Salt Society (Novel) - — Capítulo 105
↫─Capítulo 105
[Então vocês estão basicamente morando juntos agora? Você é surpreendentemente promíscuo, So Gi-hyeon.]
— Cuidado com a boca quando estiver falando com o seu hyungnim. Morando juntos o caralho…
Diante da provocação de Beom-hee, Gi-hyeon franziu de leve a testa. Depois de passar dias servindo Gi-hyeon em tudo, Yeon-oh aparentemente acumulara um imenso atraso no trabalho. Quatro dias atrás, ele anunciou que não seria capaz de voltar para casa por um tempo e não havia retornado desde então.
Inicialmente, Gi-hyeon não se importara, mas ficar sozinho o forçara a analisar excessivamente e de forma contínua o relacionamento deles, até ficar farto de seus próprios pensamentos. Ele tinha acabado de decidir sair para caminhar para arejar a cabeça quando Beom-hee ligou. Ocupada com os preparativos para uma conferência acadêmica, ela declarou abertamente que não tinha o menor desejo de ouvir sobre a vida amorosa confusa e exaustiva dele. Ela simplesmente checou como estava a saúde dele e nem sequer mencionou as reportagens do escândalo.
Gi-hyeon ficou profundamente grato. A franqueza revigorante dela proporcionou um reinício mental muito necessário.
— Se você não tem mais nada para perguntar, desliga. Eu estava prestes a sair para uma caminhada.
[Sim, hyungnim. Embora a minha lealdade esteja claramente morta, já que o senhor não se deu ao trabalho de me ver nenhuma vez desde que se mudou para Ilsan, eu sou obviamente obrigada a desligar quando mandado e ligar quando ordenado, sim, sim.]
Ouvir aquilo colocado daquele jeito o fez se sentir genuinamente culpado. Ele soltou uma risada curta, de quem pede desculpas, apenas para ela mandá-lo se foder. Quando ele se ofereceu para pagar uma refeição para compensar, ela imediatamente exigiu saber o que o seu “sobrinho” gostava de comer e ordenou que ele lhe enviasse frutas em vez disso, antes de desligar. Ironicamente, ele estava justamente a caminho de comprar frutas. Balançando a cabeça diante de quantas frutas estivera desejando ultimamente, Gi-hyeon olhou para a parte inferior de seu abdômen e murmurou.
— Você não é um elefante, então por que porra gosta tanto de vegetais e frutas.
Ele estava prestes a acrescentar “tal pai, tal filho”, mas congelou, completamente sobressaltado com o próprio pensamento. Só então ele se lembrou de como Yeon-oh reagira de forma estranha toda vez que ele buscava ativamente por vegetais.
— Aquele bastardo, ele…
De repente, caiu a ficha de que Yeon-oh poderia saber sobre a gravidez muito antes do que deixara transparecer e simplesmente estivera se fazendo de bobo. Argh. Soltando um suspiro pesado, Gi-hyeon saiu, puxando um boné de beisebol bem baixo sobre os olhos enquanto começava uma caminhada sem rumo pelo bairro.
Depois de vasculhar a casa sem encontrar uma sacola de compras reutilizável adequada, ele havia enfiado às pressas a sacola plástica que Yeon-oh usara para trazer as vagens no bolso de sua calça de moletom.
Ultimamente, ele vinha tentando reduzir o uso de itens descartáveis, carregando consigo quaisquer sacolas plásticas que pudesse encontrar em casa. Embora a alça estivesse rasgada, ele carregara obstinadamente aquela sacola plástica preta específica por aí até que Yeon-oh, olhando para ele com total exasperação, lhe comprara uma sacola de lona reutilizável adequada. Mas tendo perdido aquela também, Gi-hyeon voltara a usar a sacola plástica rasgada.
Sentindo o leve farfalhar do plástico em seu bolso a cada passo, Gi-hyeon olhou casualmente para o céu. A cor era idêntica à do céu que ele vira enquanto trabalhava para Yang Jisu. Encarando-o fixamente por um momento, Gi-hyeon retomou sua caminhada. Vagando sem rumo, ele acabou parando em uma banca de frutas e, fiel aos seus desejos, comprou ameixas novamente.
— As ameixas estão quase fora de temporada. Você disse que odiava ameixas-sangue, certo? Então você deveria comprar pêssegos em vez disso.
O jovem proprietário falava com sua habitual e sutil informalidade. Era claramente uma estratégia para construir uma relação com um cliente regular e, dado o seu rosto bonito, era difícil ficar realmente irritado com isso. Percebendo que Jo Yeon-oh era exatamente esse tipo, Gi-hyeon olhou para o proprietário e pensou vagamente: “Ele provavelmente já fez muita gente chorar.”
— O que há com essa sacola? Por que você está carregando algo que está praticamente em frangalhos?
— Estou reciclando. Apenas me dê as frutas. Eu posso carregá-las nos braços.
Impedindo o proprietário de colocar as frutas em uma sacola nova, Gi-hyeon estendeu a sua rasgada, recebendo uma bronca impassível em troca. Soltando uma leve risada, Gi-hyeon pegou suas ameixas de fim de temporada e seguiu para casa.
Então, ele parou de repente no caminho. Percebeu que estava naturalmente se perguntando “Acho que ele não vem hoje também”, e o absurdo puro do pensamento o fez soltar uma risada oca. Balançando a cabeça, ele retomou lentamente a caminhada para casa.
Havia uma razão específica pela qual a ausência de Yeon-oh estava pesando tanto em sua mente. Acontecera anteontem. Como Yeon-oh anunciara que não seria capaz de visitá-lo por quatro dias, Gi-hyeon desfrutara de uma noite rara e pacífica sozinho. Sentindo-se um pouco entediado, assistira à TV por um tempo antes de pegar um livro. Lendo sob a luz suave de uma luminária de cabeceira no quarto, perdera completamente a noção do tempo até já passar da meia-noite.
Com a intenção de pegar um copo de água antes de dormir, Gi-hyeon caminhara até a cozinha. Tendo deixado as luzes da sala de estar apagadas, a casa estava completamente escura. Foi quando percebeu que as cortinas da sala de estar estavam escancaradas. Embora os artigos sobre Jo Yeon-oh tivessem sido apagados dos portais de busca em meio dia, Gi-hyeon criara o hábito de manter as cortinas fechadas por garantia, impedindo que qualquer pessoa olhasse para dentro.
Ele devia tê-las deixado abertas depois de arejar a casa mais cedo. Caminhou até a janela para fechá-las.
— …
Gi-hyeon encarou fixamente o lado de fora. Estacionado diretamente abaixo estava um sedã dolorosamente familiar. E encostado no capô elegante, meio sentado, estava um Alfa enorme.
— …Por que ele está…
Ele declarara explicitamente que estava ocupado demais com o trabalho para vir. Supostamente, estava tão atolado que nem sequer fora capaz de entregar a mensagem ele mesmo, recorrendo ao Gerente Yoo. No entanto, ali estava ele, rondando o lado de fora do prédio de Gi-hyeon no meio da noite.
Gi-hyeon soltou um suspiro curto. Se ele tinha tempo livre, deveria apenas ter ido para casa e dormido; ficar de tocaia do lado de fora feito um stalker era totalmente indesejado. Gi-hyeon estava prestes a ligar para ele e ordenar que fosse para casa.
Exatamente naquele momento, Gi-hyeon finalmente viu o rosto de Yeon-oh. Ele congelou, atingido por uma visão devastadoramente familiar. As sombras projetadas em seu rosto pelos postes de luz do complexo iluminavam algo tão profundo e cru que perfurou diretamente o peito de Gi-hyeon.
Gi-hyeon parou de respirar. Porque a expressão de Yeon-oh era uma que ele conhecia bem demais. Era solidão pura e genuína. A solidão específica e agonizante de uma pessoa que nutre um amor unilateral e esmagador por alguém que está bem ao seu lado — tentando desesperadamente se conter, mas totalmente incapaz de se afastar.
Ao ver aquela expressão, Gi-hyeon não conseguiu fazer a ligação. Por um longo tempo, ele simplesmente permaneceu ali no escuro, olhando para Jo Yeon-oh. Depois de um tempo, Yeon-oh tirou um maço de cigarros do bolso, colocou um entre os lábios, mas não o acendeu. Apenas o deixou pendurado ali, balançando levemente com suas respirações.
Gi-hyeon não conseguia acreditar. Não conseguia compreender por que Jo Yeon-oh estava usando aquela expressão, por que estava olhando para a sua janela com aqueles olhos específicos. O absurdo puro daquilo parecia quase injusto.
“Por que você está olhando desse jeito? Por que você tem exatamente os mesmos olhos que eu tive, sozinho, todos os dias da minha vida?” Franzindo a testa, Gi-hyeon virou as costas para a janela. Fechou as cortinas com um puxão. Naquela noite, o sono o evitou completamente até as primeiras horas da manhã.
No entanto, desde aquela noite, Gi-hyeon se pegava esperando pelas ligações de Yeon-oh. Muito raramente, talvez de forma ainda menos frequente do que um “ocasionalmente”, mas ele estava esperando mesmo assim. Mesmo reconhecendo o quão totalmente incompreensível era o seu próprio comportamento.
…Talvez fosse porque sentira um profundo senso de afinidade ao ver aquele olhar de solidão devastadora no rosto de Yeon-oh enquanto ele olhava para a varanda de Gi-hyeon. Era um pensamento ridículo. Como poderia a agonia solitária de So Gi-hyeon — um homem cuja existência inteira fora definida por um amor não correspondido — se comparar ao que quer que Jo Yeon-oh estivesse sentindo?
No entanto, como não conseguia ignorar completamente a imagem perturbadora gravada em sua mente, Gi-hyeon se pegava checando o celular com mais frequência. Não era como se ele fosse ligar para Yeon-oh e perguntar casualmente quando ele viria, mas Gi-hyeon não conseguia evitar se perguntar se o seu próprio amor não fora sempre definido pela antecipação de seu fim inevitável.
Na verdade, olhando para trás, o amor de Gi-hyeon nascera sem a menor esperança de alcançar sequer uma fração de felicidade com Jo Yeon-oh.
Desde o começo, Gi-hyeon se ridicularizara por amar Yeon-oh. No momento exato em que esses sentimentos despertaram pela primeira vez — observando as costas de Jo Yeon-oh enquanto ele inclinava o guarda-chuva para proteger outra pessoa da chuva na esquina de uma rua —, Gi-hyeon previra instantaneamente um futuro onde seu amor nunca seria retribuído. Seria por isso que desistir sempre parecera tão dolorosamente natural?
Jo Yeon-oh perguntara furiosamente por que Gi-hyeon estava sempre tentando fugir. Talvez ele estivesse certo. Gi-hyeon nunca se permitira examinar verdadeiramente as camadas agonizantes de cicatrizes que acumulara. Sabia que no momento em que olhasse verdadeiramente para elas, o peso puro daquele trauma o esmagaria, tornando impossível continuar amando Jo Yeon-oh—
Exatamente quando seus pensamentos alcançaram aquele precipício, uma buzina alta despedaçou o silêncio. Perdido em sua mente, Gi-hyeon estivera parado completamente imóvel no meio da entrada do estacionamento da vila.
Soltando um suspiro, ele entrou pela portaria. Subindo pelo elevador, tentou organizar os pensamentos caóticos com os quais acabara de lutar, mas uma onda súbita e avassaladora de exaustão tornou isso impossível. Perguntando-se se a gravidez significava simplesmente estar perpetuamente exausto e constantemente desejando frutas no momento em que abria os olhos, Gi-hyeon entrou em seu apartamento e começou imediatamente a lavar as ameixas.
Exatamente quando estava prestes a dar uma mordida, o interfone tocou. Quando ele foi até lá e apertou o botão de vídeo, um rosto vagamente familiar surgiu na tela. Gi-hyeon murmurou em confusão.
— Jo Yeon-bin…?
[…É Jo Yeon-shin.]
O homem na tela o corrigiu, parecendo profundamente ofendido. Gi-hyeon apenas deu de ombros.
— O que te traz aqui?
[A menos que você queira que eu anuncie para a vizinhança inteira que você está carregando o filho ilegítimo de um chaebol de terceira geração do Grupo H, é melhor abrir a porta.]
Seu tom era significativamente mais sórdido e muito mais vulgar do que quando eles haviam se cruzado em Namhae. Soltando um suspiro leve, Gi-hyeon destrancou a porta. Morar em um complexo de apartamentos mais antigo e densamente povoado significava que ele estava inerentemente vulnerável a exatamente aquele tipo de chantagem pública e barulhenta.
Após um momento de reflexão, ele pegou o celular. Precisava entrar em contato com Jo Yeon-oh. Lembrando-se de Yeon-oh praticamente perdendo o juízo pelo fato de Gi-hyeon manter a lesão no tornozelo em segredo, Gi-hyeon decidiu ser atencioso. Pensou que simplesmente enviar uma mensagem de texto rápida seria suficiente.
[O seu primo está aqui] 16:28
A resposta foi instantânea.
— ???? 16:28
Limpando a garganta com um leve pigarro, Gi-hyeon digitou um breve “Na minha casa” e enviou, ignorando prontamente a chamada telefônica que se seguiu imediatamente depois. Bem a tempo, a campainha tocou. Gi-hyeon foi até lá e abriu a porta, falando antes mesmo de ela estar totalmente aberta.
— Diga o que quer.
— Ah, eu só vim ver a adorável esposa do meu primo, obviamente.
Baboseira absoluta. Parado na entrada, Gi-hyeon franziu a testa para o sórdido e sorridente Jo Yeon-shin. Ele sempre teve aquele cabelo…? O homem parado diante dele parecia nitidamente diferente, exibindo cabelos e sobrancelhas tão descoloridos que estavam quase brancos. Mas não era apenas a cor do cabelo; havia algo profundamente perturbador e errático em todo o seu comportamento. Notando os músculos faciais de Yeon-shin contraindo-se espasmodicamente, Gi-hyeon o encarou intensamente. Yeon-shin falou, fingindo mágoa.
— Você não vai me convidar para entrar?
— Não.
Fora uma recusa clara, mas depois de encarar Gi-hyeon fixamente por um momento, Jo Yeon-shin soltou uma risada aguda e oca, tirou os sapatos e entrou direto. Com bolsas escuras e arroxeadas sob os olhos e um sorriso aterrorizantemente largo estampado no rosto, ele fez uma pergunta.
— Onde eu devo sentar?
Gi-hyeon tinha toda a intenção de manter a conversa breve e de pé, mas como o maníaco insistia em sentar, apontou em direção ao chão. Ignorando completamente o gesto, Yeon-shin desabou pesadamente no sofá. “Por que sequer perguntar se você vai fazer o que quiser de qualquer maneira.” Afastando o pensamento, Gi-hyeon sentou-se à frente dele e exigiu respostas.
— O que você quer aqui.
— Você e o Jo Yeon-oh foram oficialmente morar juntos?
Gi-hyeon não respondeu. Não via absolutamente nenhuma razão para dar corda à pergunta. Encarando Gi-hyeon intensamente, Jo Yeon-shin falou novamente.
— Eu venho te observando há muito tempo, Sr. So Gi-hyeon. E quanto a mim? Eu estava falando sério lá em Namhae, sabe.
— Você não faz o meu tipo.
Jo Yeon-shin caiu em uma risada maníaca antes de seu rosto de repente se contorcer em uma careta feia.
— Vocês dois são uns babacas arrogantes do caralho, sabiam disso?
Com isso, ele se levantou. Encarou Gi-hyeon de forma assassina.
Presumindo que o homem estava finalmente indo embora, Gi-hyeon levantou-se também, mas franziu a testa imediatamente conforme uma sensação profunda de perigo o invadia. Os feromônios ambientais no ar estavam se espessando rapidamente. Eram explicitamente hostis, saturados com uma intenção violenta de dominar e esmagar o oponente.
A careta de Gi-hyeon se aprofundou. Ele aprendera recentemente em um panfleto de orientação pré-natal que liberar feromônios deliberadamente dessa maneira era considerado um ato de agressão grave.
— O que você pensa que está fazendo?
Exatamente naquele momento, os olhos de Jo Yeon-shin reviraram tanto para trás em sua cabeça que apenas a parte branca ficou visível por um segundo aterrorizante, antes de voltarem ao normal para travar o olhar em Gi-hyeon. Com vestígios de saliva espumosa acumulando-se nos cantos da boca, ele começou a gritar.
— Que porra te faz pensar que você é tão especial, agindo todo cheio de si?! Eu sei perfeitamente bem que você foi expulso do exército por agir como um prostituto masculino imundo! O que te dá o direito de ser tão arrogante, porra?!
Jo Yeon-shin estava intensificando violentamente a sua liberação de feromônios. Como ela não possuía o mesmo peso esmagador e físico dos feromônios dominantes extremos de Yeon-oh, Gi-hyeon ficou momentaneamente incerto sobre o nível de ameaça, erguendo uma mão para cobrir o nariz e a boca. Vendo isso, Yeon-shin, cujos olhos estiveram estranhamente vazios, de repente brilhou com uma luz bizarra e maníaca e avançou.
— Seu prostituto de merda do caralho! Eu sou o seu futuro cunhado, simplesmente tentando provar o que o meu irmãozinho está comendo antes do casamento, e você ousa olhar feio para mim?!
Tudo aconteceu em um piscar de olhos conforme Yeon-shin lançou a mão descontroladamente para agarrar Gi-hyeon pelo cabelo.
— Aaaargh—!
Agindo inteiramente por um reflexo profundamente enraizado, Gi-hyeon segurou o pulso que atacava e o torceu brutalmente para fora. Jogando o seu peso para frente, ele torceu o cotovelo e o ombro em um único movimento fluido, forçando Yeon-shin a cair de joelhos e batendo com o rosto dele diretamente contra as almofadas do sofá. Como ele julgara mal a própria força e não usava técnicas de combate corpo a corpo há muito tempo, um estalo doentio ecoou pela sala conforme a cabeça do úmero de Yeon-shin foi violentamente deslocada da articulação. Exatamente quando Jo Yeon-shin soltou outro grito agonizante—
— So Gi-hyeon—!
Alguém rugiu o nome de Gi-hyeon, abrindo a porta da frente de forma violenta. A força fora tão imensa que as dobradiças recém-lubrificadas rangeram em protesto.
Era Jo Yeon-oh.
Com o rosto mortalmente pálido, Yeon-oh abriu a porta do corredor interno, com toda a intenção de avançar ainda de sapatos. Mas ao ver Gi-hyeon imobilizando sem esforço um Jo Yeon-shin que gritava no sofá e olhando para ele com uma leve perplexidade, Yeon-oh soltou um imenso suspiro de alívio e parou para tirar os sapatos. Franzindo a testa profundamente, ele exigiu respostas com evidente repugnância.
— Por que porra esse pedaço de lixo está aqui dentro.
— Eu não sei. Ei, você, por que disse que veio aqui mesmo?
Ele havia falado um monte de lixo, mas nada daquilo tinha qualquer valor, então Gi-hyeon esquecera completamente. Apertando a imobilização agonizante sobre o braço deslocado de Yeon-shin, Gi-hyeon exigiu uma resposta. Conseguia ver Yeon-shin batendo freneticamente no sofá em um sinal universal de submissão, implorando para ser libertado, mas como aquilo não era uma luta livre ou um treino amistoso, Gi-hyeon ignorou completamente a desistência e manteve a imobilização.
Estalando a língua em profunda irritação, Jo Yeon-oh caminhou até lá, tirou uma braçadeira de plástico grossa do bolso interno de seu paletó e prendeu os pulsos de Jo Yeon-shin firmemente à frente dele. Observando o processo bizarramente eficiente, Gi-hyeon estava prestes a perguntar “Você normalmente carrega isso por aí?”, quando Jo Yeon-oh virou-se em sua direção, com os olhos brilhando em um fogo azul aterrorizante, e gritou.
— Você está fora da porra do seu juízo?! Por que diabos você continua deixando loucos aleatórios entrarem em casa quando você está completamente sozinho?!
Gi-hyeon estava prestes a apontar que o “louco aleatório” da última vez fora o próprio pai dele, e que ele explicitamente enviara uma mensagem de texto para Yeon-oh para alertá-lo desta vez, mas o olhar aterrorizantemente intenso no rosto de Yeon-oh o forçou a engolir a resposta. Passando a língua para umedecer os lábios secos, Yeon-oh jogou o cabelo para trás da testa com brusquidão e arrancou as palavras.
— Você é um desgraçado do caralho, sabia disso?
Em vez de raiva pura, Yeon-oh parecia profunda e devastadoramente magoado. Mesmo reconhecendo plenamente a agonia que emanava dele, Gi-hyeon não conseguiu impedir que as palavras defensivas e diretas escapassem.
— Por que você está me xingando do nada.
Diante da reclamação murmurada, Jo Yeon-oh encarou Gi-hyeon com olhos ardentes por um longo momento antes de erguer violentamente Jo Yeon-shin do chão. Como ele puxou diretamente pelo braço deslocado, Yeon-shin soltou um grito agudo e agonizante. Ignorando completamente a agonia de seu primo, Yeon-oh murmurou sombriamente.
— …Você me acha um fardo, não acha.
— Do que você está falando.
Soltando uma risada aguda e oca, Yeon-oh pressionou a língua com força contra a parte interna de sua bochecha antes de falar.
— Estou perguntando se toda a minha preocupação desesperada, todos os meus esforços frenéticos para te proteger e cuidar de você, parecem apenas uma piada patética e irritante do caralho para você.
— Não é isso.
Gi-hyeon ofereceu uma negação carregada de um suspiro. Mas as palavras claramente não alcançaram Jo Yeon-oh. Enquanto ele encarava Gi-hyeon, o peito de Yeon-oh subia e descia violentamente enquanto ele tentava desesperadamente suprimir a tempestade que rugia dentro de si. Lentamente, um canto de sua boca curvou-se para cima em um sorriso partido e cínico.
— Eu honestamente achei que conseguiria aguentar isso bem… mas isso é difícil para caralho.
— …
— …Como diabos você conseguiu sobreviver a isso.
O sorriso totalmente derrotado e exausto no rosto de Jo Yeon-oh ao fazer a pergunta era idêntico à expressão que ele usara dias antes enquanto olhava para a varanda de Gi-hyeon sozinho no escuro. Gi-hyeon sentiu o seu coração despencar violentamente para o estômago. Ele desejava desesperadamente perguntar por que Yeon-oh estava fazendo aquela cara específica.
…Aquele era o rosto de alguém que puxou anos de solidão acumulada sobre si como um cobertor, apenas para a umidade sufocante da miséria e da perda encharcar o colchão, deixando-o incapaz de dormir, incapaz de encontrar calor, completamente preso no escuro congelante.
Gi-hyeon odiava profundamente ver aquela expressão no rosto de Yeon-oh. Porque parecia uma agonia pura e genuína. A mera possibilidade de Jo Yeon-oh estar sofrendo exatamente o mesmo inferno que Gi-hyeon suportara por anos parecia uma faca física se contorcendo em suas entranhas.
Ele queria desesperadamente exigir saber por que Yeon-oh parecia tão totalmente destruído, mas Jo Yeon-oh simplesmente puxou Jo Yeon-shin para frente, forçando-o a caminhar. Os dois seguiram em direção à entrada da frente. Gi-hyeon presumiu vagamente que Yeon-oh se viraria uma última vez, mas ele simplesmente passou pela porta sem proferir mais nenhuma palavra.
— …
Deixada inteiramente sozinha, a casa foi instantaneamente engolida por um silêncio sufocante. Gi-hyeon mordeu os lábios com força, antes de pegar às pressas o boné de beisebol e o celular, com toda a intenção de correr para fora da sala de estar. Era um impulso claro e desesperado de ir atrás de Jo Yeon-oh. Exatamente naquele momento, o seu celular tocou. Gi-hyeon congelou, olhando para a tela.
Era um número que não ligava para ele há muito tempo.
[Tia Yeong-won]
Era a mãe de Yeon-oh, a mulher que Gi-hyeon às vezes chamava de “mãe” e outras vezes chamava de “tia”. Gi-hyeon lançou um olhar conflituoso em direção à porta da frente antes de atender a chamada com um pesado senso de resignação.
— Sim, tia…
[Sim, Gi-hyeon-ah. Faz tempo demais, não faz?]
Yeong-won ofereceu uma saudação calma e graciosa. Os dois trocaram amenidades educadas, perguntando como o outro estava. No entanto, foi Gi-hyeon — sem a capacidade emocional para manter a fachada — quem interrompeu abruptamente as formalidades.
Saindo de seu apartamento e pegando o elevador para descer ao primeiro andar, Gi-hyeon finalmente perguntou:
— A que devo a honra?
[Bem, eu queria providenciar as oferendas memoriais para você de novo este ano. Eu honestamente não tinha percebido que a data havia se aproximado tão rápido.]
Gi-hyeon sentiu uma onda profunda de gratidão em relação a Yeong-won, que lembrava e honrava meticulosamente o dia memorial de sua mãe quando nem mesmo o seu próprio pai se dava ao trabalho. Ao longo de seu relacionamento com Jo Yeon-oh, Gi-hyeon carregara um fardo pesado de culpa em relação a Yeong-won. Namorar o filho Alfa impecável e perfeito dela parecia uma traição imensa e imperdoável à mulher que sempre o tratara com tanto carinho e gentileza consistentes.
Por causa daquela culpa sufocante, Gi-hyeon se afastara ativamente de Yeong-won, uma das pouquíssimas pessoas que ainda guardavam a memória de sua mãe. Aquela culpa inútil e patética parecia excepcionalmente esmagadora naquele dia. Não apenas ele ainda estava envolvido com o filho único dela, mas agora estava carregando o filho dele.
No entanto, Yeong-won não mencionou a gravidez ou o escândalo.
[Se você tiver tempo, Gi-hyeon-ah, nós poderíamos nos encontrar por um breve momento agora mesmo?]
— …Agora mesmo?
Sob circunstâncias normais, ele teria concordado imediatamente, mas, naquele momento, era difícil. Gi-hyeon varreu o estacionamento com os olhos, mas o carro de Yeon-oh não estava em lugar nenhum. Ele estava prestes a recusar educadamente, declarando que estava ocupado no momento, desligar e tentar ligar imediatamente para Yeon-oh em vez disso.
[Sim, acho que fiquei um pouco gananciosa e preparei comida demais. Está um pouco pesado para carregar até aí em cima, então estou esperando em um café aqui perto.]
Ouvir que Yeong-won trouxera pessoalmente toda a comida memorial para a sua mãe até ali tornou impossível dizer a ela para simplesmente dar meia-volta e ir para casa.
Mesmo ao concordar, a imagem de Jo Yeon-oh saindo com aquela expressão devastada roía implacavelmente a sua consciência. Ele sentia desesperadamente a necessidade de ir atrás dele agora mesmo, mas, simultaneamente, não tinha a menor ideia do que diria se o alcançasse, deixando-o paralisado em hesitação.
No entanto, o pedido de Yeong-won era simplesmente difícil demais de recusar.
O café que ela mencionara era muito perto da vila de Gi-hyeon, e o fato de ela ter carregado pessoalmente o fardo pesado sem utilizar um único funcionário pesava bastante sobre ele.
Além disso, embora o momento fosse abrupto, ela solicitar um encontro não era de forma alguma estranho. Ela tinha olhos e ouvidos; independentemente de buscar ativamente as notícias ou não, o escândalo explosivo que dominava a mídia teria chegado até ela. Compreendendo perfeitamente o motivo exato pelo qual ela o procurara, Gi-hyeon simplesmente disse a ela que estaria lá em dez minutos.
Enquanto caminhava em direção ao café, Gi-hyeon debatia consigo mesmo se precisava informar Jo Yeon-oh sobre esse encontro. Se Yeon-oh tivesse simplesmente saído furioso em um acesso de raiva, Gi-hyeon o teria ignorado inteiramente. Mas o comportamento de Yeon-oh não fora raiva; fora algo inteiramente diferente.
Ele não conseguia definir isso explicitamente, mas Gi-hyeon continuava vendo reflexos assustadores de seu próprio trauma passado em Jo Yeon-oh. Aquele rosto solitário e totalmente exausto. Expressões que Gi-hyeon nunca, em seus sonhos mais loucos, imaginara que veria em Jo Yeon-oh. A percepção de que Yeon-oh estava fazendo aqueles rostos — e que Gi-hyeon era a única causa deles — ainda era incrivelmente difícil de processar.
Por causa daquela inquietação persistente, ele hesitou em ligar para ele. Mesmo se Jo Yeon-shin retornasse, Gi-hyeon era perfeitamente capaz de dominá-lo sozinho, mas a paranoia extrema de Yeon-oh parecia inteiramente focada no fato de que Gi-hyeon estava grávido e fisicamente vulnerável.
No entanto, uma mulher pequena e frágil como Yeong-won não poderia possivelmente representar uma ameaça física para ele, nem era concebível que ela nutrisse qualquer intenção assassina em relação a ele, fazendo Gi-hyeon questionar se uma ligação de aviso era realmente necessária.
Mas a imagem persistente das costas de Jo Yeon-oh se afastando recusava-se a desaparecer de sua mente. No final das contas, Gi-hyeon discou o número de Yeon-oh. A linha chamou continuamente, mas Yeon-oh não atendeu. Foi apenas depois de fazer mais três chamadas consecutivas, todas não atendidas, que Gi-hyeon finalmente percebeu o quão desesperadamente fora do comum era o seu próprio comportamento.
Soltando um suspiro pesado, ele enfiou o celular de volta no bolso. Um arrependimento estranho e persistente o fez considerar brevemente tentar uma última vez, mas ele já havia chegado ao café.
Sem outra escolha, Gi-hyeon entrou e começou a procurar por onde Yeong-won estava sentada.
***
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna