Rainbow City (Novel) - 🧬 Capítulo 14
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Paraíso dos tolos (14)
Seokhwa sacudiu a cabeça como se tivesse um espasmo. Enquanto recordava as cenas passadas, seu corpo ficou de novo encharcado de suor frio. Com o tempo, os olhos inquietos foram se estabilizando e mergulhando fundo.
Poderia investigar o Jardim do Éden pela Mother, mas não havia garantia de que o registro de consulta não fosse reportado à cúpula. Lee Yeontae já não tinha demonstrado atitude suspeita? Podia contar tudo à cúpula, mas ele não queria. Porque surgiu uma dúvida. Junto com a suspeita de que quem assassinou o doutor Oh Yangseok pudesse estar dentro daquele abrigo.
Ele achava que bastava pesquisar vacinas e mutações, mas se sentia arrastado por um redemoinho estranho.
O que era o Jardim do Éden, e o que os rebeldes estavam pensando? Melhor ignorar tudo e se dedicar só à pesquisa de vacinas? Ele não era diferente da Mother. Afinal, sempre agia apenas conforme as ordens de cima. Mas ele tinha experimentado o medo na pele.
Seokhwa abriu as duas mãos e olhou para elas. Por causa do próprio suor, a cor do seixo que segurava tinha escurecido. Só naquele dia sete militares tinham morrido. Ele estava seguro no abrigo, mas as pessoas e os militares lá fora não. Deviam viver 24 horas por dia em angústia, era um milagre não terem colapso nervoso. Mais importante que a vacina era o tratamento. Provavelmente o doutor Oh Yangseok já viveu tudo isso antes dele…
Por que os Adam atacam seres vivos?
Seokhwa dava a esse fato o maior peso, e lembrava também de quando disse isso a Oh Yangseok. Os resultados obtidos até então eram muito simples: o vírus Adam era um germe infeccioso que, como uma gripe, se fixa em um organismo saudável e provoca infecção.
“Doutor Seok, então não seria que estamos ignorando o mais importante?”
Foi antes de ele descer para Jeju. Oh Yangseok, lamentando, segurou sua mão com as mãos enrugadas. Seokhwa apertou de novo a pedra e se levantou de um salto da cama.
— Doença.
O vírus Adam é uma doença que deve ser tratável. Não existe no mundo doença incurável. A questão é apenas quando o tratamento será desenvolvido. Seokhwa estudou diversos vírus no centro de aprendizagem de Jeju, muito tempo atrás.
MERS, gripe suína e, muito antes disso, a peste negra. Entre inúmeros vírus, havia muitos para os quais não se desenvolveu tratamento. As farmacêuticas tinham forma capitalista, então focaram em vacinas e tratamentos que davam lucro. E costumam interromper o desenvolvimento de remédios que não davam dinheiro. A própria Adam S.A. tinha espalhado o vírus que criou para salvar uma empresa em falência.
E a Rainbow City de hoje?
“A prosperidade acabou, a humanidade decaiu, e quem hoje suga o sangue do povo para encher os próprios bolsos é a alta cúpula da Rainbow City! Eles não desejam mudança e usam os Adam para satisfazer seus interesses egoístas!”
Não era que ele concordasse com a ideologia dos rebeldes. Apenas surgiu uma dúvida. E dúvidas, se esclarecidas, acabam. Mas o bloqueio da consulta aos registros de casos da polícia militar tinha funcionado como catalisador. Seokhwa, com a cabeça complicada, deitou-se no chão. O sono não vinha fácil.
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— Hyung, hoje o mercado não vai abrir.
O irmão voltou com o pote de arroz vazio. As mãos que abraçavam o pote pareciam brotos de samambaia.
— Nem choveu, então quase não tem água pra beber, e agora, hyung?
— Pois é, quem mandou você comer tanto.
Kwak Soohwan o repreendeu e lhe entregou a garrafa de água que reservou para si. Dessa vez o irmão disse que ia economizar, pôs a água na boca, apenas molhou os lábios e cuspiu de volta para dentro da garrafa.
— E o papai?
— Está lá no quarto. Se quiser, vai ver.
— Melhor não ver. E a mamãe?
— Ela também está no quarto com o papai.
— Ah…
Deixando escapar um “que pena”, o irmão olhou pela varanda.
[Ao inferno! Que caia a Rainbow City! A salvação está chegando! Crentes, ao salão Hwaseon!]
Viam-se os carros embaixo do prédio caindo aos pedaços e as letras vermelhas escritas com sangue no chão. Onde eles estavam não era uma área pertencente à Rainbow City. Ainda assim, abriam o mercado a cada quatro dias e recrutavam militares entre os voluntários. Os hyungs que moravam ao lado também se alistaram alguns meses antes e até agora não havia notícias. As pessoas diziam que aqueles hyungs já deviam ter morrido de qualquer jeito.
Os pais dos irmãos Kwak também eram cidadãos de Rainbow City. O pai e a mãe trabalhavam no abrigo, e como tinham casa na zona verde segura, faziam o trajeto diariamente. Mas na Rainbow City, sob o pretexto de cuidado com os cidadãos, era preciso autorização para ter filhos.
Kwak Soohwan era uma criança não autorizada, e o irmão de Kwak Soohwan também. Por isso os pais criavam os filhos numa área excluída da Rainbow City. Não estar sob proteção da cidade não significava que os Adam dominassem tudo. Eles também tinham sua própria força, e existiam mercenários formados por civis comuns, ainda que improvisados. Mas, quando eles ganhavam força além de certo ponto, a Rainbow City os marcava como rebeldes.
Os pais vinham ver os irmãos Kwak uma vez por semana, mas dessa vez não puderam voltar e acabaram isolados no quarto lá dentro. Além disso, não podia vazar para fora que os pais estavam ali. Kwak Soohwan abriu o armário e conferiu as conservas e os remédios que restavam.
— Vou sair, então fica quietinho em casa. Mesmo que o vizinho peça pra abrir a porta, não abre. Entendeu?
— Por quê, aonde você vai de novo?
O irmão seguia o hyung por toda parte. Kwak Soohwan colocou na mão dele um dos poucos comprimidos restantes.
— Toma com o resto da salsicha em conserva. Não esquece.
— Tá.
O irmão sofria da síndrome de Wiskott-Aldrich. Vivia sempre com sintomas de doença autoimune, e como tinha poucas plaquetas, o sangue não estancava facilmente quando se feria. Até então dependia de remédios que elevavam o sistema imunológico, mas as farmacêuticas da Rainbow City avisaram que não forneceriam mais o medicamento, alegando preço baixo. Ainda assim, com dinheiro não era tão difícil conseguir. Os pais de Kwak Soohwan, através de um intermediário, desviavam o remédio da farmacêutica pagando certa quantia, e assim o irmão conseguia sobreviver.
Kwak Soohwan tinha apenas quatorze anos, mas, embora não se alimentasse bem, era mais desenvolvido que as outras crianças da idade. Por isso os moradores do bairro faziam fofoca dizendo que só o irmão mais velho devia estar comendo escondido alguma coisa boa. Não estavam completamente errados. Kwak Soohwan saqueava sozinho os mercados da zona vermelha.
Kwak Soohwan gostava da zona vermelha, que todos temiam. Sobretudo os lugares que despencaram de verde para vermelho de uma vez tinham muita comida. Naquele dia, por sorte, era noite de lua cheia. Kwak Soohwan desceu a escada e bateu na porta do apartamento do terceiro andar, onde morava o ahjussi caolho.
O ahjussi caolho e manco era famoso por fazer a ponte com os intermediários da Rainbow City. Com os pais naquela situação, não havia outro jeito senão ele mesmo providenciar o remédio do irmão. Com cara feroz, o caolho abriu a porta irritado.
— O que é?
— Ahjussi, meu pai disse que, se por acaso a gente não conseguisse contato com ele, era pra pedir ao senhor o remédio do meu irmão.
O caolho franziu bastante a testa, mas também se lembrou do que tinha ouvido antes. Que, se aquele casal ficasse um tempo sem contato, ele conseguisse o remédio da criança no lugar deles.
— E o dinheiro?
Kwak Soohwan tirou a moeda corrente em Rainbow City. Havia sete tipos de cédulas, e sete cores. Entre elas, a verde era a de maior valor. Quando ele estendeu a cédula com o arco-íris todo desenhado em verde, o caolho aproximou uma lupa do olho bom e verificou a autenticidade.
— Eu trago depois de amanhã, então espera.
— Sem falta, hein.
Ignorando as palavras de Kwak Soohwan, o caolho fechou a porta com brutalidade.
— Um zé-ninguém que fica se achando e fazendo cara feia, porra.
Kwak Soohwan cuspiu na porta fechada. Descendo até o térreo, encontrou o carro dos pais e, com uma habilidade ainda imatura, assumiu o volante. Assim que ligou o rádio e obteve informações sobre as áreas designadas como zona vermelha, pisou no acelerador.
Kwak Soohwan sabia o que era mais assustador que os Adam. Era a fome. Claro que raramente se deparava diretamente com Adam. Kwak Soohwan parava o carro antes mesmo de chegar à fronteira da zona vermelha e entrava correndo por um atalho. Por sorte o mercado não ficava longe dali. Verificou os arredores para conferir se havia Adam e correu imediatamente até o mercado. Devia ter sido área de gente importante por um tempo, porque no mercado havia até produtos frescos que não se viam com frequência. Claro que os de validade curta já estavam podres.
Como sacolas plásticas fariam barulho, ele abriu o zíper da mochila e foi guardando as conservas. Os industrializados eram em geral latas de longa validade e, claro, não tinham gosto. Kwak Soohwan foi ganancioso e enfiou comida até o zíper da mochila não fechar. Ao ver água mineral de Jeju, abriu a tampa e bebeu em goles fartos. Fazia muito tempo que não bebia água limpa, sem impurezas. E por último viu ovos e enfiou uma bandeja inteira.
Na outra mochila colocou o mais importante: água em grande quantidade. Só o que havia nas duas mochilas devia pesar uns trinta quilos. Seria pesado demais para um garoto de quatorze anos, mas Kwak Soohwan só desejava ter mais mãos. Aquele peso não era nada.
Vasculhou a prateleira de medicamentos num canto do mercado, mas não encontrou o remédio que o irmão precisava tomar. Kwak Soohwan olhou ao redor e voltou a correr, tendo como companhia o caminho bem iluminado pelo luar. O tilintar das latas batendo na mochila lhe gelou a espinha, mas por sorte nenhum Adam apareceu. Respirou fundo uma vez e apressou os passos rumo ao carro estacionado.
— Droga.
Assim que avistou o carro, Kwak Soohwan xingou baixinho. Os militares que tinham saído do posto de controle acharam o carro estacionado. Eles iluminavam o interior com lanternas e começaram a revistar. Kwak Soohwan não teve escolha senão seguir a pé. Era um lugar a trinta minutos de carro, correndo e andando, levaria pelo menos meio dia.
Kwak Soohwan começou a correr sem parar, com o irmão deixado sozinho martelando em sua cabeça. Sentia a mochila ficar aos poucos mais pesada, mas isso não alterava o ritmo do seu coração. Kwak Soohwan sentia vagamente, desde pequeno, que era um pouco diferente das outras pessoas.
Não conseguia empatizar com um “está cansado?”, e a um “está pesado?” sentia, ao contrário, leveza. O garoto subiu de um fôlego só até o décimo andar do prédio, cujo elevador não funcionava, e bateu à porta.
Toc, toc, toc.
O sol da manhã já tinha nascido, então não havia como o irmão estar dormindo. Kwak Soohwan girou a maçaneta uma vez. Estava trancada, então só se ouviu o chacoalhar.
Toc, toc. Bateu de novo. Sentiu algo morno e úmido pingando às suas costas. Restos de ovos quebrados escorriam de dentro da mochila para fora.
Jihwan, o hyung chegou.
Abriu a boca, mas a voz não saía. Ele cerrava o punho e voltava a bater na porta quando…
[Toc, toc… toc, toc, toc.]
— !
Kwak Soohwan, que dormia, abriu os olhos.
Ele franziu levemente a testa e olhou na direção de onde vinha o som. Como tinha o sono leve, não havia como ter acordado por ter ouvido coisas. Olhando o relógio de mesa, os ponteiros marcavam cinco da manhã. Passou a mão grande pelo rosto e ergueu o corpo da cama. As molas velhas rangeram como suas memórias.
Toc, toc. O som da batida veio de novo, mas não parecia um som de mão. Era uma batida mais surda, com menos ressonância. Ele abriu a garrafa de água e bebeu direto do gargalo enquanto ia até a porta. Abriu sem nem conferir quem era e viu um homem de estatura menor que a sua.
— Doutor Seok?
Ele tem sonambulismo? São só cinco da manhã e ele bate na porta dos outros?
Seokhwa fez uma reverência e estendeu a palma da mão, oferecendo-lhe algo.
— O que é isso?
Era uma pedra molhada, como se tivesse sido lavada. Pensando bem, ele devia ter batido na porta com aquela pedra.
— É uma pedra com umidade, vou dar pro major Kwak Soohwan.
— O quê?
— Pega.
E isso agora… Kwak Soohwan, já de mau humor por causa do sonho ruim, ficou incrédulo ao ver Seokhwa fazendo coisas incompreensíveis.
Ele segurou a maçaneta e, com a porta aberta, inclinou o corpo em direção a Seokhwa.
— Quem gosta de pedra é o doutor Seok, não eu, né?
— É que eu não consegui… agradecer.
Ele acordou uma pessoa às cinco da manhã só para agradecer? Kwak Soohwan constatou de vez que a sociabilidade de Seokhwa era baixíssima.
— Se for pra agradecer, traz bebida ou cigarro. Vou fechar a porta.
Quando ia fechar, Seokhwa deu um passo à frente. Devia ter saído do banho, porque o cabelo parecia mais macio que o normal. E o perfume que subiu dali era muito bom.
— O que foi?
— Posso entrar?
Talvez por não esperar que a pedra fosse recusada, parecia de algum modo desanimado. Claro, ele continuava sem expressão, então podia ser impressão de Kwak Soohwan.
— Por quê?
— Por acaso… o major Kwak Soohwan sabe quem me sequestrou?
O resto do sono de Kwak Soohwan, já espantado, agora sumia até para fora de Rainbow City. Ele apontou o queixo para dentro. Só soltou a maçaneta depois que Seokhwa entrou.
Seokhwa olhou para a porta que se fechava e se voltou para ele.
— Nem eu sei com precisão quem sequestrou o doutor Seok.
— É mesmo?
— E o senhor doutor sabe?
— Acho que sei.
Seokhwa respondeu prontamente, sem hesitar. Kwak Soohwan bebeu água de novo e cruzou os braços segurando a garrafa.
— Mas por que não contou ao Lee Yeontae?
— Porque não é certeza. A pessoa que feriu a perna da major Lee Chaeyoon deve ser quem me sequestrou, não é?
— Deve ser.
— Explicar o encadeamento dos fatos ao tenente-general Lee Yeontae exigiria uma compreensão que ainda me falta, então passei a madrugada organizando as ideias. Pelo visto, os rebeldes que me sequestraram… parecem ser a nova religião Jardim do Éden. E parecem estar ligados ao assassinato do doutor Oh Yangseok.
Seokhwa, por incrível que pareça, olhava fixamente para Kwak Soohwan enquanto falava. As pupilas límpidas, sem aquela habitual expressão aérea, eram nítidas como cristal. Bem, diamante e cristal, no fim das contas, também são pedras.
Kwak Soohwan pousou a garrafa e se aproximou devagar de Seokhwa. Seokhwa ficou parado ali mesmo e ergueu os olhos para ele. Zás — a uma distância em que os corpos quase se tocavam, Kwak Soohwan aproximou ainda mais o rosto. Era como se, inclinando um pouco mais a cabeça, fosse beijá-lo.
— Doutor Seokhwa.
Kwak Soohwan soltou a voz ainda mais rouca que o normal e sacudiu uma vez o olhar gélido.
— Você quer aprontar comigo agora, é?
Ele sorriu de canto.
— Aprontar o quê?
— Não me diga que foi por esse motivo que você veio me procurar a essa hora da madrugada.
— Foi por esse motivo mesmo.
Seokhwa achava que Kwak Soohwan estava tentando desviar do assunto.
Ele já brincava sobre esperma e outras coisas antes, mas o homem que abriu a porta e o encarou era estranho. Mais do que irritação por ter sido acordado, aquele ar frio e inexpressivo parecia mais próximo do verdadeiro Kwak Soohwan. Ele não conseguia entender o homem diante dele tanto quanto não conseguia entender o sequestrador sem rosto.
— Jardim do Éden, foi você quem mencionou primeiro pra mim.
Só então Kwak Soohwan puxou uma cadeira e a colocou diante de Seokhwa. E se sentou na outra com o encosto para frente, pernas abertas. Apoiou o braço no encosto e lançou a Seokhwa um olhar mandando que se sentasse.
— Hoje o sequestrador me disse que pertence ao Jardim do Éden. E também disse que a Rainbow City está podre e que o guardião dessa cidade podre é o major Kwak Soohwan.
Uma das sobrancelhas de Kwak Soohwan se torceu, desagradada.
— E eu também ouvi o testamento do doutor Oh Yangseok.
Ele abriu os lábios fechados, parecendo querer cortar sua fala. Por isso ele continuou mais rápido:
— Mas tem algo estranho.
— E o conteúdo do testamento?
— Como veio logo um disparo, não sei bem. A parte anterior era mais ou menos que ele não conseguia contato comigo em Jeju.
— Então é só reportar isso ao tenente-general Lee Yeontae amanhã.
Quando Kwak Soohwan se levantava dizendo que não precisava ouvir mais, Seokhwa agarrou primeiro seu pulso.
— O sequestrador disse que era do Jardim do Éden… Serpente.
Um calor abrasador, como se ele tivesse engolido fogo, se transmitiu da mão de Seokhwa.
— Serpente?
— Sim. Mas o estranho é…
Seokhwa hesitou por um instante, pensando se podia expor sua dúvida a Kwak Soohwan. Mas já tinha pensado o suficiente. O tal Serpente disse para não confiar em Kwak Soohwan, mas, para começar, ele não tinha grande confiança nele.
— Ele disse a si mesmo que era Serpente?
Cada um pensava numa coisa, e Kwak Soohwan foi quem lançou a pergunta primeiro.
— Isso.
— E o que mais é estranho?
— É estranho que eles tenham em mãos a mensagem que o doutor Oh Yangseok deixou para mim. Ele mesmo me disse que rebeldes teriam dificuldade até de se aproximar do abrigo. Então como conseguiram essa mensagem? E ainda por cima uma gravação feita imediatamente antes de o doutor Oh Yangseok ser assassinado.
Enquanto ouvia Seokhwa, um sorriso foi se espalhando pelo rosto de Kwak Soohwan. Ele achava que ele era brilhante só na pesquisa, mas, se tivesse preparo físico, seria um ótimo investigador da polícia militar. Mas Kwak Soohwan mostrou uma reação displicente, como se não tivesse interesse algum. O que preenchia sua cabeça naquele momento era o Serpente.
— Por que está me contando a verdade antes de contar ao Lee Yeontae?
— Porque quero ajuda.
Foi direto ao ponto de novo.
— Meu acesso aos registros de casos da polícia militar foi bloqueado.
— Deve ser falta de nível.
— Eu podia consultar até documentos de nível 2, mas agora até o meu nível está classificado como confidencial.
Provavelmente a cúpula tinha bloqueado com medo de que Seokhwa desenvolvesse tendências rebeldes. Kwak Soohwan apenas supôs, mais ou menos.
— E daí?
— Há materiais que gostaria de consultar sobre o assassinato do doutor Oh Yangseok, por acaso o major Kwak tem acesso a documentos de nível 2?
— Que isso, o que você acha que eu sou?
Seokhwa fez uma cara de “eu imaginava”. Para um major, até documentos de nível 3 seriam difíceis.
— Eu tenho acesso até o nível 1.
O entrecenho de Seokhwa, antes sem expressão, se franziu visivelmente. Como assim ele podia consultar até nível 1, se ele mal conseguia ver nível 2? Era mais ou menos isso que transparecia. Doutor Seok, ficou com o orgulho ferido, é?
— Eu te dou dinheiro, me deixa ver os materiais.
Pelo visto, mais importante que o orgulho era a resposta às suas dúvidas. Kwak Soohwan riu, soltando um som na garganta.
— Eu posso deixar você ver. E nem precisa de dinheiro.
Seokhwa se levantou da cadeira e falou com a voz animada:
— Sério? Muito obri…
— Se você transar comigo.
— …Como?
O vinco no entrecenho ficou ainda mais profundo do que antes.
— Você ainda ganha o esperma, que ótimo.
Esperma… Seokhwa murmurou, olhou para o computador, depois para a pedra na mão e enfim ergueu a cabeça para Kwak Soohwan.
— Dinheiro eu não quero, se não quiser, tudo bem.
Kwak Soohwan apoiou o queixo no braço que descansava sobre o encosto. Desde antes havia bastante brincadeira ali. Surgiu-lhe o impulso de arremessar uma pedra naquela cara que ria como se aquilo fosse brincadeira, mas ele se conteve.
— Não é a ponto de eu dormir com você.
Seokhwa girou o corpo e tentou sair. Mas os passos estavam pesados. Não lhe ocorria ninguém além de Kwak Soohwan a quem pedir.
— Tchau, doutor.
Como ele ainda acenava com a mão, Seokhwa encheu bem o peito de ar e falou:
— Não pode ser outra coisa que não isso?
— O que é que você quer tanto saber?
— Quero saber com certeza como o doutor Oh Yangseok morreu.
— Mas não a ponto de transar comigo, pelo visto.
Ele estava perguntando: “O Oh Yangseok vale só isso pra você?”. Seokhwa, cada vez mais irritado com aquelas alfinetadas, aproximou-se em passadas largas.
— Você disse que seu órgão genital não fica ereto. Então como pretende transar?
— Ah, é assim então. E se ficar duro agora?
Kwak Soohwan baixou apenas o olhar e apontou para a própria cintura.
— Vamos negociar.
Diante da resposta inesperada, Kwak Soohwan arregalou os olhos. Até a palavra “negociar” saindo da boca do doutor Seok, hein.
— Transar agora é difícil, mas beijo é possível.
Pronto. Seokhwa ergueu a cabeça com os olhos bem abertos. Ao menos os olhos ele não devia fechar? Kwak Soohwan também não avançou, ficou parado.
— Quem pediu o favor foi o doutor Seok, por que eu que tenho que fazer? Você é que tem que vir primeiro.
— Eu falei que te dava dinheiro.
— Eu tenho muito dinheiro. Deve ter um monte de notas de todas as cores naquela gaveta.
Piscando as pálpebras, Seokhwa pousou as duas mãos nos ombros de Kwak Soohwan. Teve a ilusão de que o calor abrasador das palmas se espalhava dos ombros por todo o corpo. Tão quente assim, será que os neurônios dele não morrem? Kwak Soohwan baixou um pouco a cabeça, como quem diz “vamos, tente”. Viu o pomo de adão de Seokhwa se mover. Por que alguém que já teve namorados fica tão tenso? Como ele se aproximava a um centímetro por minuto, ele quase se adiantou e abaixou a cabeça de tanta ansiedade. Estreitando os olhos risonhos, esperou Seokhwa se aproximar e voltou a pensar no Serpente.
Serpente, pelo que se sabia, designava a alta cúpula do Jardim do Éden, e era difícil acreditar que ele tivesse agido pessoalmente. Ou então era alguém tão confiante na própria habilidade a ponto de se expor na linha de frente.
— Major Kwak Soohwan.
— Hã?
— Até onde é conversa fiada e até onde é verdade?
Perguntando o que era aquilo de repente, ele olhou fundo nos olhos de Seokhwa, agora bem próximos.
— Você não quer mesmo transar comigo, nem me beijar, quer?
Sempre com aquele olhar aéreo, mas era rápido para perceber as coisas.
— Que isso, se tiver oportunidade, eu quero fazer tudo, é claro.
Kwak Soohwan puxou de repente a cintura de Seokhwa, que ia se afastar. Seokhwa empurrou depressa seu peito, então os troncos se separaram, mas as cinturas dos dois se colaram profundamente. Kwak Soohwan apertou de propósito a cintura que abraçava para que ficassem ainda mais colados.
— Abre a boca.
Ainda assim Seokhwa manteve os lábios firmemente fechados e apenas ergueu a cabeça. Estava todo ressecado, e só os lábios eram cheinhos — o que, à sua maneira, dava uma sensação estranha.
Kwak Soohwan inclinou a cabeça de lado e pressionou com força os lábios contra os de Seokhwa. Quando enfiou a língua tentando entrar pela boca, ele estava cerrando os dentes. Lambendo a arcada dentária com a língua, mordiscou de leve o lábio inferior e soltou, então escapou dele um “ah”. Sem perder a brecha, segurou-lhe a nuca e colou os lábios com profundidade. Diante da textura dos lábios cheinhos contra os seus, veio-lhe o impulso de mordê-los mais. A língua tensa de Seokhwa não sabia o que fazer lá dentro e tremia intermitentemente, e Kwak Soohwan enlaçava a língua que fugia dele e a sugava com força.
Haa, quando Seokhwa afastou os lábios por falta de ar, ele o perseguiu e o devorou de novo. Seokhwa fugiu novamente para respirar, e Kwak Soohwan não era de deixar escapar. Com isso, os lábios e o queixo ficaram úmidos de saliva. Isso é que era beijo? Seokhwa nunca tinha experimentado nada assim.
Seokhwa limpou os próprios lábios com o dorso da mão. A cintura ainda estava presa por ele, e ele não conseguia recuar. Como a saliva não saía por completo, ele ia esfregar de novo com o dorso da mão quando os lábios dele se aproximaram. Ficou paralisado achando que ele fosse beijá-lo outra vez, mas ele apenas pôs na boca o seixo que segurava.
Seokhwa olhou para Kwak Soohwan, surpreso. Ele não era um militar capaz de mastigar pedra, mas Kwak Soohwan rolava o seixo na boca como quem saboreia. Ugh! E então segurou a bochecha de Seokhwa e passou o seixo para dentro de sua boca. Como ele o carregava havia muito tempo, estava liso pelo desgaste e não tinha aspereza, mas era a primeira vez que ele o provava. Era literalmente sem gosto nenhum. Seokhwa esticou a língua e cuspiu o seixo na palma da mão.
Zás, Kwak Soohwan empurrou o rosto por baixo e o beijou, fazendo-o inclinar de novo a cabeça para trás. Mordiscando o lábio superior e o inferior, os cantos da boca ficaram todos ardidos. Já chega — Seokhwa tapou os lábios com a mão e empurrou também o rosto dele. Quando ele lambeu sua palma com a língua, a mão se encolheu de cócegas.
— Você é mais gostoso que a pedra.
Só então Kwak Soohwan o soltou dos braços. Ele ligou o computador e voltou, os lábios ainda estavam úmidos.
— Mother, solicito autorização de acesso, code number 3121.
[Verificação de voz concluída. Acesso do senhor Kwak Soohwan, code 3121, autorizado. Consulta permitida até documentos confidenciais de nível 1.]
Seokhwa, com a pedra úmida na mão, ficou com o olhar embotado e logo se recompôs. Não era hora de ficar imerso nas sensações do beijo, e ele nem queria pensar naquilo como uma sensação. Foi até o computador e começou a digitar, sem nem se sentar na cadeira.
Como previa, os registros de casos da polícia militar eram quase todos de nível 2. Logo encontrou o caso do doutor Oh Yangseok e teve que constatar que, de qualquer forma, não teria conseguido vê-lo com seu nível.
O caso do assassinato do doutor Oh Yangseok estava classificado como confidencial nível 1. Quando ele tentou abrir o documento, uma voz seca saiu pelo alto-falante.
[Documentos confidenciais nível 1 dos registros da polícia militar são acessados por reconhecimento de voz.]
— O que você quer saber?
Kwak Soohwan, que observava de braços cruzados, falou.
— Como eu disse, o caso do assassinato do doutor Oh Yangseok.
De repente Kwak Soohwan pegou o relógio de mesa e o colocou diante de Seokhwa. E então mostrou dois dedos esticados. Como fez um V, ele se perguntou o que significava.
— Mother, exiba na tela o registro do caso do assassinato do doutor Oh Yangseok.
[Carregando. Prosseguindo.]
No monitor surgiu um arquivo em formato de páginas viráveis, e na primeira página estava o título “Registro do caso do assassinato de Oh Yangseok (em andamento)”. Seokhwa abriu rapidamente o documento confidencial e começou a ler.
Que um projétil calibre 9mm de uma Beretta M92F atravessou o coração e causou a morte imediata era idêntico ao que ele já tinha. A hora estimada da morte também constava como cerca de cinco da manhã, e as imagens de CFTV constavam como irrecuperáveis. Havia também fotos do corpo do doutor Oh Yangseok, mas essas ele não conseguiu olhar em detalhe. Ainda assim, foi gravado o registro na memória com cuidado.
[O responsável pelo assassinato do doutor Oh Yangseok está sendo rastreado, e suspeita-se de ação externa, não interna. Considera-se que haja pessoal do abrigo subornado, e rastreiam-se os passos de diversos rebeldes. A missão de investigação foi atribuída ao 2º pelotão da polícia militar e ao major Kwak Soohwan.]
— Encerrar o acesso.
[Encerrando acesso.]
Seokhwa se virou de repente e olhou para ele, incrédulo.
— Eu ainda estava lendo.
— O valor da negociação vai até aqui.
Kwak Soohwan mostrou de novo o indicador e o médio esticados.
— O tempo que a gente se beijou também foi de dois minutos, ver mais que isso é prejuízo demais pra mim.
Ele nem tinha conseguido ver direito a parte final… Não, mais que isso, o que o incomodava era que Kwak Soohwan estivesse incluído entre os encarregados da investigação do assassinato de Oh Yangseok.
— Quer ver mais? Então vai precisar de algo além do beijo.
Seokhwa falou com dureza para aquela cara que sorria largamente:
— Não, obrigado, já vi o suficiente.
Ele disse que então voltaria a dormir e molhou de novo a garganta com água. Olhando com desagrado para as costas dele, Seokhwa se aproximou da cama.
— Nem precisava consultar os documentos desde o começo. Afinal, quem investiga o caso do assassinato do doutor Oh Yangseok é o major Kwak Soohwan. E o Jardim do Éden também… O major Kwak Soohwan não negou. Que o doutor pode ter morrido por atrito com a cúpula. Mas ali no registro estão investigando como se tivessem concluído que foi ação externa.
Irritado, Seokhwa despejou palavras longas e rápidas. Kwak Soohwan estava com os dois braços atrás da cabeça, de olhos fechados, virado para o teto. Parecia decidido a não dizer mais nada.
— Você não tem nada a me dizer?
— É exatamente o que o doutor Seok viu, e eu também não sei ao certo quem é o culpado. E por que se preocupar com coisas inúteis? O doutor Seok é pesquisador, não é da polícia militar.
Diante daquelas palavras cheias de riso, Seokhwa subiu de repente sobre o corpo dele. Kwak Soohwan só então abriu os olhos, atônito.
— Eu…
Seokhwa ia dizer algo, hesitou e agarrou com força a camisa de Kwak Soohwan com as duas mãos. Olhando de baixo para cima, a linha do queixo dele era lisa. Havia razão para Lee Chaeyoon viver dizendo que o doutor Seokhwa era bonito. Aliás, só pela aparência, ele correspondia perfeitamente ao gosto de Kwak Soohwan. Mas era só até aí. Para Kwak Soohwan, o mais importante era com que ideias Seokhwa agia.
— Eu… nasci e cresci em Jeju… então não sei. Nunca me perguntei o quanto as pessoas vivem com medo, nem por que os Adam não desaparecem. Mas…
Diante de Seokhwa se comportando emotivamente pela primeira vez, Kwak Soohwan não demonstrou reação alguma. Apenas encarou aqueles olhos confusos.
— Tem algo estranho. Parece que algo está errado. Porque o doutor teve que morrer… e o que aconteceu com o hyung também.
Havia mesmo algo estranho. Vivendo em paz em Jeju, ele não pensara nisso, mas, terminado o funeral da mãe, ele já se preparava para ser chamado ao Abrigo de Yeouido. Fosse qual fosse a razão dele, a cúpula era capaz disso e mais. Mas eles simplesmente o deixaram em Jeju. E, como disse Oh Yangseok, não houve contato entre eles. Como se tivessem separado o doutor dele à força.
A mão que segurava a camisa perdeu a força num instante. Como ele apertava com a pedra na mão, sentiu também uma dor aguda na palma marcada pela pedra. Sem forças de repente, ele tentou recuar o corpo que montou nele, mas ele lhe segurou a cintura.
— Que importância tem isso tudo? O doutor Seok só precisa pesquisar como a cúpula manda.
Por alguma razão, do ponto onde ele o segurava subia um frio gélido. Ao contrário do seu corpo quente, tanto os lábios quanto as mãos de Kwak Soohwan eram frios. Talvez fosse a temperatura média de uma pessoa, mas para ele era uma temperatura gelada.
Talvez Kwak Soohwan estivesse certo. Ele também não queria gastar energia com nada além do trabalho que lhe cabia, e nem tinha forças para isso. Mas, desde que voltou ao Abrigo de Yeouido, só havia acontecido coisas emotivas, sinistras e cheias de suspeitas.
— …Me solta.
Seokhwa apenas o afastou com palavras, sem forças. Kwak Soohwan o soltou mais docilmente do que se esperava. Ele saiu da cama devagar e começou a caminhar dando as costas para a cama dele.
— Doutor Seok.
Kwak Soohwan se deitou de lado, apoiou o queixo no braço e continuou:
— Tudo o que você me disse agora.
Pela porta que se fechava veio aquela frase:
— É tendência rebelde.
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Continua….
🌈 Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Othello