Acidic Scent (Novel) - Capítulo 85
Capítulo 85
Os beirais largos do anexo do hotel inclinavam-se para baixo, abrigando uma fileira de veículos escuros, de porte médio a grande. Portas se abriam e fechavam com estalos secos, uma após a outra. Os passageiros que emergiam eram uma mistura de gêneros e idades, mas todos compartilhavam uma aura inconfundível, uma semelhança indescritível que os diferenciava dos demais.
A maioria trocava acenos sutis ou breves reverências, reconhecendo-se sem alarde. Ninguém erguia a voz ou fazia cena. Outros hóspedes do hotel mantinham uma distância segura, como se tivessem vislumbrado algo sujo ou perigoso. Aquele grupo prosperava no isolamento, e essa separação sempre fora sua maior força.
Nos últimos dias, a mídia produzira dezenas de artigos sobre eles: Promotoria em Crise, Luta Interna, A Maior Cisão da História. Uma facção que sempre se movera como um bloco sólido se dividira claramente ao meio, e pessoas de fora os cercavam como abutres, ansiosas para explorar o caos.
O partido do governo começara a aliciar figuras-chave com movimentações irregulares de pessoal, enquanto a oposição elogiava aqueles que haviam erguido a bandeira da rebelião, tentando puxá-los para a arena política. Hoje era o dia em que cada um responderia a essas investidas.
— Sr. Lee.
— Ah, sunbae!
Seon-jin curvou-se pela cintura em uma reverência exagerada. Era seu veterano da 6ª turma da Promotoria do Distrito Leste. Tratava-se do homem que, durante a última investigação especial, fora o primeiro a farejar o vento e se posicionar atrás do chefe do Departamento de Planejamento e Coordenação, um verdadeiro barômetro humano do poder. Encontrá-lo agora fez Seon-jin suspirar internamente.
Fiz a escolha certa! Ele agonizara até o último momento, mas, no fim, ficar daquele lado da linha fora a decisão correta. Seon-jin sorriu, orgulhoso do próprio julgamento.
— Está ocupado? Você andou sumido dos nossos encontros ultimamente.
— Ah, o senhor sabe como é. Estava querendo me juntar ao senhor para fazer algum exercício, sunbae.
Havia um clube de montanhismo para o qual seu veterano o convidara. Ele se juntara após ouvir que estava cheio de figuras lendárias da promotoria especial, apenas para descobrir que a maioria era membro só de nome, sem nunca dar as caras. Seon-jin perdera o interesse rapidamente; ter entusiasmo genuíno demais por caminhadas fazia a atividade parecer uma obrigação.
— Mesmo no inverno, as montanhas têm seu próprio charme. Na próxima semana, faremos o percurso de Baekun-dae e depois vamos comer peixe cru. Hong, o chefe de seção, disse que um amigo dele está enviando uma caixa inteira.
— Parece ótimo.
Seon-jin sorriu, embora não tivesse decidido se realmente iria. O peixe cru não era o problema. Naquele clima político, no que estava sendo chamado de a maior crise da promotoria, ele não podia se dar ao luxo de ser visto frequentando encontros de lazer. Precisava continuar reunindo informações e monitorando a situação. Se estivesse em um navio afundando, precisava ser o primeiro a pular fora.
Toda aquela farsa começara meses atrás, na Promotoria do Distrito de Ulsan. Um promotor que investigava a corrupção na Shinwang Industrial, uma empresa de médio porte, fora pego aceitando subornos e vazando materiais de investigação para a equipe de defesa. A promotoria arrastara os pés por seis meses sob o pretexto de uma investigação interna, apenas para encerrar o caso por “provas insuficientes”, como de costume.
Mais tarde, revelou-se que o pai do promotor era o diretor administrativo do tribunal. Foi uma bomba que reacendeu a indignação pública. O mundo político, sempre faminto por escândalos, atacou, e, encurralado, o Promotor-Geral An Sang-su ofereceu uma moeda de troca: transferir o comitê disciplinar encarregado da investigação interna para o Ministério da Justiça em troca de sua renúncia.
A promotoria rebelou-se imediatamente. Uma publicação anônima no fórum do Epross, intitulada “Nenhum General Abandona Seu Exército Para Se Salvar”, vazou para a imprensa, e os promotores começaram a escolher lados. O autor, o Vice-Promotor-Geral Byun Jeong-hoon, renunciara em protesto e publicara um livro de memórias um mês depois. Hoje era a festa de lançamento do livro.
Comparecer àquele evento significava opor-se ao Promotor-Geral An. Os números tinham um efeito psicológico. A razão pela qual tantos promotores da ativa estavam aparecendo era pura demonstração de poder — eles queriam ser vistos.
Seon-jin receberia uma lista dos presentes de hoje, de um jeito ou de outro. Os nomes de autoridades de alto escalão, da Promotoria Superior de Seul ao chefe do Instituto de Pesquisa e Treinamento Jurídico, só aprofundariam seu dilema.
An subira ao cargo enviando o irmão mais velho de um ex-presidente para a prisão, mas agora parecia infinitamente hesitante. E era exatamente isso que seus detratores pretendiam. A mídia especulava que seu destino seria decidido já na próxima semana.
Seon-jin não tinha rancor pessoal contra ele, mas acreditava que o tempo do Promotor-Geral An havia acabado. Ele durara mal um ano. Aqueles que haviam subido sob seu apadrinhamento estavam se agarrando a ele, mas não duraria muito.
Os promotores sabiam exatamente o que queriam: Quem pode acelerar minha promoção? Quem vai me puxar para um cargo de destaque na Promotoria Suprema? Esse era o único critério para escolher um lado.
Seon-jin ouvira boatos de que o ex-Vice-Promotor-Geral Byun Jeong-hoon já fechara um acordo com o partido de oposição. Ele viera hoje esperando saltar vários degraus em um mundo onde Byun seria o Ministro da Justiça após a próxima eleição.
Pense a longo prazo. O poder político está sempre mudando. Ultimamente, ele vinha vivendo pelo velho ditado: Não persiga o poder. Mantenha-se fiel aos seus princípios.
— Vamos subir.
— Sim, senhor.
O evento seria realizado no salão de banquetes do segundo andar. Enquanto subiam a escadaria central do saguão, Seon-jin parou de repente.
Ele acabou de ver algo?
Ele se virou e avistou um táxi estacionado em frente à entrada principal. Alguém que nem sequer tinha o próprio carro? Ele observou atentamente enquanto a porta do táxi se abria e um passageiro desembarcava. Havia apenas um promotor com esse tipo de audácia.
Seon-jin esperou, com as mãos nos bolsos do sobretudo, enquanto Jang Jin-woo entrava no saguão. O sobretudo cinza-escuro de Jin-woo, vistoso e sobreposto a um terno e camisa pretos, estava ligeiramente amassado, como se ele fosse um funcionário público forçado a cumprir uma tarefa desagradável.
— Ora, ora! Finalmente tomou jeito? Até o grande Jang Jin-woo sabe quando deve se alinhar. Não dá para sobreviver sozinho neste mundo, né?
Jin-woo lançou um olhar de soslaio para seu sarcástico colega do ensino médio, mas cumprimentou primeiro o veterano ao lado dele.
— Quanto tempo, sunbae. Está entrando agora?
— É. Jang Jin-woo, quanto tempo. Como vão as coisas? Alguns meses no interior e você já está com esse olhar selvagem, hein?
A piada de Seon-jin não obteve reação, mas Jin-woo conseguiu dar um sorriso relutante diante da bobagem de seu veterano. Seon-jin sorriu pretensiosamente por dentro. Jin-woo claramente detestava ter que fazer sala. No entanto, o fato de ele ter aparecido ali indicava que sua ambição continuava tão feroz quanto antes.
— Você ganhou peso. Estranho. Está comendo algo de bom por lá?
A provocação de Seon-jin não era totalmente infundada. Jin-woo parecia mais saudável do que da última vez em que se encontraram. Ele não era do tipo que se acomodava, então será que tropeçara em algo bom?
A seletividade sexual de Jin-woo era lendária entre seus conhecidos. Ele não se deitava com qualquer um. Seus padrões eram tão altos que Seon-jin e outros haviam parado de apresentar potenciais parceiros a ele. Havia o caso famoso de uma atriz, uma estrela da onda Hallyu, que supostamente dormira com ele uma vez e tentara manter contato, mas nunca obteve uma segunda chance.
Ainda assim, ele precisava gerenciar seu rut de alguma forma, então devia estar conseguindo algo. Talvez o interior tivesse aberto seus olhos para novas experiências. Ou talvez a hospitalidade local tivesse sido… excepcional. Seon-jin ouvira dizer que lugares como Oseong tinham todo tipo de especialistas talentosos.
Ou talvez ele estivesse apenas se alimentando bem. Os frutos do mar da região eram excelentes, afinal.
— É, acho que sim. Você ainda vai à academia com frequência?
Todos pareciam notar a mesma coisa.
— Nem tanto. Sunbae, onde o senhor tem treinado ultimamente?
— O mesmo de sempre, montanha, na maioria das vezes. Às vezes natação… Já vim aqui algumas vezes. A sauna não é ruim.
— Vamos subir.
Seon-jin checou o relógio, apressando os dois homens em direção à entrada do salão de banquetes, decorada com poinsétias de um vermelho vivo. Uma árvore de Natal provavelmente seria montada em breve. Enquanto subiam as escadas, a conversa continuou.
— Se você gosta de natação, o Asan Hotel de Yeouido é razoável. Seis raias, então ninguém vai incomodar muito.
— Promotor Jang, você já foi ao Asan? Espera, seu avô materno não disse nada? É estranho alguém da família Segyeong ter um título de membro lá.
— Não sou exatamente um destaque na minha família. Eles nem parecem checar meu histórico.
— Verdade, hoje em dia aceitam o dinheiro de qualquer um. Este lugar costumava ser rígido sobre quem podia se associar, mas agora é tudo negócio. Da última vez, o gerente do meu local habitual trouxe a família inteira. Sabe como é constrangedor cruzar com pessoas assim no vestiário?
Jin-woo apenas deu um sorriso fraco, com uma expressão indecifrável, entre a concordância e o desdém.
Para ele, todos eram apenas pessoas comuns, de qualquer forma.
Dentro do salão de banquetes, rostos familiares se multiplicavam. Os cumprimentos interrompiam a conversa à medida que a multidão se reorganizava por antiguidade. Seon-jin manteve-se perto de Jin-woo, curioso para saber por que ele aparecera.
Jin-woo tinha sua cota de detratores, mas ainda era amplamente benquisto. Sua boa aparência era notícia velha desde os seus primeiros dias, mas agora o interesse se voltava para a herança que ele receberia e para sua habilidade como promotor.
Além disso, o encontro de hoje estava lotado de pessoas desiludidas com o partido do governo. Fazia sentido que um jovem promotor, rebaixado em uma movimentação retaliatória de pessoal após combater a corrupção, fosse recebido de braços abertos. Até mesmo veteranos que antes o achavam “desconfortável” agora batiam em suas costas, rindo alto. Observando Jin-woo receber elogios sem fim por seu “trabalho duro no exílio”, Seon-jin não pôde deixar de rir em descrença.
O convidado de honra chegou à mesa deles. Seon-jin curvou-se profundamente, embora se perguntasse se todo aquele esforço valia a pena por um simples aperto de mão.
— Parabéns pela publicação, sunbae!
— Obrigado. Oh, Promotor Jang, você também está aqui?
A vez de Seon-jin passou num instante. Jin-woo apenas deu um leve aceno de cabeça, como se já tivessem se cumprimentado antes.
Será que Jin-woo tinha alguma conexão prévia com o ex-Vice-Promotor-Geral Byun? Seon-jin não conseguia lembrar de nenhuma, mas… algo parecia fora do lugar.
Ele estudou o rosto impassível de Jin-woo, a mesma expressão que ele sempre usava, como se nada nem ninguém o interessasse. Nada parecia fora do normal, mas era suspeito da mesma forma.
— Certo, obrigado a todos. Sim, Promotor Jang, lembre-se: às 3 horas, está bem?
O cumprimentar final foi impecável. O ex-Vice-Promotor-Geral Byun até deu um tapinha no braço de Jin-woo como lembrete. Seon-jin, queimando de curiosidade, perguntou:
— Onde você vai às 3 horas?
Jin-woo olhou de lado, com uma sobrancelha ligeiramente erguida, como se dissesse: Eu realmente preciso te contar?
— Fazer um favor.
— Você?
A julgar pelo clima, parecia que Jin-woo estava fazendo um favor a eles, mas sua falta de urgência era estranha. Alguém pedindo um favor geralmente demonstrava mais desespero.
— É sobre o caso marítimo de Oseong?
— Não. Outra coisa.
— O que mais?
Jin-woo não respondeu. Apenas deu um sorriso fraco, um sinal claro para deixar o assunto para lá.
Eram amigos, mas Jin-woo ainda estava três cargos acima dele. Seon-jin fechou a boca, emburrado como uma criança levada.
Droga. Que diabo é isso? O que foi que eu perdi? Droga de manifestação de curto prazo raramente causam mudanças tão dramáticas.
A testa de Seon-jin se franziu. Seu plano de se aproximar e tirar proveito dos despojos acabara de desmoronar. Se soubesse que Jin-woo estaria tão ativo em Seul, ele próprio teria ido a Oseong para monitorar a situação.
O ex-Vice-Promotor-Geral Byun podia ser da linhagem da Promotoria Suprema, mas agora era um figurão de fora. Se ele estava se alinhando ao mundo político, devia haver um grande caso em andamento. Jin-woo estava se fazendo de desentendido, mas claramente usava todos os recursos para retornar a Seul.
Da última vez que se encontraram, Jin-woo parecia inativo, então Seon-jin o deixara em paz. Agora, ele amaldiçoava a própria preguiça. Cometera um erro.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello