Icing On The Cake (Novel) - Capítulo 03.14
3. Cherry and Smoke
Yurij lembrou a origem desse sentimento terrível. Com uns catorze anos, caminhando com Alexei por um beco de Saratov e erguendo a vista para um cartaz de uma companhia de balé, foi testemunha pela primeira vez de um mundo alheio ao seu.
Alexei e Yurij, que faltavam mais à escola do que frequentavam, costumavam ir juntos para ajudar Igor em seus assuntos. Por então a posição de Yurij não era má, graças a seu pai que trabalhava com obstinada lealdade sob as ordens de Igor. Graças a que aquele pai intercedeu, dizendo que deviam “salvar e usar” Alexei, o filho do traidor, Alexei sobreviveu; no entanto, Igor não tinha intenção alguma de perdoar os pais de Alexei, que ousaram tentar escapar de Saratov. A razão pela qual salvou Alexei não foi pela persuasão de um subordinado, mas porque desejava mostrar uma desesperança ainda maior à linhagem do traidor.
Assim, Yurij se esforçava por passar mais tempo com Alexei. Para aquele garoto que, criado sob os subordinados de Igor, não podia se relacionar com outras crianças de sua idade, Yurij se oferecia a realizar de propósito os recados mais ingratos que lhe encarregavam a Alexei. Tinha que fazê-lo. O amigo que conhecia desde a infância era como sua própria família, e Yurij estava disposto a realizar com gosto qualquer tarefa desagradável com tal de proteger alguém tão precioso para ele.
O dia em que descobriram pela primeira vez o cartaz do balé também foi quando fugiam de uma situação de merda. Os dois garotos, que ainda não tinham chegado à puberdade, iam cobrar dívidas por ordem de Igor. Não eram grandes tomadores de empréstimo, mas gente com circunstâncias modestas que repetidamente se atrasava nos pagamentos; para esses casos utilizava garotos jovens como Yurij.
Por aquela época Igor era especialmente cruel com Alexei. O pai de Alexei, Mikhail Sorokin, tinha sido um subordinado a quem Igor apreciava muito, e estava furioso porque aquele atirador calado e competente tivesse ousado desafiá-lo e tentar escapar de Saratov.
O vínculo da organização criminosa era o terror e a violência, e Igor, para dar um castigo exemplar, prendeu os pais de Alexei no momento de sua fuga e os massacrou diante de todos. Alexei, felizmente, não presenciou a cena, mas sim viu os cadáveres de seus pais com as extremidades tingidas de sangue e buracos de bala por todas as partes.
Igor, ao ver que mesmo diante daquele espetáculo a mente de Alexei não se quebrava, o considerou admirável mas também desprezível, e para domesticar um cão que não lhe temia lhe encarregou muitas tarefas impróprias mesmo para um adulto a um garoto de sua idade. Ordenar-lhe que conseguisse dez mil dólares em menos de meio dia era uma delas.
Ignorando a ordem de Igor de que fosse sozinho, Yurij acompanhou Alexei. Dirigiram-se a um povoado de tendas no canto mais afastado de Saratov. Era um lugar nojento que, mesmo antes de entrar, vibrava com um fedor a urina.
No povoado viviam homens esqueléticos, viciados em drogas, que vagavam como zumbis; uma mulher louca que metia na boca mechas de cabelo emaranhados cheios de caspa, os mastigava e de vez em quando soltava gritos; um ancião com as pernas inchadas que defecava na rua sem se importar com quem visse… Gente assim vivia ali.
Um lugar que a outros teria horrorizado e causado espanto, mas Yurij e Alexei viviam entre cenas assim. Quem não era viciado nem tinha dívidas se concentrava tudo ao oeste de Saratov, e todos os lugares da cidade, exceto essa pequena zona, eram uniformemente desditosos cada dia. Assim que a Yurij não lhe dava medo ir ali.
Os dois, que para sua idade tinham boa compleição física e resistência, entraram no povoado de tendas. Cruzaram entre viciados que tinham perdido o eu e a razão e só vagavam com o corpo, pisaram distraidamente com seus sapatos na urina espalhada e secando no chão, e encontraram um homem polonês que recolhia uma bituca jogada num recipiente e acendia o que restava para fumá-la.
Igor o chamava de Boris. Na verdade se chamava Wojciech, mas a Igor não importava sua identidade, mas a quantidade de dinheiro que pudesse extrair dele.
No início Wojciech gastava em drogas o dinheiro que ganhava consertando vias férreas, mas depois começou a recebê-las a crédito. O método de Igor era oferecer crédito com prazer a quem se tornava viciado, convertê-los em viciados consumados e depois extrair tudo, arrebatando até a alma, uma vez que já não tinham escapatória.
Normalmente Wojciech tinha os olhos turvos e inexpressivos como um bacalhau morto e permanecia desleixado pela droga, mas aquele dia por alguma razão tinha o olhar claro. Levava à boca com destreza o filtro manchado com saliva alheia, cinzas de cigarro e bebidas misturadas, acendeu-o e descobriu os garotos que se aproximavam.
— Vocês, os garotos de Volkov.
— Você nos viu antes e só agora se lembra? Se lembrou, solta o dinheiro que deve.
Alexei foi direto ao assunto. O garoto que tinha perdido os pais e ficou sozinho tinha que se conciliar com Igor como fosse para proteger seu irmão mais novo. Alexei tinha que levar esse dinheiro naquele dia.
Yurij, em silêncio, protegia o lado de Alexei enquanto observava os arredores. Embora entrassem nesse espaço sem problema, era um daqueles lugares perigosos que os adultos diziam às crianças para nunca frequentar. As pessoas que não tinham nada a perder eram capazes de muitas coisas. Para manter vivo o dia de hoje, cometiam impulsivamente atos bestiais que moralmente resultavam inimagináveis.
E Wojciech também era um homem acuado até esse ponto.
— Por culpa de uns bastardos criminosos como vocês acabei assim. Disseram que continuariam me dando enquanto eu fosse pagando algo. Seguir, seguir, seguir, me dando, seguir…
Yurij soube depois que seus olhos claros eram na verdade um sintoma de abstinência. O rosto de Wojciech se tingiu de uma ira desvairada como uma vela derretendo-se, e gritando se atirou sobre Alexei.
Os dois mal tinham catorze anos.
Embora fossem muito mais altos, corpulentos e fortes que outros de sua idade, ainda não tinham a idade para subjugar um homem polonês de vinte e poucos no auge de sua força. Era antes de terem aprendido essa habilidade e não tinham a experiência para antecipar facilmente um ataque surpresa.
Wojciech, enlouquecido com os olhos em branco, se atirou sobre Alexei estrangulando-lhe o pescoço. O juízo irracional de que matando os crias ali e fugindo não teria que pagar a dívida o incitava como um espectro. Alexei, em vez de se assustar ou se paralisar, fez um esforço sobre-humano para tirar-lhe as mãos, e Yurij pegou o que primeiro encontrou perto e o atirou no homem.
Ninguém os ajudou nem interveio. Naquela rua só havia cadáveres vivos reduzidos a carne, e num espaço que vibrava com fedor a podridão os dois garotos forcejavam por sobreviver. O rosto de Alexei empalidecia rapidamente. Ao ver a cara de seu amigo que ia ficando branca, a cabeça de Yurij esfriou de repente e se atirou sobre Wojciech para salvar Alexei.
Mordeu-lhe a orelha.
O homem soltou as mãos pelo Yurij que o mordia, antes que a orelha de Wojciech, que gritava e jogava a cabeça para trás, se desprendesse a meio desgarrar. O homem, que da orelha esquerda lhe escorria sangue, se virou de repente e seus olhos brilharam vermelhos como brasas mesmo na penumbra. Para matar o garoto que tinha ousado morder-lhe a orelha, o homem se atirou com um rugido. Uma mão pesada golpeou a bochecha de Yurij e uma bota pisoteou seu ventre macio, onde os músculos ainda não se tinham assentado por completo. Com uma dor como se lhe rebentassem as entranhas, subia sangue.
Alexei, que recobrava o fôlego, se atirou desta vez sobre Wojciech em lugar de Yurij. Assim, se revezando para receber os golpes, cobertos de sangue, com a carne rasgada e os ossos do nariz quebrados, conseguiram sair dali.
Não conseguiram o dinheiro.
Embora fizeram até o impossível para fazer recuar o homem, ao vê-lo caído no chão com o sangue escorrendo da orelha não puderam fazer nada mais. Simplesmente não puderam dizer nada.
— Vamos embora.
Alexei cuspiu sangue e falou após um longo silêncio. Yurij engoliu o sangue que lhe fluía dentro do lábio e assentiu com a cabeça. Talvez era o sangue de sua própria boca. Tanto fazia, não fazia sentido.
Caminhando aquele longo trecho, os dois voltaram ao local de trabalho para informar a Igor de seu fracasso. Durante todo o caminho, ninguém ajudou os garotos cobertos de sangue. Sabiam que os únicos que andariam por aí nesse estado eram gente sob as ordens de Igor Volkov.
Os dois chegaram a um beco cheio de contêineres de lixo enormes e detritos. Ao passar por ali aparecia uma grande avenida vazia, e as fábricas e edifícios abandonados alinhados como mansões à beira dessa avenida eram uma das oficinas de Igor.
Caminhando enquanto calculava o castigo que receberiam ao voltar, Yurij olhou para trás ao ver que Alexei ao seu lado parava. Alexei estava olhando um cartaz colado na parede. Yurij, quieto, seguiu seu olhar para o cartaz. Era uma rua por onde tinham passado dezenas de vezes, mas Yurij via esse cartaz pela primeira vez.
No cartaz, um bailarino e uma bailarina de balé estavam numa posição que nunca tinha visto, com uma elegante iluminação de fundo. Com uma fonte sofisticada, estavam escritos a data, a hora e o título.
[Petrushka]
Uma bailarina com tutu de renda branca nívea, um bailarino com meias-calças azuis e um traje que deixava o torso descoberto, e atrás, garotas com saias vermelhas decorando a cena.
— Sabe? A mãe de Lerusha era bailarina.
Alexei trouxe à tona algo de dois anos atrás. O dia em que morreram seus pais, junto a eles havia outro homem e mulher. Gentes cultas e bondosas que não tinham cometido nenhum delito. Um casal que, diferente do Wojciech de antes, não tinha se corrompido e trabalhava com honradez.
Maksim Belov e Alisa Belova. Alexei falava agora daquelas pessoas ingênuas que chegaram um pouco tarde da Rússia para os Estados Unidos e tiveram o azar de terminar arrastadas até aqui. Se pusesse analisar, eles eram a causa da morte de seus pais.
— Sim.
Yurij, sem se atrever a adivinhar o que sentia Alexei, respondeu com calma e Alexei continuou falando.
— Lerusha também dança bem balé, talvez porque se pareça com sua mãe. Uma vez o vi dançar e era realmente adorável.
E Lerusha era o filho daquele matrimônio. A Valery Belov, a quem Alexei cuidava fingindo que era seu irmão mais novo, as pessoas o conheciam como Valery Sorokin. Alexei aprendeu a não chorar mesmo passando por dias como hoje, para poder proteger seu irmão. A Yurij sempre dava pena esse amigo.
Mas Alexei, olhando o cartaz da companhia de balé, sorria. O garoto que erguia a vista para o cartaz de balé com o rosto coberto de sangue se virou e encontrou o olhar de Yurij, franzindo a ponta do nariz.
— Como é possível que mais adiante Lerusha queira dançar como sua mãe, eu vou ganhar muito dinheiro. E assim, vou embora desta cidade de merda sem falta.
Mesmo com hematomas começando a florir por toda sua pele pálida, Alexei não parecia miserável. Havia algo parecido a uma convicção em seus olhos. Como se tivesse presenciado uma alma ardendo em branco, a Yurij se arrepiou a pele de repente.
E enquanto observava o garoto que expressava com clareza um pensamento que ele mesmo nunca tinha tido, e o cartaz que tinha a suas costas, Yurij intuíu que Alexei sem dúvida conseguiria escapar deste lugar. Seu amigo, que respirava no mesmo espaço, pareceu-lhe de repente muito distante. Era como se Alexei, ao menor vislumbre de oportunidade, pegaria um carro, atravessaria os limites deste inferno e iria para longe, muito longe.
Uma miséria insuportável se transformou em ansiedade e fez surgir um sussurro no coração de Yurij. “Alyosha, não vá. Fique comigo nesta cidade.” Engolindo com força essas palavras que queria dizer, Yurij assentiu em silêncio. Sem se dar conta sequer de que lhe continuava saindo sangue por um dente do fundo que tinha perdido, Yurij engoliu o sangue caladamente e depois falou por seu amigo.
— Então eu ajudarei você a continuar vivo.
Alexei riu. Um riso impregnado de uma pena exausta e vazia, imprópria de um garoto.
— Exato, se você não tivesse estado, há muito eu teria morrido.
— Assim é.
— Obrigado, Yurij.
Alexei lhe expressou sua gratidão com sinceridade. Yurij, que observava fixamente a seu querido amigo, compreendeu que a alegria que obteria ao ver Alexei finalmente livre e correndo seria maior que a solidão que sentiria quando ele se fosse.
E também compreendeu que em essência ele e Alexei eram pessoas distintas. Porque Alexei tinha a convicção e o objetivo de ascender e avançar para o alto, enquanto Yurij, além de proteger sua família, não tinha nenhum outro desejo.
Como se alguém tivesse metido a mão de repente na boca de seu estômago, a garganta de Yurij se resquebrou com um ardor ao sair à força aquele recordação do passado. Engoliu uma tosse seca e pequena e fechou com força os olhos para não ver Cheriot. Ao perceber que aquele jovem imaturo e alvoroçado era um ser fundamentalmente distinto a ele, sentiu subir uma sede árida. Queria beber água.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna