Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 09.4
2. Delícia de Cereja (Parte 4)
Os esforços dele para se conter por respeito eram realmente louváveis, mas ele já queria pôr fim àquela vida de abstinência sem sentido. Para brigar dando e recebendo como antes, com certeza levaria mais alguns meses, ou até meio ano, mas fazia muito tempo que Yurij tinha se recuperado o suficiente para que sua vida diária não tivesse obstáculos. O corpo de Yurij tinha uma boa capacidade de recuperação. Embora o tivessem maltratado durante muito tempo até deixá-lo em farrapos, ter sobrevivido até agora se devia à sua resistência inata.
Então receber Cheriot era algo que ele podia fazer com prazer. Mesmo que fosse um pouco difícil, como ele desejava, seria prazeroso, mas a experiência de ter se ferido gravemente tinha transformado Cheriot num covarde a respeito desse assunto. Portanto, dessa vez Yurij decidiu tomar a iniciativa ele mesmo. Dependendo da situação, ele pretendia se lançar sobre Cheriot não importava o que ele dissesse.
[—Wolfie? Por que você não responde?]
Seu jovem namorado, que tinha tentado enganá-lo com uma mentira evidente, o chamou. Yurij, que estava relembrando a desculpa frágil de seu namorado, voltou à realidade.
—Um momento, eu estava fumando um cigarro.
[—…Cigarro? Yurij, você fuma? Eu nunca te vi fumando!]
—Na sua frente eu nunca fiz. Não é bom pra saúde.
E parecia que no futuro também não teria muitas oportunidades. O logotipo no maço de papel era claramente da marca que ele costumava fumar, mas o sabor era diferente do de antes. Só restava um cheiro incômodo nos dedos e na roupa, e não havia sensação de relaxamento ou calma. Embora desde que era adulto tivesse vivido grudado no cigarro por hábito, a dependência desaparecia com mais facilidade do que ele imaginava. A vontade também não surgia com força. «Que bobagem, agora me deu vontade de ver o Cheriot.»
«Será que eu deveria ter convidado o Aliocha pra casa? Aí eu teria mostrado o Berry também.»
Ele tinha saído porque não queria incomodar Cheriot durante o treino, mas se soubesse que ele voltaria tão cedo, teria sido melhor vê-lo em casa.
[—Eu… não sabia que o Wolfie fumava.]
—Eu vou parar. Se for pela sua saúde, não se preocupa.
[—Claro, embora eu também me preocupe muito com a sua saúde… mas mais que isso, o que me incomoda é não ter sabido que você fumava.]
—Por quê?
[—Porque eu nunca te vi fumando. Você deve ser super sexy.]
Ele tinha ouvido que hábitos como o álcool ou o cigarro podiam ser um problema até numa relação. Achou que fosse por isso que ele tinha se surpreendido, mas ao que parece havia um interesse pessoal. Ao pensar que Cheriot iria querer ver todo tipo de coisa, Yurij se dispôs a fumar mais uma vez aquele cigarro de gosto ruim por Cheriot.
—Eu fumo uma última vez, quando você quiser.
[—Sério? Você faria isso por mim?]
—Não vai ser difícil.
Ao aceitar docilmente o pedido de Cheriot, Yurij perguntou o que lhe rondava a cabeça.
—Mas por que você checou o histórico do cartão?
O cartão que Yurij trouxe por engano acabou sendo o cartão de crédito que Cheriot tinha lhe dado. Da última vez, quando foram fazer compras no supermercado, Cheriot lhe disse que pagasse com seu cartão. E depois, quando Yurij tentou devolver, Cheriot lhe disse que simplesmente ficasse com ele dali em diante, e assim Yurij acabou aceitando à força.
Yurij também tinha seu cartão de débito, então não havia razão para usar o de outra pessoa e, depois de recebê-lo havia algumas semanas, ele o esqueceu por completo até encontrá-lo em sua jaqueta. Ao enfiar a mão no bolso sem pensar e tirar o cartão, Yurij olhou fixamente o nome de Cheriot Goodnight e depois pagou com ele.
Simples assim.
«Será que dá pra dizer que é em momentos assim que se sente de verdade que o Cheriot é o meu namorado?…»
Sentindo algo assim, lhe deu vontade de usá-lo. Assim que fez o pagamento, deve ter chegado uma notificação no aplicativo, porque Cheriot não demorou nem alguns minutos para lhe perguntar por mensagem onde ele estava.
[—Eu fiquei feliz que enfim o Wolfie tenha comprado alguma coisa com o meu cartão, então eu chequei. Desde antes eu queria que você usasse, mas em três semanas você não usou nem uma vez.]
Agora há pouco ele disse que não era um homem que checava essas coisas, mas Cheriot, esquecendo a própria desculpa, soltou suas verdadeiras intenções sem filtro. Não se sabia se era sua natureza ou porque era jovem, mas ele era muito inocente. Tanto que Yurij devia vigiá-lo continuamente ao seu lado; ele parecia conhecer as coisas do mundo, mas ao mesmo tempo não, e isso era preocupante. Se ele encontrasse alguém como Alexei, seria completamente explorado.
Falando no diabo, aparece o rabo, e Alexei apareceu justo nesse momento. Pela roupa confortável que ele usava para se movimentar, parecia que ainda estava no meio do trabalho. Fazendo um sinal para Yurij, que estava no café, atravessou a rua do lado oposto, ignorando o semáforo da faixa de pedestres.
—Você queria que eu usasse o seu cartão?
[—Queria. Assim eu posso saber o que você costuma comprar. Quando a gente não pode estar junto, ver isso me daria tranquilidade.]
Era um desejo que a outras pessoas poderia parecer um pouco suspeito, mas Yurij não se importou. Pelo contrário, se Cheriot não tinha problema em compartilhar seu paradeiro, isso também convinha a Yurij. Na verdade, ele já tinha pensado em perguntar se ele queria instalar um aplicativo de rastreamento para casais, para que ele não fosse embora seguindo algum estranho se passando por fã.
Assentindo com a cabeça, Yurij enfiou a mão no bolso e esfregou o cartão. Ao acariciar com a ponta dos dedos a parte em relevo do plástico, voltou a subir a satisfação que ele tinha sentido antes na loja.
—Entendi.
Ele não queria dever nada a Cheriot, pois já lhe devia muitas coisas, mas se ele desejava, não havia razão para não agradá-lo.
—De agora em diante eu vou usar de vez em quando. Cherry, o Aliocha já chegou, então eu tenho que ir. A gente se vê depois em casa.
[—O senhor Alexei?]
—Sim. Eu saí porque o Aliocha me chamou.
Cheriot ficou em silêncio um momento. Só se ouvia sua respiração entrecortada, nada mais. Depois de um breve silêncio, Cheriot perguntou de novo.
[—A que horas você volta, Wolfie?]
—Eu volto depois do jantar. Você também come direito. Eu já pus a comida do Berry antes de sair, então só dá um petisco pra ele.
[—…Entendi. Então você saiu pra jantar com o Alexei.]
—Hã?
[—Não, nada, Wolfie. Aproveita bastante. Eu já estou em casa, então vou desligar. Se diverte.]
Cheriot, que se despediu com uma voz que tinha perdido bruscamente o ânimo, desligou a ligação primeiro. «Eu me pergunto que razão haveria para o cara que há alguns minutos estava contente ficar deprimido de repente.» Com expressão perplexa, Yurij segurava o telefone quando Alexei, que já tinha atravessado, lhe perguntou.
—Por que você está com essa cara de quem comeu terra?
—Aliocha.
Yurij lhe estendeu um cigarro. Alexei, que ia receber o maço com expressão alegre, hesitou um instante e depois o devolveu a Yurij.
—Não, valeu. Ultimamente eu parei de fumar.
—Por causa do Valery?
—É. Em casa eu já parei faz tempo, e eu só vou fumar de vez em quando, quando eu me esquentar no trabalho.
—Ele vai ficar contente.
Como ele já era alguém que cuidava muito de Alexei, com certeza ficaria feliz ao ouvir que ele tinha parado de fumar. Alexei, sorrindo como se estivesse contente, lhe deu um tapinha no ombro.
—É verdade. Quando eu disse que não ia fumar mais, ele deixou transparecer que estava contente. Ele tentou esconder, mas dava pra ver tudo, então eu percebi.
Talvez seja uma característica da gente jovem. Valery tinha uma idade parecida com a de Cheriot, então parecia que, por ainda ser jovem, lhe era difícil esconder os sentimentos.
—Vamos, Yurij. Ah, já que eu saí, chamei a Heather também, tudo bem pra você? Eu não a vejo nem uma vez desde que voltei de Boston, e achei que pelo menos deveria agradecer a ela.
Ele tinha muitas coisas a agradecer a Heather. Se não fosse por ela, eles não teriam encontrado pistas importantes e também não teriam conhecido Cheriot.
—Tudo bem. Como eu ainda não agradeci a ela, eu pago o jantar.
—Não precisa. Eu já disse que eu pagaria.
Embora normalmente ele tivesse deixado Alexei fazer o que quisesse, Yurij estava preocupado com Cheriot, que tinha soado desanimado antes. Enquanto lembrava do quanto Cheriot tinha gostado da ideia de ele usar seu cartão, pensou: «Já que eu saí de todo jeito, será que ele não ficaria feliz se a gente comesse com o cartão dele?».
—Se você pensar bem, a Heather é a benfeitora do Cheriot, então o certo seria que o Cheriot pagasse.
«Embora ele provavelmente já tenha dado uma recompensa suficiente à Heather, mas enfim.»
—Eu estou com o cartão dele.
Ao tirar o cartão do bolso e agitá-lo, Alexei fez uma expressão interessada.
—Ah, é? Ou seja, você está com o cartão de um dos homens mais ricos de Vancouver. Não, melhor dizendo, como faz pouco tempo que ele também herdou, vai ser um dos homens mais ricos do Canadá.
Como Alexei dizia, Cheriot tinha herdado o fundo fiduciário antes de se mudar para Vancouver. Foi um trâmite secreto dentro da família, então não vazou para fora. Foi o próprio Cheriot que contou a Alexei. Afinal de contas, o primeiro a aceitar e iniciar a encomenda foi Alexei e Cheriot se tornou seu cliente, então com aquela conversa eles deram por encerrado oficialmente o contrato.
Foi assim que Cheriot herdou a fortuna do pai. No dia em que ele foi ver os avós para dizer que renunciaria ao fundo fiduciário, acontecia justamente um importante ajuste de herança. Para eliminar até a mais remota possibilidade de que ocorresse outra desgraça e a herança passasse a Jackson Goodnight ou Joseph Goodnight, os avós de Cheriot já tinham lhe transferido a herança que ele deveria ter recebido havia tempo.
Eles também modificaram o testamento com a condição de que nenhum bem passasse à linhagem de Joseph ou Jackson. Aquele casal, que quase tinha morrido nas mãos do próprio filho por dinheiro, deve ter sentido um profundo desencanto pelo filho mais novo, pois levaram muito a sério o procedimento legal para separá-lo.
Graças a isso, não aconteceu de Cheriot renunciar à herança do pai. Mas o fato de Cheriot ter tomado aquela decisão por ele não desaparecia.
…Já que aquele homem tomou até aquela decisão por ele, Yurij também queria conceder tudo o que Cheriot desejasse. O que Yurij podia fazer por ora era, como Cheriot tinha pedido, usar seu cartão e compartilhar em que lugar ele estava e o que fazia.
—Vamos a um lugar que não seja caro demais.
—O critério de «caro» não deve se basear em você, e sim no senhor Goodnight. Não se preocupa, eu vou tirar proveito com moderação. Se você não confia nem um pouco, que tal a gente consultar a Heather e decidir?
—Assim me parece mais limpo.
Felizmente, Heather não escolheu um restaurante excessivamente caro como Alexei tinha desejado. No entanto, o tempo se alongou enquanto os três falavam sobre o incidente e, depois da refeição, no bar de coquetéis aonde foram, Heather pediu várias coisas, o que finalmente resultou no desfecho que Alexei queria.
Ao se despedir de Alexei e Heather até que eles entrassem no táxi, já era bem tarde. Eles tinham saído antes de o sol se pôr completamente, mas agora tudo à volta estava escuro. Olhando a lua alta no céu, Yurij percebeu tarde que não tinha checado o telefone o tempo todo. Quando se encontrava com alguém, ainda lhe custava checar o telefone periodicamente, então simplesmente esqueceu.
Ao checar o telefone com pressa, Yurij passou os olhos com perplexidade pelas notificações. Tinham chegado muito mais mensagens do que ele esperava.
[ Hoje 17h30. ▶ Wolfie, o Berry e eu vamos esperar tranquilos. Não chega muito tarde. (Foto)]
[Hoje 18h00. ▶ Onde você está jantando?]
[Hoje 18h55. ▶ Ah, você comeu no The Nightingale. Esse lugar é muito bom. Eu também queria ir com você, Wolfie… Vamos juntos na próxima!] [Hoje 19h40. ▶ Wolfie, você não está vendo o telefone?]
[Hoje 20h15. ▶ Se você continuar sem ver, eu vou ficar preocupado]
[Hoje 21h00. ▶ Se você vir isso, me liga.]
Ele não sabia como os casais normalmente se comunicavam, mas dessa vez Yurij compreendeu rapidamente que ele definitivamente tinha agido mal. Não achou que Cheriot fosse se preocupar tanto. Além disso, eles estavam em Vancouver, não em Boston, e quando trabalhavam não costumavam se comunicar tão intensamente, então ele não fazia ideia de qual era a frequência de contato adequada.
Na verdade, Yurij não se importava com como os outros faziam. Sua relação com Cheriot era coisa dos dois, e ele queria se adaptar a Cheriot.
Assim que leu a última mensagem, Yurij ligou para Cheriot. Mas, diferente da mensagem que pedia uma ligação imediata, Cheriot não atendeu. Com expressão preocupada, Yurij olhou fixamente a tela e começou a correr para casa.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna