Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 04.11
4. Wolfie, The Bunny
Um anseio ferveu do fundo de seu peito. Dentro daquele coração que tinha esfriado e endurecido feito uma rocha, ainda corria sangue. Com esforço, aplacou o calor interno e conteve a respiração para ouvir atentamente a história de Cheriot. Não queria perder nem uma palavra do que Cheriot dizia.
—Meu pai faleceu pouco antes de eu entrar no internato. Ele e minha mãe saíram de férias, houve um acidente e meu pai morreu. Minha mãe teve que ficar internada por muito tempo.
Diante de um conteúdo mais pesado do que o imaginado, Yurij ficou em silêncio. Os treze anos coincidiam mais ou menos com a época em que Alexei tinha perdido os pais. Perder um pai numa idade tão tenra devia ser um desespero inimaginável para Yurijj. Ele também tinha perdido a mãe, mas naquela altura já tinha uma idade próxima da vida adulta.
—O fundo fiduciário originalmente era parte da herança do meu pai. Meus avós transferiram para o meu nome, e incluía bens que nem se comparam com a parte que me caberia como neto. Então o meu fundo é o legado do meu pai, e eu tenho que protegê-lo a todo custo. Não é só o dinheiro; mais do que isso, coisas como a casa que ele tinha em Boston, ou a cota na casa da família, são para mim como fragmentos de lembranças.
Agora ele entendia por que Cheriot tinha ficado com raiva quando Alexei e ele tinham menosprezado seu fundo fiduciário no começo.
«Porque os rastros que deixa uma pessoa que já não existe neste mundo… são algo que você quer proteger a qualquer custo.»
Por mais que a pessoa se esforce, a memória tem limites, e com os anos as sensações se desvanecem. Por isso alguns precisam de objetos para lembrar dos mortos, outros de vídeos e fotos, e outros agem seguindo a vontade do falecido.
—Eu me esforcei muito pra cumprir as condições do fundo. Sempre tive em mente a possibilidade de alguém poder me chantagear usando minha fama. Nunca saí com ninguém estando bêbado, nem fui a festas privadas. Quando chegava o rut, eu escolhia alfas na medida do possível, e se estivesse com um ômega, me certificava de usar anticoncepcional com rigor. Nunca me declarei pra ninguém com medo de que, se eu namorasse alguém, meus defeitos fossem ampliados. Eu só precisava aguentar até me aposentar… mas…
Cheriot fez uma expressão pesarosa e ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre a testa.
—No fim acabei nessa situação.
Ao notar que Cheriot queria mudar o tom, Yurij acrescentou com calma:
—Você diz que era tão escrupuloso, mas dessa vez nem pensou em usar camisinha.
—Isso…!
Cheriot, aturdido, levantou a cabeça de repente e olhou para Yurijj. Ao perceber que os olhos de Yurijj, que o encaravam, tinham um brilho tênue de diversão, franziu o cenho e sorriu.
—Isso… é culpa sua.
—Por quê?
—Porque, desde o momento em que eu te vi, você explodiu a minha razão.
Cheriot sussurrou enquanto acariciava suavemente o dorso da mão de Yurijj.
—Haa, eu sei. Na verdade é tudo culpa minha. Desculpa. Mesmo sendo o rut, eu não devia ter feito aquilo… Depois, antes que a farmácia feche, eu te compro um neutralizador. É pra esses casos de emergência. Quando eu comecei a ficar com alfas, a Dolly me recomendou.
«Então existe uma coisa dessas.» Yurij refletiu sobre o remédio de que ouvia falar pela primeira vez, e depois inclinou a cabeça ao ouvir o nome.
—Dolly?
—A Dolly é a minha segurança. Ela se chama Dorothy. É uma das pessoas que o Wolfie também vai conhecer em breve. Depois que meu pai faleceu, a Dolly protegeu a mim e à minha mãe, e desde então a gente vive junto como família.
—Isso significa que ela não é da família de sangue?
—Isso. A Dolly chegou até nós por um caminho muito especial.
Cheriot sorriu com suavidade, como se lembrasse de algo divertido, e continuou sua história.
—Pra explicar como a gente conheceu a Dolly, primeiro é preciso saber um pouco mais do meu pai. Na verdade, meu pai jogava muito bem hóquei. A maioria dos garotos populares jogava futebol americano, mas ele escolheu o hóquei. Antes da faculdade, ele até teve propostas de várias escolas. Ele mesmo queria ser jogador profissional, mas meus avós se opuseram terminantemente. Minha avó parou de comer e jejuou por dez dias, a ponto de ter que ir pro hospital.
Ao mencionar os avós, o entrecenho de Cheriot se franziu ligeiramente.
—Não teve jeito; como todo mundo na família, meu pai teve que estudar direito. A família Goodnight se dedicava à política ou ao mundo jurídico. Então ele virou advogado, mas…
Seu entrecenho, antes franzido, relaxou por completo.
—Haha, em vez de entrar num escritório como meus avós queriam, ele virou defensor público. Se ele ia fazer esse trabalho, disseram que pelo menos fosse defensor público de ofício, mas ele se manteve firme e foi pra defensoria pública de Boston.
Yurij não fazia ideia de qual era a diferença, mas sentiu claramente que o homem da foto tinha legado ao filho não só a aparência, mas também o temperamento. Aquela teimosia subterrânea e aquele lado caprichoso também estavam presentes em Cheriot.
—Depois desse processo difícil, ele trabalhou como defensor público e foi assim que conheceu a Dolly. Ele nunca me contou exatamente por qual caso eles se conheceram, mas eu acho que a vida da Dolly mudou graças ao meu pai. Depois, pra pagar essa dívida, ela decidiu ficar do nosso lado voluntariamente.
Era uma história de filme. Que um completo estranho pudesse se tornar família.
—Ele deve ter sido uma boa pessoa.
Arruinar a vida de alguém é muito fácil, mas fazer o contrário é algo extraordinário. Yurij disse isso com sinceridade e Cheriot acolheu suas palavras com prazer.
—Obrigado por dizer isso.
—Estou falando sério.
—Fico feliz, não sei por quê. Agora tem mais uma pessoa que conhece o meu pai, e é o Wolfie.
De repente lhe coçou o dorso da mão. Pensou que talvez Cheriot o estivesse tocando de novo, mas não. Então devia ser por causa daquelas palavras tão bonitas que Cheriot tinha dito, a ponto de lhe dar vergonha alheia. Cheriot às vezes tinha uma habilidade espantosa para pensar em frases bonitas.
—Mas eu falei demais sozinho.
Enquanto Yurij pensava em como era possível viver com essas palavras na cabeça, a pressão de seus dedos entrelaçados o sobressaltou e o trouxe de volta à realidade. E justo então,
Cheriot lhe perguntou:
—Eu também gostaria de ouvir sobre o Wolfie.
—…
Suas sobrancelhas negras e espessas se retesaram por um instante. Diferente da história de Cheriot, na vida de Yurijj não havia partes bonitas. Tinha nascido e vivido num covil de criminosos, então, por mais que enfeitasse, sua vida era incomparavelmente mais sórdida que a de Cheriot.
Mas não queria mentir. Por um instante surgiu nele o desejo de causar boa impressão, a ponto de sentir vontade de fazê-lo, mas isso seria trair a confiança.
—Você já sabe…
Yurij conseguiu separar os lábios.
—Eu sou um grande pecador.
A sensação de confessar um pecado que ele só tinha enterrado no peito era tão vergonhosa e dolorosa que não podia ser descrita em palavras. Ele achava que já não poderia sofrer mais, depois de ter ouvedo toda espécie de insulto e reprovação das pessoas de Saratov e da polícia, que sabiam o que ele era.
Quando as palavras que tinha pronunciado ressoaram de novo em seus ouvidos e voltaram para dentro dele, Yurij desejou morrer.
A morte é a evasão mais fácil. Não é encarar a culpa, é simplesmente abandonar o lugar onde se está. Enquanto viver, o culpado sempre carrega seu pecado na memória e, por mais que fuja, tem que viver com ele. Mas se morrer, não é necessário.
Por isso Yurij nunca antes tinha desejado morrer. Porque sua expiação era viver em silêncio, sem se permitir nenhum tipo de alegria, para pagar sua culpa. Mas a alegria que ele tinha conhecido nos dias com Cheriot tinha feito com que as regras acumuladas durante anos desmoronassem, revelando o desejo feio que se escondia em seu interior.
O doce sussurro de “se você morrer, tudo acaba” ressoou em seus ouvidos.
—Yuri.
Cheriot o segurou enquanto Yurij fazia uma expressão como se fosse morrer a qualquer momento. Cheriot, encarando fixamente aqueles olhos azuis que lentamente recuperavam o
foco, tinha um olhar triste. Franziu sua bela testa e sofreu no lugar de Yurijj, até encontrar as melhores palavras que podia dizer.
—Eu não vou te perguntar o que você fez. Mas tenho certeza de que houve uma razão que te levou a fazer aquilo.
A corda invisível que estrangulava o pescoço de Yurijj se afrouxou um pouco.
—A pessoa que eu vi nesses dias é paciente, atenciosa e gentil com você. Não acho que seja fachada. O Wolfie não me pediu nada. Pelo contrário, me estimulou e, em uma situação em que podia me abandonar depois que eu disse coisas desagradáveis, voltou e ficou do meu lado.
Mas o afeto de Cheriot ao validá-lo fez a dor surgir de novo. Yurij não merecia ouvir aquelas palavras.
—Acho que você deve ter tido suas razões.
Quanto mais desculpas Cheriot lhe dava pelo caminho que ele tinha percorrido, mais Yurij desejava receber reprovações e ataques. Estava acostumado ao sofrimento e se sentia mais confortável se trancando naquela situação. Finalmente, Yurij não conseguiu mais suportar e negou com a cabeça, detendo o consolo que não era consolo de Cheriot.
—Não importa que razões eu tivesse, no fim são só desculpas. Eu tive escolhas.
Morrer, ou matar.
Yurij tinha enfrentado várias encruzilhadas na vida. Toda vez, tinha escolhido a vida em vez da morte. Tudo foi um caminho que ele mesmo decidiu.
Seu coração, endurecido durante muito tempo numa só direção, se rebelou com agudeza e rejeitou maior indulgência. Cheriot olhou para ele com olhos serenos. Depois deixou o silêncio correr por um tempo. Enquanto se calavam, as ondas que agitavam sua mente se acalmaram. Ao confirmar que a expressão de Yurijj tinha melhorado, Cheriot não recuou, mas se aproximou de novo.
—Eu só quero saber sobre você, não te julgar. Mas… se você realmente não quiser falar, eu paro de perguntar. Mesmo sem saber, o fato de eu achar que você é gentil não vai mudar.
Ao ouvir que ele não o julgaria, os cílios de Yurijj tremeram de leve. As palmas de suas mãos entrelaçadas estavam agora suadas. Foi tomado por um forte impulso de se soltar e enxugar o suor, mas pensou que, se soltasse a mão assim, nada mudaria. No fim, como sempre, voltaria a empurrar Cheriot e ficaria sozinho outra vez.
Mas Yurij não queria soltar a mão que segurava. Desejava sentir aquele calor caloroso o máximo de tempo possível. E se isso exigisse uma mudança nele, valia a pena suportar por mais doloroso que fosse o processo.
O que ele deveria dizer?
Um homem cujo desejo era terminar a vida em silêncio em um lugar desconhecido não sabia como explicar sua vida a outra pessoa. Porque não podia falar como as pessoas comuns, sobre o que os pais faziam, que escola tinha cursado, qual era sua formação ou sua profissão.
Hesitando por onde começar, Yurij decidiu falar dos pais, como Cheriot tinha feito. Embora ele não soubesse, com certeza seus pais tinham tido uma época em que viveram com honestidade.
—…Meus pais vieram da União Soviética.
Ao ouvir as palavras que tinha forçado a sair, sua pele se arrepiou. A palavra “União Soviética” lhe soava tremendamente estranha. Yurij nunca tinha falado com ninguém sobre suas raízes, sobre a terra de seus pais. Entre sua própria família também tinham parado de mencionar aquele país desmoronado em algum momento, então era uma palavra que tinha ido sendo esquecida.
—Lá, os dois tinham empregos comuns. Minha mãe era enfermeira e meu pai tinha um açougue.
Comparados com o pai de Cheriot, eram ofícios humildes, mas nesse aspecto Yurij não sentia vergonha. Ele guardava ressentimento pelas decisões do pai, mas não negava sua vida. Seu pai deu o melhor de si para sobreviver em tudo. Pela esposa e pelo filho que ela carregava dentro dela. Embora, por tolo e ignorante, tivesse escolhido um caminho errado… ele também sabia que o mau era Igor Volkov.
Mas o que realmente mudava se ele jogasse a culpa do pecado original naquele homem? Era evidente que culpar os outros só o enredaria no laço patético de se considerar desafortunado.
—Depois, na época em que a União Soviética estava desmoronando, eles vieram para os Estados Unidos. Como muitos imigrantes de então… chegaram por um dos diversos caminhos possíveis. Desde então, acho que muita coisa mudou. Os Estados Unidos não eram um país onde você esperava receber algo, mas onde tinha que ganhar dinheiro por conta própria, e meus pais, que vinham de uma sociedade completamente diferente, não eram nada nesta terra. Eles precisavam da ajuda de alguém.
Às vezes o mundo era cruel em excesso. Dar o melhor de si e se esforçar para viver não bastava para desfrutar de uma vida segura e próspera. Seu pai, que confiava facilmente nas
pessoas, via Igor Volkov simplesmente como um bom líder que ajudava seus compatriotas. Sem saber que era um demônio que o empurraria para o fogo do inferno e faria arder sua vida, agradeceu-lhe repetidas vezes, apertou-lhe a mão e se curvou.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna