Kaleidoscope of Death (Novel) - ₊ Capítulo 42.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 42.1: A Moldura Preta ⋆⁺₊
“Eu nunca vou conseguir dormir naquela cama. Eu definitivamente nunca vou conseguir dormir naquela cama doce e aconchegante nesta minha vida. Mas não importa, porque o chão aqui é reto e duro. Eu gosto muito dele. Isso mesmo, eu amo este chão superduro…” Jazendo impotente no chão frio e desconfortável, Tan Zaozao havia recorrido a se auto hipnotizar.
Diante da recusa impiedosa de Ruan Nanzhu, a miúda Tan Zaozao foi forçada a dormir no chão mais uma vez, enquanto os dois homens crescidos se espremiam numa cama macia. Claro, ela não se esqueceu de xingar loucamente em seu coração enquanto montava sua própria cama no chão de aspecto patético; ela torcia profundamente para que suas preces pelo sofrimento daquele desgraçado de alguma forma chegassem a Lin Qiushi, e que ele transformasse a vida daquele reles Ruan Nanzhu num absoluto inferno.
Depois do descanso do meio-dia, começou a garoar lá fora.
Nuvens escuras e pesadas se acumulavam no céu sombrio. Gotas cristalinas de chuva caíam à terra em intervalos intermitentes, emitindo tamborilados nítidos ao se estilhaçarem contra o chão frio. Tendo acordado de seu cochilo, Lin Qiushi ficou junto ao parapeito da janela, contemplando silenciosamente a paisagem lá fora.
Através da janela, ele observou os arbustos exuberantes que adornavam os terrenos do castelo.
Os espinheiros viçosos pareciam ser uma espécie de roseira arbustiva. Infelizmente, a primavera ainda não havia chegado e as bordas dos arbustos também não haviam sido podadas, deixando-os com a visão desanimadora de um emaranhado crescido e desprovido de flores deslumbrantes.
A atmosfera ficou densa e úmida com a chuva, e aquele fedor distintivo de água começou a permear seus arredores. Ainda assim, o cheiro não era nem de longe tão intenso quanto na noite anterior; apenas pairava no ar, tênue, porém sempre presente.
— O que eles estão fazendo lá fora? — Tan Zaozao veio dar uma espiada, apenas para ver três indivíduos passeando com guarda-chuvas.
Os três indivíduos eram todos pessoas que também haviam entrado naquele mundo com eles. Naquele momento, pareciam estar procurando por algo.
— Eles provavelmente estão procurando algumas pistas. — Lin Qiushi os observava com curiosidade. — Talvez a gente devesse dar uma olhada por aí também?
Tan Zaozao perguntou:
— Devemos ir?
Lin Qiushi se virou para encarar Ruan Nanzhu, que ainda estava relaxando na cama sem se importar com nada.
Sob seu olhar questionador, Ruan Nanzhu respondeu preguiçosamente:
— Não. — Seu tom era entediado, e seu rosto, impassível. — Eu odeio a chuva.
Lin Qiushi murmurou:
— Então não vamos.
As pessoas lá fora se aventuraram ainda mais fundo nos arbustos, por fim desaparecendo do campo de visão de Lin Qiushi.
— Eu não gosto de me molhar na chuva. — Ruan Nanzhu, que finalmente saiu da cama, vestiu casualmente seu casaco e calçou os sapatos. — Nós ainda não terminamos de explorar o resto deste castelo. Vamos.
O castelo era tão grande e espaçoso que era praticamente impossível inspecioná-lo a fundo numa única manhã.
Antes daquele incidente com Xiao Su, o humor da multidão era meramente tenso e ansioso; mas agora, podia-se dizer que estava sem ânimo, desesperadamente sem vida. A maioria deles simplesmente se sentava no triste salão de jantar, sem ousar se mover de seus lugares.
E assim mesmo, um dia inteiro se passou.
Depois que outro jantar luxuoso chegou ao fim, os outros arrastaram os pés todo o caminho de volta aos seus aposentos. Ruan Nanzhu perguntou a Lin Qiushi se ele tinha medo de ficar sozinho.
Lin Qiushi balançou a cabeça:
— Vou ficar bem. Mas, se acontecer qualquer coisa, eu venho procurar você na hora.
Ruan Nanzhu deu um aceno rápido e observou enquanto Lin Qiushi entrava em seu quarto, antes de girar e entrar em seu próprio quarto.
Apesar de serem por volta das seis da tarde, o céu sem estrelas lá fora estava escuro como a noite por causa da chuva que o encobria. Antes de se lavar, Lin Qiushi espiou pela janela por um tempo. As luzes escassas de seu quarto iluminavam fracamente a vegetação densa que se agarrava às paredes ásperas como garras selvagens.
Onde avistara aquela sombra escura e estranha na noite anterior, agora havia um espaço vazio. Não havia nada fora do comum.
Depois de examinar a área por mais um tempo, Lin Qiushi finalmente se virou e foi tomar banho.
Tendo terminado o banho, Lin Qiushi secava seu cabelo úmido com uma toalha ao sair do banheiro. Ele caminhava lentamente em direção à cama quando parou abruptamente no meio do passo… Uma figura estava de pé do lado de fora de sua janela.
Uma figura escura e nebulosa, de costas para ele.
Estava vestida nos tons mais negros, e um chapéu de aba larga repousava sobre sua cabeça. Ali ela permanecia imóvel, existindo silenciosamente na chuva fria com as costas voltadas para Lin Qiushi.
Um arrepio penetrante percorreu a espinha de Lin Qiushi, esmagando o suspiro de susto que escapava de seus pulmões. Ele cambaleou para trás e lambeu nervosamente os lábios secos enquanto tentava acalmar seu coração descompassado.
Embora a figura fosse bastante vaga e indistinta, era sem dúvida a senhora daquele castelo. Agora ele tinha certeza de que o que havia testemunhado na noite anterior não era uma alucinação.
O que exatamente a senhora do castelo estava fazendo perto dos arbustos tão tarde da noite?
Lamentavelmente, tal pergunta só podia ficar sem resposta naquele momento.
A silhueta na chuva não dava sinais de movimento; como uma estátua de mármore fixa, ela se mantinha ereta e absolutamente imóvel.
Lin Qiushi a encarou vigilante por mais de dez minutos, mas a figura não se mexeu nem um pouco. Por fim, o desejo de dormir o invadiu. Depois de checar as horas, ele voltou sonolento para sua cama e caiu sobre o grande colchão, afundando profundamente em suas cobertas macias.
Contudo, justo quando Lin Qiushi estava ficando confortável, algo peculiar chamou sua atenção. Suspenso na parede originalmente vazia diante de seus olhos havia um quadro emoldurado que não deveria estar ali.
O quadro emoldurado retratava uma mulher sem sorriso, desprovida de qualquer cor ou emoção. Seu vestido esvoaçante era mais negro que carvão, assim como o chapéu espalhafatoso em sua cabeça. Chuva de veludo branco riscava a tela, mesclando-se amorfamente ao fundo sombrio e pingando constantemente da aba larga de seu chapéu de tom obsidiana. Seus olhos turvos estavam ligeiramente baixos, e sua tez era mais branca que um lençol — era A Mulher da Chuva.
O sangue de Lin Qiushi gelou, e os pelos de seu corpo instantaneamente se arrepiaram. Ele saiu da cama com extrema lentidão e cautela, desejando desesperadamente deixar aquele lugar o mais rápido possível.
Quanto mais se aproximava da porta, mais forte ficava o cheiro de chuva, até praticamente encher suas narinas. O ar estava insuportavelmente sufocante; apenas respirar aquele fedor espesso e úmido fazia parecer que ele estava se afogando nas profundezas mais escuras de um lago turvo. Logo em seguida, Lin Qiushi viu manchas escuras e visíveis começarem a aparecer na parede abaixo da pintura.
Assim como poças lamacentas se juntavam em riachos rasos com o acúmulo de água, as manchas úmidas se fundiram e se deformaram na parede, esboçando constantemente o perfil de um rosto e formando o contorno de uma pessoa.
Lin Qiushi girou a maçaneta e escancarou a porta, antes de correr para fora de seu quarto e bater ansiosamente na porta de Ruan Nanzhu.
Segundos depois, a porta se abriu com um rangido revelando Tan Zaozao atrás dela. Ao ver a expressão abalada marcando o rosto de Lin Qiushi, ela percebeu instantaneamente que algo devia ter acontecido:
— O que houve? Aconteceu alguma coisa?
— Sim. — Lin Qiushi ofegava de forma irregular. — Tem algo errado com o meu quarto; a situação não parece nada boa.
— Entre. — Tan Zaozao se afastou, abrindo caminho para Lin Qiushi.
Lin Qiushi inspirou fundo e estava prestes a entrar no quarto, quando notou algo terrivelmente errado… a porta diante de Tan Zaozao havia se aberto para a esquerda.
No entanto, todas as portas daquele castelo se abriam para a direita.
A expressão de Lin Qiushi congelou, e seu pé parou no ar, sem ousar avançar mais. Ele deu um passo rígido para trás, recuando com extrema lentidão.
— O que houve? — indagou Tan Zaozao, a cabeça inclinada para um lado em pura perplexidade. Ela parecia completamente normal, como se fosse a única e verdadeira Tan Zaozao que grudava neles durante o dia.
— Qual é o seu nome? — Lin Qiushi perguntou sem fôlego. — Qual é o seu nome mesmo? Eu esqueci…
— Meu nome é Xu Xiaocheng. — Tan Zaozao lançou um olhar estranho a Lin Qiushi, como se estivesse olhando para um monstro bizarro. — Você está bem? Não tem nada de errado com a sua cabeça, tem? Você ficou com tanto medo assim?
Lin Qiushi não conseguiria rir nem se quisesse. Quando não havia mais ninguém por perto, ele, Ruan Nanzhu e Tan Zaozao usavam seus nomes verdadeiros para se referir uns aos outros. E, naquele momento, nenhuma única pessoa estava presente. Sem desperdiçar mais um segundo conversando com Tan Zaozao, ele girou nos calcanhares e correu imediatamente para seu próprio quarto.
Tan Zaozao ficou absolutamente pasma com suas ações. Só depois que Lin Qiushi bateu a porta é que ela finalmente conseguiu reagir. Sacudindo o choque, ela caminhou até a porta de Lin Qiushi e bateu várias vezes. Chamou preocupada:
— Yu Linlin, você está bem? Yu Linlin? O que há de errado com você? O que houve?
Lin Qiushi permaneceu em guarda atrás da porta fechada, recusando-se a proferir uma única palavra.
A voz urgente de Tan Zaozao continuou a ecoar pelo corredor escuro:
— Yu Linlin, ande logo e saia daí! Você não disse que tem algo errado com o seu quarto?! Yu Linlin…
Lin Qiushi baixou os olhos para o tapete perto da porta.
A cor nas bordas do tapete gradualmente começou a escurecer, e uma sombra úmida se espalhou lentamente pela superfície. Era uma visão à qual Lin Qiushi já estava bem acostumado a essa altura — o tapete estava claramente sendo contaminado por água.
Embora a voz da pessoa do lado de fora de sua porta fosse familiar demais, Lin Qiushi não tinha a menor ideia de que ser medonho ela realmente era. Ele virou a cabeça e olhou para a parede ao seu lado, apenas para ver gotas cristalinas de água começando a escorrer de A Mulher da Chuva. Gota a gota, as contas prateadas escorriam pela moldura, de forma semelhante a como deslizavam pelo chapéu de aba larga da dama.
— Linlin. Linlin… — A cada segundo que passava, a voz de Tan Zaozao ficava mais sinistra, embolada como se ela estivesse submersa em água densa. Enquanto ela socava implacavelmente a porta, aparentemente querendo despedaçá-la, ela rouquejou: — Linlin, saia, ah. Saia…
Lin Qiushi não respondeu. Ele apenas puxou com calma o banquinho e o escorou contra a porta.
O chão perto da porta ficou encharcado; era como se a “Tan Zaozao” de pé do lado de fora estivesse ensopada de água que jorrava sem fim. Era apenas natural que Lin Qiushi estivesse coçando de uma curiosidade venenosa. Falando honestamente, Lin Qiushi realmente queria ver o que estava acontecendo lá fora, mas, ao mesmo tempo, não era nem de longe corajoso o bastante para se agachar no chão e espiar pela fresta entre a porta e as tábuas do assoalho. Deus sabia que horrores macabros e de parar o coração espreitavam do outro lado; pelo que ele sabia, poderia até encontrar um par de olhos sinistros espiando de volta para ele pela fresta.
Enquanto escutava as batidas persistentes na porta, Lin Qiushi de repente se arrependeu de ter recusado o cigarro que Ruan Nanzhu oferecera. Naquele momento, ele não tinha mais nada para fazer, e parecia que a única coisa que podia acalmar seus nervos era o aroma ardente dos cigarros.
O fedor pungente de água assaltava suas narinas, sufocando-o. Lin Qiushi simplesmente permaneceu junto à porta encharcada, escutando cansado a voz estridente de Tan Zaozao se distorcer gradualmente além do ponto de reconhecimento.
Por fim, ela começou a lamentar desesperadamente, como uma coruja piando à meia-noite; seus gritos desagradáveis faziam seu couro cabeludo formigar.
— Saia! Saia! — A coisa atrás da porta uivava desgraçadamente, suas mãos arranhando histericamente a fresta entre a porta e o assoalho.
Dando um passo para trás, Lin Qiushi observou alguns dedos esqueléticos e pálidos como cadáver se estenderem pela fenda.
A janela fechada foi abruptamente escancarada pelos ventos cortantes; a folha da janela bateu violentamente contra o caixilho com um estrondo ressoante. Agitadas pelas rajadas tempestuosas, as cortinas lisas ondularam no ar como asas enormes amplamente estendidas, envolvendo o quarto de Lin Qiushi num véu esvoaçante. Embora houvesse uma distância considerável entre ele e o objeto de sua atenção, Lin Qiushi conseguia distinguir claramente a silhueta do lado de fora da janela. Em algum momento, a figura escura que estava perto dos arbustos havia se virado para encarar Lin Qiushi. Exatamente como ele suspeitara, era, de fato, a senhora do castelo.
Chuva impiedosa escorria pelo rosto pálido da madame como rios rasos, e ela encarava silenciosamente na direção do quarto de Lin Qiushi, uma mania angustiante fervilhando nas profundezas de seus olhos negros, arregalados e sem piscar.
Sem ousar olhar mais para ela, Lin Qiushi desviou o olhar. Em seu coração, ele rezava desesperadamente para que a manhã chegasse logo.
Quem sabe quantas horas se passaram antes que o confuso Lin Qiushi ouvisse batidas ferozes vindas de sua porta.
Enquanto esfregava os olhos, percebeu que de alguma forma havia adormecido ao lado da porta; estava largado no chão, o corpo apoiado na parede próxima. Justo quando se ergueu do chão duro, uma voz familiar soou do outro lado da porta. Tan Zaozao estava gritando por ele:
— Linlin, você está bem?! Abra a porta — eu vou arrombar se você não abrir logo!!!
Ao ouvir isso, Lin Qiushi lançou um olhar reflexo para fora da janela, apenas para ver que os aguaceiros havia muito tinham cessado. Naquele momento, as nuvens pesadas haviam se separado ligeiramente no céu, revelando lascas reluzentes de sol. Embora fossem meros fiapos tênues de luz, ainda era o bastante para aplacar o medo nocivo que apertava o coração das pessoas e lhes dar paz de espírito.
Lin Qiushi exigiu:
— Qual é o seu nome?
— Hã? O que há de errado com você? Você perdeu algumas células cerebrais depois de dormir? — Tan Zaozao ficou mais que perplexa com a pergunta de Lin Qiushi.
Lin Qiushi permaneceu em silêncio por apenas um momento, antes de girar a maçaneta diante dele.
A porta se abriu e, como esperado, Tan Zaozao estava bem ali. Ela coçou a cabeça sem jeito e comentou sem rodeios:
— Você está com uma cara horrível. O que aconteceu com você ontem à noite?
Lin Qiushi não respondeu e, em vez disso, retrucou com uma pergunta própria:
— Onde ele está?
Tan Zaozao soube automaticamente que Lin Qiushi perguntava sobre Ruan Nanzhu:
— Ele ainda está se lavando.
Lin Qiushi:
— Ah…
Tan Zaozao:
— O que aconteceu?
Lin Qiushi:
— Eu quase morri ontem à noite.
Tan Zaozao: …
Como você consegue dizer uma coisa tão assustadora e horrível com uma voz tão calma?
Alguns minutos depois, Lin Qiushi relatou o que acontecera na noite anterior a Tan Zaozao e Ruan Nanzhu. Embora tenha falado com muita calma e narrado brevemente sua experiência, sem se deter em cada detalhe trivial, Tan Zaozao ainda assim estremeceu depois de ouvir sua história. Ela engoliu em seco sua saliva espessa e gaguejou baixinho:
— E-então você não dormiu nada ontem à noite?
— Não exatamente. — Lin Qiushi bocejou. — Tirei um cochilo curto um pouco antes do amanhecer.
Ruan Nanzhu não falou nada depois de ouvir seu relato. Permaneceu em silêncio por um bom tempo, aparentemente mergulhado em pensamentos.
Uma sensação de segurança e alívio inundou o coração de Lin Qiushi ao ver um Ruan Nanzhu pensativo. Não querendo incomodá-lo ou apressá-lo, Lin Qiushi decidiu sair silenciosamente do quarto para dar a Ruan Nanzhu algum espaço para pensar.
Mas quem poderia imaginar que Ruan Nanzhu de repente acenaria com a mão e declararia casualmente:
— Vamos tomar café da manhã primeiro. Meus níveis de açúcar no sangue estão baixos, e eu não tenho energia para pensar em nada agora.
Lin Qiushi: …
Que seja.
╋━ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki