Salt Society (Novel) - — Capítulo 86
↫─Capítulo 86
Mesmo com o peso considerável de Gi-hyeon amarrado às suas costas, Jo Yeon-oh correu incansavelmente em direção ao restaurante de churrasco sem derramar uma única gota de suor.
Para Gi-hyeon, que estava exercendo até o último resquício de suas forças minguantes apenas para manter os braços presos ao redor do pescoço do homem, essa velocidade sem esforço foi uma dádiva de Deus. Embora a distância parecesse impossivelmente vasta quando ele foi arrastado até ali, a passada ininterrupta de Yeon-oh fez o sedã estacionado surgir à vista em questão de momentos.
Abrindo a porta do passageiro, Yeon-oh protegeu a cabeça de Gi-hyeon com a mão e o acomodou no assento.
— Como está agora? Ainda sente vontade de vomitar? — Yeon-oh perguntou, com a voz tensa.
Gi-hyeon só conseguiu oferecer um aceno fraco em resposta. Virando-se rapidamente, Yeon-oh escancarou a porta do restaurante, gritou algo para o interior caótico e pegou com destreza a carteira que veio voando em direção à entrada. Ele correu de volta, fechou firmemente a porta de Gi-hyeon e deu a volta pelo capô para deslizar no assento do motorista.
Franzindo a testa por causa do zumbido nos ouvidos e da dor forte e latejante no baixo-ventre, Gi-hyeon entreabriu os lábios trêmulos.
— Você… você bebeu?
— Eu teria tocado em álcool sabendo que ia ter que te levar de carro? — Yeon-oh o cortou, com o tom de voz seco e inflexível. — Durma. Estaremos no hospital logo.
Sem dizer mais nada, Yeon-oh se inclinou para afivelar o cinto de segurança de Gi-hyeon. Ele acionou o botão de controle na porta para reclinar o encosto antes de apertar o botão de ignição. O motor do sedã roncou como uma fera encurralada antes de lançá-los para a frente.
Yeon-oh havia dito para ele dormir, mas o descanso era impossível. A dor aguda e lancinante em seu baixo-ventre exigia toda a sua atenção desgastada.
De repente, uma mão quente envolveu a sua. Gi-hyeon não tinha energia para se afastar ou questionar o gesto, escolhendo, em vez disso, permanecer perfeitamente imóvel enquanto um aroma familiar começava a saturar a cabine. Eram os feromônios de um Alfa, caindo continuamente sobre ele, liberados instintivamente para acalmar um Ômega dentro de seu território.
Graças a essa presença envolvente, a corrida frenética para o pronto-socorro mais próximo passou com relativa facilidade. A dor surda em seu estômago permaneceu, mas o puro terror do perigo iminente havia desaparecido milagrosamente. Ele sentiu seu pulso frenético se estabilizar gradualmente.
No entanto, assim que chegaram e fizeram os exames, o prognóstico do médico pintou um quadro muito mais sombrio.
— É um caso grave de perturbação de feromônios — explicou o médico, consultando o prontuário. — Ele parece ter reagido violentamente aos feromônios de um Alfa. Havia algum Alfa perto do paciente gestante irradiando extrema raiva ou feromônios agressivos?
Ao ver Yeon-oh assentir lentamente, admitindo a culpa, Gi-hyeon soltou um suspiro pesado de seu lugar na cama do hospital. A expressão do médico praticamente gritava: “É claro que foi você”. Os exames de sangue indicavam claramente que o paciente grávido havia sido exposto aos feromônios agressivos de um Alfa dominante extremo. Dado o quão extremamente raros eram os Alfas dominantes extremos, e o fato de um deles estar bem ali na sua frente, a suspeita do médico era totalmente justificada.
Estalando a língua em desaprovação flagrante, o médico continuou.
— Se bem me lembro, você foi levado às pressas para o nosso pronto-socorro não faz muito tempo. Este não é um lugar que uma pessoa gestante deva visitar com tanta frequência. Você precisa ter extremo cuidado. Ele pode estar estável por enquanto, mas, como um Ômega recessivo, o paciente é altamente suscetível a mudanças de feromônios.
Yeon-oh permaneceu plantado no lugar, absorvendo a reprimenda em absoluto silêncio. Como as costas largas de Yeon-oh estavam voltadas para ele, Gi-hyeon não conseguia ver seu rosto, o que o deixava preocupado de que o Alfa estivesse lançando olhares fuzilantes para o médico. No entanto, ver o médico, que era pelo menos um palmo mais baixo que Yeon-oh, continuar seu sermão sem hesitar sugeria o contrário.
— De que forma… devo ter cuidado? — Yeon-oh finalmente perguntou.
Sua voz baixa e rouca era tão incomumente dócil que Gi-hyeon esticou o braço preso ao acesso venoso apenas para encarar as costas do homem, incrédulo.
O médico pigarreou antes de responder.
— Como mencionei anteriormente, os feromônios do pai biológico do feto são primordiais. Só então o sistema de Ômega recessivo do paciente reconhecerá a presença protetora de um Alfa e circulará continuamente seus próprios feromônios. Esse fluxo saudável beneficiará diretamente o feto.
— Não estou perguntando pela porra da criança — Yeon-oh retrucou, perdendo a paciência na hora. — Estou perguntando o que é bom para o corpo dele.
Justo quando Gi-hyeon pensou que ele estava se comportando, lá vinha ele com uma pergunta daquelas. O médico piscou, visivelmente pego de surpresa pela hostilidade repentina do acompanhante até então complacente, mas rapidamente ofereceu uma resposta comedida.
— Beneficiar o feto inerentemente beneficia a mãe. No momento, parece que os feromônios deles estão influenciando ativamente um ao outro. Não temos equipamentos de diagnóstico avançados aqui, e não sou obstetra, por isso não posso lhe dar uma garantia absoluta, mas… é altamente provável que o bebê seja um Alfa.
Diante daquelas palavras, Yeon-oh, que estava encarando exclusivamente o médico, virou lentamente a cabeça para olhar para Gi-hyeon. Ou melhor, seu olhar penetrante caiu diretamente sobre o baixo-ventre de Gi-hyeon. Um calafrio repentino percorreu a espinha de Gi-hyeon. Ele rapidamente ergueu o braço livre para proteger a barriga, mas Yeon-oh já havia voltado sua atenção para o médico.
— …Em quanto tempo podemos descobrir se é recessivo ou dominante?
— Difícil dizer. Mas considerando que os comprimentos de onda dos feromônios da mãe já estão se entrelaçando com os do feto, apesar de a gravidez estar tão no início… suspeito que seja uma característica dominante. Você, o marido, é um dominante extremo? Então há uma probabilidade muito real de a criança também ser um dominante extremo, dado o quão agressivamente está afirmando sua presença no útero.
Médicos raramente faziam especulações vazias sobre o gênero secundário de um feto. Se ele estava dizendo isso, significava que a criança era quase certamente um Alfa dominante extremo. Rezando para que o incrivelmente perceptivo Yeon-oh não decifrasse a linguagem clínica do médico, Gi-hyeon soltou um suspiro cansado.
— Obrigado, doutor. Serei liberado depois que este soro terminar?
O médico provavelmente havia se referido a Yeon-oh como o “marido” puramente por suposição, dado que ele era um Alfa dominante extremo acompanhando um Ômega grávido, mas o título deu nos nervos de Gi-hyeon. Ele temia que outros comentários desnecessários pudessem surgir se a conversa continuasse. Confiar nas limitações de um hospital rural havia sido um erro de cálculo. Ansioso para encerrar a discussão antes que Yeon-oh absorvesse mais informações perigosas, Gi-hyeon forçou uma mudança de assunto.
— Precisamos monitorar sua condição, então vou transferi-lo para uma das enfermarias vagas — decidiu o médico. — Você pode receber alta amanhã de manhã.
Seguindo as instruções do médico, a enfermeira de plantão se aproximou para explicar a logística para Yeon-oh. Uma enfermaria de cinco leitos estava vazia no momento; todos os outros pacientes haviam recebido alta, deixando Gi-hyeon como o único ocupante. Dada a natureza caótica da noite, o isolamento pareceu um golpe de sorte.
Já passava da meia-noite quando Gi-hyeon finalmente se acomodou em seu quarto. Como a enfermeira dissera, a enfermaria espaçosa estava totalmente deserta. Analisando o ambiente estéril, Gi-hyeon se virou para Yeon-oh.
— Eles estão apenas me mantendo em observação, não fazendo exames. Você deveria ir para casa e dormir.
Ignorando a sugestão por completo, Yeon-oh jogou um avental de hospital recém-dobrado sobre o colchão. Era para Gi-hyeon.
Soltando um suspiro derrotado, Gi-hyeon levou a mão à fivela de suas calças, apenas para Yeon-oh enrijecer.
— …O que diabos você está fazendo?
— Trocando de roupa.
Qual era o sentido de manter o pudor agora? Eles já tinham visto o pior um do outro e, como haviam supostamente concordado em voltar a ser apenas “amigos”, acostumar-se a esse nível de exposição casual era praticamente obrigatório. Tendo terminado o soro no pronto-socorro, trocar de roupa sem tubos emaranhados era agradavelmente fácil. Gi-hyeon segurou a barra de sua camisa, com toda a intenção de tirá-la ali mesmo, mas Yeon-oh abruptamente agarrou a maçaneta da porta.
— Onde você vai? — Gi-hyeon perguntou.
— …
Olhando fixamente para a nuca de Yeon-oh enquanto o homem desaparecia sem uma única palavra de explicação, Gi-hyeon soltou um longo suspiro. O temperamento de Yeon-oh era dolorosamente previsível. Depois de ouvir que seus próprios feromônios agressivos haviam causado o colapso, ele sem dúvida estava entrando em uma espiral de autoaversão do lado de fora da porta. Ele sempre reagia dessa forma quando se tratava de So Gi-hyeon.
Pensando nisso agora, Gi-hyeon sentiu uma pontada aguda de culpa por ocultar o incidente com seu tornozelo e manter o Líder de Equipe Lim em segredo.
“Preciso conversar com ele sobre isso quando ele voltar”, resolveu Gi-hyeon. Ele havia justificado o segredo para si mesmo, sobrecarregado pelas complicações em cascata de seu relacionamento e de seu caso oculto, mas finalmente conseguia ver como Yeon-oh poderia interpretar isso como um corte de laços brutal e deliberado.
Distanciando-se um pouco da própria miséria, Gi-hyeon percebeu que não podia jogar toda a culpa em Yeon-oh.
Afinal, não fora ele quem se apegara a um homem que claramente não o queria, confessando seus sentimentos sufocantes? Não fora ele quem aceitara de forma imprudente um relacionamento com um homem que achava a própria ideia nauseante, arrastando essa farsa fadada ao fracasso por sete anos dolorosos puramente por causa de seu próprio desejo egoísta?
A única vítima verdadeira nessa dinâmica tóxica era a criança crescendo dentro dele.
Portanto, Gi-hyeon fez a escolha consciente de engavetar seus sentimentos complicados em relação a Jo Yeon-oh e direcionar todas as suas desculpas para o bebê. Vendo as coisas dessa forma, o caminho a seguir parecia infinitamente mais leve.
Desde que reconhecera sua existência, a criança havia se tornado um pilar inesperado de força em sua vida turbulenta, um fato que ele achava profundamente cativante.
— Você já está se comportando bem antes mesmo de nascer — Gi-hyeon murmurou, acariciando suavemente o baixo-ventre.
Ele precisava ser muito mais cuidadoso de agora em diante. Havia perdido a conta de quantas vezes acabou em um hospital. Mesmo que parecesse totalmente descarado, planejava pedir os feromônios de Yeon-oh quando acordasse. Contanto que mantivesse a identidade do pai biológico permanentemente enterrada, ficaria tudo bem.
Para Yeon-oh, estar ligado como pai a um ex-Beta como ele seria um pesadelo vivo, então arrancar só essa ajuda parecia um meio-termo aceitável. Gi-hyeon estava se forçando ativamente a simplificar demais o problema. Só simplificando ele conseguiria enxergar um caminho viável.
O incidente já havia acontecido, e So Gi-hyeon permanecia totalmente incapaz de ser mais do que um amigo para Jo Yeon-oh. Assim, encerrar seus sentimentos remanescentes rapidamente e priorizar a criança era a única escolha lógica.
Perdido em suas racionalizações, Gi-hyeon deitou-se de volta nos travesseiros, agora vestido com o avental hospitalar limpo. A exaustão o emboscou no momento em que sua cabeça atingiu o colchão.
Os eventos frenéticos no hotel naquela manhã pareciam ter ocorrido em outra vida.
Quando Yeon-oh foi atrás dele até a padaria, aonde ele tinha ido só para comprar pão, seus olhos estavam selvagens com o terror frenético de uma criança perdida. Independentemente de suas intenções, Gi-hyeon tinha que admitir que efetivamente havia abandonado o homem naquele momento.
Ele havia tentado inúmeras vezes cortar seu apego emocional a Jo Yeon-oh, mas, na prática, aquilo acabara virando uma tentativa desesperada de arrancar o homem de sua vida. Gi-hyeon concluiu que essa bagunça trágica era unicamente o subproduto de seu próprio amor unilateral. Logo, desistir era a decisão certa.
A lembrança dos olhos desesperados de Yeon-oh, chorando entre as pernas de Gi-hyeon apenas para salvar o relacionamento fraturado deles, surgiu sem ser chamada. …Não era a isso que eu queria reduzi-lo. Ele queria tratá-lo da melhor forma humanamente possível, mas, tendo falhado espetacularmente, afastar-se como um homem era a única solução honrosa.
Embora a história deles estivesse emaranhada com muito mais do que apenas sentimentos descartados, Gi-hyeon se forçou a tratar a situação com distanciamento clínico. Pensar demais enquanto estava isolado em uma ala de emergência era puro veneno.
Tendo descido para aquela cidade do interior especificamente para colocar a criança em primeiro lugar, eliminar rapidamente quaisquer distrações emocionais era o protocolo correto. Mesmo que essas distrações fossem o ápice de anos de amor não correspondido, elas não importavam agora.
Soltando um suspiro baixo, Gi-hyeon colocou o antebraço sobre os olhos e se entregou à escuridão. “Foi um dia longo demais.”
—
Quando Gi-hyeon abriu os olhos novamente, o brilho suave da luz de leitura acima da cabeceira iluminava o quarto. Semicerrando os olhos contra a claridade repentina, ele olhou em volta, o olhar parando instantaneamente na figura sentada na cadeira de visitas. Yeon-oh o encarava, com os braços rigidamente cruzados sobre o peito.
— …Que foi? Que horas são? — Gi-hyeon murmurou.
— …
O homem não ofereceu resposta.
Com a garganta seca, Gi-hyeon virou lentamente a cabeça em direção à mesa de cabeceira. Antecipando a necessidade perfeitamente, Yeon-oh deu um passo à frente, deslizando um braço forte sob o pescoço de Gi-hyeon para erguê-lo suavemente antes de pressionar uma garrafa de água aberta contra seus lábios. O timing foi impecável; no momento em que Gi-hyeon se sentiu adequadamente saciado, a garrafa foi retirada suavemente.
— Você ficou sentado assim a noite toda? — Gi-hyeon perguntou, com os olhos mal abertos.
Quando, mais uma vez, só o silêncio respondeu, Gi-hyeon soltou um suspiro curto e exasperado. Arrastando-se para trás, ele liberou espaço suficiente no colchão estreito para acomodar outra pessoa.
— Sobe aqui e deita. Dorme um pouco.
— …
— Anda logo. E apaga a luz. Preciso de escuridão total para conseguir dormir.
Gi-hyeon deu a ordem com a autoridade firme que reservava para lidar com atletas juniores rebeldes. Yeon-oh o encarou por um longo e indecifrável momento antes de finalmente subir na cama e se acomodar no espaço vazio ao seu lado.
Pareceu estranho quando Yeon-oh estendeu o braço para servir como um travesseiro improvisado, mas considerando o colchão apertado e a largura dos ombros do Alfa, era provavelmente uma necessidade de espaço e não de afeto. Gi-hyeon decidiu não comentar. Embora fosse um pensamento excessivamente sentimental para o meio do verão, ter aquele calor sólido pressionado contra si era reconfortante, e as bordas do sono rapidamente começaram a nublar sua mente mais uma vez.
Ele já se deixava levar de bom grado pela consciência que se esvaía quando o silêncio se quebrou.
— So Gi-hyeon.
— …
— …Acho que não consigo ser seu amigo.
A voz era pesada. A cada sílaba que Yeon-oh pronunciava, uma vibração profunda ressoava pelo espaço estreito onde seus corpos se tocavam. Gi-hyeon deliberadamente franziu a testa. Virando-se de lado, ele colocou um braço ao redor da cintura de Yeon-oh e deu tapinhas em suas costas em um ritmo constante e reconfortante.
— Você conseguiu namorar comigo por sete anos sem uma gota de sentimento romântico — Gi-hyeon murmurou preguiçosamente. — Voltar a ser amigos deve ser moleza.
— …
— Yeon-oh, desta vez quem vai se esforçar sou eu.
Ele queria dizer: “Posso fazer pelo menos isso por você, depois de tudo pelo que você se forçou a passar”, mas Gi-hyeon manteve a boca fechada. Expressar essa verdade em voz alta só convidaria uma onda de constrangimento sufocante que destruiria sua preciosa sonolência. Além disso, ele ainda guardava uma dose saudável de ressentimento em relação ao homem.
No entanto, tendo declarado formalmente sua intenção de tentar, ele sabia que tinha que ir até o fim. Ele queria compensar Yeon-oh pelos anos que havia roubado dele. …Algum dia, Yeon-oh esquecerá este exato momento e ficará orgulhosamente ao lado de outro Ômega. Gi-hyeon simplesmente precisava organizar seu próprio coração para que pudesse genuinamente torcer por ele quando esse dia chegasse.
— Obrigado por suportar isso ao meu lado — Gi-hyeon sussurrou na escuridão. — Acho que sou realmente um bastardo implacável, provando que sou exatamente o tipo de amigo que você merece.
— …
— Como você sobreviveu por sete anos… Não é como se eu fosse alguém especial… Por favor, tente entender. Sinto muito mesmo.
Porque sou profundamente grato por aqueles sete anos ao seu lado, mesmo que não tenham sido totalmente desprovidos de tristeza. Com esse pensamento final, Gi-hyeon mergulhou completamente no sono, totalmente alheio ao olhar pesado e desesperado que mapeou os contornos de seu rosto até tarde da noite.
—
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna