Kiss The Stranger (Novel) - Capítulo 149
⚝ Capítulo 149
— …Talvez naquele dia… Estivesse chovendo, não é?
Por alguma razão, senti um pigarro no fundo da garganta, o que tornou difícil falar. Custou-me dizer aquilo, mas a resposta que veio foi inutilmente simples.
— Bem, eu não sei. Eu era muito jovem na época.
— Sim…
Por algum motivo, pensei que seria difícil arrancar mais alguma palavra dele. Era complicado para mim me aprofundar no passado sem a presença do Príncipe Herdeiro, então mantive a boca fechada. Um silêncio incômodo se instalou. Não havia nada de particularmente inconveniente para mim pelo fato de não enxergar, mas achei que o Príncipe Herdeiro estava sendo sensível demais. Para começo de conversa, eu nem entendia por que ele havia me trazido aqui.
— Você diz que é o herdeiro de Al-Fatih?
Fui pego de surpresa pela pergunta repentina do homem e, em seguida, respondi baixinho:
— Sim.
Ele soltou um assobio curto e continuou:
— Então, o que está acontecendo? Essa questão da sucessão de Al-Fatih. Seu tio foi desclassificado? Você não poderá suceder sendo um Ômega.
— …Eu não sei.
Ele tinha muitas perguntas, mas eu não conseguia responder a nenhuma delas. Respondi brevemente com um tom ainda rígido e, quando me calei, o homem também ficou sem palavras. Infelizmente, como eu desejava do fundo do coração que ele fosse embora logo, ele perguntou de novo:
— Você não se lembra de ter vindo aqui quando era pequeno? Nem um pouco?
— O quê?
Sem perceber, minha voz subiu de tom diante das palavras inesperadas. Apressei-me a fechar a boca, e o homem continuou falando casualmente:
— O senhor de Al-Fatih… Eu dei uma passada lá antes de ir para o palácio com o seu pai. O senhor daqui também costuma dar festas.
— Sim…
Enquanto eu deixava as palavras morrerem no ar, uma confusão se formou em minha memória. Não tinha sido uma festa realizada no palácio real? Se eu pudesse enxergar, minhas lembranças talvez voltassem com mais clareza, mas um canto do meu coração ficou frustrado. Eu sabia que nada mudaria se eu viesse aqui investigar isso, mas achava estranho ouvir sobre o meu próprio passado, do qual eu não sabia, pela boca de outras pessoas.
Eu não podia garantir que tudo o que ele dizia era verdade. Enquanto eu refletia sobre isso, ele de repente falou:
— Eu me lembro de você ainda criança, eu te pedi em casamento na época, não se lembra disso?
— O quê?
Desta vez, não consegui sequer disfarçar o tom alterado da minha voz. Fiquei sem fala por um tempo, com meus olhos que não viam nada bem arregalados. Mas não parou por aí. O homem continuou falando em um tom leve e animado:
— Assim que você cresceu, eu te reconheci de imediato. Todos os Ômegas são bonitos, mas você é especialmente lindo, sabe?
— Ah… Sim…
“Eu deveria agradecer por isso?”
Fiquei perplexo e apenas franzi a testa.
— A nova esposa do senhor senhorial deve ser mais bonita.
Quando falei baixinho, ele negou imediatamente:
— Claro que ela é bonita. Afinal de contas, não bastasse o meu irmão mais velho, o irmão mais novo e até o senhor senhorial foram enfeitiçados por ela, não é? Mas, aos meus olhos, você é mais bonito.
Antes que eu pudesse sequer pensar em como reagir, pude sentir o calor do corpo dele. Percebi instintivamente que ele estava se aproximando e me afastei depressa. O homem me perguntou enquanto eu me endireitava na cadeira e inclinava a cabeça:
— Então, você quer ser meu amante?
— O quê?
Perguntei-me o que aquilo significava, e meu rosto se contraiu sozinho. Ele só falava de coisas antigas das quais eu nem conseguia me lembrar direito, e eu só tinha vontade de rebater aquelas palavras inúteis. O comentário que ele acrescentou ao notar minha expressão absurda foi inacreditável:
— Você não precisa se preocupar, eu posso ter até quatro esposas. Além disso, eu posso te dar quase tudo o que você me pedir.
Eu não tinha a menor intenção de aceitar aquilo desde o início, mas o homem ali parecia nem cogitar uma rejeição. Pensei comigo mesmo que não ter preconceito contra os Ômegas e tratá-los como meros objetos dava no mesmo. Apenas mantive a boca fechada diante daquela atmosfera, percebendo que não adiantaria nada o que eu dissesse. Como esperado, ele mesmo fez mais algumas propostas, gaguejou à sua própria maneira e, finalmente, como se a conversa já estivesse encerrada, levantou-se dizendo:
— Sendo assim, vou pedir a permissão do mestre.
Antes disso, pensei que deveria falar com o Príncipe Herdeiro, mas permaneci em silêncio porque não queria esticar o assunto e passar mais tempo com aquele homem. Ouvi o som da porta se abrindo e houve um momento de quietude. Sentei-me na cadeira e esperei que ele saísse. Finalmente, ouvi a porta se fechar e me vi totalmente sozinho.
— Ah…
Ao soltar o ar, senti minha cabeça doer e cobri o rosto com as duas mãos. Quanto tempo o Príncipe Herdeiro ainda levaria para chegar? Felizmente, graças ao lanche, eu não estava com fome, mas o tédio era insuportável. Isso não significava que eu quisesse que o Príncipe Herdeiro chegasse mais cedo. Teria sido muito melhor se ele tivesse me deixado no palácio, para começo de conversa…
Suspirei, tirei as mãos do rosto e encolhi os ombros. Levantei-me do meu lugar tomado pela frustração, estendi as duas mãos à frente do corpo e movi-me com cuidado. Eu queria pegar um pouco de ar, mas como não podia sair dali, pensei em abrir a janela. A todo momento, as pontas dos meus pés batiam ou tocavam em coisas que eu não sabia se eram móveis ou objetos, mas finalmente consegui sentir a parede.
“O quarto deve ser bem grande”, pensei comigo mesmo enquanto caminhava cautelosamente.
“Será que estou indo na direção errada?”
De repente, fiquei desconfiado e parei de me mover. Lentamente mudei a direção dos meus pés e movi o corpo para o outro lado. Com as duas mãos estendidas, avancei os pés devagar e, quando meus dedos colidiram com algo, parei assustado; depois, movi-me para o lado e recuei um pouco. Caminhei mais alguns passos, mas desta vez não havia obstáculos e o trajeto foi bastante suave.
“Estou indo bem.”
Enquanto pensava isso comigo mesmo, algo tocou a ponta da minha mão. Parei, estendendo a mão com cautela e tateando à minha frente. Era como se um tecido macio estivesse envolvendo algo rígido.
“Será que são cortinas?”
Tatiei com alegria ao pensar que finalmente havia chegado ao meu destino, mas continuei cuidadoso. Se fosse uma janela, eu deveria sentir o batente.
“O parapeito de uma janela se parece com isso?”
Enquanto mexia ali e inclinava a cabeça, pensei que talvez fosse uma parede ou um móvel.
“Devo ir para o lado?”
Quando eu estava prestes a mudar de direção novamente, algo de repente me agarrou.
— …Ei!
Surpreendi-me e soltei um grito, como se estivesse despertando de um susto. Logo em seguida, uma risada alta ecoou perto dos meus ouvidos.
— O que diabos você está fazendo?
Era Asgyle. Pisquei os olhos surpreso enquanto o Príncipe Herdeiro me abraçava apertado e ria.
“Quando foi que ele entrou?”
Lembrei-me de que, quando o homem saiu do quarto há pouco, a porta havia ficado aberta por um tempo antes de ser fechada. Naquele momento, ele provavelmente cruzou com o Príncipe Herdeiro. E Asgyle, sem fazer o menor ruído com os passos, entrou no quarto e ficou apenas me observando.
De repente, meu rosto esquentou. Deve ter sido muito divertido para ele me ver trombando nas coisas e lutando sozinho no meio do quarto. Tentei rapidamente me livrar do abraço dele, mas foi em vão. Em vez disso, o príncipe me apertou ainda mais forte e começou a distribuir beijos por todo o meu rosto. Virar a cabeça para evitá-lo não adiantava nada, e Asgyle me beijava repetidamente, como se não se importasse com onde seus lábios tocavam. Fiquei exausto depois de um tempo e, quando parei de me mexer, ele me deu um beijo nos lábios — após eu esperar que fosse na testa — e me perguntou:
— O que você estava fazendo?
“Por que ele quer saber por que eu estava fazendo algo tão ridículo?”
Resmunguei ao sentir minha voz sumir de vergonha:
— É que eu estava me sentindo sufocado… Só queria abrir a janela…
— Não.
Fiquei surpreso com o tom de voz repentinamente frio, mas ele logo acrescentou com suavidade:
— Você nem consegue enxergar. Se abrir a janela e cair lá fora, o que eu faço? Eu não vou te deixar sozinho, então, se precisar de alguma coisa, é só me pedir.
— Sim…
Ao responder, pensei comigo mesmo que aquilo era um absurdo. Pedir para o Príncipe Herdeiro abrir a janela? Seria mais fácil pedir para ele cortar o meu pescoço. De qualquer forma, o Príncipe Herdeiro pareceu satisfeito com a minha resposta, pois logo pronunciou mais uma palavra:
— Vamos nos lavar. Quando voltarmos, o almoço estará pronto.
E ele imediatamente me pegou no colo. Puxei o ar com força e deixei meu corpo tenso.
— Eu… meu senhor… Eu posso andar, eu consigo…
— Descalço?
Falei em voz baixa, mas o Príncipe Herdeiro descartou meu argumento com uma única palavra e continuou a caminhar. Como ele havia dito, eu não usava sapatos desde aquele dia. Isso porque o único lugar por onde eu circulava era dentro do quarto, e o Príncipe Herdeiro sempre me carregava quando saíamos. Assim como daquela vez, encolhi sem jeito meus pés descalços enquanto era carregado nos braços do Príncipe Herdeiro, que seguia em frente me conduzindo.
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna