Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 94
Capítulo 94
Três
A sensação era de que o apocalipse estava batendo à porta. Quem sabe aquela noite não seria a última da humanidade? Seria prudente ligar para os pais e dizer que os amava. Aquela seria a data ideal para se declarar para ela. Se soubesse que as coisas tomariam esse rumo, jamais teria assinado o pacote anual daquela plataforma de streaming; deveria ter optado pela assinatura mensal!
Em meio ao turbilhão de resoluções e arrependimentos cruzados de cada um, todas as pupilas no interior do quartel de bombeiros encontravam-se magnetizadas em um único ponto: Dane, escorado na moldura da janela com o cenho profundamente vincado, e Grayson, enlaçando-o com força por trás enquanto esfregava o rosto obstinadamente por toda a cabeça de Dane.
— Er… bem… Miller.
Aquele que tomou a iniciativa de se pronunciar com a fisionomia pálida foi, logicamente, Ezra. Atuando como porta-voz do grupo, ele se aproximou com cautela e apontou para os dois de forma alternada.
— O que… o que está pegando aqui? Tipo… por que… você está agindo desse jeito…?
Grayson limitava-se a estampar um sorriso lânguido, semelhante ao de um felino se banhando sob o sol, incapaz de estruturar um raciocínio lógico e gaguejando. Os espectadores permaneciam estupefatos, sem palavras diante daqueles lábios que pareciam prestes a explodir com a urgência de falar, mas que se recusavam a emitir qualquer som coerente. Agora, a única alternativa para obter um esclarecimento residia em Dane, mas ele apenas tragava seu cigarro de forma compenetrada, sem esboçar o menor sinal de que daria uma resposta. Por fim, Ezra direcionou a palavra a Grayson novamente:
— Algo… bem, parece que algo muito positivo aconteceu, você não poderia compartilhar com a gente? …E, se não for pedir muito, o motivo de você estar grudado nele assim.
Como Ezra não encontrava coragem para verbalizar a situação e limitava-se a indicar com o indicador, Grayson soltou uma risada anasalada, um som que lembrava um sopro de ar que se esvaía, e suspirou com total satisfação. E, finalmente, ele abriu a boca. Como se fosse incapaz de reprimir o contentamento, ostentando um semblante orgulhoso e prolongando as vogais ao máximo:
— Nóóós estamooos namoraaando agoraaa.
Diante daquela bomba que finalmente explodira, ninguém que vinha prendendo a respiração e aguçando os ouvidos conseguiu manifestar uma reação imediata. Após alguns segundos de um silêncio sepulcral e denso, Deandre foi o pioneiro a se manifestar:
— O que foi que esse moleque demente acabou de falar? Acho que os meus canais auditivos estão me pregando uma peça.
A partir daquelas palavras, os demais companheiros começaram a refutar o teor do que haviam escutado também:
— Ahahaha, ahahahaha. O Miller deve ter finalmente perdido o último parafuso que lhe restava na cachola.
— Será que o volume de ocorrências andou muito elevado ultimamente? Só podemos estar sofrendo uma alucinação coletiva devido ao acúmulo de estafa. Estamos visualizando bizarrices que não deveriam existir.
— Ei, vocês viram o tombo da bolsa de valores hoje? É só uma linha azul sem fim…
Cada um disparava uma asneira diferente, esquivando-se obstinadamente de encarar a realidade nua e crua. E como não agiriam assim? Dane se envolvendo romanticamente com alguém? Não se tratava de um encontro casual de uma noite ou apenas sexo, mas sim de um relacionamento legítimo? Logo aquele Dane Striker?
E logo com Grayson Miller?
Sem chance, nossa visão e nossa audição estão completamente desreguladas! No meio do alvoroço dos homens que trocavam contatos de seus oftalmologistas e otorrinolaringologistas, apenas Ezra peitou a realidade com bravura:
— Ei, Dane. O que é que o Miller está tagarelando aí? Eu não consegui… captar muito bem.
Dane nem sequer se dignou a olhá-lo, embora tivesse escutado a indagação em alto e bom som. Os sujeitos que vinham proferindo absurdos até o momento emudeceram de forma abrupta. Sob aquela atmosfera de tensão congelante, foi Grayson quem assumiu a resposta:
— Somos namorados a partir de hoje. O que significa que eu ocupo o posto de companheiro do Dane.
Em seguida, como se estivesse tomado por uma alegria incomensurável, ele esfregou o rosto por toda a extensão do ombro de Dane e, de forma sorrateira, elevou uma das mãos que rodeavam a cintura alheia para apertar o peito de Dane com firmeza. No mesmo instante, uma veia saltou na têmpera de Dane, que manifestou sua primeira reação:
— Larga de mim, seu tarado de merda!
Ele esgoelou-se e agarrou a cabeça de Grayson, tentando empurrá-lo para longe a todo custo, mas Grayson continuava a rir entre dentes e a se agarrar obstinadamente à sua cintura. Mantendo a mão boba massageando o peito dele. Ao presenciar aquela cena, a visão de Ezra obscureceu por completo e ele cambaleou. Simultaneamente, os homens que vinham tentando ignorar os fatos de forma desesperada gritaram e berraram como se o quartel de bombeiros estivesse prestes a vir abaixo.
Arfante, Dane permaneceu escorado na parede externa do quartel, expelindo uma longa lufada de fumaça de cigarro. Ele girou o corpo de forma reflexiva ao notar a aproximação de alguém, mas relaxou a postura no milésimo de segundo em que identificou o indivíduo:
— Dane, você estava escondido aqui.
Ezra pronunciou, esboçando um sorriso constrangido. Dane relanceou o espaço às costas dele sem proferir uma palavra. Captando o teor daquele olhar, Ezra esclareceu:
— Eu consegui despachar o Miller, pode ficar sossegado.
Somente após receber aquela confirmação Dane desviou o foco e levou o cigarro novamente aos lábios. Constatando aquele semblante atribulado, Ezra postou-se ao lado dele com cautela, monitorando seu humor com o devido zelo. Apenas depois que Dane inalou a fumaça profundamente e a expeliu mais uma vez, ele finalmente abriu a boca:
— Ei, Dane. O que foi que pegou? Eu fiquei em estado de choque… Todo mundo está apreensivo com o que aconteceu.
— Apreensivo? — Dane repetiu a palavra, como se questionasse a razão de tamanha celeuma.
Ezra assentiu, corroborando a gravidade do cenário:
— Você tem tanta ciência quanto eu de que essa conjuntura foge totalmente do padrão. Algo desandou no meio do caminho, não foi? Se houver qualquer intervenção que a gente possa fazer para somar…
— Não, não há — Dane refutou a colocação de forma irredutível.
Ele pretendia sinalizar que não havia empecilho algum ou que eles seriam incapazes de intervir? Ezra sentiu-se momentaneamente desestabilizado pelo duplo sentido da resposta, mas optou por não recuar:
— Será que… porventura é uma situação muito delicada para ser verbalizada?
Ele tateou o terreno com o máximo de zelo, mas Dane limitava-se a fumar, fixando os olhos em um ponto distante no horizonte. Ele continuava a dar tragadas sucessivas, puxando a fumaça de forma repetida. Diante daquela postura, Ezra indagou com um semblante preocupado:
— O Miller não chegou a te coagir de forma alguma, chegou?
— Não.
Dane rebateu de forma sucinta, exibindo um semblante nitidamente contrariado. O olhar de Ezra permanecia cravado nele e, por fim, Dane cuspiu o esclarecimento junto com a fumaça:
— Ele apenas sugeriu que a gente tentasse namorar por um período de três meses em caráter de teste, e eu acabei consentindo.
Ao escutar aquela declaração, Ezra foi incapaz de manifestar uma reação imediata. Sentiu-se impactado pelo fato de Dane ter capitulado diante de uma proposta nesses moldes, mas não conseguia sequer arquitetar mentalmente como um diálogo daquela natureza havia se desenhado.
— Eu não fui alvo de coação — Dane cortou o raciocínio dele antes que Ezra levantasse a suspeita novamente. Ele levou o cigarro à boca e acrescentou em um tom gélido: — Eu simplesmente me vi de mãos atadas para rejeitar a dívida de gratidão pela vida do Darling. Ele ainda assegurou que sumiria em definitivo da minha frente se eu simplesmente tolerasse essa situação pelo prazo de três meses.
— Sumiria? O que isso quer dizer?
Dane esmiuçou o pacto de forma breve para um Ezra visivelmente sobressaltado:
— Ele garantiu que, se os meus sentimentos não sofrerem nenhuma alteração após o decurso dos três meses, ele vai pedir as contas no corpo de bombeiros e nunca mais vai dar as caras na minha frente.
— …É sério? — Ezra indagou com uma ponta de hesitação na voz, como se custasse a dar crédito àquilo.
Dane mantinha o olhar fixo no vazio e respondeu de forma descompromissada:
— Por ora, sou obrigado a depositar um voto de confiança. Se ele mudar de perspectiva lá na frente, aí passa a ser um problema para eu gerenciar na época.
— É… faz sentido.
Dane relanceou o companheiro de cima quando a fala dele murchou de forma vaga.
— O quê? Se você tem algo engasgado aí, desembucha de uma vez.
Diante daquela intimação direta, Ezra coçou a bochecha com um ar sem jeito e balbuciou, esquivando-se de cruzar os olhares:
— Não, é só que… existe a possibilidade de você mudar de ideia…
— Ezra — Dane disparou as palavras sem a menor piedade contra ele, que trazia à tona uma remota hipótese. — Eu me sinto perfeitamente realizado com o estilo de vida que levo hoje. Por qual carga d’água eu me daria ao trabalho de complicar a minha existência me envolvendo romanticamente com alguém? Por que eu faria algo tão maçante?
— Desculpa, peço perdão se acabei te deixando desconfortável.
Ezra apressou-se em se redimir. Dane experimentou um mal-estar ainda maior, consciente de que havia descarregado sua frustração em cima do colega sem justificativa plausível. Todo aquele estresse era fruto das artimanhas daquele moleque demente e tarado, mas ele estava descontando no alvo errado.
Contudo, ele era incapaz de conviver com o peso de uma pendência. De qualquer forma, ele precisava quitar o débito referente ao resgate do Darling. Se o preço para isso se traduzia em tolerar aquele pivete lunático pelo prazo de três meses, o custo saía até que bem em conta. A integridade física do Darling ostentava um valor incomparavelmente superior a isso.
— Minha postura não vai sofrer alteração. Não alimento a menor intenção de firmar um vínculo sério com quem quer que seja.
— …É, você tem toda razão.
Ezra recuou um passo, endossando o posicionamento do outro, e abriu um sorriso como se nada tivesse acontecido:
— Então eu vou entrando primeiro. Tomara que você não acabe sendo encurralado pelo Miller.
Dane nem sequer girou o rosto diante da colocação proferida em tom de brincadeira; limitou-se a erguer uma das mãos de leve em substituição a um cumprimento formal. Escutando o eco dos passos de Ezra desvanecer ao longe, ele reconduziu o cigarro à boca. Foi no exato milésimo de segundo em que tragou o ar profundamente para os pulmões e começou a expeli-lo devagar.
“…Nossa.”
…Hã?
De forma abrupta, uma recordação que havia sido sepultada na memória veio à tona com força total. Por qual motivo as palavras de Ezra, cujo real significado ele fora incapaz de decifrar na época, de repente ganhavam vida em sua mente naquele instante?
“Fico tão aliviado que você e o Miller não tenham nenhum tipo de vínculo…”
Dane paralisou na exata posição em que se encontrava, sem conseguir sequer piscar as pupilas. A fumaça opaca flutuou ao seu redor por um breve momento antes de se dissipar no ar de forma totalmente impotente.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello