Deflower Me If You Can (Novel) - Capítulo 159
Capítulo 159
Como é que isso foi acontecer?
Bliss voltou correndo para casa, pálido feito um fantasma. Assim que os seguranças que entraram atrás dele deixaram a comida embalada sobre a mesa e saíram, ele começou de fato a tentar entender a situação. Ainda assim continuava com fome, então, de um monte de comida empilhada, pegou com uma das mãos um super cheeseburger máximo com três hambúrgueres e, com a outra, agarrou o controle remoto e passou os canais com afinco. Como nunca assistia a jornais ou programas de atualidades, não teve outro jeito senão apertar números aleatórios.
Depois de muito vagar, encontrou um canal em que um tiozão de cara entediante falava alguma coisa. Ele se ajeitou depressa e cravou os olhos na tela. Senado isso, projeto de lei aquilo, um tal de tratado assim… só coisas incompreensíveis e sem a menor graça. Depois de escapar por pouco de cochilar várias vezes enquanto comia o hambúrguer, o rosto que ele esperava finalmente apareceu na tela.
―…portanto, o conde Heringer reafirmou a posição da Inglaterra e solicitou fazer um discurso no parlamento para expor a necessidade do tratado, pedido que o Senado aceitou. O discurso está previsto para começar daqui a trinta minutos, e o restante da agenda do conde Heringer durante esta visita será conduzido de forma totalmente privada…
Bliss não entendeu absolutamente nada do que estavam dizendo. Que tratado é esse, e por que esse discurso? E por que logo você vai fazer isso?
Não conseguia entender pé nem cabeça, mas uma coisa era certa. Cassian tinha vindo aos Estados Unidos.
…Não veio para me ver.
Bliss aceitou esse fato com dor e foi mastigando e engolindo o hambúrguer à força. Do outro lado da tela, Cassian não estava muito diferente daquele de suas lembranças. Continuava impecável, sem uma única brecha, e os olhos azuis por trás dos óculos também estavam iguais…
Hã? Olhos azuis?
Assustado no mesmo instante, Bliss acabou enfiando o resto do hambúrguer todo de uma vez na boca.
―Ugh, cof, cof, ugh.
Batendo no peito e virando o refrigerante de uma golada, ele por pouco conseguiu engolir o bolo de comida e, limpando às pressas o canto da boca com o braço, voltou a conferir a tela. Mas a cena já tinha passado, e a TV só mostrava de novo o tiozão entediante de antes tagarelando coisas incompreensíveis. Bliss ficou ali sentado, atônito, apenas piscando os olhos.
Que diabos é isso? O que foi que eu vi?
Tentou deixar para lá, pensando que devia ter visto errado, mas logo em seguida veio a próxima dúvida. Visto errado, quando? Agora? Ou… naquela vez?
Cassian não tinha mutado?
Se fosse esse o caso, ele tinha feito papel de bobo sozinho. Isso não era exatamente novidade, então tudo bem, mas o que Cassian teria pensado de Bliss, que sumiu sem dizer uma palavra? Talvez o motivo de nunca ter dado notícias fosse justamente estar com raiva… No instante em que a ansiedade voltava a inundá-lo, desta vez outra lembrança lhe veio à cabeça.
Não, eu senti nitidamente o cheiro dos feromônios.
No castelo de Cassian não havia nenhum Alfa. Todos, exceto Bliss, eram betas — que dirá feromônios de um alfa extremo. Era impossível.
Então, afinal, como é que isso foi acontecer?
Cassian devia mesmo ter passado por uma mutação, pensava ele enquanto andava de um lado para o outro no quarto, até que soltou um “aaargh” e agarrou a cabeça com as duas mãos. As pouquíssimas células cerebrais de Bliss pareciam a ponto de explodir por sobrecarga.
―O discurso, se eu assistir ao discurso….
Murmurando como se estivesse enfeitiçado, ele se apressou em se instalar de novo na frente da TV. Durante o discurso vão mostrar o rosto dele várias vezes, então dá para conferir na hora.
Enquanto passavam os comerciais, ele correu para pegar as panquecas embaladas, despejou uma montanha de xarope de bordo e voltou. Na pressa, foi enfiando as panquecas na boca de qualquer jeito, e quando o discurso começou já tinha devorado metade.
Bliss engoliu em seco, tenso à toa, e observou Cassian subir ao púlpito. Ele ajustou o microfone à sua altura e então abriu a boca.
―…gostaria de enfatizar mais uma vez a necessidade do tratado firmado em conjunto por alguns países aliados para proteger a ilha Hasilica, em resposta à crise climática mundial.
E então Cassian argumentou por que aquela ilha era necessária, por que era importante, por que os Estados Unidos não podiam se retirar do tratado. Foi além e apresentou alternativas para complementar o acordo a fim de proteger os animais em risco de extinção que ali existiam, encerrando o discurso com a advertência de que, caso persistissem na oposição até o fim, a Inglaterra não teria escolha senão tomar as medidas correspondentes.
Depois que Cassian desceu do púlpito sob aplausos e o tiozão entediante voltou a aparecer, Bliss, que até então só piscava os olhos aturdido, inclinou a cabeça com atraso. Sem que percebesse, as íris de Cassian já haviam sumido por completo de sua mente.
Que é ilha Hasilica?
Era um nome que apareceu inúmeras vezes no discurso, mas Bliss nem sabia que aquela ilha existia. Na verdade, os nomes de lugares que ele conhecia dava para contar nos dedos das mãos, então era natural.
―Hasilica, Hasilica….
Repetindo a mesma palavra, Bliss recorreu ao amigo que sempre estava ao seu lado para lhe dar respostas.
―Geppetto! O que é Hasilica?
Após uma breve pausa, a IA começou a despejar um texto de proporções assombrosas. Como de costume não lia nada com mais de três linhas, Bliss se apavorou e gritou, aflito:
―Três linhas, resumo em três linhas! Resume em três linhas!
Dessa vez demorou um pouco mais. Enquanto esperava, Bliss não aguentou a impaciência e ficou andando de um lado para o outro no mesmo lugar, até que a IA finalmente lhe deu a resposta.
―É uma ilha no Mediterrâneo. Dez países firmaram um tratado de proteção e atualmente os Estados Unidos defendem a retirada. O político que lidera a exigência de retirada é Ashley Miller.
Parecia que muita coisa tinha sido cortada fora, mas tudo bem. Ele não entenderia mesmo conversa longa e difícil. Depois de assentir com um “hum, hum”, Bliss de repente teve um estalo.
―Espera, Geppetto. O que você acabou de dizer?
―É uma ilha no Mediterrâneo….
―A última, fala só a última linha!
Diante do grito aflito, a IA repetiu a mesma frase com sua voz mecânica e sem emoção.
―O político que lidera a exigência de retirada é Ashley Miller.
Naquele instante, Bliss congelou. O que foi mesmo que Cassian disse agora há pouco? Ele não disse que tinha vindo até aqui para manter o acordo? E que, se os Estados Unidos se retirassem, a Inglaterra ia fazer alguma coisa…
Se o papai é quem está defendendo a retirada, então essa história…
Ele engoliu em seco sem querer. Diante da conclusão inesperada, Bliss perdeu as estribeiras e ficou plantado ali, imóvel. Não pode ser, isso é, é absurdo… Mas não havia outra resposta. Por mais que negasse, ele tinha que aceitar que aquilo era a realidade.
Céus, isso quer dizer que o papai e Cassian estão brigando!
―Aaaah!
Bliss ficou branco feito papel e acabou agarrando a cabeça com as duas mãos.
* * *
Sob uma chuva de aplausos, Cassian desceu do púlpito. Enquanto cumprimentava os parlamentares que lhe estendiam a mão e trocava com eles as frases de praxe, Ashley Miller não deu as caras. Provavelmente estaria em seu gabinete. Cassian encerrou os cumprimentos como pôde e seguiu para a sala de Ashley. O barulho que antes enchia o lugar sumiu em algum momento, e no corredor ecoavam apenas os seus próprios passos.
Toc, toc, bateu à porta, esperou um intervalo e, ao abri-la, sentiu de supetão um forte aroma de feromônios. Um perfume tão doce a ponto de fazer a consciência se afastar — eram exatamente os feromônios de Ashley Miller. Ainda que ele fosse um alfa extremo capaz de controlar os feromônios à vontade, deixar o aroma vazar com tanta intensidade era claramente proposital. Diante dos feromônios que pairavam ao redor, como que a ameaçá-lo, Cassian abriu um sorriso de propósito e cumprimentou.
―Sr. Miller, boa tarde. Voltamos a nos ver.
Ele atravessou a sala com desenvoltura e falou primeiro, e então Ashley, que até ali estava afundado na poltrona, ergueu o corpo lentamente.
―Ouvi bem o seu discurso.
Cassian segurou de leve a mão que Ashley lhe estendeu, soltou-a e respondeu, ainda com o sorriso no rosto:
―Espero que tenha sido um discurso bom o bastante para mudar a opinião do senhor deputado.
Diante disso, os olhos de Ashley se estreitaram. Exibindo um sorriso enigmático e indecifrável, ele se dirigiu sem pressa ao sofá. Sentou-se na cabeceira e, quando Cassian o acompanhou sentando-se no sofá à direita, só então Ashley voltou a falar.
―Tomara que tenha valido a pena você vir até aqui.
Cassian interpretou aquela fala política com duplo sentido.
―Pretendo levar ao menos uma coisa garantida.
O rosto dele, sorrindo largo, incomodou por algum motivo, e Ashley franziu discretamente o cenho. Indiferente àquele clima, Cassian tomou a palavra:
―O Sr. Niles está bem?
Era uma pergunta corriqueira, mas o fato de perguntar justamente por Koi, que não era da família, não era coisa comum. Devia haver alguma intenção. E Ashley já desconfiava vagamente do motivo.
―Sim, está bem.
Ele tirou do bolso interno do terno uma cigarreira de prata e, enquanto escolhia um cigarro, puxou assunto:
―Agora que me lembro, esqueci de uma coisa.
―Sim, pode dizer.
Cassian respondeu de imediato, e Ashley acendeu o cigarro, protelando. Só voltou a falar depois de exalar uma longa baforada de fumaça.
―Obrigado por acompanhar Bliss até a festa. Eu estava preocupado que ele tivesse ficado sozinho e solitário, mas parece que se saiu bem graças a você.
O sorriso foi desaparecendo aos poucos do rosto de Cassian. Ashley observou essa mudança nele e estreitou os olhos.
―Mas que estranho, não? Não saiu em lugar nenhum uma matéria sequer dizendo que você compareceu à festa com Bliss.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna