Winter Field (Novel) - . ₊ ⊹ Capítulo 01.4
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 01 – O boato sobre o casal de grão-duques
Pt. 04
— Uau!
Parado num canto do quarto amplo, Rensley arregalou os olhos e soltou uma breve exclamação de admiração.
Outro homem também olhava para Rensley, atordoado ali parado, com os olhos igualmente arregalados.
O homem, que estava sentado com um livro sobre os joelhos, se levantou. Com isso, o livro caiu ao chão, mas ele parecia nem ter percebido.
— Senhor Malocen.
— Alteza, Alteza! Isso é muito divertido!
A voz de Rensley se elevou animada. Foi uma experiência incrível. Uma sensação estranha, como se estivesse caindo de um penhasco, girando pendurado em algo, ou até voando pelo céu.
Entendeu por que Gizel tinha explicado que pessoas usando o dispositivo pela primeira vez às vezes vomitavam. Felizmente, Rensley Malocen, em vez de sentir tontura, apenas se divertiu com a sensação inédita.
— Ah, a comida! Só um instante.
Rensley, que estava prestes a desabafar entusiasmado suas impressões sobre a primeira experiência com o dispositivo de teletransporte, percebeu a situação com um instante de atraso e checou o estado da comida. Ao abrir a tampa e examinar com cuidado, felizmente o interior do prato continuava com a mesma forma e o mesmo cheiro.
— Que bom. Eu tinha medo de que a comida ficasse bagunçada ao passar por esse dispositivo.
— O que aconteceu? A festa de comemoração do ingresso deve estar a todo vapor.
— Eu pensei que Vossa Alteza fosse aparecer, mas como não veio… Saí de lá fingindo que ia buscar comida para a festa e, depois de tanto tempo, resolvi cozinhar. Trouxe para Vossa Alteza experimentar.
Rensley colocou o prato sobre a mesa. Desta vez, abrindo a tampa por completo, o cheiro apetitoso e gorduroso que estava preso dentro do prato se espalhou pelo ambiente. Estava ótimo, considerando que foi feito às pressas com ingredientes limitados. Teria sido bom trazer vinho também, mas as mãos não deram conta. Enquanto arrumava a comida, Rensley não parava de conversar com Gizel.
— Vossa Alteza já jantou? Desculpe não ter conseguido cumprir a promessa de fazer muitas comidas gostosas mesmo depois de passar no exame. Foi graças a Vossa Alteza que consegui viver esse tipo de vida, e mesmo que seja constrangedor chamar isso de retribuição, de qualquer forma, demorei demais para retribuir…
Mas Gizel não respondeu. Rensley, percebendo que estava tagarelando sozinho em meio ao silêncio, fechou a boca.
Gizel ainda estava parado a uma certa distância. Ficar junto dele sem resposta fez o constrangimento, que o álcool tinha apagado, erguer a cabeça de novo. Rensley voltou a abaixar os olhos comportadamente e fingiu se concentrar em desossar a carne de frango que ainda soltava vapor quente.
— Desculpe. Estava descansando e eu apareci de repente demais, não foi?
— Não é isso.
Só então Gizel se aproximou. E, no rosto dele, visto de perto, havia aquele sorriso leve que Rensley já tinha visto passar por ali algumas vezes.
— Obrigado. Achei que estivesse no meio da festa, então fiquei surpreso com a visita inesperada.
— Ainda está a todo vapor. Quer ir comigo agora mesmo? Se Vossa Alteza for, todos vão ficar felizes.
Gizel balançou a cabeça.
— Eu não gosto muito de festas. Mesmo que eu fosse, só atrapalharia a diversão dos outros.
— Que nada. Ontem mesmo o comandante disse isso, não disse? Que se Vossa Alteza fosse, o moral subiria. Alteza, coma logo. Fica sem graça depois de esfriar.
Rensley espetou com o garfo um pedaço de carne de frango recém-cortado. Ao levá-lo diretamente perto da boca de Gizel, ele apenas ergueu levemente as sobrancelhas, mas não recusou, abrindo a boca. Rensley ficou fascinado observando a bochecha esguia se mover levemente para cima e para baixo, até o movimento de engolir a comida. O sorriso dele ficou um pouco mais forte.
— Está realmente delicioso.
— Gostou?
— Ainda mais gostoso do que a sopa da vez passada. Gostaria de poder comer todos os dias apenas comida feita pelo senhor Malocen.
Fico feliz que tenha agradado ao paladar dele… mas era um desejo simples demais para vir de um soberano que governava um país inteiro. Sem perceber, Rensley ficou com uma expressão quase de choro e assentiu.
— Vou fazer isso pra Vossa Alteza! A partir de amanhã mesmo, vou falar com a chefe de cozinha e preparar todas as refeições de Vossa Alteza eu mesmo.
— Bem, se fizer isso, sua relação com a chefe de cozinha pode ficar ruim.
— Vou conversar bem com ela. Coma mais, rápido. Fiz uma quantidade grande porque pensei em comer junto também. Seria bom se tivesse trazido vinho, mas esqueci. Combina bem quando se acompanha.
— Se é sobre bebida, tem aqui no quarto também. Quer beber?
Não havia razão para recusar. Dois copos de vidro com cabos delicadamente lapidados foram preenchidos com vinho de cor vermelho-escura.
Sentados um de frente para o outro à mesa, Rensley desossava com empenho a coxa de frango. A carne bem cozida se soltava suavemente do osso. Crocante por fora, macio por dentro, a carne cozida com aroma saboroso era, sem dúvida, um ponto alto, além de o sabor da cenoura, chalota e cogumelo também estar bem intenso — era um prato que Rensley gostava.
Mas, hoje, só de ver a comida entrando na boca do Grão Duque Gizel, a fome de Rensley já parecia desaparecer por completo, e ele nem se lembrava de encher a própria boca. Enquanto se concentrava em cortar legumes e carne, veio uma objeção suave.
— Senhor Malocen, você não está comendo.
— Ah, não é isso. Estou comendo.
— Eu também tenho faca e garfo, consigo comer sozinho. Coma.
— Sim…
Diante das palavras dele, colocou também comida na própria boca, mas depois de comer alguns pedacinhos, logo se sentiu satisfeito. Não tinha comido muito, mas, estranhamente, não tinha apetite.
Que um dia sem apetite chegasse a Rensley Malocen, que sempre comia bem e dormia bem em qualquer situação… Mesmo já tendo bebido bastante no salão de festas, sua mão continuava indo apenas em direção ao copo de vinho.
Mas a refeição, que continuava lenta, finalmente chegou ao fim. Depois de terminar até o resto do vinho, a cabeça ficou ainda mais nublada pela embriaguez. Rensley olhou para baixo, para a mesa.
O som da música chegava fracamente até o quarto do Grão Duque. De tão animada que a festa estava, o som dos instrumentos chegava até o andar mais alto da torre principal? Rensley riu levemente.
— Parece que todo mundo está bem animado.
— Que tal voltar agora e participar?
— Vossa Alteza realmente não se importa de não ir?
— Eu não sei dançar nem gosto de música. Está tudo bem.
— Não sabe dançar?
Fazia apenas alguns dias que imaginara ele abraçando a verdadeira Grã Duquesa Consorte e dançando. Rensley mexeu os dedos, provocando-o de brincadeira.
— Isso não pode, Alteza. Como já falei da última vez, quando receber a verdadeira Grão Duquesa Consorte, vai precisar dançar para criar o clima. Dançar é uma virtude essencial para um homem.
— Deve haver outros métodos.
— Como Vossa Alteza é bom em tudo, logo vai se acostumar com a dança também. Está bem. Vou ensinar. Já que estamos satisfeitos, vamos nos mexer um pouco.
Antes mesmo que Gizel respondesse, Rensley já tinha se levantado primeiro. Gizel, sem se levantar da cadeira, olhou para Rensley um tanto sem jeito.
— Existe dança para se dançar entre dois homens?
— Todo mundo, quando pratica pela primeira vez, se reveza entre o papel masculino e feminino, não é? Eu sou bom nos dois, não precisa se preocupar. Já ensinei uma carroça cheia de pessoas a dançar bem na Cornia.
— O senhor Malocen gosta mesmo de ensinar. Talvez tenha vocação de professor.
— Como Vossa Alteza me ensinou muitas coisas, também quero poder ajudar.
Gizel se levantou, como quem não tem escolha. Rensley segurou a mão dele e se aproximou da janela. Perto da janela não havia outros móveis, então havia bastante espaço livre, e a música também se ouvia melhor.
— Mas o senhor deve ter aprendido pelo menos a postura básica, não é? Coloque a mão direita ao redor da minha cintura. A esquerda, segure assim.
— Assim, é isso?
— Sim. E os pés, assim, assim… pense em levar um lado primeiro e depois seguir com o outro, imaginando desenhar um triângulo enquanto se move. Dá pra ir para trás, dá pra ir para o lado também. Não precisa se mover muito e não é difícil. Existem vários tipos de dança, mas quando estiver criando clima com a Duquesa mais tarde, esse tipo de dança vai ser o mais adequado. Danças com movimentos grandes e animados são mais para quando várias pessoas se divertem numa festa; quando estão só os dois, é melhor uma dança em que ficam colados, se movendo aos poucos.
— Está certo.
Apesar de ter dito que não sabia dançar, Gizel já parecia bastante acostumado, quase liderando discretamente os movimentos de Rensley. De vez em quando contando os passos, cantarolando baixinho para marcar o ritmo, Rensley sorriu e o elogiou.
— Realmente aprende rápido.
O luar entrava pela janela, tornando o local bastante claro mesmo sem a luz das velas. O olhar de Rensley grudou de forma descarada no rosto voltado para ele. O rosto dele, iluminado pela luz branca da lua, era diferente de quando o via no porão, ou de quando o encontrava durante o dia no escritório ou no campo de treino.
O cabelo negro e comprido brilhava aqui e ali em prata, onde a luz se acumulava. No rosto esculpido como escultura, formavam-se sombras suaves, mas com contraste bem definido. Os olhos âmbar pareciam de um marrom mais claro, e talvez por isso, a expressão dele voltada para Rensley também parecesse mais suave do que o normal. Rensley engoliu em seco e emendou um assunto qualquer sem importância.
— Achei que, depois de entrar na Ordem, poderia ver Vossa Alteza a qualquer momento, mas não era assim. Tentei entrar pela porta principal, mas fui barrado por um guarda e não consegui.
— Então usou o dispositivo.
O sorriso voltou a se formar no canto da boca de Gizel.
— Obrigado por vir até aqui, mesmo com tanto esforço.
— Bom… é que fiz comida para trazer para Vossa Alteza.
Embora, no começo, tivesse começado a cozinhar porque estava com fome, era verdade que, assim que se colocou diante do forno, a pessoa que lhe veio à mente foi o Grão Duque Gizel.
Rensley continuava olhando para ele sem sequer piscar direito. As expressões sutis que sopravam e desapareciam como uma brisa leve por cima daquele rosto frio e elegante eram, de fato, como verdadeira magia. O olhar de Gizel também continuava fixo em Rensley, sem se afastar.
Estavam tão próximos que nem precisava erguer a voz. Depois de um tempo com os lábios fechados, a voz baixa de Gizel escapou como um sussurro.
— Na verdade…
— Sim?
— Achei que o senhor Malocen não fosse mais me procurar.
— Como assim? Por quê?
— Já entrou na Ordem, agora pode sair livremente, então deve ter muita coisa divertida para fazer. Como o senhor Malocen gosta de se divertir em grupo, animado, o tempo comigo deve ser entediante.
Rensley balançou a cabeça, surpreso. Sem perceber, atrapalhado, apesar de não estar tentando se desculpar, as palavras vieram rápido.
— De jeito nenhum. Não importa o quê, não existe ninguém tão próximo quanto Vossa Alteza, e o momento em que estou com Vossa Alteza é o que eu mais gosto.
— Fico feliz de ouvir isso.
E, de forma rara, ele ficou em silêncio, com os lábios levemente entreabertos, como quem hesita. Depois de um breve intervalo, a voz, um pouco mais baixa, continuou.
— Parece que o senhor ficou muito próximo de outras pessoas, então talvez eu tenha ficado… um pouco solitário.
Desta vez, Rensley não conseguiu responder. Diante de palavras inesperadas, apenas olhou para cima, para o homem à sua frente, atônito.
Não era nada demais. Se fossem amigos, seria o tipo de coisa que provocaria brincadeiras, tipo “ah, então ficou emburrado?”, com um tapinha no ombro. Mas, diante daquelas palavras de Gizel Zibedad, não surgiu nem um pingo de vontade de fazer piada. As pulsações, que tinham se acalmado momentaneamente com o álcool e a música, voltaram a acelerar como loucas.
Tum, tum, tum. E aquele batimento, como a mana que dá vida à magia, acendeu um impulso, e fez Rensley se mover antes mesmo de ordenar os próprios pensamentos.
O pé que, ultimamente, sempre parecia flutuar um palmo acima do chão, agora realmente se afastou do solo. Rensley se ergueu na ponta dos pés e ergueu o rosto.
Com os olhos fechados, a sensação dos lábios que se tocaram foi suave como um sonho. Os lábios daquele homem, que só de aparência pareciam frios, eram tão quentes quanto suas mãos. Mesmo apenas se roçando de leve, eram lábios que davam uma sensação boa.
Depois de aproveitar por um breve momento aquele calor desconhecido, Rensley abriu os olhos de repente. Só ao cruzar o olhar, bem de perto, com os olhos cor de âmbar que o observavam, é que recobrou os sentidos e se afastou.
— Ah…?
Quem soltou aquele som atordoado foi Rensley.
Gizel, sem sequer um gemido, apenas olhava para Rensley com os olhos arregalados de surpresa. Rensley tateou lentamente os próprios lábios. A sensação deixada por aquele ato ousado era assustadoramente vívida.
Não era sonho, nem alucinação, nem magia. O rosto de Rensley ficou vermelho num instante. Suor frio começou a se formar nas costas e nas palmas das mãos.
— Des-des-desculpe… Alteza, me desculpe. Eu, eu enlouqueci…
Louco! Ingrato desgraçado que retribui um favor com desejo impuro! Morra!
Rensley se amaldiçoou por dentro enquanto recuava. Só então percebeu Gizel dando um passo hesitante à frente. Antes que pudesse ser agarrado, arrombou a porta do quarto com o corpo inteiro e saiu correndo.
— Quem está aí!
Os guardas, surpresos com Rensley aparecendo de repente, tentaram detê-lo, mas ele não parou. Correndo, deixando para trás o som dos guardas o perseguindo, Rensley desceu a escada e virou pelo corredor do segundo andar. Enquanto os perseguidores se perdiam por um instante, ele abriu a janela e pulou rapidamente para fora.
Não queria voltar para o salão de festas, nem ir para onde estava a cozinha ou qualquer outro lugar com pessoas. Sem sequer vestir o casaco direito, exposto ao vento frio da noite que soprava forte, Rensley ficou parado no jardim por um instante, depois decidiu para onde ir e correu com todas as forças.
Ao abrir bruscamente a porta de um lugar onde a luz da lanterna ainda estava acesa, um homem de meia-idade, que trançava palha para se ocupar, se virou surpreso.
— Ué, Ren. O que houve nessa hora?
— Hans! Vou ficar um pouco no estábulo e já volto. Queria ver a Marilyn.
— Você disse que criava essa égua desde a Cornia, e realmente parece que gosta muito dela. Faça como quiser. Só não faça muito barulho.
Rensley assentiu e entrou no estábulo. Como era noite, os cuidadores dos cavalos, com exceção de Hans, já tinham voltado; estava tudo tranquilo, sem ninguém.
Naquele momento, os cavalos também estavam em horário de descanso. Dentro do estábulo, cada um passava o tempo à sua maneira. Alguns bebiam água, outros deitavam ou se sentavam para descansar, e outros ainda ficavam de pé, como que se preparando para passar a noite assim.
Marilyn estava deitada descansando sobre um chão fofo, coberto de feno limpo. Quando Rensley entrou, ela piscou os olhos e olhou para ele como se perguntasse o que estava havendo.
Rensley se deixou cair, quase desabando, ao lado dela. Enterrando o rosto no flanco firme, suspirou como um criminoso confessando um crime.
— Marilyn… fiz uma besteira…
Prrrr. Uma pequena resposta veio de volta.
— É, não é a primeira vez, eu sei. Mas dessa vez fiz uma besteira das grandes de verdade. O que eu faço…? Finalmente estava conseguindo viver bem aqui com você, e agora posso acabar sendo expulso…
Tudo foi por água abaixo. Estava tudo perfeito demais, e ele mesmo estragou com as próprias mãos. Rensley cobriu o rosto e gemeu baixinho, uh, uh.
Quando veio para o norte no lugar de Yvette, ele até temia ser decapitado assim que chegasse, mas todos tinham sido gentis. O Grão Duque, de quem se dizia ser terrível como um monstro segundo boatos abundantes, era uma pessoa boa demais.
Só por ter mantido sua vida como falsa Grã Duquess Consorte, já teria motivo para agradecer centenas de vezes, e ainda por cima ele lhe abriu a oportunidade de entrar para a Ordem, o sonho de infância dele, e ainda ajudou pessoalmente no exame de ingresso. Chamando-o de seu hóspede, deu até dois quartos, e um rei de um país inteiro chegou a criar um dispositivo mágico exclusivo só para que Rensley pudesse entrar e sair livremente do quarto e do laboratório dele…
E, a uma pessoa tão nobre e generosa como essa, em vez de retribuir a bondade com lealdade, ele nutrira sentimentos impuros.
— Merece mesmo ser expulso…
Por mais gentil que ele fosse, mesmo assim, o próprio fato de ter sido ele mesmo, Rensley, quem beijou primeiro um homem, também era surpreendente. Nunca imaginara nem em sonho que tivesse esse tipo de inclinação por homens.
Mesmo entre as pessoas com quem convivia de perto na Cornia, havia algumas que só se apaixonavam por pessoas do mesmo sexo. Na Cornia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo era proibido, mas, ainda que não se casassem, existiam pessoas que namoravam secretamente, tanto homens quanto mulheres. Mesmo ouvindo lamentações ou conversas particulares delas de vez em quando, para ele era completamente algo alheio, apenas um episódio que ele ouvia balançando a cabeça, concordando por educação — nunca tinha pensado que um dia isso se tornaria a própria história dele.
O mais absurdo era que, mesmo agora, naquele exato momento, sua cabeça insolente continuava relembrando o beijo de há pouco, e o desejo carnal descarado que sentia. Rensley tinha consciência de que aquilo era mais uma lembrança movida pela cobiça de querer sentir mais aquela sensação doce do que um arrependimento acompanhado de remorso. Como poderia enganar a si mesmo?
— Ele deve estar me desprezando, não é…? Deve estar furioso… Estou com medo, não consigo nem sair daqui… Mas, se de qualquer jeito vou ser expulso, será que não devia ter ido mais longe ainda há pouco…? Eu enlouqueci mesmo, não foi, Marilyn?
Prrrr. Marilyn respondeu mais uma vez. Rensley deu tapinhas na perna dianteira firme dela.
— Tudo bem. Como é uma pessoa generosa, ele não vai te expulsar também. O Hans vai cuidar bem de você, então fique saudável. Fiquei muito feliz de poder te encontrar de novo…
Se soubesse que ia ser assim, teria sido melhor ter aceitado tranquilamente quando o comandante Anton ofereceu escrever uma carta de recomendação para as terras de um nobre chamado Pe… alguma coisa. Assim, ao menos teria conseguido se retirar com honra, mas agora parecia destinado a ser expulso como um traidor.
— Não, espera. Já é uma sorte não ser condenado à morte… Se fosse na Cornia, seria decapitação por crime de insulto à realeza…
— Exagero demais ser decapitado por algo assim.
Diante da voz vinda de repente atrás dele, Rensley quase gritou. Com a determinação de não assustar os cavalos que estavam descansando, conteve o grito e se virou devagar, rangendo.
Exatamente a pessoa que ele esperava estava parada bloqueando a porta do estábulo, como mais uma porta.
— Al-Alteza… como…
Tão rápido assim…
Enquanto ele gaguejava, incapaz de terminar a frase, viu Gizel guardar um objeto que segurava dentro da capa. Estava escuro, então não era possível ter certeza, mas parecia um pequeno espelho.
Gizel soltou um suspiro leve. Ele abriu totalmente o que segurava na outra mão. Era uma capa forrada de pele, para se proteger do frio.
— Venha aqui. Suas roupas estão uma bagunça.
— Es-estou bem. Não estou com frio.
Naquele momento, para Rensley, aquela capa parecia uma rede de captura. Se a vestisse, seria capturado ali mesmo, jogado numa prisão, torturado como punição por, sendo apenas um hóspede, ter ousado sujar os lábios do rei, e por fim expulso.
— Os guardas…
— Já mandei que voltassem para os postos, então não precisa se preocupar.
“Ele até resolveu essa situação toda. Vou apresentar desculpas com toda a sinceridade.”
Rensley ajeitou a postura e se sentou ereto. No exato instante em que ia curvar a cabeça, uma voz firme veio do outro lado.
— Não se curve.
— …Sim…
— Levante-se e venha para cá logo.
Rensley não teve escolha a não ser se levantar cambaleando. Ao se aproximar dele com a cabeça bem baixa, quase dobrada, a capa foi colocada sobre seus ombros. Estava tão consumido pela vergonha e pelo desespero que nem tinha percebido o frio, mas ao ser envolvido pela capa, sentiu de forma clara e repentina que seu corpo estava gelado como gelo.
O coração, que estava contraído e endurecido, se soltou de repente com aquele calor. Já um cavaleiro e tudo, e ainda assim, idiotamente, as lágrimas subiram sem controle, e Rensley esfregou as pálpebras com as costas da mão. O homem que o observava apenas perguntou, como se estivesse curioso.
— Por que está chorando?
— Porque sinto muito.
Rensley logo parou de chorar e recuou alguns passos. Não tinha como evitar que os olhos ficassem vermelhos, mas, ainda assim, ergueu o olhar bem para ele e falou.
— Alteza, sinto muito mesmo. Vossa Alteza me concedeu uma bondade enorme, e eu retribuí com um ato ingrato. Mesmo que Vossa Alteza deseje me punir ou me expulsar, é perfeitamente compreensível. Vou sair da Ordem também. Não vou mais permanecer em Oldenrant, então por favor, me perdoe.
— O que exatamente quer que eu perdoe?
— O que eu ousei… fazer com Vossa Alteza, um ato desleal e impuro…
Mas a expressão de Gizel não mudou em nada. Ele balançou a cabeça e disse, num tom tranquilo, como se perguntasse qual era o problema.
— O senhor Malocen é, agora, a minha Grã Duquesa Consorte. Só porque me beijou, isso não pode ser chamado de ato desleal ou impuro.
— …O quê?
Quem franziu a testa dessa vez foi Rensley. Achou que talvez tivesse entendido errado, mas a explicação que se seguiu também não foi diferente.
— Estou errado? Nós nos casamos, e não importa o que aconteça depois, agora o senhor é minha Grã Duquesa Consorte, não é?
— Isso é verdade, mas… ainda assim, eu sou temporário, é uma farsa…
— Como já disse antes, não importa qual seja o nosso objetivo, a cerimônia de casamento em si foi verdadeira, realizada diante de um sacerdote.
— Mas eu sou homem, sabe…? Vossa Alteza não ficou incomodado…?
— Nunca julguei uma pessoa pelo fato de ser homem ou mulher, então não sei dizer. Além disso, Oldenrant é um país que já teve, de fato, um Grão-Duque Consorte homem.
Rensley apenas piscava os olhos. A garganta subia e descia de tensão. Por mais que torcesse e virasse a conversa de todos os jeitos, parecia dizer que, de qualquer forma, ele não pretendia expulsá-lo.
Enquanto se esforçava para manter o olhar fixo naquele que o observava sem desviar, Gizel resumiu a situação.
— Está bem. Bebeu bastante e ficou muito tempo na festa hoje, então seu humor deve estar mais elevado do que o normal. Vou considerar o que aconteceu há pouco como um engano. Então, vamos voltar para a torre principal agora.
“Engano?”
Rensley piscou os olhos. Era uma palavra que dizia que ele o perdoaria e deixaria passar, então deveria estar pulando de alegria e agradecendo com reverência, mas, estranhamente, aquela frase deixou seu peito vazio. Enquanto ele ficava parado sem se mexer, Gizel insistiu de novo.
— Senhor Malocen.
— …Não foi engano.
Gizel fechou a boca, e Rensley baixou o olhar. Tinha consciência de que aquilo era como chutar uma sorte que tinha caído do céu, mas, mesmo assim, havia coisas que não podia deixar passar.
— Não foi por engano, Alteza. Agradeço de coração por ter me perdoado, mas… acho que não foi engano…
— Se não foi engano, então por qual motivo foi?
Rensley não respondeu de imediato; em vez disso, tentou às pressas entender seu próprio coração. Nunca tinha se sentido atraído assim na Cornia, e agora, a ponto de beijar primeiro, o que estaria acontecendo com ele, envolvido por aquele homem?
Se seria um excesso de lealdade nascido em relação a um novo soberano, se estaria dando significado demais a uma bondade concedida numa situação desesperadora, se estaria se enganando de várias formas… Mas, seja qual fosse o engano, não queria que o beijo de há pouco fosse tratado como um mero deslize causado pela bebida.
“Será que posso dizer que gosto dele…? Não. Dizer isso seria precipitado demais…?”
Quanto mais a preocupação enchia sua cabeça de barulho, mais silencioso ficava o estábulo. No fim, foi Gizel quem falou primeiro.
— O senhor Malocen me vê como objeto de desejo sexual?
— O quê? Não! Ah, não é isso. É isso mesmo?
Rensley, atrapalhado em busca de uma resposta, foi ficando cada vez mais abatido. Depois de mover os lábios sem emitir som, quando finalmente conseguiu dizer algo, a voz saiu extremamente baixa.
— Sim… acho que é isso mesmo…
— Então o beijo de há pouco não foi um sinal de amizade, lealdade ou respeito.
Ah, é, dava para ter dito isso também…
Só agora Rensley percebeu que, antes de sair correndo, poderia ter contornado a situação de forma habilidosa. Se estivesse em seu juízo perfeito, teria feito exatamente isso, mas, momentos antes, tinha ficado tão perturbado consigo mesmo que perdeu completamente a razão.
No silêncio, Gizel inclinou levemente a cabeça.
— Na verdade, não sei bem.
— O quê…
— Se não foi engano, nem um beijo de amizade ou respeito, então o beijo de há pouco significava que o senhor quer dormir comigo? Já que beijou enquanto dançávamos, se for como o senhor me ensinou da última vez… acho que está fazendo o procedimento anterior ao ato de dormir junto comigo…
— Não é simplesmente por esse motivo. Talvez, talvez eu…
Rensley não conseguiu prontamente completar a frase.
Talvez eu goste de Vossa Alteza. Nessas situações, não é normal pensar que é por gostar? Mas Vossa Alteza também não é uma pessoa normal, e provavelmente não tem esse tipo de sentimento por mim, e falar de algo emocional assim para alguém que precisa receber uma nova Grão Duquesa Consorte no futuro só vai ser um transtorno…
Rensley só explicava tudo com afinco por dentro, e lambeu os lábios secos mais uma vez.
— Se… se eu disser que é isso… o que Vossa Alteza pretende fazer?
— Como assim?
— Se eu disser que beijei com esse tipo de pensamento… nesse caso, Vossa Alteza vai me punir ou me expulsar?
A expressão de Gizel não mudou.
— Como já disse, agora o senhor é minha Grão Duquesa Consorte. Não importa com que intenção tenha me beijado, isso não é motivo para punição.
— En-então.
Rensley sentiu o rosto esquentar. A lógica de Gizel parecia, à primeira vista, fora do senso comum, mas, ao tentar encontrar alguma falha nela, não conseguia achar nenhuma. Então, segundo a explicação dele, também não haveria problema com a pergunta de Rensley.
— Posso fazer de novo?
— …Quer fazer de novo?
— Se estiver tudo bem para Vossa Alteza…
Mesmo depois de dizer isso, sentiu vergonha, e o rosto continuava se inclinando para baixo. Como era o local onde os cavalos dormiam, não estava frio, mas o estábulo não era tão quentinho quanto o quarto da torre principal. Mesmo assim, o corpo estava quente.
Ao sentir Gizel se aproximando, Rensley ergueu a cabeça. Antes mesmo de os olhares se cruzarem, sentiu um braço dele envolvendo sua cintura e o outro braço envolvendo seu ombro. Talvez por não querer aplicar muita força, o braço firme apertou o corpo de Rensley apenas o suficiente, na medida exata.
Ele inclinou a cabeça, e pela segunda vez os lábios se encontraram. Diante da sensação da pele mais suave e delicada do rosto se tocando, Rensley, sem perceber, prendeu a respiração. Nunca imaginou que ele fosse beijar primeiro. Os olhos se fecharam por conta própria. Os ombros tremeram e os lábios se entreabriram naturalmente.
A respiração fina tremeu escondida. O beijo durou bastante tempo, mas, durante todo o período em que Rensley manteve os olhos fechados, Gizel apenas manteve os lábios levemente tocando, sem fazer mais nada. No fim, Rensley abriu os olhos, virou levemente a cabeça e perguntou com cuidado.
— Alteza… se estiver tudo bem, posso colocar a… língua na boca de Vossa Alteza?
— Língua?
— Sim. Normalmente, o beijo antes de dormir junto é feito assim.
— Então nossos rostos vão ficar completamente colados…
Gizel piscou os olhos uma vez. O olhar de Rensley seguiu o trajeto dos longos cílios se movendo para cima e para baixo.
— O nariz não vai atrapalhar?
Rensley quase riu alto, esquecendo a situação. Conteve o riso que quase escapou, transformando-o num sorriso leve, e inclinou o rosto para o lado.
— Assim não esbarra.
Desta vez, foi Rensley quem aproximou os lábios primeiro. Ao se encaixarem profundamente, entre os lábios finalmente entreabertos, Rensley empurrou a língua para dentro.
Comparado ao rosto sempre inexpressivo, o interior da boca era mais sincero. A língua, que deveria estar macia, não conseguia esconder os sentimentos do dono e estava rígida. Diante daquele desconcerto do homem, que parecia sempre calmo sem saber o que se passava no interior dos outros, Rensley sentiu o próprio nervosismo, ao contrário, se acalmar aos poucos.
Ao remexer devagar dentro da boca, aquele que estava enrijecido também foi respondendo aos poucos. Com cuidado, lambia a ponta da língua e, de vez em quando, sugava suavemente. Imitando Rensley, tentando várias coisas, os movimentos dentro da boca dele eram cuidadosos como quem rola uma bola de vidro prestes a se quebrar a qualquer momento.
Era a primeira demonstração desajeitada do rei do norte, competente em tudo. Sem perceber, Rensley foi apertando cada vez mais forte a cintura dele. Empurrou a língua mais um pouco e lambeu lentamente o interior da boca.
— Ah…
Mas foi dos lábios de Rensley que escapou o gemido, na verdade. Isso porque Gizel, de repente, inclinou profundamente a cabeça. O braço que envolvia suas costas também ganhou mais força.
A língua alcançou o mais fundo da boca. As partes que se sobrepunham se esfregavam com impaciência, e, com isso, um pouco de saliva escorreu, molhando os lábios. Com o beijo se aprofundando e a força do braço abraçando com intensidade o corpo, Rensley logo teve dificuldade de respirar.
Ofegante, Rensley acabou tendo que jogar a cabeça para trás para se libertar daquele beijo que parecia uma prisão. Só então Gizel afrouxou a força do braço.
— Ah, Alteza…
— Você está bem? Desculpe.
— Não. Fiquei sem ar por um instante, só isso.
Então Gizel baixou levemente o olhar. Originalmente já era um homem de poucas expressões, mas, ainda assim, costumava haver alguma variação; agora, porém, o rosto dele era algo que nem Rensley tinha visto antes. Como se estivesse constrangido com algo, ficou rígido, cobriu a boca com a mão e murmurou como uma criança tímida.
— …Isso… é surpreendentemente bom.
Rensley não respondeu mais nada, e imediatamente segurou as duas bochechas dele. Beijou-o de novo, apressadamente.
Beijo, beijo. Fazendo um som parecido com o de brincar à beira de uma fonte, os lábios se encontraram várias vezes. Ao recuperar a consciência, os dois já estavam ajoelhados no chão, e Rensley estava quase completamente envolvido pela ampla capa de Gizel, recebendo os beijos dele.
O contato se aprofundou num instante. Como era de se esperar do Grão-Duque Gizel, que aprendia tudo rápido, o beijo já estava mais habilidoso do que no começo.
Enquanto ele explorava o interior da boca sem deixar nenhum canto de lado, respirando com esforço, sugava suavemente a ponta da língua. Depois de sugar a língua algumas vezes, as bochechas de Rensley começaram a formigar.
Rensley também lambia dentro da boca dele, mas o beijo de Gizel foi se tornando cada vez mais ousado. Numa posição de quem tinha jurado lealdade, como não receber por completo o primeiro beijo entusiasmado do soberano? Com uma sensação de dormência tomando o rosto inteiro, sua força foi se esvaindo, e em algum momento Rensley se concentrou apenas em abrir a boca e engolir a língua dele.
— Hmm…
Os lábios de Rensley começaram a tremer cada vez mais. A respiração ficou ofegante, e não eram apenas os lábios, mas o corpo inteiro que começava a esquentar. Não podia agir por conta própria e cometer alguma falta de educação. Sem saber o que fazer, apenas se agarrava, sem escolha, às costas daquele que pressionava seus lábios.
— Uhh, mm…
Diante do gemido que escapou sem que ele conseguisse conter, sentiu a respiração de Gizel ficar um pouco mais agitada. Quando a língua de Gizel esfregou de novo, mais intensamente, atrás dos dentes e no céu da boca, os ombros e as costas de Rensley também estremeceram. Esse movimento provavelmente foi transmitido também ao braço que abraçava suas costas. Os lábios, sobrepostos por tanto tempo, finalmente se afastaram devagar.
— Haa… dói?
— Não. Não, Alteza…
Rensley balançou a cabeça, engolindo a respiração ofegante. Encarando Gizel, sussurrou uma impressão sincera.
— Está bom…
Gizel o observava fixamente. Ele perguntou baixinho.
— Posso beijar em outro lugar?
— Outro lugar?
Rensley perguntou de volta, mas mesmo assim balançou a cabeça. Então Gizel inclinou de novo a cabeça profundamente. Os lábios quentes, desta vez, tocaram ao lado da orelha, a linha do queixo, a nuca. Diante do beijo repentino, o ombro de Rensley se sobressaltou ainda mais do que antes.
— Haah, ah…
O gemido que escapou sem tempo de ser contido soou excessivamente excitado, e Rensley fechou a boca depressa. Esforçando-se para controlar a respiração, que ficava cada vez mais descompassada, segurou o ombro de Gizel.
— Alteza, por que aí…
— Queria experimentar.
Foi uma resposta que não deixava mais nada a dizer. Os lábios, que tinham começado abaixo da orelha e percorrido vários pontos do queixo, passaram pela bochecha e chegaram perto da sobrancelha.
A bochecha ou a testa eram lugares onde, entre amigos de longa data ou colegas próximos, um beijo leve podia ser trocado sem problema. Mas a pele, já quente, fazia o corpo tremer de susto mesmo com aquele toque leve.
— Está com frio?
Gizel perguntou de novo. Rensley, em algum momento, tinha as costas apoiadas num monte de feno que se acumulara. Sem perceber, foi recuando cada vez mais para trás e, sem se dar conta, chegou perto da parede.
O interior da garganta estava pesado. Como se tivesse acabado de correr, o coração disparava, e sem ter feito nada, a visão ficava turva. Rensley piscou algumas vezes para ajustar a visão, que ficava tonta. Engoliu em seco e devolveu a mesma pergunta que ele tinha feito antes.
— Eu também… posso beijar em outro lugar?
Ele assentiu. Embora tivesse vestido a capa por fim, um pouco atrasado, Rensley, que tinha saído correndo apenas de camisa, com o pescoço e a clavícula completamente expostos, era diferente de Gizel, que, como sempre, estava completamente coberto pela capa negra e pelo traje formal.
Rensley olhou para o rosto dele, depois deslizou os lábios pelo dorso do nariz. Beijou também a bochecha e a orelha. Depois, quando se encararam novamente, a expressão de Gizel parecia mais tomada de calor do que instantes antes. Quando Rensley juntou de novo os lábios aos dele, a língua que remexia o interior ficou ainda mais impaciente.
Não podia ficar a noite inteira só se beijando, mas não conseguia decidir o que fazer em seguida. Mesmo com a cabeça ficando cada vez mais nebulosa, Rensley não conseguia apagar um sentimento parecido com ansiedade, e o coração continuava batendo forte.
Cada vez que os lábios se tocavam, o sinal enviado pelo corpo, que esquentava, era claro. Se aquele beijo de agora estivesse acontecendo numa taverna tarde da noite ou no estábulo de uma pousada, e se a outra pessoa fosse uma moça de família comum que veio se hospedar por uma noite, ou uma funcionária de alguma loja, o assunto que precisariam trocar em seguida seria óbvio.
Mas a outra pessoa era o soberano deste país, e ainda por cima, um homem. Como ele tinha dito que não tinha experiência, no fim das contas seria o próprio Rensley quem teria que conduzir o que viria depois, mas se poderiam avançar para a próxima etapa, e se isso seria sequer possível, nem o próprio Rensley conseguia saber.
Prrrrr.
Nesse momento, diante da voz da espectadora vinda de ao lado, Rensley abriu os olhos, que mantinha fechados com força. Gizel também parou o beijo e virou a cabeça. Diante daquele rosto que fazia esquecer por um instante a preocupação ardente, Rensley ficou distraído por um momento, depois riu baixinho.
— A Marilyn está vendo tudo.
— É verdade. Parece que estamos atrapalhando o descanso da égua.
Ao recobrarem a consciência, os dois estavam com uma aparência lastimável. Na majestosa capa negra do rei que governava Oldenrant, havia farelos de feno grudados aqui e ali, e o cabelo comprido de Rensley, que ele próprio ficara passando a mão sem parar, também estava mais desalinhado do que o normal.
Nem é preciso falar de Rensley. Já quase rolando sobre o monte de feno, ele estava com uma aparência que faria qualquer um acreditar que morava ali no estábulo. Talvez pensando algo parecido, Gizel enfiou o braço por trás das costas de Rensley e o levantou.
— Vamos entrar. Assim o senhor Malocen vai acabar pegando um resfriado.
— Alteza…
— Sim.
Apesar de continuar sem conseguir decidir o que fazer, quando Gizel foi o primeiro a se mover para encerrar aquele momento, as palavras escaparam sem controle.
Rensley manteve a boca firmemente fechada enquanto olhava para cima, para ele, mas, no fim, deixou as palavras escaparem.
— Hoje… Vossa Alteza permite que eu durma no seu quarto?
— Claro que sim. Sempre que precisar, pode dormir junto quando quiser.
Diante da resposta imediata, sem a menor hesitação, Rensley ficou, ao contrário, ainda mais inquieto. Não era apenas para dormir que ele estava pedindo — será que ele tinha entendido o que aquilo significava?
Enquanto isso, Gizel fez Rensley enlaçar a mão em torno da cintura dele. Ele sussurrou:
— Segure firme.
— O quê? Por quê…
Mas, antes mesmo de terminar de falar, uma sensação estranha, como a de o corpo estar caindo, o dominou de repente. Num piscar de olhos, Rensley já estava de volta ao quarto do Grão-Duque.
↫─✧ Fim do capítulo.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna