor cortar um pouco o cabelo? Está caindo e atrapalhando a visão. Parece que também vai atrapalhar o treino.
— Ah, sim. Já estava pensando nisso mesmo.
O cabelo, que ele tinha deixado crescer livremente por um tempo sem se cuidar, ficava sempre caindo na frente dos olhos, o que era incômodo. Mesmo amarrado atrás, se ele se movesse com muita intensidade, mechas escapavam por entre a fita e faziam cócegas na bochecha e na testa.
O cabelo comprido era, de certo modo, uma marca que registrava o passar do tempo desde o dia em que deixara sua terra natal até agora. Queria cortá-lo mesmo que fosse só para aproveitar plenamente a sensação de começar uma vida diferente da que tinha até então. Stan, que ouvia a conversa entre o instrutor e Rensley, interveio.
— Quer que eu corte pra você? Eu tenho três irmãos mais novos, então sempre sou eu quem corta o cabelo deles.
— Sério? Então te peço depois do treino.
Claro que a razão pela qual ele não conseguiu esquivar do ataque de Stan há pouco não foi simplesmente porque o cabelo estava atrapalhando a visão. Rensley balançou a cabeça internamente e segurou de novo a espada de madeira.
Achava que, depois de dormir uma noite e acordar, voltaria ao normal, mas mesmo na manhã em que abriu os olhos, ainda sentia como se estivesse com febre, como se tivesse resfriado — a sensação de que as solas dos pés estavam flutuando um dedo acima do chão não tinha mudado. Nem o coração, que a qualquer momento começava a bater rápido, tum-tum-tum. Nem a cabeça, que insistia em trazer à tona uma pessoa de repente, mesmo sem querer.
Alguma coisa estava errada. Será que esse estado esquisito também podia ser curado com magia?
Tac. Mesmo aparando com precisão a espada de madeira que vinha em sua direção, a visão de Rensley ficava momentaneamente confusa.
Depois de terminar o treino num estado semiatordoado, Rensley se sentou na cadeira com um pano branco e grande enrolado ao redor do corpo.
O som suave do atrito da lâmina de metal continuava, e a cada som, mechas de cabelo brilhantes como fio dourado caíam feito penas sobre os ombros de Rensley. Stan não parava de se admirar enquanto cortava.
— Seu cabelo é lindo mesmo. Se minha irmã visse, ficaria com muita inveja. O sonho dela é ter cabelo loiro.
— Cabelo bonito num homem não serve pra nada. Pra que usar isso?
— Bonito é bom de qualquer jeito. Queria que meu cabelo também fosse macio assim. Só de acordar já fica todo espetado e duro, um saco.
— Que mal tem ser meio duro? Fica com jeito de cavaleiro, forte, eu gosto assim. Aliás, o loiro também tem vantagem — em caso de necessidade, dá pra vender caro, tem boa liquidez.
— E aí? Ficou bom assim?
Rensley pegou o espelho que Stan lhe estendia e virou a cabeça de um lado para o outro, conferindo o cabelo mais curto. Gostou. Ele tinha dito que cortava bastante o cabelo dos irmãos, e a habilidade não era ruim mesmo. Em vez de cortar sem cuidado ou raspar rente, ele tinha ajeitado mantendo até certo formato na parte de trás. Ainda estava mais comprido do que na época em que vivia na Cornia, mas ali era uma terra de vento frio dia e noite. Se deixasse o pescoço muito exposto, sentiria frio.
— Você é incrível. Gostei. Com essa habilidade, dava até pra cobrar. Valeu, Stan.
— Vou cobrar mesmo. Cinco bros.
— Achei que fôssemos amigos… Está falando sério comigo, que ainda nem recebi meu primeiro salário?
— Não se preocupa. O mundo tem essa boa instituição chamada fiado.
— Tá bom, tá bom. Espera só um pouco. Vou ganhar na aposta hoje ou amanhã e te pago.
O horário de treino regular já tinha terminado, mas ainda restavam bastante pessoas no campo de treino, treinando individualmente ou conversando. Rensley e Stan eram dois deles. Enquanto giravam o espelho num canto, batendo papo e rindo, de repente ouviram a voz do comandante da Ordem.
— Vossa Alteza, o Grão Duque, o que o traz aqui?
Os ombros de Rensley, que estava se divertindo, estremeceram. A resposta que se seguiu chegou aos seus ouvidos com uma clareza incomum. Rensley ficou parado, sem se mexer, ouvindo a voz dele.
— Faz tempo que não visito, parece que o horário de treino já acabou.
— Sim. Hoje começamos um pouco mais cedo, então terminamos mais cedo também.
— A data da cerimônia de ingresso do novo membro já foi definida?
— Pretendemos realizá-la amanhã. Se Vossa Alteza comparecer, o moral de todos vai subir.
A voz de Gizel, que tinha dito que fazia tempo que não passava pelo campo de treino, se interrompeu ali. Os olhos dele se arregalaram um pouco, como que surpresos.
Até então, o olhar de Rensley, que ainda segurava o espelho sentado na cadeira, ficou como que preso a ele, incapaz de se soltar. Enquanto ficava sentado, rígido, sem conseguir falar, Stan sacudiu seus ombros às pressas, e só então Rensley se levantou e colocou a mão sobre o peito esquerdo. Era a saudação da Ordem que aprendera depois de entrar.
— Glória ao protetor.
Mas Gizel também não respondeu de imediato à saudação dos dois jovens cavaleiros. O comandante da Ordem, achando estranho o silêncio dele, se aproximou e cochichou baixinho.
— Alteza, por favor, receba a saudação deles.
— Ah, que tenham um dia tranquilo.
Ao terminar de falar, a expressão de Gizel voltou a ficar tranquila como de costume, diferente de instantes antes. Anton chamou Stan para fazer outra coisa, e num canto do campo de treino sobraram apenas Rensley, Gizel e Anton, um pouco mais afastado. A voz calma de Gizel se voltou para Rensley.
— Cortou o cabelo.
— Ah, sim. Originalmente eu sempre tinha o cabelo curto, mas, durante o caminho para Oldenrant, não consegui cuidar dele e cresceu muito. Como também estava atrapalhando no treino, resolvi cortar depois de tanto tempo.
Agora só uma pessoa estava inquieta. Rensley passou a mão várias vezes, sem jeito, pela parte de trás do cabelo, agora mais leve.
— Não gostou…? Desculpe. Devia ter perguntado antes de cortar…
— É o cabelo do senhor Malocen, então deve seguir a vontade do senhor. Só fiquei um pouco surpreso com a mudança repentina, não precisa se preocupar.
— Sim, sim. Obrigado.
De algum jeito, não conseguia encarar os olhos dele. Apesar de querer muito deixar tudo quieto, seus próprios olhos ficavam vagando para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita sem parar. O homem à sua frente perguntou baixinho.
— Como está se sentindo? Ontem parecia não estar bem.
— Estou bem. Como Vossa Alteza disse, acho que só fiquei cansado por um instante.
— Como está a vida na Ordem? Já ficou mais próximo das pessoas?
— Sim. Fiquei um pouco preocupado no começo, mas todos são gentis e me tratam bem. O cabelo de hoje também foi cortado pelo Stan, um colega novo que fiz na Ordem. Ele disse que sempre corta o cabelo dos irmãos mais novos, e por isso tem bastante habilidade. Acho que vou pedir pra ele mais vezes daqui pra frente.
Gizel balançou a cabeça, e logo se preparou para partir. Só então Rensley conseguiu olhar para ele apropriadamente. Provavelmente tinha vindo porque tinha algum assunto com o comandante.
— Que bom saber disso. Então, até mais.
— Vá com cuidado, Alteza.
Queria dizer mais alguma coisa, mas não tinha mais nada a dizer. Rensley, observando as costas dele se afastando enquanto se virava, soltou um suspiro pequeno demais para que os outros ouvissem. Depois de agir sem pensar muito, veio-lhe a ideia de que não devia ter cortado o cabelo tão levianamente.
Normalmente não seria preciso, mas talvez, de vez em quando, precisasse desempenhar o papel de Grão-Duque Consorte. Nesse caso, o cabelo comprido seria mais fácil para se disfarçar. Ainda estava numa posição em que precisava manter segredo, e não devia ter relaxado tanto assim. Entendia por que o Grão Duque tinha ficado surpreso.
“…Bom, o cabelo cresce de novo, só isso.”
Rensley olhou com um pouco de melancolia para os fios dourados espalhados no chão, depois foi pegar uma vassoura e varreu tudo.
***
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna