Salt Society (Novel) - — Capítulo 70
↫─Capítulo 70
O que eu deixei para trás?
Gi-hyeon olhou para trás, mas sua visão estava completamente vazia. Resignado, ele não teve escolha a não ser seguir em frente. De repente, uma luz ofuscante queimou seus olhos, forçando-o a franzir a testa. No instante em que reconheceu o brilho intenso como as luzes do teto de um pronto-socorro, o barulho caótico e sobreposto do hospital atingiu-o como uma onda.
— …
Certo. Por que estou aqui de novo?
Olhando fixamente para as placas do teto, Gi-hyeon lentamente reuniu os momentos caóticos logo antes de perder a consciência. Movendo-se levemente, ele notou um peso sólido apoiado em sua coxa sã. Olhando para baixo, ele viu Jo Yeon-oh sentado perfeitamente imóvel, com a cabeça baixa e a testa enterrada na perna de Gi-hyeon, como se estivesse atordoado.
Um suspiro pesado escapou dos lábios de Gi-hyeon. Ele já sabia exatamente por que Yeon-oh estava agindo daquela maneira. Após um momento de contemplação sombria, ele simplesmente se rendeu ao inevitável. A breve paz isolada que ele tinha conseguido reunir no interior estava oficialmente morta; ele estava sendo arrastado de volta para a lama sufocante. A julgar pela posição obstinada dos ombros de Yeon-oh, ele claramente não tinha absolutamente nenhuma intenção de retornar a Seul e deixar Gi-hyeon para trás.
— …Por que você não me contou que aqueles bastardos fizeram isso com você?
No exato momento em que Gi-hyeon notou a presença de Yeon-oh, este pareceu perceber que ele tinha acordado. A pergunta abafada e agonizante atingiu Gi-hyeon como um peso físico em seu peito. De todas as acusações furiosas e insanas que Yeon-oh tinha disparado contra ele do lado de fora da estufa, aquela era a única que realmente despertava uma culpa genuína. Ele tinha escondido uma montanha de segredos explosivos, mas esconder a verdade sobre seu tornozelo parecia o pecado mais pesado.
— Porque eu sabia que você perderia a cabeça como está fazendo agora — respondeu Gi-hyeon, com a voz rouca. — Olha o que você acabou de fazer lá fora. Espancar um homem como um açougueiro abatendo gado. Você parecia um animal raivoso do caralho.
Yeon-oh soltou uma risada fraca e zombeteira. Era um som oco, apenas os cantos de sua boca contraindo-se para cima. Como sua testa permanecia colada à coxa de Gi-hyeon, seus olhos estavam escondidos, mas Gi-hyeon sabia que a risada não carregava absolutamente nenhuma diversão genuína.
— …Mesmo sabendo disso, você ainda não me contou. Seu bastardo maluco.
Soltando as palavras num suspiro entrecortado, Yeon-oh finalmente levantou a cabeça. Ele não olhou para Gi-hyeon; ele encarava rigidamente para frente, com os braços cruzados sobre o peito. Seu perfil parecia totalmente abatido. Mesmo sem encontrar seu olhar, Gi-hyeon podia sentir o vazio agonizante irradiando dele. Gi-hyeon engoliu um suspiro lento e pesado.
— Então deve ter sido hilário pra caralho me ver dar chilique esse tempo todo, constantemente te perturbando sobre quando aquele seu tornozelo de lixo ia finalmente sarar, não é? — perguntou Yeon-oh amargamente.
Gi-hyeon respirou fundo para se estabilizar. Quando respondeu, seu rosto estava inteiramente desprovido de expressão.
— É. Foi hilário pra caralho, e eu fiquei grato.
Ao ouvir isso, Yeon-oh finalmente virou a cabeça para olhar para ele. Seus olhos ferviam, saturados com um enxame caótico de emoções intensas. Parecia um ressentimento bruto e violento, mas, ao mesmo tempo, continha algo muito mais delicado e despedaçado. Fazia muito tempo desde que Gi-hyeon tinha visto os olhos de Yeon-oh transmitirem uma agonia tão ensurdecedora.
— Você realmente é um pedaço de merda — murmurou Yeon-oh, com a voz rouca e engasgada pelas palavras.
Gi-hyeon assentiu lentamente, concordando. É. Eu honestamente não sei por que fazemos isso um com o outro. Né? Mas ele manteve esses pensamentos enterrados, escolhendo o silêncio.
—
Yeon-oh parecia estar filtrando agressivamente suas próximas palavras. Seu maxilar se fechou com tanta força que o músculo saltou visivelmente, irradiando um interrogatório desesperado e silencioso. Uma energia indecifrável e volátil girava em torno de seu perfil enquanto ele parecia mastigar obsessivamente perguntas que não conseguia se forçar a fazer.
Gi-hyeon simplesmente desviou o olhar.
A julgar pela escala modesta do pronto-socorro, eles provavelmente estavam em um hospital geral local em vez de uma instalação massiva na capital. Disposto a esperar, Gi-hyeon manteve a boca fechada. Contanto que não tivesse sido sequestrado e arrastado de volta para Seul enquanto estava inconsciente, ele poderia lidar com a situação.
Ele queria desesperadamente perguntar sobre o destino de Yeon-shin e do oficial subalterno, mas uma estranha e pesada letargia vinha se infiltrando em seus ossos há algum tempo. Ele estava percebendo lentamente que essa frouxidão física era uma resposta biológica direta à densa nuvem de feromônios de Yeon-oh que saturava o ar ao redor deles. Ao sentir um rubor constrangedor subir pelas bochechas, ele soltou um suspiro de frustração.
— …Você.
Yeon-oh finalmente forçou a palavra para fora. Gi-hyeon sabia exatamente o que estava por vir. Quando o olhar intenso de Yeon-oh travou nele, Gi-hyeon naturalmente virou a cabeça para encontrá-lo.
— Essa besteira sobre se tornar um Ômega… o que isso significa?
Sua voz soava notavelmente instável, completamente desprovida de sua arrogância habitual, exatamente como lá fora, junto à estufa.
Mordendo o lábio, Gi-hyeon foi forçado a olhar para ele novamente. Seus olhos se chocaram no ar estéril. Gi-hyeon ficou genuinamente chocado ao encontrar Yeon-oh olhando para ele com um desespero tão cru e evidente. Isso atrasou sua resposta. Aproveitando essa breve hesitação, Yeon-oh insistiu.
— Se você se transformou em um Ômega…
É? Se eu me transformei, e daí? O mecanismo de defesa sarcástico de Gi-hyeon disparou automaticamente. Ele manteve a boca fechada, mas ouvir a pergunta em voz alta o fez sentir como uma panela de pressão prestes a explodir.
— …O médico disse mais cedo… que você está grávido…
De forma muito atípica, Yeon-oh não conseguiu terminar a frase. Ele passou a palma da mão sobre a boca, desviando o olhar violentamente enquanto respirava fundo, com um suspiro trêmulo. Observar os músculos largos de suas costas se flexionarem visivelmente sob a camisa social a cada inspiração desesperada era uma visão bizarra.
Quando finalmente pareceu tomar coragem, Yeon-oh travou os olhos em Gi-hyeon novamente, seu olhar dolorosamente lúcido. Seus olhares colidiram inesperadamente.
Gi-hyeon congelou. Os olhos de Yeon-oh brilhavam com uma luz aterrorizante e indecifrável. Continha a mesma promessa letal e violenta que ele tinha exibido enquanto esmagava metodicamente Yeon-shin, mas, ao mesmo tempo, estava carregada de uma antecipação inquietante, quase maníaca.
Incapaz de decodificar o significado exato por trás daquele brilho aterrorizante, Gi-hyeon manteve o leve franzido entre as sobrancelhas e deu sua resposta.
— Ei, nem vem com ideia de merda. Isso aconteceu depois que terminamos.
Presumindo que Yeon-oh acreditava que ele tinha se manifestado como um Ômega e engravidado de outra pessoa enquanto ainda estavam namorando, a resposta de Gi-hyeon foi compreensivelmente hostil. Durante todo o tempo em que amou Yeon-oh, Gi-hyeon foi absolutamente devoto. Embora pudesse ter fantasiado sobre escapar a cada segundo do dia, ele nunca, nem por um momento, teve um único pensamento de traição.
Com o esclarecimento, o rosto de Yeon-oh se contorceu violentamente. Ele parecia estar em uma agonia física excruciante.
— Você só pode estar de sacanagem comigo… agora…
Engolindo o resto de sua raiva, Yeon-oh parecia um homem suportando uma tortura indescritível. Ele passou rapidamente a língua no lábio inferior e então, fixando Gi-hyeon com olhos injetados, riscados de capilares rompidos, ele exigiu novamente.
— Eu perguntei de quem é o filho que está crescendo nessa barriga, So Gi-hyeon.
Seu tom era afiado como uma lâmina e perigosamente impaciente. Gi-hyeon parou de respirar. Mesmo tendo previsto completamente o interrogatório, ouvir a exigência diretamente da fonte gerou uma onda de choque fundamentalmente diferente. Quando Gi-hyeon hesitou, Yeon-oh se aproveitou do silêncio.
— Mas para onde diabos aquele bastardo foi, deixando você sozinho em um buraco como aquele?
Isso foi totalmente inesperado. Completamente desequilibrado, Gi-hyeon só pôde olhar fixamente enquanto Yeon-oh, parecendo legitimamente doente enquanto franzia a testa, incapaz de conter a fúria fervendo em seus olhos, que parecia direcionar toda aquela raiva em defesa do próprio homem que agora era um pai solteiro e grávido.
A julgar pelos feromônios que flutuavam violentamente, Yeon-oh estava inegavelmente furioso, mas não estava exibindo a brutalidade explosiva e desequilibrada que tinha desencadeado sobre Yeon-shin e o oficial subalterno. Ele estava claramente suprimindo seus piores impulsos, seja porque lembrava que estavam em um hospital ou porque estava levando em conta o frágil estado de saúde de Gi-hyeon. Aquele controle calculado e familiar parecia tão característico de Jo Yeon-oh que Gi-hyeon não pôde deixar de suspirar.
— …É aquele filho da puta do Yang Jisu?
— O quê?
Esse foi um salto lógico incrivelmente bizarro. Observando o rosto de Gi-hyeon se contorcer em genuína confusão, Yeon-oh apertou a estrutura de metal da cama com tanta força que o aço rangeu e entortou audivelmente antes que ele finalmente se levantasse.
— Por que diabos aquele pedaço de merda nem se deu ao trabalho de te seguir até o hospital?
Mal captando os resmungos rápidos e assassinos de “vou matá-lo” que se seguiram, Gi-hyeon, chocado, soergueu-se na cama.
— Do que você está falando? Não é o Capitão.
— Então quem? Aquele cara do tênis? Não, só me fala.
Yeon-oh encarou Gi-hyeon, praticamente exigindo uma confissão imediata, antes de virar a cabeça abruptamente como se fosse fisicamente incapaz de olhar para ele. Ele parecia um homem em pura agonia, travando uma batalha perdida contra seus próprios instintos. As veias no dorso de suas mãos e em seu pescoço saltavam grotescamente. Com a cabeça virada, a pulsação frenética e violenta de sua artéria carótida era impossível não notar.
Imaginando exatamente quão perigosamente alta a frequência cardíaca do homem tinha disparado para que seu pulso estivesse tão visível, Gi-hyeon estendeu a mão e agarrou o pulso de Yeon-oh. Yeon-oh baixou a cabeça lentamente, olhando fixamente para a mão que o segurava.
— Por que você se importa com o pai? — perguntou Gi-hyeon.
— …Por que eu me importo com o pai?
Como se a barragem que ele estava segurando desesperadamente tivesse finalmente se rompido, a voz de Yeon-oh ficou rouca, terrível e arruinada. Como ele estava desviando o olhar, Gi-hyeon não tinha percebido que seus olhos estavam vermelhos de sangue, parecendo prontos para explodir. O rubor se estendeu violentamente pelo rosto e desceu pelo pescoço, tingindo-o de um vermelho uniforme e raivoso.
Gi-hyeon se encolheu involuntariamente.
— Você aparece grávido, Deus sabe o que você fez ou com que bastardo. Você desapareceu no meio da noite como se estivesse fugindo para salvar sua vida… Onde diabos está aquele bastardo, e o que diabos ele está fazendo em vez de estar aqui?
Só então as peças finalmente se encaixaram na mente de Gi-hyeon. Yeon-oh acreditava genuinamente que Gi-hyeon tinha fugido para o interior por causa do pai do bebê. …O que não era totalmente impreciso. Gi-hyeon tinha de fato engravidado do filho de Yeon-oh e fugido em pânico, aterrorizado que Jo Gyu-deok descobrisse a verdade.
Então é por isso que ele está tão furioso… Mesmo nesta confusão caótica, Gi-hyeon achou a amizade ferozmente leal e comovente de Yeon-oh simultaneamente fascinante e amargamente deprimente. A pontada aguda da decepção, apesar de não esperar nada, tornou tudo ainda pior.
Em um piscar de olhos, a expressão de Yeon-oh se transformou completamente enquanto ele se sentava devagar na beira da cama. O olhar fixo em Gi-hyeon estava de repente saturado com um calor terno e incomum. A mudança brusca fez Gi-hyeon involuntariamente estreitar os olhos. Yeon-oh começou a falar em um tom notavelmente suave e persuasivo, claramente tentando acalmá-lo.
— Só me fala. Precisamos tomar uma atitude, certo? Eu ouvi os resultados dos seus exames. O médico disse que seus níveis de feromônios estão perigosamente fracos. Hm?
Sua voz era melosa. Embora não fosse exatamente raro Yeon-oh agir dessa maneira, Gi-hyeon desconfiava inerentemente do motivo e recuou defensivamente. Sem se incomodar com o recuo, Yeon-oh inclinou-se e acariciou suavemente a bochecha de Gi-hyeon.
— Seu rosto também está todo inchado. Vamos primeiro encontrar aquele bastardo. Só me diz que tipo de cara ele é.
— …
Quando Gi-hyeon permaneceu em silêncio, Yeon-oh ofereceu um sorriso charmoso e pressionou ainda mais.
— Você não sabe? …Onde você o conheceu? Numa balada?
Apesar de manter o tom adocicado, no instante em que falou em balada, os feromônios de Yeon-oh dispararam violentamente no ar, pesados e sufocantes, antes de desabarem rapidamente. Foi uma demonstração aterrorizante de volatilidade reprimida.
Gi-hyeon se recusou a responder. Deixando de lado a atitude condescendente, ele estava profundamente perturbado pelo brilho indecifrável e maníaco girando nos olhos de Yeon-oh. Esta não era a raiva limpa e focada que ele tinha usado para espancar Yeon-shin; esta era uma fúria tóxica e contaminada, misturada com algo muito mais sombrio. Após uma breve hesitação, ele respondeu defensivamente.
— Por que você precisa saber?
— Por que eu preciso saber? Porra, ha…
Ele imitou as palavras de Gi-hyeon antes de instantaneamente descambar para xingamentos. Involuntariamente, o olhar de Gi-hyeon caiu sobre as veias latejantes que saltavam no pescoço de Yeon-oh. O maxilar violentamente cerrado traía completamente a fachada falsa e gentil.
— Eu preciso saber para podermos consertar isso. Gi-hyeon, você é estúpido? Estou perguntando por que você está sentado aqui todo sozinho nesse estado, hm?
Seu tom imitava um pai que estava furioso com um filho malcomportado, mas que tentava desesperadamente arrancar a verdade dele primeiro antes de aplicar o castigo.
Só então Gi-hyeon percebeu que Yeon-oh estava tratando-o como um adolescente ingênuo e ignorante que tinha engravidado acidentalmente e sido abandonado. Zombando em pura descrença, Gi-hyeon retrucou, irritado.
— Foi consensual, e eu não me importo em estar grávido. Você sabe que eu gosto de crianças.
— …O quê?
Yeon-oh congelou instantaneamente. Ele parecia um homem empalhado no meio de um choque, olhando fixamente sem piscar, completamente paralisado pela revelação. Incapaz de compreender a reação, Gi-hyeon reiterou sua posição.
— Eu já te disse, isso aconteceu depois que terminamos. …Mesmo que tenha sido impulsivo, eu não me importo. Na verdade—
Uma mão disparou violentamente para frente, prendendo-se brutalmente sobre a boca de Gi-hyeon. O aperto era tão feroz, esmagando suas bochechas para dentro, que doía legitimamente. Antes que Gi-hyeon pudesse sequer abafar um gemido, ele se viu olhando diretamente para os olhos injetados e aterrorizantemente luminosos de Yeon-oh. Yeon-oh praticamente mastigou as palavras enquanto as cuspia.
— Você aparece grávido de algum bastardo sem nome, e acha que tem o direito de abrir essa porra dessa boca como se estivesse orgulhoso disso? Você é retardado, porra?
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna