Winter Field (Novel) - . ₊ ⊹ Capítulo 01.1
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – O boato sobre o casal de grão-duques
Pt. 01
Depois de terminar o treino da manhã, Rensley espreguiçou-se e seguiu para a cozinha.
Ainda não tinha passado pela cerimônia oficial de ingresso, mas, de qualquer forma, já era um hóspede da família real. Não havia nada tão urgente a ponto de precisar adiar sua participação nos treinos, então Rensley vinha comparecendo religiosamente desde o dia seguinte ao de sua aprovação no exame.
Ele chegou a temer que a Ordem inteira o excluísse por causa daquele cavaleiro que havia recorrido a um golpe sujo durante o combate de treino, mas, como em qualquer lugar sempre há alguma semente ruim misturada, a maioria dos membros da Ordem era gente comum e boa. Rensley já tinha ficado bastante próximo do pessoal da Ordem.
— Reina, vou levar dois copos de cerveja.
— Bebendo antes mesmo do almoço? Beber desse jeito ainda jovem é um jeito certo de morrer cedo.
— Vou cortar um pouco de linguiça também.
— Pode pegar. Tem que comer alguma coisa pra acompanhar. Aqui, coma batata também.
A chefe de cozinha, com quem ele havia se aproximado fingindo ser um dos ajudantes, tinha um jeito e uma fala ríspidos, mas era generosa no fundo. A comida que Reina fazia continuava sem sabor, mas Rensley gostava dela. A carne, a linguiça, o pão, a manteiga, os legumes — os ingredientes sem preparo especial tinham um sabor excelente por si só, então ultimamente Rensley vinha se virando bem na hora das refeições.
Ao sair da cozinha carregando dois copos de cerveja, linguiça bem quentinha e um prato de purê de batata, Stan, seu colega de Ordem que esperava na porta, pegou um dos copos. Os dois entraram por um caminho tranquilo que levava ao quintal dos fundos, brindaram levemente e beberam. Rensley franziu a testa entre as sobrancelhas, admirado.
— Por que será que a cerveja logo depois do treino é tão gostosa? Nem sinto frio numa hora dessas.
— Se o comandante souber, você vai levar bronca. Melhor tomar cuidado.
— Beber lá fora antes mesmo do sol se pôr. Como membro de uma honrada Ordem, deve-se ter sempre cuidado com a conduta e dedicar-se ao aprimoramento pessoal.
Rensley imitou o comandante com uma expressão solene, e Stan caiu na risada. No quintal dos fundos, uma grande fogueira ardia — pareciam estar queimando alguma coisa —, de modo que, mesmo do lado de fora, o ambiente estava agradavelmente quente.
Enquanto os dois bebiam cerveja de costas para o calor do fogo, conversando trivialidades sobre o treino do dia, de repente, vozes de outras pessoas se cravaram em seus ouvidos como flechas.
— Sério? Esse boato é verdade mesmo?
— Com certeza. Você sabe quantas vezes eu já arrumei a cama de nobres importantes? Eu e a Gretel só de olhar já sabemos. Só de ver o estado da cama de manhã já dá pra saber se essas pessoas transaram ontem ou não.
Do outro lado do muro, as camareiras estavam no meio de uma conversa animada.
O quê? Rensley não sabia do que se tratava, mas parecia interessante. Ele e Stan se entreolharam e, como se tivessem combinado, calaram-se. Mantiveram silêncio e ficaram atentos à conversa.
— Mas já faz tanto tempo desde a cerimônia de casamento, será possível?
— Dizem que Sua Alteza, a Grã Duquesa Consorte tem de saúde frágil. Será que não é por isso que Sua Alteza se controla de propósito?
Então, uma das camareiras baixou a voz, como uma espiã revelando um segredo de altíssimo sigilo.
— Isso eu ouvi do Ralph… até pouco tempo atrás, Sua Alteza a Grã Duquesa Consorte ia toda noite ao laboratório de Sua Alteza o Grão Duque. Meu Deus, não é de dar pena? De tão indiferente que Sua Alteza o Grão Duque é, uma pessoa que dizem ser de saúde frágil precisou ir pessoalmente até lá no meio da noite. E, mesmo assim, toda vez voltava para o quarto com a aparência de quem não tinha acontecido nada. Mais de uma vez, sozinha! No fim, parece que desistiu, porque ultimamente nem vai mais. Como mulher, ouvir uma história dessas dói de verdade.
Rensley, que estava engolindo cerveja, engasgou e tossiu baixinho. Engasgar bebendo já era ruim o bastante para deixar os olhos marejados. Enquanto tapava a boca e tossia, Stan deu batidinhas nas suas costas. Enquanto isso, as fofocas continuavam sem parar.
— Sua Alteza o Grão Duque só tem interesse em livros e pesquisas de magia, não é? Graças a isso a gente vive em paz, então até que a gente devia agradecer, mas dá pena da Grã Duquesa Consorte, que vai ter que viver o resto da vida ao lado de Sua Alteza.
— Eu achei que ele fosse mudar depois que se casasse. Mas sabe de uma coisa? Sua Alteza é… como pode ser tão desinteressado assim? Será que não é…
— Psiu! Por mais que Sua Alteza seja tolerante com a língua solta dos subalternos, não se deve falar desse jeito irreverente de qualquer maneira. Mas ainda bem que os dois são jovens, algum dia vão gerar um herdeiro. Vamos logo trabalhar. Vamos acabar levando bronca desse jeito.
Os passos apressados das camareiras se afastaram para além do muro. Rensley, que tinha escutado a conversa delas com o copo de cerveja ainda na mão, num silêncio contido, soltou um suspiro profundo. Mesmo sendo só um boato infundado, para ele, o interessado, era uma história capaz de fazer até a respiração parar. Chegou a suar frio.
“Então era isso que estavam falando pelo castelo.”
A não ser que fosse uma criança de cinco ou seis anos, era fácil deduzir qual era a “palavra irreverente” que elas quase disseram e engoliram. Perturbado, Rensley deu tapinhas no próprio rosto para se recompor e olhou para a expressão de Stan.
— O que você acha, ouvindo isso?
— Hã? O quê?
— A história de agora. Sobre Sua Alteza o Grão Duque…
— Ah, você ainda não faz muito tempo que chegou a Oldenrant, então talvez não saiba, mas nosso Grão Duque é meio excêntrico. Dizem que, ao longo das gerações, os reis de Oldenrant eram, em sua maioria, belicosos e de temperamento forte, mas Sua Alteza atual é o oposto completo. Mas e daí? Não é ruim.
— Não estou falando do temperamento dele, e sim do boato que a gente acabou de ouvir.
Ao restringir com precisão o assunto que tinha sido deixado vago, Stan coçou a nuca e revirou os olhos.
— Bem… para ser sincero, é meio difícil de entender mesmo. É difícil pra homens jovens serem tão comedidos assim. Já correu boato de que, mesmo depois de casarem, não teriam consumado direito a noite de núpcias, então às vezes eu também penso que deve haver algum outro motivo.
Ele falou com cuidado, mas Rensley quase deixou o copo de cerveja cair de choque. Nunca imaginou nem em sonho que um boato tão absurdo fosse se espalhar. O fato de ele mesmo ter entrado e saído do laboratório de Gizel no meio da noite, sem se importar com os olhares alheios, parecia ter alimentado o rumor infundado, e isso o deixou muito incomodado.
Mas, na verdade, nem o próprio Rensley podia garantir com certeza que não fosse verdade. Afinal, ele também não sabia absolutamente nada sobre a função sexual ou a capacidade noturna de Gizel Zibedad.
Entre amigos íntimos, sem cerimônia, esse tipo de assunto às vezes até vinha à tona, mas o Grão Duque Gizel era, no fim das contas, seu superior. Agora que se tornara um membro da Ordem que o servia, mais ainda. Não seria de se esperar que um vassalo leal, só por ser leal, tivesse conhecimento sobre a vida íntima do soberano que servia, não é mesmo?
Mas, ao se lembrar da figura dele durante o combate de esgrima… era capaz de apostar que ele não seria de forma alguma inábil na vida noturna também — se não a própria vida, ao menos um pedacinho de ouro que tinha escondido dentre os modestos presentes de casamento. Se um boato desses estivesse circulando na acirrada disputa pelo trono da Cornia, já teria sido usado como pretexto para questionar a sucessão e tirá-lo do poder havia muito tempo. Ao pensar até esse ponto, a preocupação começou a crescer aos poucos, e Rensley fez mais uma pergunta.
— Além de Sua Alteza o Grão Duque, sei que existe mais uma pessoa de descendência direta do falecido rei. Se Sua Alteza não conseguir um herdeiro por muito tempo, isso vai virar um problema mais adiante, não é?
— Ah, a princesa Frida? É verdade, mas não é necessariamente preciso ser herdeiro de linhagem direta pra se tornar o próximo Grão Duque. Você não ouviu isso enquanto se preparava pro exame de ingresso? O atual Grão Duque também não é filho do Grão Duque anterior, e sim sobrinho. Em Oldenrant, basta o rei indicar o próximo herdeiro e pronto. Não sabemos exatamente que critérios ou procedimentos são seguidos pra decidir isso, gente como a gente não tem como saber, mas, de qualquer forma, dizem que quase nunca houve disputas pelo trono desde os tempos antigos.
Com essas palavras, Rensley soltou um suspiro de alívio, mas o desconforto que já tinha se instalado não se dissipou. Afinal, não havia garantia alguma de que algo que nunca tinha acontecido até agora não fosse acontecer no futuro.
***
Como planejado desde que a questão do exame de ingresso surgira pela primeira vez, o novo quarto de Rensley foi determinado como o último quarto de hóspedes do segundo andar. Se não houvesse nada de especial, durante o dia ele usaria esse quarto, e no fim da noite, quando as atividades terminassem, até a manhã seguinte, ficaria no quarto doa Grã Duue Consorte.
Os objetos de Oldenrant eram, de modo geral, bastante simples, mas ainda assim os móveis e a cama enorme colocados no quarto do Grão-Duque Consorte eram bastante luxuosos. Em comparação, o quarto de hóspedes era aconchegante e prático. Rensley, pelo contrário, achava esse quarto mais acolhedor e gostava dele.
Naquele dia, Gizel trouxera alguns magos e estava construindo um dispositivo de teletransporte mágico no novo quarto de Rensley. Por meio desse dispositivo, Rensley poderia, dali em diante, transitar livremente entre o quarto do Grão-Duque, o laboratório dele e o quarto do Grão-Duque Consorte.
Depois que os magos foram embora, Gizel explicou a Rensley sobre o dispositivo. Como Rensley era uma pessoa comum que não tinha aprendido a coletar ou manipular mana, precisava de uma pedra mágica para acioná-lo toda vez que fosse usá-lo. Ele mostrou como instalar a pedra mágica no dispositivo de acionamento e como operá-lo, ao mesmo tempo em que passava as instruções de segurança.
— Como o senhor Malocen não é mago, pode ser difícil usá-lo no começo. Dependendo da pessoa, algumas sentem tontura, e em casos mais fortes chegam a vomitar da primeira vez. Espero que se acostume logo.
— É tão fascinante.
Rensley olhava sem parar para o dispositivo construído em um canto do quarto. Aparelhos e utensílios de uso cotidiano que utilizavam magia eram, na Cornia, um luxo permitido apenas à realeza — e, dentro dela, apenas ao rei ou ao príncipe herdeiro. E, agora, ele mesmo ia usar um pessoalmente.
Diante da explicação de Rensley, dizendo que sempre tivera curiosidade, mas que nunca tinha chegado perto de nada assim, Gizel apoiou levemente o queixo e inclinou a cabeça.
— Por que a Cornia não usa a magia de forma mais ativa? Hoje em dia, mesmo fora de Oldenrant, em qualquer país, se tiver recursos suficientes, até as famílias nobres locais estão ocupadas pesquisando e desenvolvendo magia.
O que Gizel dizia era verdade. Só que a maioria dos soberanos utilizava a magia apenas como meio de fortalecer o poder militar ou obter ganhos econômicos, sem realizar pesquisas voltadas para o bem-estar geral do povo ou a comodidade da vida cotidiana. A quantidade de mana disponível e o número de pessoas capazes de manejá-la eram limitados, e não era possível distribuí-la para todas as áreas.
— Ao que parece, originalmente a Cornia também não era um país hostil à magia, mas… o atual rei da Cornia teme a magia. Dizem que, quando era jovem, a família da primeira rainha com quem se casou tentou uma rebelião, e era uma família de magos bastante conhecida. Acho que ele pensa que, se permitir a magia sem cuidado, pode acabar tendo o poder real ameaçado de novo.
— A direção do raciocínio está equivocada. A família que planejou a rebelião apenas por acaso era uma família de magos; não é que tenham pretendido se rebelar por serem magos.
— O senhor tem razão. Por causa disso, só a Cornia está atrasada no desenvolvimento da magia, e eu também acho isso uma pena.
Gizel tinha a expressão de quem tinha acabado de ouvir algo irracional. Hum. Rensley pigarreou baixinho e se aproximou mais dele. Mais importante do que os assuntos de um país distante ao qual não haveria mais retorno era resolver o mal-entendido que estava acontecendo bem ali, perto dele.
— Alteza, sente-se um instante. Tenho algo a dizer.
Sem fazer nenhuma pergunta em especial, Gizel baixou o corpo na cadeira em frente à mesa, seguindo o convite. Rensley também se sentou de frente para ele.
Quando a expressão de Rensley ficou visivelmente séria, Gizel só então pareceu ficar curioso sobre o que se tratava e fixou o olhar em silêncio. Ele hesitou sobre como começar a falar, mas por fim decidiu explicar tudo em ordem.
— Já faz um bom tempo que fizemos a cerimônia de casamento, não é mesmo?
— É verdade.
— Aos olhos das pessoas, deve parecer que já se passou tempo suficiente desde que nos tornamos casados.
— Sim.
— Fingi passar a noite de núpcias e dormi uma noite no quarto de Vossa Alteza, mas na verdade acho que não vai ser fácil enganar os olhos das pessoas com isso apenas. Se o Grão-Duque e o Grão-Duque Consorte dormirem separados todas as noites… se essas situações forem percebidas, as pessoas vão começar a suspeitar de várias coisas. Podem achar que há discórdia entre o casal… e então podem começar a se preocupar com a questão da sucessão…
Ou podem suspeitar que um dos dois tenha algum problema na função sexual…
Rensley não conseguiu dizer isso em voz alta e deixou a frase incompleta.
— Então, o que eu queria dizer é…
Rensley engoliu em seco. Era um conselho verdadeiramente impróprio para um hóspede estrangeiro que tinha acabado de se tornar um cavaleiro de baixo escalão graças ao favor concedido por Gizel, mas, uma vez sabendo que um boato desses circulava, não podia simplesmente ficar de braços cruzados.
— Até que Vossa Alteza receba de verdade uma Grã Duquesa Consorte, que tal manter alguém separado para cuidar das noites?
Gizel piscou os olhos e depois respondeu, calmo, como se tivesse ouvido algo óbvio.
— Já recebo cuidados noturnos atualmente.
— Ah, é mesmo? Eu nem sabia disso…
A voz de Rensley se ergueu levemente, tomada de constrangimento. Seu rosto ficou ligeiramente vermelho.
“Quê? Fiquei tagarelando sem nem saber direito do que se tratava?”
Não devia ter puxado assunto por conta própria, deixando-se levar por um boato infundado. Enquanto se arrependia, desejando poder voltar alguns segundos, e desviava o olhar dele, Gizel completou a explicação.
— O senhor Malocen também recebe, não recebe? Aliás, desde quando o senhor Malocen faz isso sozinho mesmo? Eu não. Todas as noites, os criados arrumam a minha cama.
— O quê?
Os olhos de Rensley se arregalaram. Um breve silêncio se instalou entre os dois, dissolvido logo em seguida pela risada dele.
— Não, Alteza. Não é desse tipo de cuidado que estou falando.
— Existe outro tipo de cuidado?
— Isso, quer dizer… À noite, hã… na cama…
Sentindo-se constrangido de usar uma expressão tão explícita na frente dele, Rensley ia escolhendo as palavras gaguejando, quando, bem mais tarde, um brilho diferente surgiu no olhar de Gizel. Ele estreitou os olhos, como se tivesse entendido o sentido.
— O senhor está dizendo para eu ter uma amante.
— Sim, exatamente. Embora, como o nosso casamento é falso, a palavra “amante” também não seja bem apropriada.
Rensley, finalmente bem-sucedido em se comunicar, assentiu com o rosto se iluminando.
Para nobres ou membros da realeza, ter uma amante mesmo depois de casado não era um defeito — pelo contrário, era um meio de ostentar riqueza e poder. Ele tinha ouvido dizer que não era só na Cornia que as pessoas fiéis apenas ao relacionamento conjugal, sem manter amantes, eram tratadas como uma minoria excêntrica.
O atual rei da Cornia já tinha trocado de rainha quatro vezes, e as amantes que passaram por ele sob seu favor também eram inúmeras. Chegou a se envolver até com plebeias que lhe chamaram a atenção em alguma viagem ocasional, ao ponto de ele e Yvette terem nascido assim — nem precisava explicar mais.
Gizel Zibedad também era rei deste país. Mesmo que não precisasse de uma vida promiscua, ninguém o criticaria por ter ao menos uma amante. Pelo contrário, isso poderia ter o efeito de acalmar especulações absurdas.
Mas, diante dessa boa ideia, os olhos de Gizel ficaram, ao contrário, mais frios. A resposta também foi tão firme quanto a expressão.
— Senhor Malocen. Eu já sou um homem casado.
— Isso é verdade. Mas, de qualquer forma, é só uma fachada, e como eu sou homem não posso ajudar nos assuntos noturnos…
— Não importa qual seja nosso objetivo, aos olhos de quem assistiu, foi uma cerimônia de casamento verdadeira. Uma amante está fora de cogitação.
Diante da reação inesperada, Rensley fechou a boca.
“Os homens deste país são todos assim tão rígidos?”
Veio-lhe à mente, de forma associada, o comandante da Ordem, teimoso em uma direção um pouco diferente, mas, pensando no que Stan tinha dito — que os soberanos de Oldenrant eram, ao longo das gerações, belicosos e de temperamento forte —, talvez não fosse bem assim. Além disso, Gizel Zibedad era alguém tido como excêntrico tanto dentro quanto fora do país. De qualquer forma, se as coisas continuassem assim, o incômodo que ele mesmo causava a Gizel só aumentaria. Em vez de bani-lo ou executá-lo, ele tinha realizado o casamento conforme determinado — isso não significava que Gizel tinha penhorado sua liberdade noturna?
Justamente ele, que graças ao Grão-Duque tinha conseguido entrar para a Ordem, o sonho de sua vida, e começar uma nova vida. E ainda demoraria um bom tempo até se preparar para um segundo casamento de verdade… Rensley ficou um pouco abatido.
— Desculpe. Por minha causa, Vossa Alteza não consegue aproveitar as noites livremente…
— Não entendo por que o senhor Malocen está pedindo desculpas. Eu, originalmente, não tenho interesse nesse tipo de coisa.
— Sim. Eu também ouvi dizer isso… mas, mesmo assim, deve haver dias em que Vossa Alteza deseja, ocasionalmente.
— Não há. Nunca senti interesse nenhuma vez sequer, então não precisa se preocupar.
— Sim… Espera, o quê?
Rensley, que estava balançando a cabeça mecanicamente, ergueu o rosto de súbito. Gizel o encarava com uma expressão que perguntava por que ele estava tão surpreso assim. Rensley puxou a cadeira mais para perto e se sentou direito. Franziu levemente as sobrancelhas e perguntou de novo.
— Espere um pouco, Alteza. Se o senhor nunca sentiu interesse até agora, isso significa que também nunca colocou em prática…?
— A não ser que seja um assunto de estado indispensável, não há motivo para dedicar tempo a algo que não desperta interesse. Já não tenho tempo suficiente no dia nem para as coisas necessárias ou interessantes.
Teria soado mais natural se ele tivesse dito que era capaz de satisfazer facilmente cinco pessoas numa única noite. Percorrendo com o olhar, como se enxergasse através das roupas, o belo rosto do homem e o corpo grande e firme por trás da capa, que já tinha visto uma vez, Rensley ficou perplexo em silêncio.
“O que ele está dizendo? Isso… significa que ainda não tem experiência, certo?”
O rei de um país sem experiência nenhuma? Bem, é claro que ter experiência naquele campo não deve ser um requisito essencial para se tornar rei, mas…
Talvez tenha sido a conversa que acabaram de ter que serviu de estopim, mas uma informação vaga que estava adormecida num canto da mente de repente veio à superfície. Rensley, esforçando-se para clarear uma lembrança imprecisa, decidiu por fim confirmar diretamente com o interessado.
— Alteza, pensando bem… em que ano o senhor nasceu mesmo?
— No ano 782 da era Pereira.
— Eu sou de 783…
— Eu sei.
Era isso mesmo. Antes de vir para Oldenrant, com certeza tinham lhe contado informações básicas sobre ele, mas, naquela época, estava afundado em desespero, se debatendo, e não prestou atenção. Nem queria saber, na verdade.
Ao encontrá-lo pessoalmente, por causa do comportamento muito mais maduro do que o dele, tinha ficado firmemente convencido de que se tratava de alguém bem mais velho…
Pensando objetivamente, não fazia sentido que um rei em idade de tomar uma esposa fosse tão mais velho assim, e parecia que tinha se deparado várias vezes com pistas que sugeriam isso, mas talvez fosse a ideia fixa em sua cabeça que rejeitasse todas as informações.
— Só um ano de diferença.
— Sim.
Fez-se silêncio de novo. Sem palavras para dizer, Rensley ficou olhando fixamente para a mesa. Não conseguia acreditar que fosse apenas um ano de diferença. Se comparasse só pela maturidade das atitudes, acreditaria até se lhe dissessem que havia dez anos de diferença.
Será diferença de personalidade? Ou será que Rensley Malocen é mesmo tão levado como as pessoas dizem? Não, ele nunca achou que fosse tão inferior assim comparado a outros rapazes da mesma idade. O Grão-Duque governava um país inteiro, então era natural que não fosse igual aos outros da mesma faixa etária.
Pensando bem, dizem que ele herdou o trono aos dezesseis anos… então já governava Oldenrant há cerca de sete anos.
Rensley o examinou minuciosamente mais uma vez. A expressão dele era séria e quieta, e os traços do rosto eram esculpidos como uma escultura, mas certamente não era um rosto que aparentasse mais idade.
“Então é isso. Um ano…”
Não são dois ou três anos, e com apenas um ano de diferença, não seria razoável considerá-los da mesma idade? É uma diferença de idade perfeitamente adequada para se tornarem amigos sem cerimônia. Os pensamentos de Rensley foram avançando aos poucos.
— Alteza.
Como se lhe tivesse ocorrido uma boa ideia, Rensley apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. Por trás dos olhos afilados que se curvavam com o sorriso, os olhos violeta brilhavam de forma ousada.
— Que tal eu ensinar o senhor?
— O quê?
— Eu tenho um pouco de experiência, ainda que pouca… Posso ensinar um pouco sobre esse assunto. Quem sabe, ao entender melhor, Vossa Alteza não sinta interesse também.
— Já recebi essa educação na época em que era herdeiro. Só não senti interesse.
— Eu sei bem como é a educação de quarto na realeza. É solene e enfadonha. Entendo por que não sentiu interesse.
Então Gizel também inclinou levemente o corpo e apoiou o queixo no dorso da mão.
— Parece que o senhor Malocen tem bastante experiência.
— Haha, não, não é bem assim. Envergonho-me de dizer, mas não é para tanto. Quase ninguém quer se relacionar seriamente com um filho bastardo. Mas eu era razoavelmente popular entre as mulheres… ah, por que estou falando bobagem à toa… De qualquer forma, o que eu queria dizer é que, conversando à vontade, talvez Vossa Alteza acabe se interessando também. Afinal, Vossa Alteza é o soberano deste país e, mais cedo ou mais tarde, vai precisar receber uma verdadeira Grã Duquesa Consorte e ter um herdeiro, não é mesmo?
Rensley sorriu, satisfeito.
— Estou feliz por finalmente sentir que tenho alguma utilidade para Vossa Alteza. Afinal, numa relação normal entre soberano e vassalo, deve ser difícil até para Vossa Alteza conversar sobre esse tipo de assunto.
— É verdade. Ouvindo você, também fiquei curioso. Vou pedir seu ensinamento.
— Hoje eu sou o professor de Vossa Alteza.
O sorriso de Rensley se alargou ainda mais. Ele tinha entrado para a Ordem que o protegia, mas era um novato de baixo escalão, e até agora sua experiência em Oldenrant tinha sido só de paz. Não sentia que estava contribuindo em nada para Gizel, então descobrir que havia pelo menos um lugar em que podia ser útil era uma chance de retribuir a comida que comia.
Claro que a experiência de Rensley também não era grande o bastante para ensinar alguém. O fato de haver poucas pessoas dispostas a se envolver com um filho bastardo em situação delicada não era um mero comentário, e sim a pura verdade; se tivesse continuado a viver na Cornia, é bem provável que Rensley jamais teria conseguido um cônjuge e teria passado a vida inteira sozinho. Ciente da sua posição, Rensley nunca se esforçara para arranjar um amante. O status de filho bastardo era um grilhão que não precisava, de jeito nenhum, ser compartilhado ou passado adiante a mais ninguém.
Mas mulheres que demonstravam interesse por Rensley apareciam com frequência. Às vezes uma nobre que conhecia nos arredores de um salão de festas, às vezes uma plebeia que trabalhava na praça. Normalmente, ficava só em beber junto, dançar, conversar e passar um tempo agradável, mas algumas não queriam deixá-lo ir embora mesmo quando a noite avançava.
Ambos sabiam claramente que só podia ser um breve idílio. Na maioria das vezes, ele recusava sorrindo e se despedia, mas de vez em quando, também surgiam dias em que queria fingir não perceber e ficar mais tempo naquele abraço quente e macio que o segurava.
Isso aqui está tudo bem, não está? Eu também sinto solidão às vezes. Fechando os olhos, sussurrava assim para si mesmo. Você também deve sentir o mesmo, provavelmente. E acrescentava essa suposição também.
— Senhor Malocen?
Rensley, que tinha mergulhado brevemente em lembranças antigas, voltou depressa à realidade com a voz do homem. Naquela época, parecia que tinha vivido momentos, à sua maneira, agradáveis e gentis, mas, ao relembrar agora, só se sentia inexplicavelmente melancólico e amargo. Baixou a cabeça rapidamente e se desculpou.
— Desculpe. Estava distraído por um instante.
— Sentiu saudade de alguma ex-namorada que deixou na Cornia?
— Não. Namorada, imagina. Nem sequer existiu alguém assim.
— Estranho ter experiência, mas não ter tido namorada. Você dormiu com alguém sem se casar nem estar apaixonado?
Rensley ficou de repente envergonhado. Porque a observação dele estava certa. Ele não achava que passar a noite com alguém e o sentimento de amor precisassem necessariamente vir juntos. Pense amanhã sobre o que é de amanhã. A maioria das pessoas da Cornia, que prezavam acima de tudo o prazer, provavelmente concordaria com Rensley.
Mas será que ele tinha sido assimilado, sem perceber, pelas pessoas rígidas ao seu redor? Ou seria por causa da atitude do Grão Duque, que chegava a parecer quase purista? Rensley sentiu como se estivesse sendo repreendido por ele. Mesmo que fosse repreendido, bastaria estar em paz consigo mesmo, mas ele mesmo não conseguia entender bem por que se sentia tão envergonhado. Como Rensley não conseguiu responder prontamente, a voz do Grão Duque se suavizou.
— Se magoei seus sentimentos, desculpe. Foi brincadeira.
— Não é isso. O que Vossa Alteza disse é verdade.
Até as palavras que tinha dito com tanta segurança momentos antes agora o envergonhavam. O que ele precisava aprender era como valorizar e amar com carinho a verdadeira Grã Duquesa Consorte que receberia futuramente, não a maneira de fechar os olhos e fugir de uma solidão que o assaltava de vez em quando… quem era ele para ensinar algo assim?
Será que devia mesmo ficar relembrando histórias de parceiros passados? Não tinham se tornado laços profundos, mas eram companheiros que, ao menos por um instante, consolavam as noites um do outro. Não queria mencioná-los apenas como entretenimento.
— Então, o que devo fazer?
— Ah…
Hesitante, Rensley acabou sorrindo, sem alternativa. Pensando bem de todos os ângulos, não havia nada muito adequado que pudesse ensinar a ele. Não tinha jeito. Já que tinha sido o responsável por se gabar primeiro, teria que introduzir o assunto de algum jeito e concluir.
— Hum… Acho que, no início, é melhor mesmo começar se beijando.
— Um beijo.
— Sim. Abraça-se a cintura ou os ombros e beija-se. Como Vossa Alteza tem muita força nos braços, mesmo uma pressão pequena pode machucar a pessoa abraçada. Então basta ser bem de leve.
— Entendo.
Ele parecia ouvir com bastante seriedade. Na mente de Rensley, a imagem do homem à sua frente beijando se formava automaticamente.
A nova Grã Duquesa Consorte que ainda viria também seria mais baixo que ele. Com alta probabilidade, seria menor e mais delicado até do que Rensley Malocen.
Envolvendo delicadamente as costas esbeltas com braços grossos e firmes, Gizel Zibedad inclina profundamente a cabeça. Quando os cabelos negros e longos deslizam silenciosamente ao lado do rosto dele, talvez a nova Grã Duquesa Consorte coloque delicadamente a mão sobre o peito largo, ou ajeite as mechas caídas de cabelo com um toque suave.
— A noite de núpcias de que se fala na realeza é rígida como um ritual, não é? Em vez de começar de forma solene já na cama, desde o início… é, acho que é melhor conversar juntos ou dançar, e assim naturalmente chegar a um beijo.
Lá fora, uma lua fina desponta e velas iluminam suavemente o quarto. Diferente da noite de núpcias com Rensley Malocen, quando a cerimônia foi falsa, Gizel Zibedad saiu correndo sozinho para o laboratório e, ao em vez disso na verdadeira , tomará em seus braços sua adorável e verdadeira Grã Duquesa Consorte.
O som da música do festival e da celebração que acontece lá fora chega em ondas fracas até o quarto, e os dois, abraçados um ao outro, movem os pés devagar até finalmente juntar os lábios. No começo, provavelmente leve e suave.
Removem os enfeites dos ombros das vestes, mais elaboradas e vistosas do que o normal, e tiram também a capa longa e grossa e a armadura cerimonial. A Grã Duquesa Consorte, com mãos delicadas e belas, ajuda a despi-lo, e Gizel também começa a tirar, com as mãos grandes, o vestido esvoaçante. Os movimentos são precisos e rápidos, mas nunca machucam a pele da Consorte. Não, pelo contrário, com o toque suave que roça as costas ou a cintura, é bem provável que ele derreta em pouco tempo.
De repente, uma cócega percorreu a coluna de Rensley, e ele fechou a boca. Isso porque a presença de Gizel Zibedad atrás dele, o dia passado em que ele tinha tocado sua pele enquanto passava a fita da cintura do vestido, um a um, se sobrepunha à noite de núpcias imaginária. A sensação de languidez cada vez que a ponta dos dedos roçava a pele nua, a lembrança de estar em pé enquanto os olhos quase se fechavam, ressuscitava como uma alucinação.
As mãos dele. A palma da mão que lhe foi estendida desde o primeiro dia em que chegou tremendo de frio ao castelo, o breve momento em que escreveu com o dedo sobre ela, a mão que segurou a dele enquanto subiam a escada no escuro…
— Senhor Malocen?
Rensley, que estava olhando distraído para um ponto vazio no ar, acordou de repente e endireitou o olhar. O Grão Duque o observava com atenção.
— Há algum problema? De repente ficou quieto.
— …Desculpe…
Nenhuma outra palavra lhe veio à mente. Rensley se desculpou com ele numa voz baixa. Tudo o que conseguiu fazer foi apertar a garganta, que doía de repente como se tivesse inchado, para que a voz não tremesse. Esforçou-se para levantar os cantos da boca para afastar o constrangimento.
— Acho que fui presunçoso demais. Não me vêm mais palavras à cabeça.
— É mesmo? Então, se tiver outra boa ideia mais tarde, me avise.
— Entendido, Alteza.
O olhar do soberano do norte examinou, como quem observa, Rensley, cujo silêncio e vitalidade haviam diminuído bruscamente. Diante daquele olhar penetrante, conteve a respiração como uma criança prestes a ser repreendida.
Com o som de uma cadeira sendo empurrada, Gizel se levantou. No mesmo instante em que Rensley encolheu os ombros por reflexo, a mão grande e elegante avançou sem hesitação e tocou sua testa. O dono da mão ficou em silêncio por um instante, depois inclinou levemente a cabeça.
— Não tem febre… mas, de alguma forma, a sensação é parecida com a de quando teve febre da última vez. Como a rotina mudou de repente com a entrada na Ordem, pode ser que tenha se cansado rápido demais, então acho melhor descansar por hoje.
— Sim. Sim, Alteza…
— Se estiver se sentindo mal, não segure, avise sempre.
— Sim…
— Descanse aqui hoje. É perigoso tentar usar o dispositivo de teletransporte pela primeira vez quando não se está bem.
Rensley agora só balançava a cabeça, sem nem responder. Tinha uma expressão que ainda não tinha se livrado por completo da dúvida, mas Gizel não perguntou mais nada e saiu do quarto. Sozinho, Rensley ficou olhando bobamente para a porta fechada, depois foi se arrastando até a cama e se jogou de bruços em cima dela.
Parece que já houve um dia parecido com este alguma vez.
O rosto enterrado nas cobertas, e as orelhas que apareciam por cima delas, foram ficando cada vez mais vermelhas. Emitindo um gemido baixo, ele agarrou com força o próprio cabelo.
“…Não, é engano meu.”
Porque ele é bom demais comigo. Como é a pessoa com quem mais convivi de perto desde que vim para Oldenrant, sem perceber acabo querendo me apoiar nele o tempo todo.
Só isso. Assim que eu me acostumar com a vida aqui e conhecer mais pessoas, esse sentimento estranho de agora vai desaparecer logo.
Enquanto ficava deitado com o rosto enterrado no travesseiro, começou a sentir falta de ar, então Rensley se virou de barriga para cima. Mesmo respirando fundo, o coração, que uma vez acelerado, não dava sinais de se acalmar — pelo contrário, só ficava cada vez mais forte.
O rosto bem-feito de repente se contorceu lentamente e, por fim, ficou completamente escondido por trás das duas mãos que cobriam o rosto.
***
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna