Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 04.2
4. Wolfie, The Bunny
Como se a suposição de Yurijj estivesse certa, Alexei soltou um suspiro baixo e ficou em silêncio por um tempo. Para além do silêncio parado, sentia-se uma respiração instável. Yurij deixou o silêncio correr fundo por vários minutos. Mas quanto mais o silêncio se prolongava, mais ansioso Yurij também ficava.
[—Samuel, era esse o nome? O cara com quem o Goodnight tinha se encontrado.]
Alexei abriu a boca depois de um bom tempo. Ao mencionar o nome de Samuel, um pressentimento sinistro pairou no fundo de seu peito e seu interior afundou pesadamente. Yurij soube o que aquela voz do amigo significava.
Morte.
É morte.
De Alexei fluiu um eco vazio e desolador como a voz de um morto.
[—Ajudei a sumir com o corpo.]
Ele, cerrando os dentes, engoliu um suspiro angustiado. Embora fosse alguém que ele não conhecia, aquele homem claramente tinha sido alguém com quem Cheriot um dia compartilhara afeto e com quem tinha se encontrado até pouco tempo atrás.
Diante das palavras de que uma vida havia desaparecido de forma tão efêmera, Yurij engoliu um fôlego doloroso. Fechou os olhos com força e expressou pesar pelo falecido de rosto desconhecido. «Não acho que fosse uma pessoa especialmente boa, mas não parecia um rapaz com um crime tão grave a ponto de merecer a morte. Se até mandou uma mensagem para o Cheriot avisando do perigo e pedindo ajuda, com certeza tinha consciência.»
Depois de engolir um suspiro diante da notícia amarga, logo pensou em Cheriot e sofreu ainda mais. Pelo temperamento de Cheriot, se ele soubesse disso cairia num desespero enorme.
Ele, que sempre dizia que as despedidas eram tristes e que já ficava triste de antemão pelo momento em que se separaria de mim, alguém que conheceu por um contrato… se soubesse que se despediu de verdade do antigo companheiro…
[—O estado não era muito bom. Merda, tinham jogado ele feito um trapo no chão da fábrica e eu tive que dar um jeito.]
Alexei não deu detalhes, mas só pelo tanto que estava angustiado, Yurij conseguiu imaginar o que tinha acontecido. Sentiu pena de Cheriot e compaixão por Alexei. Diferente dele, Alexei não tinha visto muitos cadáveres. Tinha visto corpos terrivelmente espancados até virarem uma massa sanguinolenta, mas todos vivos.
Mas os mortos são diferentes.
Um corpo completamente rígido, do qual escapou toda a vitalidade, dava a quem o presenciava uma tristeza indescritível. Era dilacerante que a alma que ele havia abrigado não pudesse mais brilhar com beleza, que um rosto que se movia com dinamismo expressando toda espécie de emoção ficasse azulado e rígido, conservando apenas uma expressão.
[—Foi uma execução, Yurij.]
Yurij ouviu em silêncio o murmúrio de Alexei. Era o jeito deles de se consolarem mutuamente: ouvir caladamente em vez de dizer palavras desajeitadas.
[—Mas você me conhece, né? Escondi ele em um lugar que só eu conheço. Quando tiver oportunidade, se eu passar isso pra polícia… pelo menos a família dele não vai procurar para sempre por um filho desaparecido.]
—…Fez bem. Vamos fazer isso juntos quando eu voltar. Não vou deixar você passar por isso sozinho.
Ao consolar Alexei com calma, a respiração dele foi se acalmando aos poucos. Yurij conseguia de algum modo imaginar a expressão de Alexei. Com certeza estaria com o cenho bem franzido e mastigando um cigarro em pequenas mordidas.
[—Beleza.]
E depois, mesmo irritado, relaxaria aliviado por estarem juntos.
Yurij, que imaginava a reação do amigo de tantos anos, deu a Alexei um pouco mais de tempo para se acalmar. Embora tivesse presenciado toda espécie de sujeira e feito trabalhos ingratos, Alexei sempre sofria com essas coisas. Mesmo nunca demonstrando por fora, era uma pessoa boa, que sofria e sentia vergonha seguindo a própria consciência.
Enquanto esperava Alexei se acalmar, de repente pela janela se infiltrou a luz que acendeu no quarto de Cheriot. Observando para além da cortina, onde se via a silhueta de Cheriot, Yurij franziu levemente a testa. «Achei que ele fosse estar num sono pesado de tanto cansaço, mas acordar a essa hora… Será que teve um pesadelo?»
Preocupado com o motivo pelo qual Cheriot havia se levantado, Yurij pensou que devia encerrar logo a ligação. Também para evitar o infortúnio de que, se por acaso ele notasse sua ausência e saísse, acabasse ouvindo o conteúdo da conversa. Enquanto ouvia Alexei, perguntou com cuidado sobre um ponto que lhe parecera estranho.
—Mas que estranho. No fim das contas, era o amante do chefe da filial, e você diz que foi uma execução? Foi o chefe em pessoa que conduziu?
Então veio uma resposta inesperada.
[—Porque não era o amante dele.]
—O quê?
[—O Samuel era uma pessoa contratada. Pelas circunstâncias, é certeza. A época em que o Samuel começou a aparecer perto do chefe da filial coincide com quando o Goodnight disse que tinha se encontrado com ele, e até então nenhum dos subordinados tinha visto o chefe levando o Samuel junto.]
—Não entendo por que tratariam assim uma pessoa contratada.
[—Isso também vai ser coisa que eu vou ter que descobrir.]
A silhueta de Cheriot vagou pelo quarto e logo desapareceu. Como a luz da sala tinha ficado mais forte, provavelmente ele tinha saído em direção à cozinha. Yurij, contendo o coração confuso, aconselhou Alexei.
—Aliocha, se você tem que fazer uma coisa dessas, isso é algo que a gente não consegue resolver por conta própria. Mesmo que conseguisse, seria tão perigoso quanto antes.
Cheriot, que tinha encomendado o trabalho, é claro que não sabia, mas quem o perseguia tinha um propósito mais sujo e perigoso do que o esperado. Ao ter essa conversa com Alexei, sentiu que voltava ao mundo original do qual tinha se afastado por um instante.
Mas Alexei já não estava nesse mundo. Yurij desejava que ele se afastasse disso ali mesmo.
—Pelo Valery, não fuce além disso. A informação que você conseguiu até agora já é suficiente, deixa isso para quem o Cheriot contratar. Você não está mais sozinho.
Alexei tinha um homem que o amava mais do que a própria vida, e Alexei também tinha sobrevivido com tenacidade dedicando-se a essa pessoa por toda a vida. Não queria que Alexei voltasse a entrar no pântano do qual mal tinha escapado.
[—E você?]
—Como assim?
[—Se eu me retirar, você também vai se retirar e voltar na hora? Você só me ajuda, não faz esse trabalho porque quer.]
Dessa vez acendeu a luz do quarto de Yurijj. Yurij ficou em silêncio ao ver a sombra de Cheriot aparecendo para além da porta de seu quarto. Ao ver que ele claramente o procurava, pensou que seria impossível abandonar o trabalho agora. Não podia ir a lugar nenhum deixando aquele cara sozinho.
—Os seguranças do Cheriot ainda não chegaram.
[—Então eu também continuo. Se a gente vai falar de perigo, é do seu lado, que está com o Cheriot, não do meu. Então até você voltar para Vancouver, eu também não pretendo parar.]
—…Que a sua segurança seja a prioridade, Aliocha.
[—Entendido.]
Alexei, em vez de se irritar como ontem ao mencionarem Valery, aceitou e deixou o assunto passar. Yurij, confirmando que a silhueta de Cheriot rondava perto da sala, verificou mais uma coisa antes de entrar.
—Se fala da localização do Cheriot?
[—Ainda não. Como perderam o rastro desde que você entrou na rodovia, parece que só deram ordens para as filiais de todo o Canadá. Por sorte, o nosso cliente não vacilou mostrando o rosto, como no hotel. Na internet também está limpo, sem avistamentos desde então.]
Alexei sussurrou em voz baixa.
[—Mas toma cuidado. Por alguma razão, estou com um mau pressentimento.]
Como a intuição de Alexei era claramente animal, Yurij assentiu com a cabeça.
—Entendi. Vamos desligar.
[—Estou falando sério, Yurij. Toma cuidado.]
—Você também.
[—Estou com um mau pressentimento. Mas se eu continuar falando isso vai dar azar, então paro por aqui. De todo jeito, não baixa a guarda.]
Era estranho que Alexei, que costumava rir mesmo nas piores situações, dissesse isso várias vezes. Sem saber como tranquilizar Alexei, que baixava a voz e sussurrava com seriedade, Yurij só conseguiu responder que tinha entendido.
O infortúnio não é algo que se possa evitar só tomando cuidado.
Depois de ouvir mais uma vez aquele aviso, a ligação terminou. Quando a voz de Alexei se evaporou, Yurij ficou submerso na escuridão enegrecida. O ambiente estava assustadoramente silencioso e, como não havia postes de luz, os arredores estavam escuros como breu.
«Sinto que voltei ao meu lugar.»
Embora fosse verdade que, enquanto protegia Cheriot, sempre tivesse agido com cautela, como todo o tempo passado com ele tinha sido igualmente absurdo e alegre, ele tinha sentido a ilusão de estar de férias até agora. Ao olhar para Cheriot não havia espaço para a tristeza. Cheriot, como uma escultura feita de afeto e amor, fazia rir quem estava com ele. Até mesmo alguém como Yurij.
Mas desde que ouviu falar sobre a morte de Samuel, Yurij voltou a se dar conta do mundo ao qual originalmente pertencia. Embora fosse um fato que teria feito Cheriot desabar de choque, Yurij não tremia de medo. Só sentia dor e pena. Porque já tinha permanecido muito tempo num mundo onde era normal ouvir essas notícias inúmeras vezes.
«Depois de me despedir do Cheriot, só vão restar de novo esses sentimentos.»
Embora ainda restassem mais alguns dias juntos, Yurij imaginou a solidão que experimentaria depois que Cheriot desaparecesse. Então surgiu de repente um desespero insuportável.
Ao lembrar dos dias monótonos e áridos que se repetiam infinitamente, sentiu como se areia áspera lhe invadisse a boca. Os dias que até agora ele acreditava serem uma vida aceitável,
depois de conhecer Cheriot, na verdade pareciam uma prisão mofada.
—Wolfie?
O que tirou Yurij, que afundava mergulhado numa depressão terrível, foi a voz que o chamou. Ao erguer a cabeça sobressaltado, viu Cheriot, que tinha aberto a porta da cabana e olhava para ele. Para além da porta onde ele estava, estendia-se uma tênue luz alaranjada. Como uma vela que iluminava a escuridão, uma luz pequena mas nítida capturou o olhar de Yurijj. Cheriot se aproximou dele, que olhava para a frente como que enfeitiçado.
—O que você tá fazendo parado aí fora? Aconteceu alguma coisa?
Cheriot se aproximou cada vez mais e logo estava diante de Yurijj. Ao ver o rapaz vestido com uma camiseta branca de manga curta e uma calça azul-marinho larga, com os calcanhares dos tênis deformados de tanto usá-los pisados, a escuridão que o atormentava recuou como se tivesse sido enxotada. No instante em que Cheriot se plantou diante dele, com o forte aroma de feromônio que penetrava, Yurij finalmente recobrou os sentidos e piscou.
«Não posso falar do Samuel para ele.»
Mesmo que fosse alguém importante para Cheriot, agora não era o momento. Se, na situação de estar sendo perseguido, ele soubesse disso, Cheriot só ficaria mais ansioso.
—Estava dando uma olhada nos arredores. Por que você acordou, se estava dormindo?
—Ah, é que…
Cheriot, com uma expressão constrangida, deixou a frase pela metade. Piscando distraidamente com seus cílios lindamente curvados e movendo os olhos de um lado para o outro, perguntou em voz baixa:
—Você tem remédio pra resfriado?
—…Remédio pra resfriado?
Diante da pergunta inesperada, Yurij franziu o cenho. Cheriot, ao ver seu rosto, soltou um —hmm— e esfregou os lábios.
—Na verdade, desde que eu saí do lago mais cedo estou com febre.
Cheriot repetia o gesto de apertar e soltar os próprios lábios com o polegar e o indicador. Ao ouvir sua voz tímida, parecia um hábito inconsciente que aparecia quando ele estava sem graça. Yurij, que observava em silêncio seus lábios já de si avermelhados ficarem ainda mais vermelhos, desviou lentamente o olhar. Por um momento, sua vista pousou em um lugar inapropriado.
—Não falei nada porque achei que você ia me dar bronca por ter nadado tanto tempo… mas acho que a febre continua subindo.
—Entendi.
Não sabia por que ele tinha pensado isso, mas Yurij não tinha intenção de repreendê-lo. Pelo contrário, como a preocupação em saber quão grave era a febre se impunha com força, acabou estendendo a mão. Ao apoiar com cuidado o dorso da mão na testa de Cheriot, que ficou parado e dócil, sentiu um calor quase fervendo. Não era normal.
—Você está assim desde a tarde?
Cheriot se assustou no começo, quando Yurij encostou o dorso da mão, mas como se gostasse da temperatura fresca, sem perceber esfregou suavemente a testa contra o dorso e respondeu:
—Sim.
Diante do gesto quase manhoso, Yurij ficou sem palavras por um instante. Nunca tinha aprendido como lidar com alguém que se comportava de um jeito tão adorável.
—Mesmo que eu desse bronca, teria sido melhor para nós dois você ter falado antes. A febre está bem alta, Cheriot.
—É, mas…
Cheriot, enquanto esfregava a testa, ergueu ligeiramente a cabeça. Por isso, o dorso da mão de Yurijj roçou a ponta de seu nariz e desceu, e Cheriot, aproveitando, segurou seu pulso e começou a esfregar a bochecha.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna