Kaleidoscope of Death (Novel) - ₊ Capítulo 43.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 43.1: Adornando um Sonho ⋆⁺₊
O ateliê da senhora ficava nos níveis superiores do castelo, no sétimo andar.
Xiao Su havia desaparecido subsequentemente depois de visitar o sétimo andar. Contudo, segundo o companheiro que estava com ela, eles nunca entraram no estúdio de arte da senhora; eles meramente estudaram as pinturas por perto.
Depois de subir a escadaria sinuosa até o sétimo andar, Ruan Nanzhu e Lin Qiushi foram, mais uma vez, presenteados com a visão fantasmagórica de uma passagem longa e tenebrosa. O corredor escuro daquele andar se estendia ilimitadamente, até onde os olhos mal podiam alcançar. Os pisos estavam recobertos por um tapete grosso, cobrindo toda a área desde as escadas e cessando bem antes da porta do estúdio no fim do corredor.
O ateliê era essencialmente diferente do resto dos cômodos daquele corredor. Um grande pano preto encobria toda a entrada; parecia que o dono daquele estúdio não desejava que a mais tênue das luzes perfurasse qualquer fresta da porta.
— Onde será que ela está agora? — Tan Zaozao estava com medo e hesitante. Esfregando os arrepios salientes em seus braços, ela sussurrou aflita: — Seria constrangedor pra caramba se ela estivesse no meio de uma pintura quando a gente invadisse o estúdio.
— Bom, vamos torcer para que ela não esteja dentro do estúdio, então. — Ruan Nanzhu disse. — Fiquem aqui. Eu vou bater na porta primeiro.
Ruan Nanzhu não estava brincando quando disse que bateria primeiro. Em três passadas largas, ele facilmente venceu a distância entre ele e o ateliê, antes de parar completamente diante da porta. Então, ergueu a mão e bateu educadamente.
Ao ver Ruan Nanzhu bater audaciosamente na porta, os olhos de Tan Zaozao ficaram arregalados como pires. Ela arfou chocada:
— Puta merda — mas quão grande é a coragem dele?!
Lin Qiushi, que já estava acostumado a essa altura, não demonstrou muita reação. Declarou com calma:
— Ele sempre teve muita coragem.
As batidas repetidas de Ruan Nanzhu foram recebidas com um silêncio abafado. Ele bateu os nós dos dedos contra a porta uma última vez, garantindo que ninguém estava do outro lado.
— Vamos entrar agora — falou Ruan Nanzhu.
— Mas está trancada. — Tan Zaozao apontou. — Como é que a gente vai entrar?
Ruan Nanzhu pescou um grampo de cabelo do bolso e se curvou, pondo mãos à obra com toda a naturalidade.
Tan Zaozao: …
Pensar que ela quase se esqueceu das habilidades divinas de Ruan Nanzhu.
Agachado, ele mexeu na fechadura por um tempo. Em pouco tempo, a tranca emitiu um clique furtivo ao ser aberta por Ruan Nanzhu. Ele então segurou gentilmente a maçaneta com uma mão e a girou lentamente, logo revelando o interior do cômodo. Espiou dentro do estúdio pela entrada, antes de se virar e chamar Lin Qiushi:
— Você vem comigo. Tan Zaozao, você vigia a porta e nos avisa de qualquer coisa suspeita.
Tan Zaozao assentiu obedientemente.
Lin Qiushi deu um passo à frente e entrou no ateliê com Ruan Nanzhu.
O estúdio não era nada grande, e a iluminação era péssima. As janelas estavam cobertas por cortinas pretas pesadas, bloqueando completamente qualquer facho de luz natural de serpentear para dentro. Eles só podiam contar com o brilho crepuscular lançado pelas luzes desbotadas e tremeluzentes no alto, mas aquilo não era nem de longe suficiente para dissipar a escuridão que obscurecia tudo; na verdade, eles tiveram que forçar bastante a visão para observar a situação do cômodo.
No centro do ateliê havia uma tela coberta sobre um cavalete. Os vapores pungentes de tinta acre invadiam o cômodo inteiro, sufocando-os.
Como de costume, Ruan Nanzhu não perdeu tempo. Ele caminhou prontamente até o cavalete fixo e levantou a lona de uma vez.
A remoção do pano revelou a existência de uma pintura inacabada. Lin Qiushi ficou pasmo diante da obra de arte à sua frente:
— Isto é…
— A Última Ceia. — completou Ruan Nanzhu.
À primeira vista, a pintura certamente guardava semelhança com A Última Ceia. A peça de arte retratava vividamente a cena sublime e dramática de um grupo de indivíduos compartilhando uma refeição final numa grande mesa de jantar. Contudo, num olhar mais atento, descobria-se que as pessoas presentes naquele jantar clássico não eram Cristo e seus doze apóstolos. Não, melhor dizendo, eram eles — isso mesmo, cada um deles que havia entrado naquele mundo de porta estava capturado naquela pintura.
Ruan Nanzhu. Lin Qiushi. Tan Zaozao. Todos. Estavam todos reunidos naquela grande mesa de jantar, ou comendo suas refeições mundanas de cabeça baixa, ou conversando baixinho com seus vizinhos.
Aquela pintura teria sido razoavelmente aceitável e muito menos chocante se fosse uma representação fiel deles, mas, é claro, não era esse o caso. Quase todas as figuras ilustradas naquela obra não tinham rostos; estavam absolutamente desprovidas de traços. Lin Qiushi só conseguiu distinguir os personagens da pintura por causa das roupas familiares que vestiam.
— O rosto dela foi desenhado. — Ruan Nanzhu apontou para uma jovem no canto da pintura. — Ela deve ser Xiao Su.
Lin Qiushi seguiu o dedo estendido de Ruan Nanzhu e estudou o ponto que ele indicava. Na borda da mesa de jantar estava sentada uma jovem cujo rosto estava retratado claramente. A expressão em seu rosto não era de prazer ou serenidade, mas de horror e agitação indescritíveis, tão vívida e realista. Era como se toda a miséria aprisionada na tela tivesse ganhado vida com aquele único pingo de cor da paleta do pintor. O sopro atormentador do desespero acariciou o ser de Lin Qiushi, incrustando-se insidiosamente nas profundezas de seu coração; ele podia sentir distintamente aquelas emoções desgraçadas, como se fizesse parte da própria pintura.
Além daquela pintura, não havia nada particularmente digno de nota naquele estúdio. Depois de vasculhar a área inteira em vão, Ruan Nanzhu não ousou se demorar ali por mais tempo. Sem demora, levou Lin Qiushi para fora do cômodo e trancou a porta atrás deles.
Vendo-os sair do estúdio, Tan Zaozao indagou ansiosamente sobre a situação lá dentro, perguntando o que eles viram.
— Uma pintura. — Lin Qiushi revelou. — Uma pintura de nós jantando.
Ele descreveu o quadro que viu. Depois de ouvir as circunstâncias, Tan Zaozao engoliu em seco ruidosamente e gaguejou com medo:
— A-aquela garota, Xiao Su… ela realmente se tornou parte da pintura, não foi?
— Hum — supôs Ruan Nanzhu. — Parece ser esse o caso. Eu quero verificar o sexto andar.
Lin Qiushi apoiou sua ação:
— Vamos.
O cômodo em particular que eles tinham em mente era exatamente o lugar do qual o mordomo os advertira estritamente — a sala de exposição de artes inacabadas.
Como o nome sugeria, aquele depósito era onde pinturas incompletas eram guardadas. Ruan Nanzhu localizou instantaneamente o cômodo no sexto andar, destrancou a porta sem esforço e entrou com Lin Qiushi.
A atmosfera lúgubre daquela sala de exposição inacabada era ligeiramente mais tolerável que a do ateliê. Pelo menos as janelas não estavam cobertas por cortinas do ébano mais negro, e o cômodo em si era relativamente espaçoso.
Várias obras de arte abstratas estavam espalhadas pelo interior daquele cômodo, cobrindo as paredes e o chão. Lin Qiushi examinou casualmente os arredores, apenas para descobrir que várias dessas peças permaneciam inacabadas, enquanto a grande maioria dessas telas estava desbotada de cor e desprovida de tema, absolutamente em branco.
O senso de observação de Ruan Nanzhu era afiado como sempre. Seus olhos varreram rapidamente as centenas de pinturas, e ele logo encontrou o que procurava. Chamou suavemente Lin Qiushi, que ainda estava olhando ao redor:
— Qiushi.
Tendo caminhado até o lado do outro, Lin Qiushi finalmente viu o que havia chamado a atenção de Ruan Nanzhu. Os pelos finos da nuca se eriçaram enquanto ele observava a pintura no fim do dedo apontado de Ruan Nanzhu. Sua voz se entregou ao silêncio por um longo e sufocante momento, antes que ele finalmente soltasse um grasnado rouco:
— Isto é… o meu quarto.
— Sim. — Ruan Nanzhu confirmou. — É o seu quarto.
A disposição era exatamente a mesma, dos detalhes menores dentro de seu quarto até a própria paisagem do lado de fora de sua janela. Aquela pintura diante dos olhos de Lin Qiushi era claramente seu quarto. A porta de seu aposento estava escancarada, e o chão estava visivelmente encharcado de água imunda — era uma réplica daquele pesadelo infernal que havia transcorrido na noite anterior. No entanto, uma peça importante da pintura estava faltando. Perto da porta aberta havia um espaço em branco, como se estivesse especificamente reservado para alguém — para Lin Qiushi.
— Se você não tivesse percebido que a Tan Zaozao daquela noite era uma farsa completa — Ruan Nanzhu contemplava a pintura assombrosa, sua voz assustadoramente calma —, você certamente teria preenchido este espaço na tela.
Lin Qiushi:
— …É.
Ruan Nanzhu comentou:
— Mesmo assim, esta pintura é bastante fascinante. Eu me pergunto se conseguiríamos levá-la conosco.
Embora dissesse isso, ele não tinha a menor intenção de tocar a pintura com as próprias mãos. Ele então girou nos calcanhares:
— Vamos. Não há mais nada para ver.
Lin Qiushi perguntou:
— Você memorizou as pinturas?
Ruan Nanzhu respondeu:
— Até certo ponto.
Na verdade, Ruan Nanzhu só havia tomado nota da ideia geral representada nas obras. Enquanto Ruan Nanzhu e Lin Qiushi saíam do cômodo, ele explicou:
— É inútil gravar tais coisas na memória. Essas pinturas estão expostas em cada canto deste castelo, e elas não podem ser evitadas.
Lin Qiushi suspirou.
— Desde que você seja cauteloso de agora em diante, não deveria haver problemas. — Ruan Nanzhu o tranquilizou. — Afinal, esta é uma porta de nível inferior, então as condições de morte não são tão severas, relativamente falando.
Tan Zaozao resmungou em objeção, argumentando que as condições eram severas além da conta. Nem era uma questão discutível; nem é preciso dizer que ela já estaria a sete palmos se estivesse na posição de Lin Qiushi na noite anterior. Quem diabos no mundo conseguiria pensar com clareza e serenidade diante de uma situação tão angustiante?
Ruan Nanzhu a olhou de relance com sua visão periférica e, mostrando uma rara instância de bondade, a consolou gentilmente:
— Não se preocupe. Se você virar uma pintura…
Com olhos cintilantes, Tan Zaozao completou ansiosa:
— Vocês vão me salvar?
Ruan Nanzhu:
— Nós certamente lembraremos de você e dos seus momentos finais em nossos corações, e continuaremos vivendo nossas vidas ao máximo por você, para que você possa descansar em paz e sem preocupações.
Tan Zaozao: …
Uau, obrigada pela falta de conforto.
Eles passaram mais tempo explorando os dois lugares do que o esperado. Quando finalmente desceram do andar superior para o inferior, era quase hora do jantar.
Na hora certa, todos chegaram ao grande salão de jantar e se acomodaram à mesa, preparando-se para comer. Enquanto atacavam a refeição, Lin Qiushi descobriu que alguém estava faltando; apenas sete pessoas estavam sentadas à mesa.
— O que aconteceu com a outra pessoa? — Lin Qiushi perguntou à multidão.
— Ele disse que não estava se sentindo muito bem — respondeu alguém. — Então, está descansando no quarto dele.
Lin Qiushi indagou:
— Ele não quer descer para jantar?
A outra pessoa pausou:
— Eu não sei… Vou ver como ele está depois.
Lin Qiushi murmurou, não se detendo mais no assunto.
O castelo era enorme, cobrindo uma extensão considerável de terreno, e todos estavam sempre dispersos pelos terrenos do castelo. Eles só podiam usar o tempo durante as refeições para determinar o número de indivíduos presentes e avaliar a situação atual.
A pessoa que respondeu às perguntas de Lin Qiushi parecia estar no limite, remexendo-se constantemente em seu assento. Ele saiu apressado do salão de jantar depois de comer metade de sua refeição. Apenas alguns minutos se passaram, quando ele voltou freneticamente com o rosto drenado de sangue e o corpo trêmulo. Por entre os lábios trêmulos, ele gaguejou:
— E-e-ele sumiu. Ele não está no quarto dele.
Um silêncio despótico caiu sobre a multidão.
— Vocês procuraram por ele? — Lin Qiushi finalmente falou. — Talvez nos corredores ou nos banheiros próximos…
— Eu verifiquei. — O outro respondeu tremulamente. — Mas não havia nada.
Ruan Nanzhu limpou a boca graciosamente:
— Havia mais alguma coisa no quarto? Por exemplo, uma pintura ou algo assim?
O homem vacilou:
— …E-eu não verifiquei.
— Vamos dar uma olhada, então — disse Ruan Nanzhu.
O homem olhou para Ruan Nanzhu e assentiu com gratidão. Parecia que ele tinha medo demais de verificar sozinho.
Ao deixarem o salão de jantar, o grupo se dirigiu ao quarto do homem desaparecido. Assim que Lin Qiushi pôs os pés no cômodo, o fedor estagnado de água assaltou suas narinas. Sem dúvida, o dono daquele quarto provavelmente havia passado por um incidente semelhante ao de Lin Qiushi, mas, tragicamente, a sorte dessa pessoa não foi tão boa quanto a dele.
— Deveria haver uma pintura neste quarto. — Ruan Nanzhu olhou para a parede. — Ela não está mais aqui.
— O que você quer dizer? Aquela pintura… — Dado o que aconteceu com Xiao Su, nenhuma única pessoa tinha esperanças de que o homem sobrevivesse. Por fim, alguém proferiu aflito: — O Yang Jie está…
Aparentemente, Yang Jie era o nome do homem que havia sumido no ar.
— Nós não podemos dizer com certeza ainda. — Ruan Nanzhu balançou a cabeça. — Nós temos que procurar um pouco mais.
Eles reviraram o castelo inteiro, procurando exaustivamente em cima e embaixo inúmeras vezes, sem negligenciar um único canto. Mas, apesar de vasculharem vários andares, não conseguiram encontrar a pintura de Yang Jie. Isso até o dia seguinte, quando Lin Qiushi incidentalmente olhou pela janela. Através da vidraça limpa, ele avistou algo bastante estranho espiando dos arbustos distantes.
Ele correu imediatamente em direção aos arbustos, apenas para descobrir uma pintura escondida entre a vegetação densa. A moldura preta que a encaixava era familiar demais, assim como as manchas de terra fresca que sujavam sua superfície — aquela era, inequivocamente, a mesma moldura que Lin Qiushi e Ruan Nanzhu haviam previamente enterrado fundo no solo.
Yang Jie não estava mais desaparecido; ele havia se tornado parte da pintura nas mãos de Lin Qiushi. Sua figura contorcida se derretia na vegetação retratada, deformando-se de maneira bizarra e curvando-se para dentro, uma visão perturbadoramente estranha de se contemplar.
— Encontrei ele — anunciou Lin Qiushi, ao voltar ao castelo com a pintura na mão.
— Buaaaa… — O companheiro de Yang Jie começou a choramingar amedrontado ao ver o quadro. Como se tivesse sido atingido por um raio, o homem grande tremeu violentamente em seus sapatos. Ranho e lágrimas escorriam sem parar por suas bochechas pálidas, enquanto ele balbuciava: — Nós vamos todos morrer aqui, buá, nós vamos todos morrer aqui…
Sua mente havia muito tinha desmoronado, o último fiapo de razão estilhaçando em pedaços. Um após o outro, os demais começaram a desabar no chão numa bagunça de soluços. O rosto de Ruan Nanzhu foi ficando mais sombrio conforme os ruídos clamorosos aumentavam; logo, o cômodo inteiro estava completamente repleto de gritos torturantes de desespero e lamentos de histeria.
Carente da habilidade de confortar aqueles indivíduos chorosos, Lin Qiushi simplesmente os deixou chorar. Por fim, a paciência de Tan Zaozao se esgotou. Incapaz de suportar o alvoroço por mais tempo, ela explodiu, xingando loucamente e cuspindo com raiva:
— Olhem só para vocês, bando de covardes de merda chorando desse jeito! Vocês acham que chorar vai resolver alguma coisa, é?! Pensar que uma garotinha como eu é mais corajosa que cada maldito homem crescido nesta sala!
— Então fale! O que a gente deveria fazer, hein?! — O homem rugiu para ela. — Mais alguém virou uma pintura!
— Como é que eu vou saber que porra a gente deveria fazer! — Tan Zaozao retrucou sem educação. — Idiotas de merda! Eu não sou a porra da mãe de vocês! Por que diabos eu deveria cuidar de bebês como vocês!
O humor de Ruan Nanzhu estava terrivelmente péssimo a essa altura. Diante da multidão em pânico, ele se virou bruscamente e saiu do cômodo sem uma palavra. Lin Qiushi e Tan Zaozao o seguiram apressados.
╋━ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki