Acidic Scent (Novel) - Capítulo 84
Capítulo 84
Não era tanto que ele soubesse, estava mais para algo que simplesmente se encaixara depois.
Marvin deixou a intuição afiada de Jin-woo pairar no ar, sem mais se dar ao trabalho de esconder nada. Sua guarda contra Jin-woo não havia desaparecido completamente, mas ele não sentia mais a necessidade de ocultar as coisas deliberadamente. Afinal, eram colaboradores agora. Podia haver coisas que Jin-woo não precisava saber, mas Marvin não queria criar segredos que não deveriam existir. Claro, ele esperava que o mesmo padrão se aplicasse a Jin-woo.
— Então, algo se encaixou… O que isso quer dizer?
Jin-woo perguntou como se seguisse um roteiro. Não parecia interessado em comer. Seus hashis estavam abandonados na mesa.
Marvin finalmente compartilhou uma memória que vinha guardando: a chamada telefônica que ouvira na Suíça. A voz de Kim Do-jin dizendo que o “pacote” já fora enviado para casa. Se aquele pacote era a amostra da Maxona, então quem quer que estivesse falando com Do-jin provavelmente ainda não o havia recuperado. Caso contrário, o paradeiro da amostra não continuaria sendo um mistério.
— Você foi checar isso pessoalmente?
Como esperado, o interesse de Jin-woo foi despertado imediatamente.
— Eu considerei, mas fiquei sob vigilância pesada por um tempo. Não queria dar na cara e acabar entregando informações para eles de graça. Pelo que me lembro, ele morava com o irmão, então não é como se o lugar estivesse vazio. E um item pequeno como aquele seria difícil de encontrar mesmo se eu arrombasse a casa.
Jin-woo assentiu e depois pausou, como se algo nas palavras de Marvin tivesse chamado sua atenção.
— Você ainda está sendo seguido?
— Sim, ocasionalmente.
O rosto de Jin-woo se contorceu levemente, o travessão de seu maxilar se tensionando. Marvin acrescentou, percebendo a preocupação dele:
— Não parecem ser profissionais. Eles apenas rastreiam meus movimentos à distância e nunca chegaram ao alcance da minha audição.
Era mais como pegar um relance fugaz na rua ou notar o mesmo carro algumas vezes enquanto dirigia. A vigilância fora mais intensa logo após a busca no officetel de Oseong, mas diminuíra desde então.
Vigilância era uma medida de interesse. Marvin deixara para lá para avaliar se a agência ainda estava de olho nele. Mas Jin-woo era um civil. Para ele, aquilo era uma invasão de privacidade, então seu desconforto era compreensível. Marvin sentia uma responsabilidade moral por ser quem o arrastara para aquilo.
— Não notei nada de suspeito ao redor do seu apartamento, promotor. Embora eles provavelmente saibam que estamos morando juntos.
— Isso é óbvio.
Jin-woo não parecia particularmente incomodado com esse fato.
— Como foi hoje? Eu não deveria ter contado a você sobre a exposição médica. Pode não ter sido a melhor ideia.
Não houvera sinais óbvios de vigilância, mas alguém poderia estar observando os dois dentro do salão de exposições. Mesmo se estivessem, o que poderiam fazer a respeito agora? Marvin não queria preocupar Jin-woo desnecessariamente, então respondeu da forma mais positiva possível:
— Estava lotado, então era difícil notar algo fora do normal. Mas não senti nenhuma energia estranha. Talvez não tenham nos seguido até Seul.
Jin-woo soltou uma risada curta e se levantou.
— Então eles ainda não sabem que transamos.
Marvin piscou, pego de surpresa. A conversa mudara subitamente para um terreno sem qualquer relação com o vazamento da droga de manifestação de segundo estágio. Ele não tinha certeza se Jin-woo estava falando sério ou brincando.
Marvin observou Jin-woo caminhar em direção à sala de estar.
Nós transamos.
Será que isso significava que Jin-woo via aquilo como um ponto de virada, algo que redefinira o relacionamento deles? Mesmo que tivesse sido uma piada, o fato de ele ter trazido o assunto à tona significava que tinha algum peso. O pensamento fez Marvin perceber o quanto ele próprio estivera fixado em Jin-woo. As consequências que ele tanto temera já haviam começado.
Jin-woo pegou o celular, que fora deixado no tapete da sala de estar. Ele checou as mensagens e chamadas perdidas que se acumularam durante suas… atividades, e depois caminhou de volta para Marvin.
— E então, você vai simplesmente deixar o item lá?
Seus olhos ainda estavam no celular enquanto perguntava. A conversa voltara ao ponto de partida.
— Não tenho certeza. Ter aquilo não me traz nenhum benefício imediato relevante. Mesmo que contenha o antídoto, não posso simplesmente tomá-lo sem autorização.
— Por que não?
Jin-woo ergueu os olhos do celular, fixando Marvin com um olhar firme. Marvin respondeu como se declarasse o óbvio:
— Porque é um bem nacional.
A testa de Jin-woo se franziu, e o canto de sua boca se ergueu em um meio sorriso. Ele colocou o celular sobre a mesa e cruzou os braços, estudando Marvin, o ex-agente de inteligência cuja rigidez ainda não havia desaparecido por completo.
— Não sabia que você era tão patriota.
Era meio verdade, meio mentira. Marvin era patriota, mas não era por isso que estava lidando com o problema daquela forma.
— Independentemente das minhas circunstâncias pessoais, o governo coreano pagou à Maxona por aquela amostra. Não quero estragar tudo agindo de forma inconsequente. Claro, se eu pudesse reverter minha condição, seria o ideal, mas essa é uma preocupação secundária. A prioridade é resolver a situação inteira primeiro.
Mais do que tudo, Marvin não queria se tornar cobaia de uma droga não testada novamente. Não havia garantia de que ele não entraria no rut e perderia o controle como da última vez. Se algum dia tivesse a chance de tomar o antídoto novamente, queria fazer isso direito, sob condições controladas.
— Ainda assim, poderia ser uma moeda de troca. Você disse que eles estão desesperados para encontrá-la, certo? Então deveríamos colocarmos as mãos nela e usá-la a nosso favor.
— Se isso fosse o suficiente para garantir minha reintegração, eu já teria feito. Não vai funcionar. E mesmo que funcionasse, não quero fazer as coisas dessa maneira. Minha reputação nunca se recuperaria. O senhor não se esqueceu de que ainda sou suspeito de homicídio, esqueceu?
Marvin precisava descobrir a verdade por trás da morte de Kim Do-jin. Sem resolver a raiz do problema, qualquer posição que conquistasse seria tão frágil quanto um castelo de cartas.
O assunto pesado acabou com seu apetite. Marvin deixou os hashis de lado e tomou um longo gole de água.
— Então o que acontece se eu colocar as mãos nisso?
O olhar de Marvin travou no de Jin-woo por cima da borda do copo. Tudo o que conseguiu fazer em resposta foi o som de engolir a água.
— Se você apresentar a amostra, não é chantagem, é prova material. Precisamos prender algumas pessoas-chave para resolver isso, e a pressão psicológica pode ajudar. Não seria melhor se a garantíssemos antes que seja tarde demais?
Jin-woo falou com calma. Marvin pousou devagar o copo vazio.
— Não vou impedi-lo se quiser tentar. Mas não posso garantir que ainda esteja lá.
Sua teoria de que a amostra estava na casa de Kim Do-jin na Coreia era apenas isso: uma teoria. E como ele não podia revelar nada disso publicamente, não podia exatamente mobilizar as forças policiais. Marvin não tinha ideia de como Jin-woo planejava encontrá-la.
— Esse é um problema meu, não seu. Sua irmã não mora em Ansan? É lá que fica o endereço do Kim Do-jin?
Marvin olhou para ele, um pouco surpreso.
— Como o senhor sabe disso?
— Não seria mais estranho se eu não soubesse?
Marvin inclinou a cabeça levemente. Aquilo implicava que Jin-woo esteve investigando Kim Do-jin…
Vendo a expressão surpresa de Marvin, Jin-woo descruzou os braços e deu um passo para perto.
— Você achou que eu estive de braços cruzados todo esse tempo?
— Bem… o senhor não deixou isso exatamente óbvio.
Marvin começou a dizer mais alguma coisa, mas calou-se de repente. Jin-woo se movera para o seu lado e limpou um borro de molho do queixo de Marvin com o polegar.
— Eu disse que ajudaria você. Você ainda não confia em mim?
— Ah, promotor, espere. Está sujo.
Marvin não conseguiu esconder o desconforto e o desconcerto diante do gesto inesperadamente íntimo. Jin-woo segurou o queixo de Marvin e aproximou seus rostos.
— Você não disse que gostava de sujeira? Ou já se esqueceu?
Antes que Marvin pudesse reagir, Jin-woo pressionou os lábios contra os dele. Era um beijo com o qual ele estava se tornando familiarizado demais.
Sem aviso, sem pedir consentimento. Começava suave e depois se tornava mais ousado, mais insistente. E então, exatamente como sempre, Jin-woo recuava ligeiramente para checar a expressão de Marvin. Assim como agora.
— Se quiser se lavar, pode usar o banheiro do quarto de hóspedes.
Jin-woo encerrou o beijo profundo e demorado com um leve sorriso e deu um toque fraco na bochecha de Marvin antes de se afastar sem olhar para trás.
Ele tirou a camisa enquanto caminhava em direção ao seu quarto. Logo, o som do chuveiro preencheu o ar.
Marvin ficou ali sentado por um momento, como alguém deixado sozinho em uma festa que terminara de forma abrupta demais. Ele percebeu, estranhamente, que estava esperando… mais. Mesmo que Jin-woo não tivesse sido nem um pouco indelicado, Marvin sentia uma dor incômoda e estranha, como se uma ferida que não se lembrava de ter recebido tivesse começado a infeccionar. Era a coisa mais estranha de todas.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello