Define The Relationship (Novel) - Capítulo 50
Capítulo 50
— Ora, ora, você tem um cílio grudado aqui — Aiden riu travessamente, como se estivesse esperando por algo maliciosamente divertido prestes a se desenrolar. Karlyle, que nunca havia permitido que ninguém além de Ash o tocasse daquela maneira, ergueu a mão instintivamente.
Esta não era a primeira vez que Aiden pregava uma peça como essa, mas, em todas as outras vezes, Karlyle tinha sido rápido em colocar um fim nisso. Se tivesse sido qualquer outra pessoa que não Aiden, com quem ele havia construído uma familiaridade de longa data, Karlyle não teria permitido sequer a oportunidade para tal comportamento.
No entanto, antes mesmo que Karlyle pudesse afastar a mão de Aiden com um tapa, ela foi empurrada para o lado por outra pessoa. Uma longa sombra caiu sobre ele, e o aroma de Ash o atingiu como uma droga. Num piscar de olhos, Ash havia encurtado a distância e agora ali estava ele, segurando firmemente o pulso de Aiden.
— Ai! — Aiden guinchou, balançando a mão teatralmente.
O que… acabou de acontecer? Karlyle inclinou a cabeça, olhando para cima para Ash em confusão.
Seus olhos se encontraram.
Ao olhar para baixo em direção a Karlyle, Ash sorriu, com sua expressão estranhamente temível retornando rapidamente ao rosto familiar que Karlyle conhecia tão bem. Ou melhor, a um rosto que era quase familiar.
A expressão de Ash estava misturada com um desespero melancólico, algo que Karlyle nunca tinha visto nele antes. A adoração inigualável no olhar de Ash era palpável.
A mente de Karlyle parou abruptamente.
“Adoração? Isso é um exagero.”
No entanto, apesar de suas tentativas de conter suas conjecturas obstinadas, o mesmo pensamento persistia. Ele sentia que ficaria completamente encantado apenas olhando para Ash.
— Olá — disse Ash agradavelmente, direcionando seu sorriso doce exclusivamente para Karlyle. Algo dentro de Karlyle dissolveu-se instantaneamente como mel em chá quente. As pontas de seus dedos das mãos e dos pés formigaram.
— Você tem passado bem? — Ash perguntou, antes de mais nada. Seus olhos investigativos denunciavam sua preocupação com o bem-estar de Karlyle.
Quando Aiden, que havia sido totalmente esquecido por um momento, soltou outro ruído melodramático de protesto, Ash soltou o pulso dele, olhando-o com tanta indiferença que era como se nunca o tivesse segurado.
— Minhas desculpas, isso foi bastante rude da minha parte — disse Ash.
— Para uma saudação, pareceu um pouco… agressiva — respondeu Aiden.
Karlyle estava nervoso. Aiden era quem vinha agindo de forma estranha nos últimos minutos. Claro que, para Ash, segurar o pulso de Aiden de forma tão repentina ia completamente contra a etiqueta social, mas…
— Eu pensei que você estivesse deixando Karlyle desconfortável agora há pouco — explicou Ash.
— Minha mão deve ter se movido por conta própria, então, por favor, aceite minhas sinceras desculpas.
O tom de Ash, embora educado, carregava um tom subjacente que deixava claro que ele, na verdade, não estava nem um pouco arrependido. Sua mão pousou suavemente no ombro de Karlyle, aproximando-o um pouco mais. Karlyle sentiu como se todos os sentimentos ásperos dentro dele tivessem se derretido por completo.
— Certamente meu amigo mais próximo não ficaria desconfortável com o meu toque — comentou Aiden.
— Isso é verdade, Karlyle? — Ash, com as sobrancelhas inclinadas para baixo, direcionou a pergunta a Karlyle. A expressão desanimada dizia a Karlyle que Ash ficaria arrasado se ele respondesse que sim.
Aiden lhe deu um olhar incrédulo, que pareceu mais genuíno desta vez. Mas Karlyle não tinha espaço em sua mente para Aiden, pois a expressão que Ash estava fazendo era tão absolutamente adorável que Karlyle ficou sem reação.
Apesar da distração, Karlyle se esforçou para recuperar a compostura. Por mais difícil que fosse pensar racionalmente sempre que olhava para Ash, algo ainda mexia com sua mente. Até que recebesse uma resposta definitiva para esclarecer as coisas, ele não podia se dar ao luxo de se deixar levar daquela maneira.
Mas, mesmo assim, uma coisa precisava ser dita.
— Eu não dei permissão para ele me tocar.
— Talvez nem os amigos mais próximos consigam conhecer uma pessoa totalmente — declarou Ash em um tom de pena enquanto se inclinava um pouco mais perto de Karlyle.
Ao toque dele, a sensação de formigamento pelo corpo de Karlyle se intensificou. Ele queria mais.
Aiden soltou um bufo e depois balançou a cabeça.
— Bem, se você insiste. Além disso, nós brincamos assim com frequência quando você não está por perto, Sr. Jones. — O sorriso de Ash sumiu novamente. Com os lábios caídos, ele olhou fixamente para Aiden antes de dar de ombros em uma tentativa de aquiescência.
— Entendo — disse ele sem emoção.
O sorriso largo de Aiden retornou.
— Exatamente. Não é verdade, Karlyle? — Era verdade. Aiden ocasionalmente tocava seu rosto. Karlyle olhou de volta para Ash antes de responder. A ausência de seu sorriso radiante de antes apertou desconfortavelmente o coração de Karlyle. Ele queria ver Ash sorrir novamente. Queria fazê-lo sorrir pelo resto de sua vida.
Após alguns segundos de deliberação, Karlyle percebeu que, independentemente do motivo, Aiden era o problema. A solução era simplesmente ir embora. Além disso, havia perguntas que ele queria fazer.
— Minhas desculpas, Aiden, mas vou me retirar — disse Karlyle, levantando-se de seu assento.
— Você vai abandonar o amigo que te trouxe aqui só para te animar? — Aiden suspirou, fingindo exasperação.
Isso também não era um acontecimento incomum. Karlyle frequentemente saía às pressas sempre que algo exigia sua atenção, e, todas as vezes, Aiden expressava sua decepção. Metade das vezes, Karlyle cedia à chantagem emocional e ficava, mas desta vez era diferente. Desta vez, Ash estava aqui.
Ash permaneceu diretamente atrás de Karlyle, com a mão ainda pousada levemente no ombro de Karlyle. O toque simples aqueceu o coração de Karlyle.
— Entrarei em contato — declarou Karlyle.
— Na próxima vez que eu te vir, você me deve dez beijos como compensação.
Naturalmente, Karlyle ignorou isso — não havia necessidade de responder às bobagens de Aiden. No entanto, Ash pareceu reagir de forma diferente; a mão no ombro de Karlyle apertou com mais força.
Novamente com olhos intrigados, Karlyle virou um pouco a cabeça. Ele deparou-se com uma cena inesperada: Ash estava encarando Aiden com um olhar gélido. A expressão fria durou apenas um momento antes de os olhos de Ash encontrarem os de Karlyle e seu sorriso caloroso retornar.
— Devemos ir lá para fora? — perguntou Ash. Embora sorrisse, ele parecia um tanto desconfortável.
— Sim.
— Então vamos. — Com isso, Ash começou a guiar Karlyle em direção à saída.
Por uma fração de segundo, Karlyle lembrou-se do Ash de alguns dias atrás, que pedia permissão antes mesmo do mais leve toque. Incapaz de conceder a permissão na época, ele sentira seu coração se apertar de tristeza, mas agora tudo aquilo se derretia. O toque de que Karlyle sentira tanta falta agora trazia uma onda de felicidade.
Enquanto saíam do salão, Ash manteve a mão no ombro de Karlyle, quase envolvendo-o em seus braços, o que atraiu olhares dos outros.
O aviso anterior de Aiden sobre boatos desnecessários passou brevemente por sua mente, mas Karlyle percebeu que não se importava nem um pouco. Todos os seus pensamentos estavam na alegria avassaladora que o alimentava naquele momento.
Eles saíram para o corredor e seguiram em direção ao jardim. Pouco antes de descer as escadas, Ash parou. Com uma expressão de desculpas, ele falou.
— Me desculpe. — A mão que estivera pousada no ombro de Karlyle se afastou, e Ash deu um passo para trás, parecendo perturbado.
— Você não me deu permissão… Eu não estava pensando na hora. Eu te deixei desconfortável?
O estômago de Karlyle desmoronou, e seu semblante caiu. Suas mãos avançaram rapidamente, seu corpo movendo-se por instinto. Ele não queria que Ash se afastasse.
Karlyle segurou firmemente a mão de Ash, que flutuava no ar, entrelaçando seus dedos aos de Ash para unir suas palmas. Ash piscou, seu olhar caindo para o aperto compartilhado. Ele parecia surpreso.
Esta era a primeira vez que Karlyle segurava a mão de Ash.
Uma quietude se estabeleceu entre eles. Os dedos de Karlyle tremeram.
— Não estou desconfortável — disse ele em voz baixa.
Não, nem de longe.
— Para falar a verdade… eu gosto. —
Ele gostava de segurar a mão de Ash. Havia se afeiçoado a isso.
Karlyle lembrou-se dos momentos em que se sentira desolado porque Ash não segurava sua mão. Ao refletir, percebeu quão absurdo era se sentir daquela maneira — ele poderia simplesmente ter tomado a iniciativa primeiro. Porque Ash, assim como agora, teria permitido.
Os olhos de Karlyle arderam. Ele sentiu o olhar de Ash sobre si, traçando cada centímetro de seu rosto. Sua expressão lentamente se tornou mais calorosa enquanto estudava Karlyle, florescendo no sorriso que Karlyle adorava. Ash deu um passo à frente, tão perto que seus sapatos se tocaram.
— Sério? — perguntou Ash.
— …Sim. —
— Hmm. — A mão livre de Ash esfregou levemente sua bochecha enquanto seus olhos se enrugavam de deleite. Seus lábios tremeram, entreabrindo-se e curvando-se para cima enquanto ele falhava em conter sua descrença.
— Me desculpe. É que… eu não esperava por isso. Depois de ouvir o que você disse naquele dia, pensei que teria que esperar muito mais tempo.
Lenta e cautelosamente, sua mão estendeu-se em direção a Karlyle. Após hesitar brevemente, seus dedos roçaram a testa de Karlyle, deslizando para baixo para acariciar sua têmpora definida e sua bochecha. Karlyle baixou o olhar. Ele se sentiu um pouco aquecido.
Embora aquela não fosse a primeira vez que Ash o tocava daquela maneira, esse toque pareceu mais íntimo do que qualquer outro anterior. Fazia tempo demais. Seguindo a iniciativa de Karlyle, Ash caminhou ao lado dele, acompanhando seus passos.
Karlyle virou-se levemente para encará-lo.
— Então, como você veio parar aqui?
— Você está curioso? — Ash perguntou com um sorriso largo.
— Sim, estou curioso — respondeu Karlyle.
Tudo sobre Ash sempre o havia intrigado; era apenas natural.
— Eu te contarei tudo, Karlyle. Qualquer coisa que você queira saber.
A resposta fez o coração de Karlyle palpitar.
Após descerem as escadas, os dois seguiram em direção aos fundos da mansão, onde os jardins os aguardavam. A propriedade de Lorde Gordon era famosa por suas fontes e iluminação encantadoras. Já era tarde no outono, no limiar do inverno, por isso nenhuma flor adornava o espaço; no entanto, os jardins ainda mantinham um certo charme.
— Minha mãe faleceu quando eu era jovem — disse Ash suavemente. — Ela havia amado Philip uma vez. Eles mal se viram depois que ela se casou com meu pai, mas continuaram bons amigos.
Karlyle hesitou. Ele havia notado que Ash falava sobre sua mãe no tempo passado, mas agora ele estava ouvindo a verdade pela primeiríssima vez; ele percebeu que havia muito mais na história do que tinha imaginado. Karlyle apertou a mão de Ash. Ash olhou para baixo em direção aos seus dedos entrelaçados antes de continuar.
— Quando eu era apenas uma criança, minha mãe morreu em um ataque terrorista. Foi uma tragédia. Estávamos na rua comprando materiais de arte para mim quando topamos com Philip. Na época, Philip ainda era solteiro, ele nunca conseguiu esquecê-la de verdade, sabe. Ah, mas ele está bem agora, com um filho. Ele parece ter encontrado a felicidade. — O coração de Karlyle doeu terrivelmente. A maneira como Ash narrava sua dor com tanta naturalidade tornava tudo ainda mais doloroso. O luto escondido sob o comportamento calmo de Ash era palpável, e Karlyle sentiu um desejo avassalador de abraçá-lo, de cobri-lo com todas as alegrias que pudesse, para conseguir fazê-lo feliz.
— De qualquer forma, naquele dia… minha mãe salvou tanto a Philip quanto a mim, dando a vida dela por nós. Philip sempre se sentiu em dívida com ela por isso. Ele acredita que é culpa dele eu tê-la perdido, embora isso não seja verdade. Ele tem sido atormentado por essa culpa.
Enquanto a confissão tranquila de Ash continuava, eles chegaram ao fim do corredor. Quando abriram a porta para o jardim, uma brisa fria soprou para dentro. Ash estendeu sua mão livre para arrumar o paletó de Karlyle, abotoando-o com mais firmeza.
— Está frio, não está? — Ash perguntou preocupado. — Deveríamos conversar aqui em vez de ir lá para fora? —
— Se você estiver com frio, Sr. Jones, podemos conversar do lado de dentro — respondeu Karlyle.
Ash hesitou diante do tratamento formal, com seus olhos se estreitando tristemente antes de olhar silenciosamente em direção ao jardim.
— Então, se qualquer um de nós ficar com frio, vamos voltar para dentro imediatamente.
— Entendido. — Karlyle virou-se levemente para proteger Ash da brisa gélida. O borbulhar da água ecoava suavemente na fonte ali perto. Por um momento, Ash olhou para Karlyle, e então o puxou para mais perto. Abrindo um pouco o seu casaco, ele envolveu Karlyle em seu abraço. Estava quente.
— Que tal assim? — Ash perguntou com olhos sorridentes. — Você se sente um pouco mais aquecido?
Olhando um pouco para cima para encontrar o olhar de Ash, Karlyle deu-se conta de que seus próprios olhos se enrugavam com ternura.
— Está quente.
Ash ficou em silêncio por um momento, olhando para baixo em direção a Karlyle. Então, porque não conseguia mais resistir, ele puxou Karlyle para mais perto, abraçando-o com força. Suas mãos dadas permaneceram entrelaçadas.
— Só por um momento, poderíamos ficar assim? É que não consigo resistir. — sussurrou Ash.
Karlyle escondeu o rosto no peito de Ash. Um calafrio agradável correu por todo o seu corpo. Erguendo a mão livre, ele a deslizou lentamente para debaixo do casaco de Ash, envolvendo-o com o braço para mantê-lo por perto. Aconchegado nos braços de Ash, Karlyle conseguia sentir o cheiro da brisa fresca, bem como o aroma sutil de Ash. Ele conseguia ouvir as batidas suaves do coração de Ash, um som tão melódico que ele poderia escutar pela eternidade sem jamais se cansar.
— Você é lindo. — Os lábios de Ash roçaram a orelha de Karlyle, seu hálito quente fazendo cócegas em sua pele. Karlyle pressionou a testa suavemente contra o pescoço de Ash e fechou os olhos.
— E o seu noivado? — Ash perguntou timidamente.
Karlyle piscou devagar diante da pergunta. Ele ainda não conseguia acreditar que havia sido libertado de suas obrigações de repente. No entanto, para seu próprio desgosto, ele estava radiante.
— Não precisa mais se preocupar.
— Isso pode parecer egoísmo da minha parte, mas estou feliz. — Ash apertou o abraço em um aperto quase doloroso que Karlyle acolheu.
— Eu vim aqui hoje para falar com Philip. Desde aquele dia, ele sempre me envia convites. Ele queria ser meu guardião, realizar todos os desejos com que eu pudesse sonhar. Mas eu nunca aceitei. Se eu tivesse aceitado, poderia ter começado a desejar que ele realmente tivesse sido meu pai.
A tensão nos braços fortes de Ash diminuiu gradualmente enquanto sua mão se movia para afagar suavemente as costas de Karlyle.
— Mas também, aceitar teria sido como negar o amor de minha mãe — murmurou Ash.
— É um pouco complicado. Se estiver tudo bem, eu poderia explicar em outro momento?
Tecnicamente, a frase “outro momento” indicava o adiamento de um resultado conclusivo. Karlyle discordava fortemente da frase por sua ambiguidade, mas as palavras ganharam um novo significado vindas de Ash. Parecia uma promessa de um futuro juntos. Só de pensar nisso, Karlyle se enchia de felicidade.
— Sempre que for conveniente, por favor, faça isso
— Mesmo se eu continuar falando até você ficar entediado de morrer? Eu posso não deixar você ir. — Karlyle olhou para as palavras de Ash com ceticismo. Para Karlyle, até algo tão mundano quanto Ash bocejando seria cativante aos seus olhos. Portanto, Karlyle tinha certeza de que nunca em sua vida se cansaria de ver Ash falar. Ele não poderia discordar mais da afirmação de Ash. Mesmo assim, Karlyle deu-se conta de que queria concordar com tudo o que Ash dizia.
— Por mim, tudo bem.
Sua resposta veio facilmente, sem hesitação. Ash sorriu largamente antes de continuar.
— É por isso que, desde que minha mãe faleceu, eu não vejo Philip. E ainda assim aqui estou eu, tentando desavergonhadamente encontrá-lo por sua causa. Philip ficaria de queixo caído se soubesse — disse Ash, soltando uma risada baixa.
Karlyle ergueu a cabeça, seu coração saltando de alegria com a revelação de que Ash queria agir para ficar com ele.
— O que você estava planejando fazer?
— Qualquer coisa. Eu faria qualquer coisa, até mesmo o impossível.
Seu rosto, banhado pelo brilho suave da iluminação âmbar, estava calmo. As luzes cintilantes dançavam sobre o rosto de Ash.
— Parece que o inocente aqui é você, Sr. Jones. — Lorde Gordon parecia ser um bom homem, mas ninguém conseguia conhecer uma pessoa totalmente. Karlyle estava genuinamente preocupado, não, aterrorizado com o fato de Ash estar disposto a ir a qualquer extremo por ele. Ele já tinha pensado nisso antes, mas Ash era bondoso demais, uma pessoa tão confiante e de bom coração que ele não se surpreenderia ao saber que ele tinha sido enganado ou passado para trás.
— Ah, sério? — Ash retrucou.
— Sim. Quem sabe que termos o marquês poderia propor? — Com um semblante sério, Karlyle tentou transmitir sua preocupação. Por observar seu avô, Lorde Frost, Karlyle sabia que os nobres não eram pessoas comuns. Mas Ash, longe de se mostrar cauteloso, riu abertamente.
— Ah, eu não sei. Talvez ele me faça engraxar os sapatos dele — brincou.
Karlyle detestava até a ideia de Ash ser forçado a realizar tarefas árduas. Ele balançou a cabeça.
— Não há necessidade de você fazer tais coisas em meu nome.
— Eu faria qualquer coisa por você, Karlyle — disse Ash. A sinceridade e a firmeza em sua voz fizeram Karlyle hesitar.
Pouco a pouco, a ficha de que Ash realmente o amava estava começando a cair, mas ele ainda achava difícil de acreditar. No entanto, essa mesma percepção lembrou Karlyle do motivo pelo qual ele desejava conversar com Ash hoje, o que ele estava querendo perguntar e o que queria dizer.
— Nesse caso… — Karlyle respirou fundo, acalmando seus nervos que palpitavam. Seus olhares se fixaram e, pela primeira vez em sua vida, Karlyle começou a fazer uma pergunta para conhecer alguém.
— Tem algo que eu gostaria de te perguntar. — Karlyle sempre quis saber mais sobre Ash, mas nunca tinha sido capaz de reunir coragem para perguntar. Perguntar era como cruzar uma linha, invadir a vida extremamente pessoal e privada de outra pessoa, o que era algo que Karlyle nunca fizera antes.
Mas agora, Karlyle sentia uma fresta de coragem. Ash estava declarando seu amor por ele, e Karlyle queria desesperadamente acreditar nele. Sem isso, ele sentia como se não pudesse continuar vivendo.
— Se você não se importar, eu agradeceria sua resposta.
— Estou entusiasmado por haver algo que você queira me perguntar, Karlyle. —O coração de Karlyle, que tremia de nervoso, começou a se acalmar com as palavras de Ash. Ele esfregou o polegar contra as costas da mão de Ash e, em seguida, abriu lentamente a boca para falar.
O que ele estava prestes a perguntar era tão trivial, ridículo até. Mesmo assim, Karlyle precisava saber o motivo, para entender por que Ash havia agido daquela maneira.
— Eu te liguei — Karlyle finalmente anunciou.
A lembrança daquela noite ressurgiu: a noite em que ele fora dominado pela saudade e ligara para Ash de forma errática. Se Ash realmente o amava, quando esse amor havia criado raízes? Na noite em que Ash não atendeu, ele desgostava de Karlyle? Se sim, o que fizera ele mudar de ideia?
— E você não respondeu, Sr. Jones. O que eu quero saber é se você começou a… gostar de mim… depois disso? Ou se foi…?
— …Você me ligou? — Ash disse surpreso. Sua testa franziu-se e seus lábios se estreitaram em uma linha fina. A confusão em seus olhos era evidente enquanto ele passava a mão pelo cabelo, claramente nervoso.
— Quando? — ele perguntou com urgência.
A data e a hora exatas saltaram à mente de Karlyle. Mas declará-las abertamente pareceria um pouco excêntrico.
— Foi na última semana de setembro. Eu entendo que ligar a uma hora tão tardia foi inapropriado.
— Karlyle… — Ash murmurou. Erguendo as mãos entrelaçadas, ele pressionou os lábios contra as costas da mão de Karlyle, deixando-os demorar ali.
— Eu estava atolado de trabalho em setembro. Estava recebendo tantas ligações. As coisas mais importantes eram enviadas por e-mail ou tratadas pessoalmente, então eu não checava cada ligação perdida. — Ele murmurou baixinho contra a pele de Karlyle, sua voz tremendo de leve com remorso.
— Sinto muito mesmo. Eu realmente não sabia. Depois que nos separamos, focar em qualquer coisa tornou-se difícil… Eu estava uma bagunça naquela época. — A voz de Ash era quase um sussurro. Ele parecia à beira das lágrimas. A reação inesperada assustou Karlyle, e a expressão angustiada atingiu seu coração.
Karlyle apressadamente ergueu a mão livre e a colocou contra a bochecha de Ash. A pele de Ash parecia gélida ao toque, o que apenas aprofundou a dor que ele sentia.
— Está tudo bem. Eu não estava atrás de um pedido de desculpas. Eu só queria saber quando você começou a ter sentimentos por mim. Só isso. — E estava realmente tudo bem. Independentemente das circunstâncias, que haviam acabado por se mostrar completamente compreensíveis, a confirmação de que Ash não tinha ignorado deliberadamente suas ligações acalmou Karlyle. Parecia que a possibilidade havia pesado em seu coração muito mais do que o esperado.
Só agora, olhando para trás, Karlyle percebia como havia se sentido, como se estivesse vendo a si mesmo através dos olhos de outra pessoa.
— Você não precisa me pedir desculpas — ele repetiu.
— Não, Karlyle. Quanto mais próximo você é de alguém, mais importante é dizer essas coisas claramente. — Ash plantou um beijo na mão de Karlyle. — Isto é, se você estiver disposto a nos permitir ter esse tipo de relacionamento. —
Um beijo, depois outro, lentos e ternos, caíram em cascata sobre a mão de Karlyle.
— No passado, quando eu amava alguém, sempre havia um ponto de partida claro. Mas com você, Karlyle, é diferente. Não sei como ou quando começou. Só me dei conta um dia. —
Os longos cílios de Ash tremularam. Karlyle captou um reflexo de si mesmo em suas pupilas. Ali estava ele, capturado nos olhos de Ash.
— Eu não conseguia focar em mais nada porque estava sempre pensando em você. — Os lábios de Ash moveram-se para as pontas dos dedos de Karlyle, roçando nelas uma por uma. — Senti tanto a sua falta que continuei vendo você em meus pensamentos. Eu queria manter você por perto, ter você onde eu pudesse sempre te ver… —
Quase sem conseguir respirar, Karlyle tremeu, incapaz de desviar o olhar dos abundantes e delicados toques dos lábios de Ash.
— Eu queria segurar você, tocar você e dizer que te amo a cada momento — sussurrou Ash, fechando os olhos enquanto o vento despenteava seu cabelo. Lentamente, ele abriu os novamente, olhando diretamente para o homem diante dele.
— Você aceitará meus sentimentos, Karlyle? —
A felicidade brotou dentro de Karlyle, preenchendo-o da cabeça aos pés. O que antes começara como uma leve ondulação sob seus tornozelos agora surgia como uma onda gigante, envolvendo-o em um fluxo ardente que lhe tirou o fôlego. Certa vez, ele ousara imaginar esse momento em um sonho. Mesmo assim, Karlyle presumira ingenuamente que sentiria uma alegria infinita e descomplicada.
Mas ele estava errado.
Não havia palavras capazes de definir esse sentimento. Isso estava além da medida, além da contenção — uma emoção que sobrecarregava sua própria alma. Essa emoção, aquela que ele sentia aqui e agora, era o verdadeiro significado da vida. Toda a solidão e tristeza que ele suportara no passado pareciam ter transcorrido exclusivamente para este dia, para que ele pudesse reconhecer esse sentimento pelo que era: pura e genuína felicidade.
Por um longo tempo, Karlyle pôde apenas encarar Ash. Ele queria acenar com a cabeça, mas sabia que ainda não era o momento certo. Karlyle era inexperiente demais, despreparado demais para definir esse relacionamento. — Eu… — Karlyle começou a escolher suas palavras com cuidado. Ele queria transmitir seus sentimentos a Ash, mas a ideia de fazer isso era assustadora demais. Ele estava tão ansioso que seus nervos à flor da pele tornaram sem sentido todas as horas que passara ensaiando em sua mente ao longo da última semana.
— Eu te amo — disse ele finalmente.
Em vez de desenvolver trechos belamente compostos, Karlyle deixou seus sentimentos brutos e sem filtros transbordarem. Ele amava Ash. Nenhum floreio jamais poderia fazer justiça à profundidade do que sentia.
— Nunca me senti assim antes. Essas emoções são tão incontroláveis, tão assustadoras, que me causam dor. — Alguma vez ele já havia admitido quando estava com medo? Mesmo quando criança, Karlyle havia suportado seus medos sozinho, em silêncio. Ele acreditava que, se seus medos permanecessem não ditos, eles não existiam.
— Então eu fiquei com medo — explicou ele, com um sorriso fraco e autodepreciativo surgindo em seus lábios.
— E, vergonhosamente, ainda estou. —Seu coração gradualmente se acalmou, ficando em paz. Era uma sensação verdadeiramente notável.
— Não estou acostumado a me expressar. Comparado a você, Ash, sou inexperiente e inadequado. Se eu não tivesse conhecido você, teria permanecido assim para sempre. — Ash nem sequer piscou enquanto ouvia, com seus olhos inabaláveis fixos em Karlyle. Aquele olhar firme e paciente tranquilizou Karlyle, dando-lhe coragem para continuar.
— Eu nunca aprendi a expressar meus sentimentos. Há tanta coisa que enterrei lá dentro, que nunca disse em voz alta. Houve inúmeras ocasiões em que você não poderia possivelmente ter adivinhado como eu me sentia. É simplesmente o tipo de pessoa que eu sou. — Ele sabia que admitir como se sentia não mudaria tudo. Mas ele queria ouvir a resposta de Ash; será que ele estaria disposto a esperar por ele?
— Se você puder me aceitar por quem eu sou… — O sorriso de Ash se ampliou e, finalmente, ele piscou.
— Você poderia esperar por mim só mais um pouco? — perguntou Karlyle.
Ele queria se tornar mais forte — para eliminar qualquer incerteza no relacionamento deles, para criar um mundo onde pudesse se concentrar inteiramente em Ash. Mas, acima de tudo, ele queria mudar, crescer para se tornar alguém digno do amor de Ash. Para isso, ele precisava de um pouco de tempo.
Claro, ele sabia que não poderia se transformar em uma pessoa completamente diferente. Ele sempre continuaria hesitante e inexperiente. Ele sem dúvida se apoiaria em Ash por um longo período de tempo. No meio disso, mesmo que Ash terminasse com ele, mesmo que se apaixonasse por outra pessoa, Karlyle ainda continuaria a amar Ash.
Ele temia tal futuro. No entanto, deixar que o medo de um amanhã indeterminado o levasse a rejeitar Ash agora seria o ápice da tolice — algo que até uma criança não faria. Em vez disso, Karlyle havia resolvido confiar em Ash durante o tempo que lhes fosse dado. Essa era a decisão que ele tomara.
O olhar de Ash suavizou-se e seus olhos brilharam de leve. Seus lábios macios formaram um sorriso gentil.
— Sim, eu vou. —Como sempre, Ash havia aceitado gentilmente Karlyle exatamente como ele era.
— Não vai demorar muito — prometeu Karlyle.
Ele sabia que não tinha capacidade para suportar aquilo. Ele queria definir adequadamente seu relacionamento com Ash antes que o ano chegasse ao fim.
Embora Karlyle não estivesse triste, os cantos de seus olhos arderam quando ele sorriu novamente. Ele provavelmente estava fazendo uma expressão terrivelmente desajeitada. Os cantos erguidos de sua boca e a curvatura de seus olhos pareciam não naturais até para ele, como se estivesse usando roupas que não serviam direito. Mesmo assim, ele não conseguia parar de sorrir.
— Quando esse momento chegar, posso ser egoísta e… — Sua voz falhou. — Posso fazer de você meu? — Ash respondeu com um sorriso silencioso, sua expressão terna e carinhosa enquanto olhava para Karlyle como a coisa mais preciosa do mundo. Karlyle entendeu aquele sorriso como um sim.
Olhando para a expressão encantadora de Ash, Karlyle desejou que um dia seu próprio sorriso pudesse se parecer com o dele. Se seu sorriso pudesse espelhar o da pessoa que amava, ele seria infinitamente feliz. Talvez, em um futuro distante, seu desejo se tornasse realidade.
— Enquanto isso, eu gostaria de lhe pedir um favor — disse Karlyle.
Era um pedido que ele vinha considerando há muito tempo, um pedido sobre o qual havia debatido se deveria sequer mencionar. Não importaria se nada resultasse disso. Mas ele desejava que Ash tentasse se lembrar, se nada mais.
— O que quer que seja, eu farei — disse Ash.
— Eu entendo que pode não ser possível, mas… — Ash já havia concedido a Karlyle permissão para ser egoísta, então pedir tanto assim não seria ganância demais,seria?
— Tem uma coisa da qual você se esqueceu — sussurrou Karlyle.
Ash piscou curioso, parecendo surpreso pela segunda vez. Karlyle sentiu seu sorriso aumentar em resposta.
— Aconteceu há muito tempo. —
— Há muito tempo? — Ash ecoou.
— Sim.
Foi o dia em que ele conheceu a pessoa mais linda de sua vida, o dia que ele jamais conseguiria esquecer, nem mesmo na morte. Mesmo que aquele beijo fugaz não tivesse significado nada para Ash, significou o mundo para Karlyle. Só aquilo já era o suficiente para ele.
— Eu gostaria que você tentasse se lembrar — sussurrou Karlyle.
Ele não tinha grandes expectativas. Se Ash não se lembrasse, isso também diria mais do que o suficiente. No entanto, se por acaso ele recordasse… seria atingido por uma felicidade inimaginável.
— Eu não estava esperando algo assim. Se foi algo impensado da minha parte… — Ash hesitou, sua voz impregnada de preocupação.
— Eu vou te dar uma pista. — Ash sobressaltou-se levemente quando Karlyle soltou sua mão.
Delicadamente, Karlyle estendeu os braços, apoiando uma mão no peito de Ash enquanto a outra acalentava cuidadosamente seu pescoço.
Seus corpos se pressionaram, aproximando-se tanto que não havia espaço entre eles. Karlyle inclinou o queixo um pouco para cima, com a ponta de seu nariz roçando a de Ash.
Seus lábios se aproximaram, seus hálitos quentes derretendo o ar frio.
Fechando os olhos, Karlyle beijou Ash.
Karlyle conseguia sentir o peso do olhar de Ash sobre suas pálpebras cerradas. Ele deu uma leve mordiscada naqueles lábios que tinham um gosto doce como sempre, seu coração florescendo de afeição. Ele conseguia sentir o vazio de um mês em seu peito, esculpido quando não conseguia entrar em contato com Ash, sendo preenchido. Ele queria continuar tocando-o, ficar ainda mais perto.
Ele amava Ash.
Ele o amava mais do que tudo no mundo.
Conhecer uma emoção tão bela e ao mesmo tempo pungente o deixava radiante. Karlyle estava grato por o objeto de sua afeição ser Ash.
Ele jamais queria magoar Ash; ele queria protegê-lo. Ele esperava ser aquele capaz de lhe dar tudo o que desejava, de ser quem lhe trazia alegria. E Karlyle se esforçaria para se tornar essa pessoa.
Isso era diferente das vezes em que Karlyle havia se esforçado por obrigação, pelo bem de seus pais. Em vez de sentir medo ou ansiedade, ele estava em êxtase. A confiança indefinível na paciência e na aceitação de Ash sustentava Karlyle, moldando sua determinação.
Enquanto Karlyle se movia com ternura, Ash começou a responder da mesma forma. Eles se abraçaram com o cuidado que alguém poderia dedicar apenas ao manusear algo frágil. Seus lábios se roçaram, suas línguas lentamente aprofundando o beijo. Este beijo era um pouco diferente dos que eles haviam compartilhado antes.
Naquela época, Karlyle sempre fora assombrado pela sombra de um fim inevitável. Mesmo ao se entregar aos carinhos amorosos de Ash, sua tristeza persistia.
Mas agora, ele não tinha mais medo.
Pois este beijo era um começo totalmente novo, o início de alegrias imensuráveis.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr