The Hound Behind The Mask (Novel) - ↫─Capítulo 02.3
↫─Capítulo 02.3
A mesa de refeição exalava apenas uma atmosfera gélida, como se tivessem despejado água com gelo sobre ela.
Lee Ikhyung não era visto em lugar nenhum. Jaeha ouvira a notícia de que ele recebera alta do hospital, mas ao saber de sua vinda, parecia que ele, dotado daquele temperamento covarde e propenso à evasão, transferira tudo para Kim Ranhee e evitara o local. Por conta disso, apenas quatro pessoas ocupavam os assentos à mesa. Lee Jaeho sentou-se ao lado de Kim Ranhee, e Jaeha e Taegun acomodaram-se lado a lado no lado oposto.
Apesar do aviso em cima da hora, parecia que a Sra. Jeong preparara vários pratos com esmero, servindo sucessivamente alimentos dispostos de forma compacta. Uma bandeja de finas panquecas de trigo sarraceno com acompanhamentos variados, conserva de rabanete com caldo de gelo, macarrão de caldo de pinhão de Gapyeong e carne grelhada marinada foram servidos nas porções exatas para cada indivíduo.
Taegun exibiu um sorriso largo e disse:
— A comida está deliciosa. Por favor, embale uma porção para levarmos quando sairmos. Acho que vai agradar ao paladar deste homem.
Jang Taegun dirigiu o elogio sobre a comida à Sra. Jeong. Obviamente, a pessoa que preparara os pratos fora a Sra. Jeong, de modo que dirigir o elogio àquela direção continha nuances questionáveis, mas ele apenas manteve um sorriso brilhante e conversou de forma afável. Quando o homem belo, que costumava exibir traços um tanto assustadores quando permanecia sem expressão, falou sorrindo abertamente, a Sra. Jeong exibiu olhos surpresos, mas sorriu de volta reflexivamente acompanhando Taegun:
— Ah, meu Deus, com certeza. Como o Diretor gosta de bolinhos de peixe recheados… Comam bastante.
Apenas a expressão facial de Kim Ranhee, sentada no assento em frente, distorcia-se cada vez mais. Ela bebia água consecutivamente e franziu as belas sobrancelhas diante da resposta da Sra. Jeong.
— Sra. Jeong, faz tempo que o nosso Jaeho assumiu o cargo de diretor, por que você continua chamando o Jaeha de diretor?
— Eu também sempre chamo o jovem diretor de diretor.
Quando ela disparou as palavras na direção da Sra. Jeong, esta piscou os olhos grandes como se perguntasse se havia algo grave de errado naquilo.
Ela, que passara a vida inteira ouvindo o título de “patroa mais nova” desde que ingressara naquela casa, pareceu ficar profundamente ofendida ao ver o próprio filho receber o título de “diretor mais novo”, mas pareceu calar a boca sabendo que prolongar a discussão ali traria apenas desvantagens para si mesma.
Lee Jaeho também exibia um rosto emburrado, mas não proferiu grandes palavras, parecendo atento às reações de seu meio-irmão mais velho.
Apesar daquela atmosfera ambígua, Jang Taegun era o único à mesa que manejava os palitinhos sem qualquer impedimento. Ele levou uma porção da carne de peixe cozida com tempero picante ao seu prato individual, retirou as espinhas e em seguida a entregou como a porção de Jaeha.
Como Jaeha não recusou especificamente, Jang Taegun continuou transferindo alimentos para o prato individual dele. Quando um prato de pimentão e carne bovina salteados com tempero picante foi servido, ele utilizou os palitinhos com extrema destreza para selecionar apenas os pedaços de carne bovina e colocá-los sobre o prato de Jaeha. Não se tratava de uma tarefa incômoda como retirar espinhas, de modo que Jaeha o encarou diante daquela ação ostensivamente peculiar, fazendo Taegun proferir com seu tom indiferente habitual:
— Você detesta pimentão. Coma apenas a carne.
— …Quando foi que eu detestei pimentão?
Ele nunca dissera a ele que detestava pimentão, e o próprio Lee Jaeha jamais alimentara tal pensamento.
Diante daquela perplexidade, o outro piscou apenas o olho esquerdo na direção de Jaeha com uma expressão facial nula, demonstrando que sabia de tudo. Lee Jaeho, que testemunhou toda aquela cena, fingiu uma leve ânsia de vômito secretamente em relação à sua própria mãe, como se estivesse prestes a vomitar de fato.
Dessa forma, o momento da refeição, que prosseguia de maneira íntima apenas entre os dois homens, logo chegou ao fim. Como sobremesa, foi servido sorvete de yuzu e chá de ameixa quente. Jang Taegun esvaziou a tigela perfeitamente, demonstrando que até mesmo aquilo agradara ao seu paladar. Em seguida, inclinou levemente a cabeça e proferiu de forma apática:
— Então você cresceu comendo esse tipo de coisa.
Aquelas palavras continham uma entonação um pouco peculiar, forçando Jaeha a inclinar a cabeça para o lado. Isso porque soou como se ele estivesse resgatando alguma memória. Não parecia apenas uma admiração diante dos alimentos que Lee Jaeha consumira durante o crescimento, mas sim…
Jaeha fez menção de perguntar o significado daquilo, quando Taegun levantou-se do assento como se tivesse se lembrado e trouxe um dos presentes que providenciara. Um recipiente longo foi colocado sobre a mesa. Um objeto cilíndrico cuja altura facilmente ultrapassava os 80 centímetros estava envolto em um tecido de seda de cor rosa clara.
Jaeha também nutria curiosidade sobre a identidade daquilo desde o início. Como o objeto envolto no tecido parecia ser algo semelhante a uma garrafa de vidro, vira Taegun carregá-lo com relativo cuidado. Como já era tarde para perguntar o que era aquilo naquele momento, ele aguardou a abertura do embrulho. No entanto, o mesmo não se aplicava a Kim Ranhee.
Ela encarava Jang Taegun com um rosto pálido de pavor. Taegun colocou o objeto sobre a mesa, demonstrando que aquele olhar não surtia nenhum efeito sobre si.
— Não é grande coisa, é apenas algo para ajudar na revigoramento da saúde da minha sogra.
Taegun falou coçando a bochecha. Aquele gesto parecia inclusive tímido, assemelhando-se ao de um genro que providenciara o presente de sua sogra.
Em seguida, ele desfez o tecido de seda. O tecido macio deslizou rapidamente roçando a garrafa de vidro, revelando o recipiente que estava oculto. Algo imerso em um líquido amarelado encarava esta direção. Jaeha visualizou primeiramente as escamas amplamente expandidas devido à refração causada pelo líquido.
Kim Ranhee levou a mão ao peito assustada ao cruzar o olhar com o que estava contido dentro da garrafa longa.
— Mãe-!
Lee Jaeho, sentado ao lado, amparou o ombro de Kim Ranhee. Jaeha também ficou ligeiramente surpreso. O que estava dentro da garrafa era uma serpente de grande porte imersa em bebida alcoólica.
O brilho dos olhos do que estava contido ali permanecia vívido, como se ainda estivesse vivo. As pupilas da serpente, verticalmente fendidas, pareciam mover-se sutilmente como se seguissem alguém. Kim Ranhee, pálida como gesso, acenou com a mão:
— Afaste isto daqui imediatamente!
— O que é isto?! Afaste isso rápido!
Lee Jaeho também amparou a mãe assustada com um semblante aterrorizado, levantando-a do assento. Taegun soltou um riso largo.
— Eu peguei isso escondido no depósito após a morte do velho do meu avô, por que essa reação de vocês? Deixa a pessoa que trouxe chateada.
Diante das palavras de Taegun, Kim Ranhee, indignada, direcionou o ataque a Lee Jaeha. Encarando-o com olhos injetados de sangue, ela gritou:
— Este… este sujeito-! Onde você encontrou um objeto desses para trazer como seu cônjuge?!
Foi uma acusação direcionada a Jaeha por ter trazido Taegun. O fato de ela ter proferido todos os tipos de bênçãos quando soube do casamento e agora, com a mudança de cenário, rebaixá-lo à categoria de “um objeto desses” foi um tanto absurdo. Jaeha cantarolou um gole do chá de ameixa sem responder.
Taegun bateu de leve na garrafa com o dedo indicador e disse:
— Esta é a serpente dos feromônios. No passado, dizia-se na corte que ela era dada aos Alfas que herdariam o trono para transformá-los em Omegas, mas isso é pura superstição; na verdade, dizem que esse licor de cobra é tão benéfico para o vigor sexual que criaram esse boato para evitar que qualquer um consumisse. Pensei que este licor combinaria perfeitamente com os interesses da minha sogra, por isso o trouxe.
Se as palavras Alfas e Ômegas eram termos atuais, as expressões antigas coreanas correspondiam a termos históricos equivalentes. Só então Jaeha direcionou o olhar para a garrafa.
Pensando bem, dois pequenos chifres projetavam-se da cabeça da serpente. Assim como existem Alfas e Ômegas, ocasionalmente ocorrem espécies animais que exalam feromônios perceptíveis pelos seres humanos. Parecia que a serpente era uma dessas subespécies.
Kim Ranhee começou a tremer o corpo violentamente. Jang Taegun, que permanecia apoiado com o braço sobre a tampa da garrafa de vidro, soltou um riso largo.
— Ah, parece que a carapuça serviu? A sua expressão está divertida.
Como ela tremia excessivamente, Lee Jaeho, que a amparava pelo ombro, também pressentiu a estranheza e examinou o rosto de Kim Ranhee.
Ela continuava tremendo com um rosto pálido de pavor. Lee Jaeha contemplou o rosto dela silenciosamente.
Lee Jaeha também jamais a considerara parte de sua família. Jaeha enfrentara o funeral de sua mãe em uma idade excessivamente jovem, e Kim Ranhee ingressara na casa de Lee Ikhyung no ano seguinte exibindo um rosto radiante enquanto segurava a mão de seu próprio filho.
A terra que cobria a sepultura de sua mãe nem sequer havia secado totalmente e nenhuma única erva daninha nascera sobre ela, de modo que seria impossível aceitar o fato de que uma nova família surgira naquele intervalo. Por conta disso, Jaeha jamais fizera esforços para aceitá-la. Contudo, ele também nunca tomara a iniciativa de prejudicá-la.
No entanto, o que ela fizera? Através de quais ações ela arrastara todas aquelas atrocidades até este momento? O olhar trêmulo de Kim Ranhee vagou pelos olhos silenciosos de Jaeha. Foi uma situação cômica, mas parecia que ela, àquela altura, relutava em permitir que seu filho adotivo descobrisse sua própria maldade e hostilidade.
Taegun visualizou a expressão dela, soltou um riso curto e disse:
— Que tal um copo para o nosso cunhado?
Em seguida, ele ergueu o copo de chá de ameixa, despejou o conteúdo na boca de uma vez e abriu a tampa da garrafa com a mão grande. O aroma adocicado do licor medicinal espalhou-se pela cozinha. Logo atrás, surgiu um odor inédito que jamais fora sentido antes. Aquilo, somado à aparência do que estava contido na garrafa, provocou repulsa em todos. Apenas Jang Taegun manteve um rosto natural e mergulhou o copo dentro da garrafa.
A afirmação de que se tratava de uma serpente que exalava feromônios parecia correta. O aroma da bebida espalhou-se rapidamente pela sala de jantar. Feromônios cuja origem era impossível determinar se pertenciam a um Alfa ou a um Omega instalaram-se nas proximidades. Lee Jaeho e Kim Ranhee cobriram o nariz simultaneamente. Isso porque o aroma era insuportável. Jaeha colocou o copo de chá sobre a mesa e passou a observá-los. Pensou que conseguiria ler algo no rosto de Kim Ranhee.
Jang Taegun estendeu o copo contendo a bebida na direção de Lee Jaeho com um sorriso:
— Foi o velho falecido da minha casa quem preparou isto pessoalmente… Hum, faz uns 30 anos? Deve estar bem envelhecido. Beba, cunhado.
Diante daquelas palavras, Kim Ranhee, exibindo um semblante pálido, soltou um grito que lembrava o rasgar de um tecido de seda e empurrou o copo:
— Pare, pare com isso! Seu gângster desgraçado! O que você quer?!
A bebida espalhou-se sobre a mesa enquanto o copo rolava pelo chão. Taegun observou o copo que caíra no chão e girava sozinho.
— ……
— ……
Como ele permaneceu de pé sem proferir nenhuma palavra, um silêncio pesado preencheu a sala de jantar. Kim Ranhee também calou a boca.
Não que Taegun tivesse adotado alguma ação. Ele apenas permaneceu parado no local, contemplando fixamente o copo caído e a bebida espalhada. Jaeha também não conseguiu ler nenhum feromônio impositivo vindo dele.
No entanto, ele era amplamente ameaçador. Uma presença pesada oprimia a sala de jantar. Em seguida, ele ergueu a cabeça, empurrou a parte interna da bochecha com a língua de forma circular e abriu e fechou os olhos lentamente. Lee Jaeho escondeu a mãe atrás de si enquanto tremia violentamente. Kim Ranhee, exibindo um semblante pálido, também não impediu o filho.
Taegun estreitou os olhos e limpou a própria camisa com tapinhas. Ele exibiu um sorriso revelando os dentes, mas a feição parecia tão severa para um sorriso que a nuca de quem o encarava chegava a latejar.
— Mas que porra, respingou tudo. Só porque está irritada você acha que pode derramar bebida em cima de alguém que está quieto?
Uma pressão impossível de ignorar emanava do Alfa dominante que os encarava de cima, mantendo as duas mãos enfiadas nos bolsos da calça e a cabeça ligeiramente erguida. Foi um tom de voz que até Jaeha ouvia pela primeira vez. Através de um tom de voz áspero que transmitia um senso de crise como se estivesse sendo encurralada por todos os lados, Taegun proferiu aproximando o tronco lentamente na direção de Kim Ranhee. O olhar feroz preenchera o local no lugar do sorriso que desaparecera em algum momento.
— E ainda por cima, chamar um gângster de “gângster desgraçado” é o quê? Deixa o gângster que ouve sem energia.
— ……
Kim Ranhee calou a boca. Não desviar o olhar que cruzava com o de Taegun parecia ser o seu último resquício de orgulho.
No entanto, Taegun sorriu novamente em seguida. Foi um sorriso bastante descontraído. Ele endireitou o tronco que estava inclinado e abriu a boca na direção de Kim Ranhee:
— Minha sogra, estou realmente chateado.
Seu linguajar continha nuances exageradas, tornando-se ainda mais insultuoso. Veias saltaram na testa de Kim Ranhee. O fato de o pescoço dela ficar avermelhado indicava que ela estava profundamente enfurecida. Taegun inclinou a cabeça para o lado e sorriu:
— Ora, não é verdade? Você deu secretamente um remédio para o nosso Lee Jaeha-ssi que poderia alterar sua natureza para Omega, e agora não permite sequer que o cunhado tome um copo de licor de cobra.
Diante daquelas palavras, Jaeha também ficou ligeiramente desconfortável. Isso porque ele não pretendia estender o conhecimento sobre as ações de Kim Ranhee até Lee Jaeho. O fato de Lee Jaeho ter nascido daquele tipo de pais, e o fato de Lee Jaeha ter enfrentado aquele tipo de pai e aquele tipo de madrasta não eram falhas deles.
Se houvesse pessoas naquela casa que pudessem ser chamadas de algo semelhante a uma família, a primeira seria a Sra. Jeong, e a segunda seria Lee Jaeho. O restante correspondia a indivíduos piores do que estranhos. Jaeha conhecia bem o temperamento de Lee Jaeho. Ele não era extremamente virtuoso, mas também não conseguia ser perverso.
Espremido entre a carência afetiva decorrente de um pai que não olhava para si e o afeto sufocante de uma mãe que vivia focada apenas nele, ele possivelmente agira de forma distorcida e rebelde na tentativa de provar seu valor de qualquer maneira.
Nem todos na situação de Lee Jaeho viveriam como ele, mas isso não significava que qualquer um fosse mais inocente do que Lee Jaeho. Por conta disso, Jaeha relutava em revelar os fatos a Lee Jaeho. Tratava-se de uma realidade que seria revelada de qualquer forma, mas pensara que não haveria problema em revelá-la um pouco mais tarde.
— O que isso significa…
Conforme a previsão de Jaeha, o semblante de Lee Jaeho enrijeceu. Ele virou-se para Jaeha com um rosto perplexo. Como era impossível responder que não era verdade, Jaeha permaneceu em silêncio, fazendo com que ele se voltasse novamente para a mãe.
Kim Ranhee continuava encarando Lee Jaeha com um rosto pálido. Era um olhar repleto de ressentimento, como se pensasse que tudo daria certo se apenas ele não existisse.
Foi quando aconteceu.
— Jaeha, o que você veio fazer aqui?
Ouviu-se a voz grave e robusta de um Alfa de meia-idade. Era Lee Ikhyung. As quatro pessoas que estavam ao redor da mesa olharam simultaneamente para a direção de onde vinha o som.
Lee Ikhyung estava parado na entrada da sala de jantar. Devido à pressão arterial elevada, ele fora internado temporariamente no Hospital Yooshin, mas ao receber a informação de que ocorreria uma busca e apreensão, providenciara a transição para uma internação de longo prazo. No entanto, ele exibia um rosto saudável demais para alguém que passara por uma internação de longo prazo. Lee Ikhyung falou sem suavizar a feição fria e severa:
— Que tipo de tumulto é esse dentro de casa? Você disse que não retornaria a esta casa após o casamento, e agora entra rastejando com um objeto desses? Permitir que um sujeito sem educação criado nas ruas entre nos muros da minha casa? Você perdeu o juízo?
Diante de Lee Ikhyung, que repetia fielmente as palavras proferidas por Kim Ranhee demonstrando perfeita sintonia entre marido e mulher, Lee Jaeha franziu o cenho. Ele fez menção de abrir a boca para proferir uma palavra, quando Taegun falou sem sequer sorrir:
— Esta casa funciona muito bem, que porra?
— …Quem disse para você abrir a boca? Lee Jaeha, o que está fazendo? Saia imediatamente.
Diante daquelas palavras, Taegun bateu duas vezes no lado esquerdo do peito com a mão direita. Foi um gesto semelhante ao de quem procura um maço de cigarros. Como o paletó do terno fora recolhido pelos empregados assim que entraram na casa, Jaeha hesitou brevemente se deveria chamar alguém para trazer o maço de cigarros dele naquele intervalo.
Recordando que o cigarro não estava ao seu alcance, Taegun permaneceu de braços cruzados, inclinou a cabeça para o lado de repente e disse:
— Meu sogro, o seu filho corre o risco de virar Omega devido ao remédio que a sua esposa misturou secretamente, e tudo o que você tem a dizer é isso?
— …Não há necessidade de um estranho interferir em questões familiares. Seu gângster vagabundo que vive jogado nas ruas, recolha esse lixo e suma daqui.
Lee Ikhyung apontou para a garrafa longa de bebida. Jaeha não aguardou mais, levantou-se e disse a Lee Jaeho:
— Isto serve como resposta? Você me perguntou o motivo pelo qual a Yooshin deve ser destruída.
— Você…
Diante daquelas palavras, Jaeho encarou Jaeha com olhos injetados de sangue. Desviando o olhar de seu meio-irmão, Jaeha ergueu a mão de Jang Taegun. Era a mão envolvida pela faixa. Sentiu o olhar de Lee Jaeho. Jaeha alertou com um tom firme:
— Nunca mais envie capangas. Vocês deveriam manter o mínimo de dignidade. Eu havia deixado recursos suficientes para que vivessem confortavelmente pelo resto da vida, mas agora não farei mais isso. Parece que vocês só vão recuperar o juízo quando forem totalmente arruinados.
Lee Ikhyung enfureceu-se. Sob a perspectiva de Lee Jaeha, foi uma fúria um tanto descarada e sem propósito.
— Ora, finalmente você confessa. Entregar a empresa que foi erguida desde a época do seu avô para esse gângster subordinado? Você é um sujeito que perdeu o juízo? Querida, traga o meu taco de golfe.
Lee Ikhyung, que jamais aplicara punições físicas contra Lee Jaeha durante todo o seu crescimento, passara a agredi-lo sistematicamente dentro de casa após Jaeha começar a fragmentar a Yooshin e espalhá-la pelo ar.
Mesmo sendo espancado com um ferro 9 a ponto de suas coxas sangrarem, Lee Jaeha não possuía uma mãe como a de Lee Jaeho, que intercederia dizendo que morreria se batesse mais no filho. Ele apenas torcia para que os hematomas nas coxas e no quadril desaparecessem antes do período de rut, para evitar que fossem descobertos por Jang Taegun, que o procurava naquela época. Lee Ikhyung desenvolvera o hábito de exercer violência contra Jaeha desde então, e esse costume rapidamente ergueu a cabeça.
Naquela situação caótica, Jang Taegun falou com um sorriso:
— Eu me perguntava por que ele aparecia com hematomas de vez em quando.
Ele estalou o pescoço com força. Empurrando a parte interna da bochecha com a língua pontiaguda, continuou as palavras sem desfazer o sorriso:
— Eu cheguei a pensar que ele tinha ido atrás de algum desgraçado que batia na bunda dele nesse meio-tempo. Mas o nosso querido responsável o espancava pessoalmente.
Jang Taegun avançou com passos firmes e imediatamente agarrou a nuca de Lee Ikhyung com uma das mãos.
— O que pensa que—
Vozes assustadas ecoaram de Lee Jaeho e Kim Ranhee. Apenas Lee Jaeha mantinha o olhar fixo em Jang Taegun. Ele estava nítido demais.
— Que tipo de palhaçada é essa?!
— O que, o que pensa que está fazendo?! Solte isso agora mesmo!
— Sra. Jeong! Chame a empresa de segurança, rápido!
Lee Ikhyung, cuja nuca fora erguida como a de um cachorro capturado enquanto tentava fugir, e Lee Jaeho gritaram, fazendo com que Kim Ranhee corresse para fora emitindo um grito chamando pela Sra. Jeong.
Parecia que ela pretendia acionar a equipe de segurança que residia na propriedade. Lee Ikhyung não conseguia endireitar a cintura que fora dobrada devido à nuca capturada por Jang Taegun. Arrastado como uma fera conduzida ao matadouro, Lee Ikhyung parou diante de Jaeha.
— Peça desculpas. Rápido.
— Solte isso agora mesmo!
O rosto de Lee Ikhyung, mantido totalmente curvado diante do cônjuge jovem de seu filho, estava intensamente avermelhado. Parecia tremer de fúria e humilhação.
Jaeha baixou o olhar lentamente na direção de Lee Ikhyung e soltou um suspiro curto. Lee Jaeho gritou para Jaeha:
— Ei, o que pensa que está fazendo? Interceda e impeça isso, você também!
— Impedir o quê, o quê? Este agressor doméstico certamente também espancou o cunhado, mas parece que o estômago dele é forte. Peça desculpas àquela direção também, rápido.
Jang Taegun ergueu a nuca de Lee Ikhyung abruptamente e o fez curvar a cintura na direção de Lee Jaeho também. Lee Ikhyung teve que curvar a cabeça profundamente emitindo sons sufocados, sem conseguir esboçar nenhuma reação.
Por mais que estivesse idoso, ele também era um Alfa , mas parecia incapaz de resistir àquela força esmagadora.
Jang Taegun pressionou a parte posterior da cabeça dele na direção de Jaeha novamente, forçando-o a curvar a cintura. Em seguida, proferiu com um tom de voz linear:
— Eu disse para pedir desculpas.
— …Seu canalha! Onde você pensa que está…!
Lee Ikhyung esbravejou como se estivesse tendo um ataque. Jang Taegun proferiu resmungando com um rosto que sugeria que estava prestes a bocejar:
— É demência? Aqui é Seongbuk-dong.
Lee Ikhyung não respondeu e fazia esforços para afastar a mão de Jang Taegun que o pressionava. Como não era uma tarefa fácil, ele apenas arquejava enquanto tentava arranhar a mão de Jang Taegun com as unhas.
Contemplando o couro cabeludo que ficara avermelhado devido ao esforço supremo entre os fios grisalhos, o que Lee Jaeha sentiu foi a derrocada de um homem medíocre que costumava reinar tiranicamente sobre ele, sua mãe, Lee Jaeho e Kim Ranhee como se fosse eterno.
Jang Taegun continuou falando com seu tom indiferente habitual:
— Antes que a comida cara seja totalmente digerida, peça desculpas logo, rápido.
Lee Ikhyung permaneceu com a cabeça curvada sem conseguir escapar do punho de Jang Taegun, assemelhando-se a um boneco de papel.
Embora tentasse se erguer com as próprias forças a ponto de os músculos eretores da espinha e os músculos abdominais tremerem, seu corpo não se endireitava.
Lee Jaeha manteve a boca fechada enquanto contemplava o topo da cabeça grisalho de seu pai. Lee Ikhyung acabou não proferindo o pedido de desculpas, mas Jaeha pensou que aquilo já fora humilhação suficiente para o orgulho dele, e só então interveio contendo Taegun:
— Chega, isto basta.
— Basta? Por que não recebe todas as desculpas? Ou quer que eu faça isso de novo na próxima vez?
Jang Taegun perguntou com um tom leve, assemelhando-se a alguém que se oferece para realizar uma tarefa trivial, como capturar um pequeno inseto no lugar de outra pessoa.
Em seguida, ele ergueu a nuca de Lee Ikhyung para cima com um movimento brusco e o arremessou como se o estivesse jogando contra o chão.
— Ah, ug-!
Lee Ikhyung colidiu contra a parede da sala de jantar e deslizou. Emitindo um grito de “querido!”, Kim Ranhee, que fora acionar a empresa de segurança, correu na direção dele.
— Se não quisesse sofrer agressões de um gângster na velhice, deveria ter vivido de forma correta, meu sogro. Passar vergonha assim é o auge, de verdade.
Taegun zombou dando um chute leve na canela de Lee Ikhyung. Foi um pontapé sem nenhum empenho, assemelhando-se ao gesto de chutar uma pedra que rola perto dos pés.
Aproximando-se silenciosamente da lateral de Taegun, Jaeha baixou o olhar na direção de Lee Ikhyung que estava encolhido como lixo e disse:
— Nunca mais envie capangas. Nem este homem nem eu toleraremos isso uma segunda vez.
Kim Ranhee, que estava agachada amparando Lee Ikhyung, ergueu a cabeça com olhos injetados de sangue e gritou:
— Você, seu ingrato desavergonhado-!
Jaeha franziu o cenho. Foi um desprezo direcionado à madrasta que parecia totalmente desprovida de consciência.
— A senhora também deveria medir as suas palavras. Seria necessário ter recebido alguma graça para que houvesse uma graça a ser traída, falar em ingratidão não faz sentido. Alguém que se considera refinada está utilizando os termos de forma leviana.
Jaeha estendeu a mão após encerrar a frase. Jang Taegun exibiu o rosto indiferente habitual, estendeu o braço e entrelaçou os dedos aos de Jaeha de forma firme.
Eles deixaram a sala de jantar daquela forma. No meio do caminho, Taegun interrompeu os passos primeiro. Ele vasculhou o interior do paletó, retirou um cartão de visitas, prendeu-o entre os dedos médio e indicador e o arremessou com um movimento rápido, fazendo o cartão atingir o rosto de Lee Ikhyung.
— Ah, se precisar de dinheiro para o tratamento, entre em contato. Eu contratei um seguro de casal.
Jaeha pensou que aquele seguro de casal jamais cobriria esse tipo de acordo financeiro por danos, mas não proferiu nenhuma palavra e deixou a sala de jantar.
Sentiu que Lee Jaeho os observava lá de trás. Jaeha não olhou para trás. Restou apenas um sentimento de alívio.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna