Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 79
Capítulo 79
O restinho de tensão que pairava no ar se dissipou num piscar de olhos, dando lugar a uma atmosfera de paz. Ao ver o gatinho ronronar contente enquanto esfregava a cabeça contra o peito de Dane, Grayson de repente pensou:
“Eu deveria ter nascido como um gatinho.”
Como se não desse a mínima para os pensamentos de Grayson, Dane beijou a cabeça do felino mais uma vez antes de colocá-lo de volta em seu lugar original. Ele gesticulou levemente para Grayson, que ainda observava tudo com uma cara de tacho.
— Entra aí, vou te passar um café.
Aparando a pose de anfitrião, Dane caminhou à frente, puxando uma das cadeiras da mesa de jantar com uma das mãos antes de seguir direto para a cozinha. Grayson hesitou por um instante antes de se acomodar na cadeira desajeitadamente posicionada, esticando o pescoço para espiar em direção à cozinha. Dane ferveu a água em uma chaleira elétrica e pegou o café solúvel no armário. Como se nunca tivesse usado uma colher para medir nada na vida, ele simplesmente inclinou o pote grande de café e despejou o conteúdo direto em uma caneca. Depois de virar a água quente, nem se deu ao trabalho de mexer; apenas sacudiu o copo de qualquer jeito antes de trazê-lo para Grayson.
— Toma.
— Ah… obrigado.
Mesmo oferecendo um agradecimento educado e superficial, Grayson não conseguiu esconder a cara de desgosto. Era a primeira vez na vida que ele via alguém preparar café daquela maneira. Mas não era como se Grayson estivesse sendo tratado com desfeita; ao ver Dane beber calmamente o próprio café feito do mesmíssimo jeito, Grayson teve que morder a língua.
“Surpreendentemente, o gosto é…?”
Talvez porque fazer café daquela forma já estivesse enraizado nele, o sabor não era de todo ruim. Considerando que se tratava de um café solúvel barato, estava razoavelmente palatável, arrancando uma admiração inesperada de que, de alguma forma, a coisa funcionava mesmo sendo feita tão a canivete.
— Você não pode tocar no Darling, mas eu deixo você tirar fotos dele depois — Dane soltou de repente.
Grayson, que estava perdido em seus pensamentos, pausou e olhou para ele. Dane, interpretando mal a reação, acrescentou em um tom plano:
— Ele não tem mais os olhos nem os ouvidos, então é super sensível. Ele se assusta se alguém estranho encostar nele, então fica só nas fotos.
— Ah, sim. Eu tiro.
Grayson assentiu como se entendesse, ocultando sua real expressão enquanto fingia dar um gole no café. O gatinho era apenas uma desculpa; sua verdadeira intenção era conhecer a casa de Dane, por isso ele continuava se esquecendo do Darling. De qualquer forma, ele havia alcançado seu objetivo inicial, mas não pretendia se dar por satisfeito apenas com isso. Agora que estava finalmente a sós com Dane, pretendia descobrir o máximo que pudesse sobre ele. Como deveria puxar assunto? Começar pelo gato seria uma boa…
Grayson, que tinha raciocinado até ali, notou algo estranho. Por que a sala de estar parecia tão vazia? Após um momento de confusão, ele logo se deu conta:
— Você não tem um sofá?
Pensando bem, era estranho ele ter sido conduzido até a mesa de jantar em vez de ir para o sofá. Espaço na sala parecia ter de sobra. Diante da pergunta de Grayson, Dane respondeu com total indiferença:
— Eu vendi. Para colocar a torre de gatos que você me deu.
— Sério…?
Ele havia concordado sem pensar, mas logo emendou uma pausa:
— A torre que eu mandei? Eu achei que a montagem estivesse inclusa.
Mesmo para Grayson, que não entendia nada de felinos, a torre onde Darling descansava parecia bastante antiga. Questionando o fato de não conseguir enxergar a estrutura chique que tinha visto em lugar nenhum, Dane abriu a boca com uma feição desprovida de emoção:
— Eu mesmo posso montar. É só um saco ter que aguentar outra pessoa fazendo isso.
— Você mesmo vai montar?
Parecia um troço bem complicado. Grayson ficou surpreso, mas Dane agia com naturalidade, como se estivesse habituado com esse tipo de coisa.
…Pensando bem.
Olhando ao redor da casa mais uma vez, ele notou sinais sutis de desgaste por toda parte. A casa antiga, que parecia ter uns 100 anos, claramente demandava muita manutenção. Grayson, que conseguia facilmente imaginar Dane subindo no telhado para fazer reparos, encontrou um gancho perfeito para engatar a conversa:
— Não é difícil cuidar da casa sozinho?
— É difícil — Dane concordou prontamente.
A partir dali, a conversa fluiu de forma natural. Ele começou a contar sobre como o chão da garagem havia rachado devido a um tremor de terra e precisava de cimento novo, sobre como tinha um pequeno jardim nos fundos, mas a conta de água vinha tão alta que ele acabou arrancando toda a grama, e sobre como havia puxado o gás para a churrasqueira, mas o negócio não estava funcionando direito, o que era uma tremenda dor de cabeça.
Grayson trocou várias palavras triviais com Dane sobre assuntos diversos. Era exatamente o que ele queria, mas o problema era que o conteúdo em si era vazio. Quem é que cruzava a cidade até a casa de alguém só para falar sobre reformas domésticas?
Estava na hora de ir direto ao ponto.
Grayson encontrou o momento propício e abriu a boca:
— Pensando bem, não estou vendo mais ninguém por aqui. Sua família deu uma saída? — Ele perguntou da forma mais casual possível. Era uma dúvida que o corroía por dentro, mas ele indagou com a maior naturalidade, como se estivesse comentando sobre o clima. Como esperado, Dane respondeu de pronto:
— Eu não tenho nada disso. — E então, cravou um olhar gélido em Grayson. — Eu já não te disse antes? Eu sou sozinho.
A atmosfera, que estava descontraída até o momento, tensionou sutilmente. Grayson pôde sentir imediatamente Dane erguendo uma barreira defensiva. Ele tratou de abrir um sorriso rápido, como se não fosse nada demais:
— Disse? Acho que eu me esqueci. — Grayson desviou o olhar para Darling de propósito e depois voltou a encarar Dane. — Mas você está errado em dizer que é sozinho, não está? Você tem o Darling.
Diante daquelas palavras, Dane voltou seus olhos para Darling. Por um breve instante, uma faísca de emoção cruzou sua expressão habitualmente apática.
— Ah… bem, é.
Dane disse aquilo, mas Grayson foi invadido por uma estranha sensação de desconforto. O que era aquilo? Algo parecia fora do lugar, mas ele não conseguia apontar o dedo com precisão. Por que estava se sentindo daquela forma?
…Ah.
De repente, Grayson compreendeu. Nem mesmo o Darling conseguia prender esse homem?
No exato momento em que sentia um vazio e uma sensação de pequenez, como se o chão estivesse cedendo sob seus pés…
*Plim-plom…*
O som repentino da campainha sobressaltou Grayson. Dane também foi pego de surpresa. A julgar pela forma como ele franziu o cenho, ficava claro que não estava esperando nenhuma visita.
Dane estalou a língua brevemente e levantou-se sem hesitar, caminhando em direção à porta da frente. Enquanto isso, o visitante tocou a campainha mais uma vez. O eco persistente do som parecia quase sinistro por alguma razão.
Grayson, que havia se levantado meio sem jeito, olhou na direção da entrada enquanto Dane abria a porta. Para além do vão que se formava, ele avistou uma mulher de cabelos castanhos que nunca tinha visto na vida. No momento em que percebeu que o rosto dela, semiescondido pela silhueta de Dane, estava tomado pela ansiedade, Dane abriu a boca:
— Quem é…?
Dane estava de costas, mas Grayson sabia que ele estava de sobrancelhas arqueadas. Firmando-se sobre os pés, ele deu alguns passos na direção de Dane. A cada palmo de proximidade, o rosto da mulher ficava mais nítido. O fato de ser uma mulher adorável, com uma silhueta esguia que parecia poder ser envolvida com um único braço, fez com que ele sentisse algo estranho revirar em seu estômago.
— Er, Dane. Será que você não se lembra de mim? Nós nos conhecemos em uma boate há uns três meses…
Diante das palavras gaguejadas, Dane coçou a cabeça, tentando puxar pela memória. Vendo que ela tinha vindo até ali, ficava claro que Dane a havia trazido para casa e transado com ela, mas ele simplesmente não conseguia se recordar. A mulher parecia impaciente e apressou-se em continuar:
— Você me pagou uma Cinderella naquele dia. Quando eu disse que não aguentava muito álcool, você perguntou: “Então que tal este aqui?”.
— Ah…
Ele se lembrou vagamente. Tinha ficado intrigado com o fato de ela ser boa em se divertir, mas não conseguir beber. Ele havia comprado um coquetel sem álcool para ela, trocaram algumas piadas sem importância, ele a trouxe para casa e passaram a noite juntos. Tinha sido um encontro consideravelmente agradável e ele havia ficado satisfeito, tanto que preparou o café da manhã para ela, chamou um táxi e nunca mais a tinha visto…
— Viu só? Você se lembra? — ela perguntou novamente, com o rosto se iluminando.
Sim, Dane assentiu com a cabeça.
— Mas o que está acontecendo para você aparecer assim do nada?
Ainda sem entender o motivo de ela ter ido até ali, Dane foi atingido em cheio pelo suspiro profundo que a mulher deu, abrindo a boca com a voz trêmula:
— Eu estou grávida.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello