The Hound Behind The Mask (Novel) - ↫─Capítulo 02
↫─Capítulo 02
Lee Jaeha dirigia o carro desesperadamente, como se tentasse se afastar o máximo possível do hotel onde havia se encontrado com Jang Taegun.
Mesmo pensando que não conseguia entender as próprias ações, ele fugiu primeiro. Era impossível permanecer em Seul. Sentia-se patético pelas coisas que havia feito.
Esquecendo-se completamente de que tinha reservado um quarto de hotel, ele voltou direto para casa e teve que tomar um banho imediatamente.
Tinha a ilusão de que os feromônios de Jang Taegun ainda estavam grudados em sua pele e sentia que, se os deixasse ali, acabaria cometendo alguma loucura.
O fato de seu próprio corpo exalar o aroma daquele homem o deixava louco de prazer. Não tinha sido por muito tempo, apenas o tempo de uma refeição. Ter sido dominado pelos feromônios dele, como um ômega marcado, apenas por encará-lo durante aquele curto período de pouco mais de uma hora a uma hora e meia, era um absurdo.
Tomado por um sentimento de autoaversão, Lee Jaeha segurou o próprio membro sob o chuveiro. A ponta havia inchado por conta própria. Não era o seu período de rut, mas era ridículo como ele parecia ansiar pelo knotting, estando tão absurdamente avermelhado.
Aquela aparência levou Lee Jaeha ao limite. Seus dedos dos pés molhados se curvaram para dentro. O abdômen inferior ficou rígido e o sangue fluiu intensamente para o seu membro.
O membro ereto de Jaeha ficava cada vez mais vermelho. Sofrendo com o corpo ardente, ele se encostou na parede fria de azulejos. Assim que a ponta tocou a superfície gelada, uma forte urgência urinária o atingiu. No momento em que tentou segurar, a uretra se abriu e fechou sozinha.
Desde algum tempo atrás, seu membro de cor clara costumava ficar vermelho vivo com o menor estímulo. Quando a abertura da uretra se expandia levemente na ponta da glânde avermelhada, como se fosse uma pequena boca, a cor mudava para um tom mais rosado. Hoje não foi diferente.
Jaeha bateu a testa contra a parede de azulejos, cerrando os dentes e gemendo. O músculo masseter saltou devido à força que aplicava na mandíbula.
Seus olhos se fecharam involuntariamente. O clímax o atingiu no exato momento em que visualizou Jang Taegun, sentado à sua frente, abrindo a boca para engolir o pedaço de carne que havia cortado.
Ficar excitado apenas vendo outra pessoa comer. Se isso não fosse pura loucura, o que seria? Jaeha soltou um longo suspiro enquanto deixava as evidências do seu orgasmo escorrerem pelo ralo.
Ficou com calor por permanecer tanto tempo sob a água quente. A partir dali, ele ligou a água no máximo da fria, resfriando o corpo avermelhado enquanto ficava parado, com o olhar vago.
O feromônio de Jang Taegun que havia pousado em sua pele já devia ter sido apagado há muito tempo. Mesmo assim, ele não teve escolha a não ser continuar daquele jeito.
Foi só depois de um bom tempo que ele saiu debaixo do chuveiro. Vestiu a primeira roupa que alcançou com as mãos. A água pingava de seu cabelo molhado. Gotas de água deixaram rastros em seu moletom, que tinha o logotipo de sua antiga universidade da época em que estudou no exterior estampado grande na frente.
Era uma peça que ele usava ocasionalmente para ir ao boxe e, para Jaeha, que não se importava com roupas a menos que fossem os ternos sob medida trazidos pelo gerente Im, era algo que ele já vestia há quase dez anos. Os punhos já estavam puídos, mas ele não se importava. Para as calças, ele apenas vestiu uma calça de moletom qualquer e pegou as chaves do carro. Levou consigo apenas a carteira e o celular.
Ele praticamente correu até o estacionamento subterrâneo do anexo. O subordinado de Taegun, que costumava vigiá-lo todos os dias, não estava à vista.
Ele nem sequer pensou que era bom não haver vigilância. Sem pensar em nada, ele só queria deixar Seul imediatamente. Sem dar nenhuma garantia de quando voltaria, Jaeha apertou o botão para abrir a garagem, entrou no carro e deu a partida. Sem tempo para aquecer o motor, ele soltou o freio de mão e mudou a marcha.
A partir dali, ele pegou diretamente a Autopista do Norte, passou por Guri e se juntou à Rodovia Seul-Yangyang.
Na rodovia, tarde da noite em direção à província de Gangwon, não havia nada além de caminhões de entrega rápida e caminhões basculantes, além do sedã de Jaeha. Ele olhava vagamente para o logotipo da Yushin Transport na carroceria fechada do caminhão que ia à sua frente. Ao fazer contato visual com o modelo exclusivo que sorria para cá com uma expressão confiável enquanto segurava uma caixa de papelão, ele ligou a seta e ultrapassou o caminhão. Seu humor deprimido não melhorava, não importava o quanto corresse.
Durante todo o trajeto, sempre que o cinto de segurança roçava em seu peito, seus mamilos, que haviam inchado sozinhos, tocavam o tecido e coçavam. Toda vez que aquela área arredondada e cheia de sangue era friccionada, a coceira o impedia de se concentrar na direção. No final, ele dobrou um lenço algumas vezes e o inseriu entre o peito e o cinto. Um xingamento subiu espontaneamente em sua mente. Ele não verbalizou o xingamento, mas era assim que se sentia.
Eram cerca de 1h23 da manhã quando ele parou na área de serviço de Hongcheon para abastecer. Como todas as cafeterias de franquia já estavam fechadas, ele não teve escolha a não ser comprar uma lata de café na loja de conveniência, do tipo que costumava beber muito na época da faculdade.
Era um produto que vinha em uma lata de alumínio em formato de garrafa e era aceitável. Ele se lembrava de que, antes de ir para o exterior, quando frequentava a faculdade aqui, comprava uma garrafa desse tipo de café e ia para a biblioteca. Como a maioria dos cafés baratos, o teor de cafeína era alto, o que era perfeito para o Jaeha de agora.
Jaeha colocou a bebida no balcão e, após hesitar por um momento, disse ao funcionário da loja de conveniência que estava de pé à sua frente com uma expressão cansada:
— …Por favor, me dê também um maço de cigarros. Aquele azul ali atrás. …Vou pagar pelo isqueiro também.
— São 7.600 wons. Por favor, insira o cartão na frente.
Jaeha inseriu o cartão imediatamente, sem se perder como havia acontecido naquele outro dia. Segurando o café, o maço de cigarros e o isqueiro entregues pelo funcionário em uma das mãos, ele retirou o cartão e se virou.
Ao retornar para o carro, ele colocou o cartão entre os lábios, abriu a porta e entrou.
Deixando o maço de cigarros e o isqueiro com a embalagem plástica intacta sobre o console central, ele abriu a tampa do café em lata. A tampa de alumínio girou com um som estalado. Jaeha bebeu o café dentro do carro apagado. Não estava com sono, mas continuava aéreo. O calor em seu corpo já havia esfriado há muito tempo, mas sua mente estava barulhenta.
Sua cabeça continuava a repensar Jang Taegun sem parar. Sentiu-se ridículo por ter comprado até mesmo cigarros só porque sentiu saudades do cigarro que fumou brevemente com ele uma única vez, anos atrás.
No fim das contas, enquanto segurava a bomba de combustível, ele chegou a colocar um cigarro entre os lábios e acabou levando uma bronca do motorista de caminhão que abastecia ao lado, que reclamou que ele faria uma loucura em um posto de gasolina. Jaeha quebrou o meio do cigarro que nem sequer havia acendido e pediu desculpas ao motorista. Por cometer um erro que nunca faria na vida e ser repreendido por alguém que via pela primeira vez, ele se sentiu ainda mais tolo.
Depois de entrar no carro novamente, ele dirigiu sem parar. Embora uma das vilas deixadas por sua mãe ficasse em Gangwon, ele não foi para lá, mas seguiu em direção a um hotel da rede Yushin na área do Monte Seorak.
Ele precisava de um lugar que tivesse piscina. Como já havia ligado para o gerente com antecedência, ele entregou o carro ao manobrista ao mesmo tempo em que recebeu o cartão magnético. Enquanto subia para a suíte presidencial, ele dispensou o mordomo que o acompanhava. No caminho para o elevador, Jaeha fez apenas uma pergunta ao mordomo:
— A piscina está aberta agora?
— Está disponível para uso.
Mesmo sendo tarde, não houve recusa. Parecia haver uma piscina exclusiva para os hóspedes da suíte presidencial.
Mesmo assim, por ter aparecido sem reserva, o local não estaria preparado. Era algo que ele normalmente não faria.
Jaeha não gostava muito que os funcionários abaixo dele fizessem esforços desnecessários por ele. O fato de sempre dizer ao gerente Im que uma deferência excessiva não era necessária era por esse motivo.
Mas hoje era diferente.
Tarde da noite, sabendo que isso talvez pudesse ser reportado a Lee Ik-hyung, mesmo incomodando os funcionários do hotel que trabalhavam no turno da madrugada. Lee Jaeha precisava se focar em algo.
Se continuasse assim, não conseguiria dormir. Fizesse o que fizesse, ele queria exaurir o corpo, forçando-o insanamente, para depois dormir sem acordar até o pôr do sol do dia seguinte.
Ao entrar na piscina aberta àquela hora tardia apenas para uma única pessoa, Lee Jaeha teve que resistir ao impulso de se destruir completamente para depois se reconstruir.
Naquele dia, ele nadou até tarde. Até ver o sol nascer através de uma das paredes de vidro da piscina. Lee Jaeha queria morrer de exaustão.
Para um desejo, era algo barato e, por falta de realismo, era algo que não aconteceria.
—
O que eu vi no sonho mesmo?
Na verdade, Lee Jaeha não costumava sonhar muito. Ele mesmo não gostava do ato de sonhar, por isso rejeitava os sonhos conscientemente. Se essa rejeição funcionava, a maior parte do tempo em que adormecia era uma completa escuridão e, quando abria os olhos ardendo, já era de manhã.
Mas parece que algo finalmente o visitou durante a noite. Embora fosse apenas uma suposição ao acordar e ver uma lágrima acumulada no canto interno de sua pálpebra. Por ter dormido de lado, a gota de lágrima estava presa na ponte reta de seu nariz.
Toda vez que Jaeha piscava os olhos, as lágrimas caíam em gotas. Que tipo de sonho ele teria tido? Ter que se considerar patético logo ao acordar era de deixar qualquer um sem palavras.
O relógio digital colocado no console ao lado da cama piscava, indicando que já passava do fim da tarde. Parecia que havia dormido por bastante tempo.
Jaeha se levantou e pediu pelo serviço de quarto um sanduíche de clube, uma refeição de costela com acompanhamentos, pad thai e espaguete com almôndegas.
Foi uma escolha de menu bastante desconexa. Logo em seguida, o mordomo tocou a campainha empurrando o carrinho com a comida. Jaeha pediu para deixá-lo na entrada da sala e sair. Ele não queria encarar ninguém nem trocar poucas palavras.
Jaeha logo puxou o carrinho ele mesmo e começou a comer, não na sala de estar do quarto, mas no próprio quarto de dormir. Sem se importar com a ordem dos pratos, assim como fez na escolha do menu, ele comeu o que vinha pela frente.
Como não havia trazido roupas para trocar, ele vestia apenas o roupão por cima da cueca box que comprara na loja de conveniência de madrugada, sem sequer fechar a frente.
Com o prato de sanduíche apoiado sobre a coxa nua, ele apenas comia com o olhar vago, sem se importar se caía sujeira ou não.
Ele também pegou um refrigerante no frigobar. Não costumava gostar de bebidas gaseificadas, mas para empurrar aquela grande quantidade de comida goela abaixo, era absolutamente necessário. Ele amassou a lata vazia depois de beber.
A quantidade que parecia muita à primeira vista foi gradualmente mostrando o fundo. Ele não era alguém de comer pouco, mas também nunca havia comido tanto assim, e os pratos logo ficaram vazios.
— …
Então, de repente, o apetite desapareceu por completo. Seu humor afundou sem limites. A sensação de que havia investido anos para continuar no mesmo lugar não o abandonava. Era devido à ansiedade de que tudo o que fizera pudesse ter sido uma tolice.
Deixando o sanduíche que estava comendo de lado, ele tirou a roupa íntima e vestiu a sunga de natação. Vestindo o roupão, ele desceu mais uma vez para a piscina. A piscina usada exclusivamente para os hóspedes da suíte era silenciosa, ao contrário da piscina geral que ficava separada por uma parede.
Após terminar um aquecimento rápido, ele mergulhou na piscina e a espuma branca o acolheu. Naquele dia, ele passou o tempo todo apenas nadando novamente.
Ao retornar, adormeceu profundamente. Continuava sem secar o cabelo. Mesmo que a refeição que fizera no fim da tarde tivesse sido a primeira e a última do dia, ele não se importou. Estava faminto por sono. Sua consciência afundou, como se fosse puxada para um pântano.
Enquanto dormia, parecia estar acordado, e enquanto estava acordado, parecia estar dormindo. Entre a consciência e o inconsciente, a clareza e a confusão, Jaeha cobria os ouvidos com o travesseiro toda vez que ouvia o som do aquecedor do quarto funcionando.
Terá sido por ter adormecido afundando em algum lugar que, no momento em que a penumbra do amanhecer penetrou pelas frestas das cortinas blecaute e tocou a área dos olhos de Jaeha, sua consciência retornou de uma só vez junto com uma lufada de ar.
Jaeha teve que se esforçar para abrir os olhos que não queriam se abrir.
— …
— …
Porque Jang Taegun estava sentado no sofá ao lado da cama, de braços cruzados, olhando para ele.
— …Como veio parar aqui?
Só depois de soltar as palavras é que Jaeha percebeu que sua voz estava gravemente rouca. A rouquidão na voz era bastante severa.
Ao piscar os olhos que não queriam se abrir, a figura do homem sentado silenciosamente no quarto de dormir, onde nenhuma luz estava acesa, finalmente entrou em detalhes em sua visão.
O homem vestia roupas de luto. Teria ele vindo de algum velório onde passou a noite acordado? Não havia cheiro de incenso impregnado, no entanto. Jaeha pensou nisso de forma vaga.
— Querido.
— …
— Quem é que foge de casa indo até a província de Gangwon? O desgraçado do Myeongsun quase perdeu o rabo de tanto dirigir de madrugada.
Um som de estalo veio de Jang Taegun enquanto ele girava o pescoço ao falar aquilo.
Jaeha apenas piscou os olhos e se levantou lentamente da cama. Conforme o edredom que cobria seu corpo descia, seus ombros e peito nus ficaram totalmente expostos. Só então ele percebeu que havia dormido sem usar nada na noite anterior.
Originalmente ele dormia vestindo roupas de ficar em casa, mas tudo tinha se tornado um incômodo. Também não tinha roupas, embora se pedisse para providenciarem, eles entregariam pijamas do tamanho exato em vários materiais como seda e fio de algodão, mas ele não quis fazer isso. Ele vinha passando o tempo vestindo apenas o roupão de banho, deixando apenas o carrinho de comida do lado de fora, e já havia avisado o mordomo antecipadamente de que não precisava de limpeza.
Naturalmente, ele não teve escolha a não ser dormir nu. Não era algo estranho. Afinal, ele já tinha visto Lee Jaeho dormir totalmente nu várias vezes. Sem precisar ir até Lee Jaeho, Jang Taegun também não adormecia todas as vezes sem vestir a parte de cima? Não era um evento raro, mas seu corpo estremeceu involuntariamente. Jang Taegun soltou uma risada nasalada como se achasse aquele Jaeha ridículo e disse:
— Não fui eu que te despi, por que esse olhar?
Então, pensando em algo, ele franziu o cenho, levantou-se do sofá e se aproximou de Jaeha. Como não havia nenhuma luz no quarto, não dava para ver bem o seu rosto. Logo em seguida, ele perguntou em voz baixa:
— Ou será que outro cara te despiu? Quem será esse amigo tão gentil?
Pensando que ele estava brincando novamente, Jaeha não respondeu, mordeu os lábios por um momento e perguntou de volta:
— Como o senhor veio parar aqui?
— Pegando a Rodovia Yeongdong.
Como ele era alguém que sabia que a pergunta não era sobre o trajeto, o cenho de Jaeha também se franziu.
Se olhado do ponto de vista de Jang Taegun, a pessoa egoísta seria ele mesmo, mas para Jaeha, não havia ninguém tão imprevisível quanto Jang Taegun.
A forma de falar demonstrava um tom de intimidade, como se questionasse onde ele havia guardado a atitude que direcionou a Jaeha nos últimos dois anos.
Até exigir o divórcio dele exatamente três dias atrás, Lee Jaeha não via o seu rosto por estimados dez meses. Antes disso, por cerca de nove meses. Dizer que via o seu rosto duas vezes por ano já era considerado muito. E não é como se houvesse muita conversa durante esses dois encontros.
Ele tratava Jaeha com uma atitude desinteressada e olhava para Jaeha com olhos desprovidos de emoção. Como se todas as conversas que compartilharam durante o curto período em que viveram juntos nunca tivessem existido em lugar nenhum.
Uma relação fixada dessa maneira não era coisa de um ou dois dias, então o que significavam aquela expressão e aquele tom de voz tão informais? Jaeha não conseguia compreender Taegun. Ele ficou temporariamente sem palavras diante daquela atitude dele.
Olhando para Jaeha que não dava nenhuma resposta definitiva, Jang Taegun sorriu novamente e endireitou o corpo. Em seguida, espreguiçou-se lentamente. Era um movimento relaxado, como uma enorme fera esticando os músculos gradualmente.
— Estou cansado.
Apesar de ter se espreguiçado grandiosamente, sua voz não parecia nem um pouco cansada. Mesmo assim, uma preocupação surgiu reflexivamente. Ele queria examinar a fisionomia dele, mas o quarto estava escuro demais.
Jang Taegun moveu o corpo diretamente, sem dar mais tempo para Jaeha examiná-lo. Caminhando com naturalidade como se já tivesse estado ali antes, ele se moveu sem impedimentos mesmo na luz difusa, serviu um copo de água a partir da jarra que estava sobre o carrinho colocado ao lado da parede do quarto e caminhou novamente para o lado da cama.
O copo de água, um cálice de água lapidado em corte boêmio, parecia extremamente frágil ao ser segurado pelo punho dele. Com a impressão de que ele poderia se quebrar em pedaços a qualquer momento, Jaeha o pegou imediatamente e bebeu a água.
No momento em que a água fluiu garganta abaixo, ele pôde perceber que seu corpo realmente desejava água. Assim que Jaeha terminou de beber, Taegun pegou o copo de volta e o colocou de novo sobre o console.
Por causa do console que tinha uma altura baixa em comparação a ele, seus braços longos desceram enquanto suas costas se curvavam como uma cordilheira. Olhando para aquele homem grandioso como uma montanha se movendo na escuridão, Jaeha fechou e abriu os olhos como se estivesse ofuscado.
Momentos antes ele pensava que era uma pena não conseguir ver sequer a expressão dele por estar escuro. Desde que se apaixonou por ele, Lee Jaeha não estava em seu juízo perfeito por ter que suportar as várias contradições que o atingiam constantemente.
Quando recuperou um pouco da lucidez e abriu os olhos diretamente, Jaeha exibia uma expressão que questionava qual era o real motivo da visita. Jang Taegun recusou a sua proposta de divórcio. Aquilo se transformou diretamente em uma tempestade que retornou para abalar Jaeha.
Seria ele capaz de mencionar o divórcio para ele mais uma vez? A resposta correta era “não”. Mesmo naquela ocasião, ele havia conseguido falar após resistir a todo tipo de tentação. O desejo de querer estar com ele, o egoísmo de querer se acomodar ao lado de Jang Taegun daquele jeito. Tendo superado tudo isso para conseguir falar, Lee Jaeha estava exausto como um soldado derrotado. Não tinha coragem de lutar contra aquelas coisas novamente.
Jang Taegun disse enquanto afastava as cortinas blecaute. Do lado de fora, como esperado, a madrugada já havia passado e o sol da manhã começava a subir lentamente.
— Vamos subir juntos. Peça para o Myeongsun trazer o seu carro e entre no meu.
— …
— Não vou reclamar mesmo se você roncar ao meu lado durante o trajeto. Estou dizendo para irmos juntos.
Foi naquele momento que, de repente, surgiu uma pergunta dentro de Lee Jaeha questionando se não estaria tudo bem continuar assim. Jang Taegun sorriu contra a luz do sol que invadia a janela. Jaeha apenas conseguiu olhar para aquela cena como se seu fôlego tivesse parado.
Um impulso surgiu subitamente. Não estaria tudo bem continuar assim? Já que tinha sido difícil a ponto de quase morrer nos últimos anos, não poderia ser ganancioso agora? O assunto sobre a mãe dele era lamentável, mas na verdade não era um crime dele. Portanto, ignorando tudo, agora realmente…
— Ah, você tem que ir mesmo se não quiser. O funeral do velho é daqui a cinco horas.
A ganância que surgia afundou imediatamente. Jaeha olhou para Taegun mantendo a respiração presa. Ele não estava sorrindo.
Continuando vestido com as roupas de luto, no caso.
—
Apesar de ter dito que seria dali a cinco horas, o carro de Jang Taegun parou em um lugar completamente diferente.
— Ah, estou com fome. Ninguém vai me pagar uma refeição?
Ao puxar o freio de mão dizendo aquilo com um tom de voz desinteressado, esquecendo-se da gravidade da situação, Jaeha quase soltou uma risada involuntária. Sendo alguém que havia deixado Seul como se estivesse fugindo, as palavras saíram com extrema facilidade.
No entanto, como não dava para sugerir pular o café da manhã para alguém que dizia ter dirigido sem pregar o olho, Jaeha assentiu lentamente com a cabeça e disse:
— …Vamos comer antes de ir?
— Sim. Já que estão se oferecendo para pagar, eu aceito.
Jaeha, que acabou se tornando a pessoa que implorou para comer antes de ir, abriu a porta do passageiro e desceu para esconder a expressão que ameaçava relaxar.
A atmosfera era diferente de quando passaram o período de rut sem sequer compartilhar uma conversa. Parecia que algo entre os dois havia mudado após a madrugada, mas ele não conseguia saber exatamente o que era.
Lee Jaeha sabia muito pouco sobre esse aspecto. Ele não sabia que a relação poderia se abrandar moderadamente e que, a partir de certo ponto, poderia chegar um momento em que nada mais seria importante exceto estar com ele.
Jaeha franziu o cenho. Porque de repente sentiu uma estranheza por estar ali junto com ele. O ar da manhã em Gangwon, onde o sol ainda não havia nascido completamente, era extremamente límpido. O ar revigorante que não combinava com a situação e a luz solar suave que acabava de nascer preenchiam o espaço entre os dois alfas.
Jaeha ergueu a cabeça lentamente. No restaurante de comida caseira havia uma grande placa escrita “Servimos café da manhã”.
Ao descer do carro, Jang Taegun deu tapinhas na parte de trás do maço de cigarros que segurava na mão. Vendo aquilo, Jaeha disse:
— Pode fumar antes de entrar.
— Isso aqui é do Lee Jaeha.
Os olhos se arregalaram diante daquelas palavras. Parecia ser o maço de cigarros que ele havia comprado e largado em algum lugar do quarto. Sentiu-se como um professor que dava todo tipo de conselho aos alunos, mas que ele mesmo não cumpria nenhum deles.
Apesar de nunca ter reclamado com Jang Taegun para que ele parasse de fumar.
— …Eu havia parado, mas comprei porque me veio à mente.
Jaeha não entendia por que estava dando aquela desculpa. Após a refeição com ele, Lee Jaeha deixou Seul desesperadamente.
Na verdade, ele não fugiu de Seul, mas sim de Jang Taegun. Sentia que, se o enfrentasse mais, acabaria implorando para que ele fingisse que a conversa sobre o divórcio nunca aconteceu. Não podia fazer isso. Seu destino final deveria ser o sucesso da vingança que aquele homem desejava. Jaeha estava confuso.
Era difícil ignorar a ganância que havia crescido como brotos de bambu após a chuva. O alfa, que nem sequer sabia que possuía tal desejo, achava difícil suportar até mesmo os pequenos impulsos em direção a Taegun.
Conforme a expressão dele decaiu, Taegun respondeu de forma indiferente, como se soltasse as palavras no ar:
— Quem está dizendo alguma coisa? Estou só dizendo para comermos.
Logo em seguida, ele entrou primeiro no restaurante. Por ser alto, a silhueta de suas costas se abaixando levemente na porta de entrada do estabelecimento era excepcionalmente nítida. Olhando para aquilo de forma aérea, ele pensou que realmente era um caso grave. Ele precisava parar de perder o juízo toda vez que olhava para as costas de Jang Taegun. Pensando nisso, Jaeha também o seguiu.
Ele já estava sentado, deixando seus braços longos estendidos sobre a cadeira ao lado. Ele olhava para o cardápio com a cabeça levemente inclinada para trás, e Jaeha quis diminuir o passo para observar aquela cena por mais tempo.
No entanto, desde a entrada até a mesa onde ele estava sentado, eram poucos passos para um Lee Jaeha que tinha pernas bastante longas. Foi uma pena imensa, mas ao se sentar, ele enrigidou a expressão como se nem estivesse olhando para aquele lado e fingiu observar o cardápio.
Taegun serviu água no copo. Ele deu um toque na parte inferior do copo com o indicador longo e, sem que o objeto pesado tombasse, ele deslizou até a proximidade de Jaeha, que estava sentado à sua frente. Era surpreendente como ele conseguia fazer aquilo.
O olhar dele roçou de leve sobre a franja de Jaeha que havia descido naturalmente. Servindo água também em seu próprio copo de plástico, ele disse:
— É a primeira vez que te vejo usando uma roupa dessas. Colômbia, foi o lugar onde você estudou no exterior?
— Ah, sim… Como o senhor sabe disso—
Foi no momento em que Jaeha, surpreso com as palavras inesperadas, tentava perguntar de volta. Jang Taegun deu um toque com o indicador no palito que estava posicionado torto, devolvendo-o ao lugar correto, e mudou de assunto:
— O combinado de sundubu daqui é gostoso.
— …O senhor já esteve… aqui antes?
Por ser tão inesperado, Jaeha chegou a hesitar, esquecendo que Taegun havia mencionado a sua época de estudos no exterior. Diante da pergunta de Jaeha, Taegun assentiu com a cabeça de forma vaga.
— No passado. É um lugar onde vim com os trabalhadores braçais com quem trabalhava junto. Estávamos no caminho de descida após enterrar algo na montanha e me deu fome.
O tom de voz era casual, como se estivesse falando da história de outra pessoa. O que eles teriam enterrado na montanha? Após selecionar algumas opções, ele logo se lembrou de algo e não perguntou mais.
Taegun apontou com dois dedos estendidos para a placa colada no pilar escrito “Combinado de Sundubu” para o homem que parecia ser o dono do estabelecimento. O dono nem sequer respondeu e entrou na cozinha. Parecia que não havia necessidade de muitas palavras entre quem pedia e quem recebia o pedido.
Jaeha pensou que, por causa daquela atitude natural, talvez Jang Taegun tivesse vindo aqui com mais frequência do que imaginava. Também era curioso ver um homem que não combinava com um restaurante comum pedir comida com tanta naturalidade. Jaeha não sabia que ele próprio era alguém que chamava a atenção estando sentado em um restaurante de comida caseira.
Ele temia que a conversa parasse por ali, mas Jang Taegun surpreendentemente continuou a falar:
— Estava chovendo tanto que mal dava para enxergar à frente, e acabei sangrando muito por ter me machucado enquanto resolvia o serviço.
Jaeha prendeu a respiração diante das palavras dele. Ter se machucado. Pelo que dizia, parecia ser uma história de quando ele ainda estava no início dos vinte anos, e era lamentável que ele já fizesse trabalhos tão perigosos naquela época. Foi doloroso conter a expressão que se contraía involuntariamente.
— A chuva caía torrencialmente e, mais tarde, a sensação da chuva caindo não era de algo frio, mas sim de algo pesado. A visibilidade também não estava garantida e quase rolei montanha abaixo várias vezes, e cheguei a pensar se aqueles desgraçados não iriam embora me deixando para trás caso eu desmaiasse ali mesmo.
— …
— Se isso acontecesse, o meu destino seria ainda pior do que o daquela coisa enterrada na montanha. Aquele desgraçado está enterrado, mas eu nem sequer seria enterrado em lugar nenhum e acabaria apodrecendo.
A comida foi servida. O vapor subia do sundubu branco. Taegun parou de falar e pegou os talheres. Jaeha, que estava sentado à sua frente, não teve escolha a não ser pegar os talheres também, ignorando a garganta que parecia completamente travada.
Taegun esvaziou a tigela de arroz rapidamente. Não parecia estar com fome e, com base nas poucas vezes em que comeram juntos, ele era originalmente uma pessoa de bom apetite. Ao mesmo tempo, ele costumava liquidar a comida silenciosamente. Etiqueta à mesa era algo que Lee Jaeha havia aprendido até a exaustão, mas Jang Taegun também parecia comer de forma tão limpa quanto ele.
Mesmo agora, não houve nenhum som até que ele esvaziasse uma tigela de arroz. Jaeha observou a reação de Taegun discretamente e pediu mais uma tigela de arroz. O dono, que trouxe a tigela de arroz quente com as mãos desprotegidas, colocou-a na mesa e desapareceu para o interior sem dar nenhuma resposta ao agradecimento de Jaeha.
Como se soubesse que aquela porção era sua, Jang Taegun pegou a tigela e abriu a tampa. Jaeha se sentiu um pouco sem graça por ter providenciado o arroz antes mesmo que ele solicitasse algo, então pegou um pedaço de batata refogada com os palitinhos sem necessidade e levou apenas um pedaço à boca.
Jang Taegun colocou a tampa da tigela ao lado e disse:
— Morrer não é o problema, mas parecia que não seria uma morte com boa aparência, então dei um jeito de descer, e um dos trabalhadores sugeriu comermos antes de ir. O lugar é este aqui.
— …
Ele falou até ali e continuou a refeição novamente. Jaeha sentiu um nó na garganta por sentir a tristeza daqueles dias de juventude dele em seu lugar. Ele começou a se perguntar se destruir a Yushin seria uma compensação suficiente para ele. Ele deveria ter feito algo a mais. Fosse uma vingança ou uma compensação para ele, fosse o que fosse, ele deveria ter feito qualquer coisa.
Enquanto Jaeha pensava naquilo, ele continuou a falar com aquele tom de voz indiferente de sempre:
— A sua expressão agora parece exatamente com a de quem está com pena de mim.
— Não é isso…
— Se não for isso, não serve. Eu sou mesmo um vira-lata que tomou chuva. Do tipo que o Lee Jaeha precisa cuidar com gentileza.
Jang Taegun falou sem expressar emoções. Embora não tivesse visto muito o seu rosto nos últimos anos, o rosto dele ao falar aquilo estava nitidamente gravado em Jaeha. Parecia difuso quando não se viam, mas ao encará-lo, era assustadoramente nítido.
— Então, mesmo se o assassino de Jang Chang-sik for eu, você vai ficar do meu lado, não vai?
Jaeha estremeceu por um momento, mas cortou o sundubu com os palitinhos naturalmente. Por ser originalmente muito macio, não ofereceu resistência sob os palitinhos de metal e desmoronou imediatamente. Jaeha olhou para o sundubu desfeito e abriu os lábios com um tom de voz calmo:
— Deve ter havido um motivo.
Logo em seguida, ele deixou os palitinhos de lado e segurou o copo de água. Jaeha continuou a falar como se não fosse nada:
— E mesmo se não houver, não importa.
Como havia evitado o olhar, ele não sabia qual era a expressão dele. Mas Jaeha pensou vagamente que ele provavelmente estaria sorrindo.
A refeição terminou daquela forma. Antes de saírem do restaurante e entrarem no carro, Taegun abriu a porta do passageiro de propósito.
— Da próxima vez que for fugir de casa, faça isso indo até Yangpyeong. Aqui é longe demais.
— …
Jaeha, que entrou sem dar resposta, esticou a mão para fechar a porta do carona. Taegun segurou a porta e curvou a cintura, olhando para Jaeha que estava sentado no banco do carona.
Logo em seguida, ele inclinou a cabeça e o beijou. Jaeha arregalou os olhos de surpresa. Como se o fato de não terem se tocado durante todo esse tempo fosse uma mentira, o beijo foi repentino. Embora tenha se afastado com um som estalado, como uma brincadeira leve, sem que a língua tivesse entrado.
— E vista-se sempre como os moleques.
— …
Só então ele se sentiu envergonhado por usar um moletom nesta idade. No momento em que hesitava se deveria dizer que foi por ter saído às pressas, os lábios se tocaram mais uma vez com um estalo.
— Estou dizendo que gostaria muito que você vestisse isso de novo. Fico curioso para saber se dá a sensação de estar comendo um universitário.
Jang Taegun, que falou até ali, fechou a porta do carona.
Em seguida, ele contornou o capô daquele mesmo jeito, entrou no banco do motorista e, com um rosto que não demonstrava nada, disse enquanto colocava o cinto:
— Você sabe que fui eu que paguei a conta da comida, não sabe?
Embora ele tivesse se levantado assim que terminaram a refeição e pago primeiro enquanto Jaeha pretendia pagar, Jang Taegun buscou os créditos com Jaeha. Para Jaeha, era algo injusto.
No entanto, como se os sentimentos de Jaeha não importassem, Jang Taegun estendeu o indicador enquanto segurava o volante e deu tapinhas.
— Lee Jaeha, você está em dívida comigo. Vim buscar o marido que fugiu de casa, paguei a refeição e ainda estou levando de volta. Tive muito prejuízo.
— Isso é…
Antes que Jaeha pudesse argumentar qualquer coisa, Taegun, que já havia abaixado o freio de mão e mudado a marcha, deu a partida no carro apoiando o cotovelo na moldura da janela. Como se não fosse ouvir as desculpas de Jaeha. Ele tentou dizer algo, mas fechou a boca.
Jang Taegun continuou com aquela cobrança absurda por um tempo. Embora o único neto de Jang Chang-sik, que já havia falecido, estivesse ausente e o funeral estivesse sendo adiado por isso, ele parava religiosamente em cada área de serviço que aparecia para pedir que comprassem café, mas a conta ele mesmo pagava.
Antes mesmo que Lee Jaeha chegasse a Seul, a dívida acumulada em seu nome já passava dos 100.000 wons. Parecia que ele havia comido um café da manhã reforçado, mas era curioso ver como ele comprava até mesmo lanches que não combinavam com ele para comer.
Graças a isso, Jaeha experimentou lula grelhada na manteiga pela primeira vez na vida. Quando Jang Taegun, que segurava o volante, abria a boca descaradamente, ele tinha que colocá-la lá dentro.
— Onde é que eu tenho mãos? Você é quem tem que fazer isso.
A atitude de exigir aquilo como se fosse natural o fazia questionar se aquele era mesmo o homem que costumava procurá-lo apenas no período de rut nos últimos anos, agindo como se nunca mais fossem se ver.
No entanto, o fato de ele pedir para colocar a comida em sua boca com um rosto que não demonstrava nada era agradável, então ele não questionou mais.
Lee Jaeha mantinha tudo em suspensão. Era um estado que não diferia em nada de dias atrás, quando se trancou no quarto e colocava para dentro o serviço de quarto que havia pedido em excesso.
Ele deixou de lado o ato de interpretar a recusa do divórcio da maneira que melhor lhe conviesse e também adiou a decisão de deixá-lo de vez.
Enquanto estendia a preguiça ao máximo para adiar as decisões, o momento de estar sentado ao lado de Jang Taegun era precioso a ponto de ser insuportável.
A ponto de esquecer que estava a caminho do funeral de Jang Chang-sik. Foi por volta do momento em que avistou a placa escrita Guri IC que Lee Jaeha percebeu o quão tolo era o pensamento que alimentava.
Haveria alguma coisa em sua vida que ele pudesse adiar ao menos uma única vez? Jaeha sentiu que ia adoecer.
Será que o amor era difícil assim para os outros também? Ou será que apenas o dele era especial? Sentir um sentimento de afeto até por essa especialidade era ridículo.
Ao cruzar a Ponte Gangdong, a luz do sol refletida no Rio Han entrou em vista. Era difícil observar aquela luz dourada por muito tempo. Até os reflexos na água brilhavam com uma cor dourada. Estava ofuscante demais para suportar.
Lee Jaeha fechou os olhos fingindo dormir. Apesar de faltar pouco para o trajeto até Pyeongchang-dong terminar.
—
Jaeha não conseguia parar de relembrar a vida de casado até agora, mesmo diante da imagem do falecido. Quem havia partido era o falecido, mas quem estava refletindo sobre a vida era o próprio Jaeha.
Assim como existe diferença de talento entre as pessoas, ao contrário de Jang Chang-sik que encerrou a vida sem um único arrependimento, Lee Jaeha passava o tempo examinando a si mesmo continuamente. Na verdade, era uma ruminação desnecessária até certo ponto.
As coisas que deveriam ter sido feitas, as que não deveriam ter acontecido. No intervalo daquela ruminação infinita, Lee Jaeha se esforçava para encontrar algo.
Ele queria encontrar uma justificativa. Para não se arrepender das coisas que havia feito. No entanto, quando a escolha inicial foi feita, Lee Jaeha já havia se preparado antecipadamente para assumir até mesmo aquele arrependimento como parte de sua responsabilidade.
Jaeha teve que escolher. As coisas que derivaram disso foram muitas, mas ele aceitou pensando que era a parte que lhe cabia suportar.
Porque existem coisas demais no mundo que não podem ser evitadas. Mas se soubesse hoje que Jang Chang-sik estaria envolto em uma mortalha atrás de flores de crisântemo, teria feito uma escolha diferente naquele dia?
Não. Lee Jaeha não teria feito isso. Ele precisava de um método mais definitivo. Um método definitivo para proteger Jang Taegun.
Uma solução clara a ponto de não importar se Taegun desejava aquilo ou não. Então, de repente, um sentimento de ceticismo costumava invadi-lo.
O temor de que os planos elaborados sob a suposição de conhecer suficientemente as intenções de Jang Taegun fossem, na verdade, ações cometidas por ele sozinho sem saber de nada. O temor de que os sacrifícios pessoais que pensou que suportaria até o arrependimento fossem, na verdade, atitudes que não serviam para absolutamente nada.
Aquele era o primeiro dilema enfrentado na vida de Lee Jaeha, que sempre vivera de forma clara.
— …
Por estar imerso nesses pensamentos, ele não teve escolha a não ser olhar fixamente para a foto de Jang Chang-sik.
Jang Chang-sik na foto exibia um rosto mais jovem do que em vida, como costuma acontecer com pessoas que não se prepararam para uma morte repentina. Porque não havia nenhuma foto adequada para ser usada no funeral.
Considerando que ele não havia tirado nenhuma foto para ser usada em seu funeral mesmo tendo uma idade avançada, parecia que ele pensava que viveria para sempre.
Era uma figura cheia de ambição até o dia de retornar à terra. Como prova disso, nenhuma pessoa que pudesse ser chamada de parente de Jang Chang-sik compareceu ao velório para prestar condolências. Dizia-se que ele havia subido para a capital sozinho, mas a ausência de um único parente trazia uma sensação de estranheza. Excluindo as pessoas ligadas por trabalho e negócios, não havia uma única pessoa que se lembrasse da vida do falecido.
— Vamos fazer essa palhaçada por mais dois dias?
Jang Taegun murmurou baixo. A expressão mostrava o quão entediado ele estava. Jaeha olhou de relance para a braçadeira de luto de Taegun, que bocejava baixo ao seu lado, e virou a cabeça novamente. O cônjuge de Lee Jaeha exibia um rosto intacto demais para alguém que havia se tornado órfão.
Tendo enfrentado a morte do pai antes do casamento e agora a morte do avô, além do fato de o próprio Jang Chang-sik não ter vínculos com os parentes, Jang Taegun guardava o local do velório sozinho, sem ninguém que pudesse ser chamado de familiar.
No entanto, como a atitude e a expressão não carregavam nenhuma emoção em relação a isso, Jaeha inclinou o corpo levemente em direção a ele e abriu a boca:
— Vou verificar as coisas do lado de fora e já volto.
— Que tipo de coisas.
Taegun se virou para Jaeha com os olhos marejados devido ao bocejo. Ele exibia uma expressão mais entediada do que o dono do balcão de uma hospedaria vazia. Os procedimentos do funeral haviam acabado de começar, e a montagem do local do velório também tinha sido concluída há pouco.
Desde o momento em que Jaeha tirou o moletom gasto, vestiu as roupas de luto e veio para o velório montado na casa principal, haviam se passado apenas cerca de 30 minutos. Ele exibia aquela expressão entediada em tão pouco tempo.
Temendo que os visitantes vissem aquela expressão dele, Jaeha olhou ao redor de relance e disse novamente a Taegun:
— …Preciso verificar como está o atendimento aos convidados.
— Sim, vá lá. Vou ficar aqui vigiando para ver se nenhum desgraçado vai roubar o cadáver do velho.
— …
Jaeha ficou temporariamente atônito com as palavras de Taegun, mas logo em seguida apenas deixou o lugar. Então ele moveu os passos e seguiu em direção à sala de recepção.
O local do velório foi montado não em uma funerária, mas na residência principal de Pyeongchang-dong, onde Jang Chang-sik vivia em vida. Apesar de não ter deixado uma foto para o funeral, ele deixou registrado no testamento que o local do funeral deveria ser a residência principal. A ideia do falecido era de que o caixão deveria dar uma volta ao redor da casa de Pyeongchang-dong onde ele residia antes de partir, para que pudesse encontrar o caminho correto para o além.
Devido a isso, Jaeha teve que encerrar o período de vários anos em que se manteve recluso do público e fazer os preparativos para o funeral.
— Certifiquem-se de que a salada de arraia fermentada e a carne de porco prensada não faltem. Como o Hanmyeonggwan concordou em preparar os pratos até tarde da noite de hoje, vocês podem entrar em contato direto assim que restar cerca de uma vasilha.
Diante das palavras de Jaeha, a equipe que trabalhava na cozinha assentiu com a cabeça. A senhora de Yangpyeong, que trabalhava há muito tempo na casa de Pyeongchang-dong onde Jang Chang-sik vivia, aproximou-se para falar com Jaeha. Como ela cuidava das tarefas da casa principal, Lee Jaeha, que vivia no anexo, a havia visto poucas vezes, mas o rosto que demonstrava simpatia em direção a ele exibia um sorriso generoso.
— Diretor, precisamos pedir mais bebidas também.
— As bebidas virão de Jongno. Como o avô consumia apenas as daquela casa em vida, não coloquem outro produto na mesa.
— Claro, o diretor deve ter cuidado de tudo pessoalmente.
A senhora de Yangpyeong se retirou com um rosto que demonstrava extrema confiança em Lee Jaeha. Para Jaeha, era apenas risível ouvir o título de diretor que ele havia deixado de usar há vários anos.
Ele observou calmamente os convidados consumindo os petiscos e as bebidas nas mesas montadas na sala de recepção e na sala de estar e mudou o rumo dos passos.
O secretário Ko, que era como as mãos e os pés de Jang Chang-sik, não estava à vista. Devido a isso, não havia a pessoa a quem perguntar se a mortalha de linho de Andong era melhor ou se o caixão de paulownia era o adequado.
No entanto, Lee Jaeha realizava essas tarefas sem impedimentos, como sempre. Ele possuía a experiência de ter visto uma pessoa próxima partir antes dele.
Como era muito jovem na época, o normal seria que restasse apenas a tristeza, mas para Lee Jaeha, o funeral era mais um dos rituais que ele precisava preparar do que algo emocional.
O seu próprio casamento havia sido assim, então o funeral de outra pessoa não seria diferente.
Logo em seguida, as figuras do mundo político e empresarial chegariam uma após a outra. Embora os capangas que compartilharam a época da organização com Jang Han ocupassem a maior parte dos visitantes agora, figuras de peso chegariam por volta do pôr do sol.
Ao sair para o jardim, Jaeha olhou para a entrada das coroas de flores decoradas com crisântemos brancos e virou a cabeça. Os últimos anos pareceram distantes como um sonho. Era algo que não podia deixar de ser sentido como um sonho. Exatamente três dias atrás, Jaeha exigiu o divórcio de Jang Taegun. Ele pensou que ele também desejaria aquilo. Afinal, ele era como uma cabaça sem corda pendurada.
Foi no momento em que ele alimentava tais pensamentos.
— Você é a única pessoa que trabalha nesta casa?
Sem que ele percebesse quando havia saído para o jardim, Jang Taegun segurou o ombro de Jaeha expressando irritação. Jaeha, que estava imerso em pensamentos sem notar a saída dele, piscou os olhos.
— O que aconteceu com a recepção dos convidados para o senhor sair?
— Aquelas pessoas não vieram ver o velho defunto, vieram ver a mim. Então eles que esperem.
Taegun falou de forma indiferente e puxou o pulso de Jaeha. A força não era intensa, mas não havia como resistir, então ele teve que cruzar o jardim junto com ele.
Jaeha, que pisava na grama murcha pelo frio, vestia sapatos pretos adequados para as roupas de luto, mas Taegun usava chinelos que exibiam o logotipo de uma marca esportiva. Eram cor-de-rosa. Além disso, o tamanho não estava correto e os calcanhares ficavam projetados para fora.
…Será que chinelos com aquele design existiam na residência de Jang Chang-sik?
Enquanto Jaeha pensava naquilo de forma aérea, os dois já contornavam a parte de trás da residência em direção ao anexo antes que percebessem.
— Diretor Jang Taegun, para onde estamos indo agora…
— Já disse para parar com essa história de Diretor. Ou o quê? Você gosta de transar chamando pelo cargo profissional? Você tem fetiche?
— Não tenho. Nada disso, absolutamente…
Embora tenha respondido prontamente, o perfil de Jang Taegun exibia uma expressão indiferente. Lee Jaeha teve que se esforçar para negar as palavras dele mesmo sendo arrastado.
— Realmente não tenho.
— Por que enfatizar tanto? Suspeito.
— …Não é suspeito…
Jaeha, que contra-argumentava, achou estranho estar compartilhando aquele tipo de conversa com ele.
O lugar onde chegaram foi o anexo. Jang Taegun o arrastou caminhando com passos muito familiares. Era o local onde Jaeha residiu nos últimos anos e que ele visitava muito raramente.
Taegun se virou para Jaeha e sorriu. Colocando a língua para fora para lamber o lábio inferior. Jaeha leu um calor desconhecido nas pupilas dele. Era totalmente incompreensível. Era estranho que a atitude dele tivesse mudado tão subitamente. Sentia vontade de perguntar o motivo.
No entanto, havia também o desejo de ouvir mais as palavras que ele dizia. Afinal, não fazia muito tempo que haviam conseguido compartilhar algo que mal se podia chamar de conversa após tanto tempo?
Como se não estivesse interessado em saber o quão complexo estava o interior de Lee Jaeha, Jang Taegun deu um sorriso largo e disse:
— O que tem de errado em ter um fetiche? Eu também tenho. Esse tipo de coisa.
— Q-qual…
No meio daquilo, ele sentiu curiosidade. Como as oportunidades de encontrá-lo foram escassas no período que passou, ele não quis bloquear a conversa que finalmente havia se aberto.
Embora o tema fosse um pouco estranho, Lee Jaeha gostava de qualquer coisa que viesse de Jang Taegun. Os olhos dele pareceram se curvar levemente. Taegun inclinou a cabeça em direção a Jaeha. Sentir um arrepio foi anterior a compreender o som que ele sussurrava.
E quando compreendeu o significado das palavras dele, os olhos de Jaeha se expandiram ao máximo.
— O que foi isso que o senhor acabou de…
— Você ouviu. Quer que eu fale de novo?
Taegun perguntou dando um toque no lóbulo da orelha de Jaeha com o indicador. Jaeha, que encolheu os ombros involuntariamente, logo não pôde conter o calor que subia intensamente.
As palavras que Taegun havia dito continuavam a se repetir na mente de Jaeha.
“O fetiche do herdeiro principal transar no local do velório.”
O quê…? Que tipo de fetiche…? Jaeha piscou os olhos e releu as palavras que ouviu novamente. Jang Taegun, que soltou uma risada nasalada olhando para aquele rosto patético, abriu a porta do anexo e empurrou Jaeha para dentro.
A luz do sensor da entrada do anexo, que estava escura por não haver ninguém, acendeu com um estalo.
Embora ele estivesse sob a lâmpada de baixa luminosidade por ter sido empurrado para a entrada, Taegun continuava contra a luz externa, o que tornava difícil discernir a expressão devido à contraluz projetada.
Jaeha de repente sentiu curiosidade sobre como estaria a expressão dele. Será que estaria sorrindo ou então.
— Ou então, você pode chorar as lamentações no meu lugar. Você sempre chorava bem, não importa onde eu enfiasse.
— …Isso é um absurdo. O senhor precisa guardar o seu lugar.
— Vamos deixar as lamentações para quem tem talento para isso. Vou te ajudar, então trate de chorar bem desta vez também.
— Espere…
Jaeha ficou confuso. Sentia vontade de dizer que aquele não era o momento para isso. No entanto, Jang Taegun não lhe deu a oportunidade de recusar.
— Você era íntimo do velho. Se o cônjuge do neto fizer as lamentações no caminho de partida dele, o idoso não alcançará a salvação eterna?
Por algum motivo, o tom de voz estava repleto de ressentimento. A desculpa que ameaçava sair reflexivamente recuou imediatamente. Um som sutil, como o movimento de uma serpente, foi ouvido. Era o som de Jang Taegun afrouxando a gravata de seda preta.
Jaeha prendeu a respiração. Porque o aroma de rosa rugosa avançou intensamente como uma onda.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna