Introducing My Manager (Novel) - ⋆⋅☆⋅⋆ Capítulo 02
Era um cara aparentemente firme, mas mole; aparentemente insensível, mas delicado. Quando fazia coisas carinhosas com aquele rosto indiferente, uma satisfação de barriga cheia e uma sede que não se saciava surgiam ao mesmo tempo. Já se passavam mais de dez anos desde que ele se consolava dizendo a si mesmo que era um cara estranho e por isso ele sentia coisas estranhas.
— ……Você não deve saber, mas as coisas que você exige e espera de mim não se fazem numa amizade comum.
Mas do dia para a noite tudo aquilo foi negado. Que ele não era da família dele, nem namorado, nem cônjuge. Porque Kwak Eunho balançou a cabeça dizendo que não podia ser a única pessoa dele.
— Você só… se apega a mim porque eu sou o único amigo que você tem.
A frase dita com voz incerta não soou convincente nem para Jihyun. A revolta durou pouco, e logo lhe surgiu uma dúvida fundamental.
E você?
Você, que só tem a mim como amigo, por que não se apega a mim?
Mesmo Kwak Eunho, que dizia que amigos normalmente são vários, quando se examinava suas relações não aparecia ninguém além de Jihyun. Ninguém melhor que Jihyun sabia que ele não tinha outros amigos. Não porque tivesse um defeito de personalidade como ele, mas simplesmente porque era um sujeito ocupado e seco por natureza.
Mas quem sabe. Talvez aquelas palavras que soavam como sofisma fossem mesmo verdade. Kwak Eunho podia formar outras relações quando quisesse, mas para ele até mesmo essa possibilidade era um fardo. Se fosse esse o caso, Jihyun estava disposto a tentar fazer outros amigos.
— …O senhor vai à confraternização?
Foi por isso que ele foi, a duras penas, à confraternização do drama. Foi pelo mesmo motivo que fingiu ter uma sociabilidade que não tinha e aguentou firme uma mesa de bebida sem a menor graça. Se aquele desejo anormal vinha da ausência de relações, ele queria desesperadamente preencher aquele vazio e imitar a normalidade.
— Nossa, o Jihyun bebe bem.
— Sunbaenim, aceite uma dose!
O Kwak Eunho mandou não beber. Mesmo pensando isso, não recusava a bebida oferecida. Afinal, ele nem era mais seu empresário, e se não fizesse pelo menos aquilo sentia que ia enlouquecer. Não, na verdade também havia uma vontade infantil de que ele descobrisse e ficasse bravo.
Ficava na mesa aceitando bebida e carne sem gosto algum. Diante dos outros conseguiu à duras penas controlar a expressão e, ao voltar para casa, vomitava tudo — e isso se repetia. O diretor Byun, sem aguentar mais, implorou que ele descansasse, mas ele fingiu não ouvir e apenas puxou o boné para baixo.
— Esse não é o boné do empresário Kwak?
Ah, então é por isso que o Kwak Eunho usa boné. Ele pensou aquilo várias vezes. A sensação de segurança que aquele boné preto dava era parecida com a forma como ele o acalmava quando o pânico vinha. Com o campo de visão bloqueado, sua paciência se desgastava menos, e bastava baixar a cabeça para esconder o rosto.
Quando o clima no set melhorou visivelmente, sua relação com Shin Ichan também ficou próxima o bastante para revisarem falas juntos. Ainda que a intimidade fosse unilateral, houve até vezes em que ele postou fotos de Jihyun nas redes sociais. Será que o Kwak Eunho me elogiaria se visse? Ele chegou a pensar isso em segredo.
— Até…
— …
— Até eu deixar de ser o único pra você.
Mas por mais gente que encontrasse e conversasse, ninguém era como Kwak Eunho. Não despertava a mesma curiosidade, não era tão confortável, não voltava à sua cabeça o tempo todo. Pessoas novas sempre eram um peso, e relações novas eram desconfortáveis como uma roupa que não servia.
Você está errado, Kwak Eunho.
Como seria bom se pudesse dizer isso. Infelizmente Jihyun não conseguiu encontrar nem palavras para refutá-lo. Não é porque você é o único amigo que tenho, mas então por que, por qual motivo, ele se sentia assim?
No começo até fumava, mas depois lembrava dele e não conseguia mais. Ao enfiar os poucos cigarros restantes no lixo, soltou uma risada vazia e um sentimento de futilidade. Largar o cigarro que começara a fumar para se consolar, e justamente desse jeito. Era absurdo que o começo e o fim fossem ambos Kwak Eunho.
— Não pensa em parar de fumar?
Devia ter parado naquela época. Assim pelo menos teria podido se gabar. Mesmo sabendo que era só se gabar, Kwak Eunho certamente teria rido e dito “muito bem”.
— Hyun, vamos fazer terapia.
Não conseguiu ignorar a fala do diretor Byun porque, naquele momento, Jihyun pensava algo parecido. Ora, Kwak Eunho não tinha dito? Que como ele não podia resolver, que fosse ao hospital. Já tinha tomado remédios até enjoar, então talvez fosse hora de procurar outro método.
— Do jeito que você tá, vai acontecer alguma coisa séria.
Não sabia o que era “do jeito que estava”, mas de todo modo Jihyun foi docilmente ao hospital que o diretor Byun encontrou. Para se consultar com fulano que apareceu na TV, sicrano cuja agenda tinha anos de espera, beltrano que cobrava não sei quanto por hora. Todos eram especialistas renomados, mas na prática não houve efeito algum.
— O conteúdo da consulta é mantido em sigilo, então…
Ele sabia. Que aquelas pessoas eram diferentes dos médicos que conhecera na infância. Também sabia que o hospital psiquiátrico em que fora internado depois da morte da mãe era praticamente uma prisão.
Mas saber com a cabeça e agir com o corpo eram coisas completamente diferentes. Ele vivera ocupado em esconder seus defeitos; não havia como abrir tudo e falar de uma hora para outra. Já se passavam quase vinte anos, mas a lembrança de ser calado com a ordem de não sujar o nome do pai ainda era vívida.
Era nessas horas que odiava a profissão de ator. O país inteiro conhecia sua história familiar, e ele não tinha coragem de confessar o resto para alguém que via pela primeira vez na vida. Quando pensava que um dia aquelas declarações poderiam prendê-lo pelo tornozelo, a boca não se abria e às vezes não conseguia dizer uma palavra sequer.
— O tio vai procurar mais.
Vendo Jihyun assim, sabe-se lá o que sentia, o diretor Byun ficava com o rosto mais sério a cada dia. A emoção contida naqueles olhos abatidos era algo entre culpa e senso de responsabilidade. Era uma preocupação de tio, não de diretor da agência, mas Jihyun não tinha nada a lhe dizer.
— Depois da gravação de hoje vai pra casa dormir um pouco…
Num dia em que os dias sem dormir se repetiam sem conta. Naquele dia também Jihyun passou a noite de olhos abertos. Os soníferos de sempre não faziam efeito e, quando abriu o armário num impulso, não havia sequer uma garrafa de bebida. Culpa do empresário Kwak, meticuloso à toa, que tirara todas as bebidas alcoólicas de casa.
Queria pelo menos desmaiar. Lembrava de ter feito a maquiagem com essa vontade. Ignorando o sermão do diretor Byun, ficando diante da câmera conforme as instruções da equipe. A luz brilhante estava especialmente ofuscante, mas ele atribuiu à impressão e piscou, aturdido.
— Ei? Ei, ali……!
Foi por isso que sua reação foi tão lenta. No instante em que a luz despencou sobre sua cabeça, ele achou que estava tendo alucinação por falta de sono. Mesmo levantando o braço por reflexo, não conseguiu assimilar a situação. Se não fosse o grito que penetrou seus ouvidos abafados, talvez tivesse continuado deitado ali, aturdido.
— …Hyun!
Quando recobrou a consciência, estava sendo levado de ambulância para o hospital. O braço torcido doía horrivelmente, mas cada instante parecia irreal, como um sonho. Com a cabeça enevoada, o único pensamento que surgiu foi este:
Se o Kwak Eunho souber, será que vai me xingar de louco?
Era óbvio que ele despejaria um sermão sem freio, perguntando por que ele não desviou, se tinha perdido o juízo. Depois de levantar a voz num rompante, examinaria seu estado com cuidado com aqueles olhos pretos.
Era só imaginação, mas era doce, e justamente por ser imaginação era terrível. O fato de que jamais poderia se tornar realidade doía mais do que qualquer ferimento. Se ele soubesse que Jihyun estava procurando um pretexto para contatá-lo mesmo sangrando, que cara de desgosto faria?
Os pensamentos dispersos só terminaram depois que entrou na sala de cirurgia. Assim que acharam a veia e aplicaram a injeção, sua cabeça barulhenta escureceu por completo. Com a sensação de ser sugado para dentro de si mesmo, Jihyun mergulhou instantaneamente num sono profundo.
Não soube como a cirurgia terminou. Quando abriu os olhos viu um teto desconhecido, e ao seu lado o diretor Byun sentado com o rosto perturbado. Enquanto ele piscava, tentando manter os olhos abertos, o diretor Byun falou com a voz misturada a um suspiro.
— …Deu oito semanas de recuperação.
Oito semanas era só o prazo formal; assim que tirasse o gesso já poderia levar uma vida normal. Ainda assim o diretor Byun mencionou um período desnecessariamente longo.
— Primeiro descansamos três meses…
— Um mês basta.
— Ei.
A voz fria não representava ameaça alguma para Jihyun. Ele ergueu o corpo pesado à força e ajeitou de propósito a voz rouca.
— Como vou descansar três meses no meio das gravações? Fala coisa com coisa.
Em três meses a estação muda, e mudando a estação mudam as cenas que se pode gravar. Neve e chuva podem ser feitas com máquina, mas a atmosfera natural das estações não se esconde. Não, na verdade Jihyun também sabia: quase tudo podia ser resolvido com CG, então metade daquilo era desculpa.
— Volto assim que tirar o gesso. Não preciso descansar tanto.
— …Hyun, por favor.
O diretor Byun só reagiu depois de um bom tempo, com uma voz quase inaudível. A expressão que se via de relance era parecida com a que ele tinha quando Jihyun acordou no hospital depois de tomar remédio junto com bebida e apagar.
— Alguma vez eu te usei como objeto descartável enquanto te criava como ator?
Era uma pergunta bastante autodepreciativa, e Jihyun não conseguiu responder nada. Era verdade que ele se preocupava com períodos de hiato, mas isso só valia quando Jihyun estava saudável. Nem como tio nem como diretor da agência ele era um comerciante cruel a ponto de mandar um doente para o matadouro.
— Se você criar o hábito de se forçar, nunca mais conserta. Não lembra de quando era criança e vivia sendo carregado pra fora? Vai fazer isso de novo?
Quando foi mesmo? Foi quando Kwak Eunho sumiu sem motivo? Como ficar parado enchia a cabeça de pensamentos, ele marcava agenda de propósito além da conta. Os empresários daquela época não conseguiam dobrar a teimosia de Jihyun, e no fim ele foi levado por exaustão sem que o diretor Byun soubesse.
— Achei que tinha melhorado trabalhando com o empresário Kwak…
O diretor Byun murmurou sem pensar, mas ao ver a expressão de Jihyun mudar calou-se na hora. Provavelmente ele também sabia que o comportamento anormal de Jihyun tinha influência de Eunho. Por isso mudou de assunto pouco depois.
— Mesmo que eu não tenha direito de falar como tio, como diretor da agência preciso dizer uma coisa. Dessa vez não. Se você fizer isso, a empresa também apanha.
De fato, quando Jihyun desmaiava, o prejuízo caía sobre a empresa. Como não dava para culpar um ator doente, a raiva dos fãs se dirigia inteiramente a fatores externos. Jihyun não desconhecia isso, mas como ator só tinha isto a dizer:
— O que fazer. Isso é problema da empresa aguentar.
— Seu moleque!
Se eu trabalhar duro e o resultado for bom, não basta? Mesmo falando assim, no fim quem levaria a vitória seria ele. Como diretor da agência, como alguém que precisa calcular a carreira de um ator, ele tinha muitas coisas a considerar. A única pessoa capaz de deixar tudo de lado e pensar só em Jihyun era…… no máximo Kwak Eunho.
— De todo jeito eu não posso descansar tanto tempo. Só de pensar em internação já estou de saco cheio.
— E de quem foi a culpa de andar por aí distraído?
A fala solta com cara despreocupada acabou por enfurecer o diretor Byun. Como se nunca tivesse feito cara pesada, ele começou a gritar e despejar sermões. Enquanto ouvia a voz irritada por um ouvido e respondia sem interesse de vez em quando, a consciência de Jihyun acabou aterrissando de novo em Kwak Eunho.
— Se ele entrar em contato, diz pra não vir.
Filho da mãe de coração mole à toa. Se ouvisse a notícia do acidente, apareceria fingindo que era contra a vontade. E mesmo que não pensasse em vir por conta própria, sabia que ele acabaria cedendo se o diretor Byun pedisse.
— As coisas ainda não se resolveram.
Mas qual seria o fim daquela compaixão — disso Jihyun sabia melhor que ninguém. Uma vez criada a fissura emocional, estavam fadados a repetir o mesmo processo. E dessa vez Eunho certamente não olharia para trás.
— Eu espero demais dele.
Sem entender o motivo daquele desejo, Jihyun jamais poderia procurar Eunho. Ele havia dito para não o contatar até tudo se resolver, então não devia estender a mão com um pretexto barato daqueles. Se machucar não era novidade, e o braço quebrado logo colaria. No fim, aquilo também não seria uma exigência excessiva?
— E traz o boné do set, por favor.
Mesmo perguntando por que ele vivia procurando aquele boné, o diretor Byun o trouxe sem reclamar. Se não trouxesse, Jihyun pretendia ir buscar — talvez ele tenha lido instintivamente essa vontade. Quando pôs o boné preto num lugar visível, seu coração inquieto pareceu se acalmar um pouco.
— É um pedido, dessa vez fica quietinho, por favor.
Metade preocupação, metade sermão. Depois de ouvir umas três vezes aquele apelo carregado de sentimentos complexos, o diretor Byun não resistiu à enxurrada de ligações e foi cuidar do resto do trabalho. Voltaria ao quarto se sobrasse tempo, mas provavelmente não sobraria nem à força.
— …Agora sim ficou quieto.
Deitado sozinho num quarto de hospital vazio, dava para sentir uma flutuação distante, como se o tempo tivesse parado. Ele nem era do tipo que sofre de solidão, mas nos momentos em que ficava sozinho uma quietude inexplicável o invadia. Claro, isso também durava pouco, e logo diversos ruídos voltavam à sua cabeça nebulosa.
“Jihyun, faz dois dias que a gente brigou.”
Agora não eram mais dois dias, mas um mês, e daquele jeito logo seriam dois meses. O tempo que passava em vão era rápido e lento ao mesmo tempo, e para Jihyun parecia uma espera de mais de um ano.
“Ainda não quero muito ver a sua cara.”
Será que ele sabia? Que Jihyun se agarrou à esperança daquele “ainda”. Se esperasse mais um pouco poderia vê-lo? E se sim, quanto tempo? E que ele até tinha coragem de esperar quieto, juntando os cacos da sua pouca paciência.
Mas a condição que Eunho impôs era algo que ele não conseguiria cumprir nem investindo a vida inteira. “Até Kwak Eunho deixar de ser o único” — se ia exigir isso, devia ter ensinado junto o método.
— …….
As pálpebras que pesavam mal se sustentavam. Normalmente ele não conseguiria dormir, mas o corpo exausto pelo excesso de trabalho já estava com a bateria descarregada havia tempo. Sem energia e ainda por cima operado, não era de espantar que adormecesse sob efeito dos remédios.
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Faby&Othello