Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 98
Capítulo 98
— Ah, Dane.
Grayson girou a cabeça ao escutar a voz súbita. Dane postava-se na entrada do vestiário, com os olhos cravados nele. À medida que Grayson mudava de posição, as pupilas de Dane acompanhavam seus movimentos. Ao notar que o outro inspecionava a região de suas costas antes de desviar o foco de forma perdida, Grayson abriu um sorriso e o cumprimentou:
— Ei, Da…
— Preciso trocar duas palavras com você em particular.
Antes que ele pudesse concluir a saudação, Dane disparou a frase e deu meia-volta, afastando-se a passos largos. Grayson tombou a cabeça para o lado, intrigado, mas tratou de vestir a camisa do uniforme às pressas e saltitou em seu encalço, cantarolando uma melodia.
— O que foi que aconteceu? Com aquilo ali.
Assim que se viram isolados nos fundos do edifício do quartel, Dane foi direto ao ponto. Grayson coçou a nuca e replicou:
— Eu trombei com um assaltante…
— Em que quadrante você bateu de frente com esse assaltante?
Dane o interrompeu mais uma vez. Grayson o encarou de cima, mantendo a palma da mão espalmada contra a retaguarda da cabeça. A fisionomia de Dane mostrava-se ligeiramente complexa de ser decifrada naquele milésimo de segundo. O que aquele semblante pretendia traduzir?
“Quando a leitura do outro se desenhar difícil, simplesmente mude o foco do diálogo.”
— Como vai o Darling?
Conforme as diretrizes que havia assimilado desde a mais tenra infância, Grayson tentou manobrar o curso da conversa, trazendo à tona o tópico de mais fácil absorção para fazer Dane esquecer o assunto principal. Contudo, Dane limitou-se a franzir o cenho, exibindo uma feição nitidamente contrariada:
— Apenas responda à indagação. Onde foi que você trombou com o assaltante?
Diante da reiteração da pergunta, Grayson fechou a boca. Desta vez, Dane não se deu ao trabalho de aguardar por uma tréplica e decretou:
— Aquilo se desenrolou no perímetro de estacionamento do motel, não foi?
Grayson não esboçou resposta desta vez também. Limitou-se a piscar as pupilas, fixando os olhos em Dane. Dane, ao constatar que o outro claramente tentava tatear quais eram as suas reais intenções por trás daquela abordagem, liberou um suspiro profundo e desabou a cabeça para baixo:
— Foi justamente por isso que eu cansei de enfatizar que você não precisava me escoltar até a porta todas as noites. Eu não sou uma donzela indefesa que demanda proteção.
As últimas palavras foram cuspidas com um tom audivelmente irritado. Aquela também figurava como uma reação totalmente inédita na biblioteca de memórias de Grayson. Embora aquela se desenhasse como a primeira oportunidade em que de fato se envolvia em uma ocorrência real ao escoltar alguém, ele já havia simulado acidentes de proporções similares no passado com o intuito de monopolizar as atenções de antigos parceiros. Em todas as conjunturas anteriores, os indivíduos demonstravam apreensão e corriam para mimá-lo, mas nenhum deles jamais havia manifestado uma postura tão ríspida e contrariada.
“Por qual razão ele está enfurecido?”
Confuso, Grayson não tardou a arquitetar uma justificativa que lhe pareceu plausível sob a sua ótica. Dane operava sob um forte senso de responsabilidade, logo, devia estar associando aquele infortúnio a algo que havia se desdobrado em decorrência de sua própria conduta. Sendo assim, ele provavelmente sentia-se incomodado por estar sob o efeito de um complexo de culpa.
— Eu estou perfeitamente bem.
— Mas eu não estou.
Dane repetiu as palavras de Grayson de forma irônica, vinculou o cenho e pareceu imergir em reflexões por um breve momento, antes de resmungar para si mesmo em um tom quase inaudível:
— Agora você não desfruta de justificativa alguma para colocar os pés naquele setor…
— Eu? Sem justificativas? Por quê?
Grayson interceptou a fala alheia de forma abrupta e demandou um esclarecimento. Dane, que vinha massageando a região da testa, estancou o movimento e elevou as pupilas para encará-lo. Desta vez, a fisionomia de Dane transbordava pura perplexidade, como se ele não conseguisse assimilar a linha de raciocínio do outro.
— Eu já não firmei o compromisso de que, ao longo do período de teste do nosso namoro, eu iria suspender as idas aos clubes e não iria me envolver com nenhum outro indivíduo? Sendo assim, você não tem mais nenhuma razão para aparecer no perímetro do meu motel.
— Eu vou continuar indo.
Diante daquela réplica descarada, Dane paralisou por um milésimo de segundo, e Grayson acrescentou exibindo um semblante radiante:
— Eu jamais me perdoaria se te deixasse desamparado em um quadrante tão hostil e perigoso. Eu vou te escoltar sem falta todos os dias após o encerramento do expediente.
— Você porventura ficou surdo quando eu decretei que dispenso proteção?
O tom de voz de Dane começava a transbordar uma profunda irritação. Ele não possuía a menor familiaridade com aquela dinâmica de relacionamento baseada em um chiclete grudado em seus calcanhares. Outros indivíduos poderiam classificar aquilo sob o rótulo de namoro, mas, para os parâmetros de Dane, a situação traduzia-se apenas como um fardo maçante. Essa era a exata razão pela qual ele havia passado ao largo de estruturar vínculos de profunda intimidade com quem quer que fosse até então.
— Mas eu nutro o desejo de te conduzir até o seu teto.
Diante da teimosia irredutível de Grayson, a paciência de Dane finalmente explodiu:
— Você está sustentando, com todas as letras, que a sua intenção é monitorar os meus passos para checar se eu vou me deitar com terceiros ou não?
Diante do surto ríspido, Grayson balançou a cabeça negativamente de forma imediata:
— Obviamente não, eu tenho plena ciência de que você figura como um homem de palavra, que não viola os pactos que firma.
— Então qual é a porra do motivo?
Se aquele sujeito operasse sob a premissa de que ele era uma figura frágil que demandava amparo, Dane faria questão de fazê-lo mudar de perspectiva na base da força física. Ele cerrou o punho e permaneceu à espera de uma justificativa, mas Grayson, que vinha coçando a bochecha, manifestou uma reação totalmente fora do script. Esquivando-se de cruzar os olhares com Dane, ele hesitou feito alguém que se encontrava em apuros antes de finalmente abrir a boca:
— É só que… eu simplesmente alimento o desejo de desfrutar da sua companhia por mais alguns minutos, apenas isso.
Diante daquelas palavras inesperadas, Dane paralisou na exata posição em que se encontrava. “Será que esse bastardo está tentando me ludibriar com mais uma de suas artimanhas?” Ele o inspecionou, incapaz de camuflar a profunda desconfiança que o habitava, mas Grayson limitava-se a piscar as pupilas na sua direção com uma feição totalmente estática.
Um silêncio desconfortável e denso desabou sobre o perímetro. Dane viu-se incapacitado de esboçar uma reação imediata, uma vez que aquela se desenhava como a primeira oportunidade em que se deparava com uma conjuntura nesses moldes ao longo de sua existência.
— …Por quê?
Dane franziu o cenho e conseguiu articular apenas aquela indagação curta. Grayson tombou a estrutura da cabeça para o lado e elevou os cantos dos lábios:
— Porque eu experimento uma sensação de plenitude quando estou na sua companhia?
Ele arrastou a pronúncia da última sílaba ligeiramente, dando a entender que ele próprio não desfrutava de total convicção a respeito da engrenagem daquele sentimento. Dane vinculou as sobrancelhas e cravou as pupilas nele, como se demandasse uma tradução prática para aquilo. Grayson cantarolou um sopro de ar e elucidou:
— Sendo assim… meus batimentos cardíacos sofrem uma aceleração, meus pés parecem flutuar do solo desse jeito, a ponta dos meus dedos experimenta um formigamento constante e eu sou tomado por uma urgência de direcionar afeto a cada ser humano que habita este planeta.
Grayson foi listando cada uma das reações físicas que vinha experimentando de forma detalhada, exibindo um sorriso intensamente radiante ao concluir:
— Isso se enquadra na definição de felicidade, não é?
…Sim.
Dane piscou as pupilas tomado pelo sobressalto. Pela primeira vez desde que haviam cruzado caminhos, a fisionomia sorridente de Grayson não transmitia uma sensação de estranheza ou artificialidade. Até então, ele sempre nutria a nítida impressão de que o outro forçava expressões faciais totalmente desconectadas do contexto ou abria sorrisos puramente mecânicos. Mas agora, a sensação se desenhava de forma totalmente distinta…
“Ele realmente assimilou o real significado da felicidade.”
Embora sua mente insistisse em sinalizar que aquilo não poderia corresponder à realidade, Dane não reunia subsídios para sustentar sua própria linha de convicção. Será que aquele homem de fato operava sob a total incapacidade de experimentar sentimentos legítimos?
— …É algo similar a isso.
“Provavelmente”, ele complementou em seu foro íntimo. Na realidade, ele próprio passava longe de decifrar os mistérios por trás do conceito de felicidade, então sob qual premissa desfrutaria de autoridade para carimbar aquele veredito com total certeza?
“No fim das contas, eu jamais teria estomago para atuar como um bom mentor”, Dane ponderou de forma amarga.
De forma abrupta, uma onda de enxaqueca voltou a castigar sua mente. Independentemente das variáveis, o fato irrefutável era que Grayson havia saído ferido daquela dinâmica por sua causa. Embora ele houvesse enfatizado repetidas vezes para o outro não vigiar seus passos desde o princípio — o que, sob a ótica da razão pura, o isentava de culpa —, ele era incapaz de simplesmente ignorar o peso daquele incômodo em seu peito.
Mesmo se ele ordenasse que o outro batesse em retirada, aquele bastardo continuaria a se agarrar aos seus calcanhares de forma totalmente descarada.
A essa altura do campeonato, a única engenharia viável para se livrar em definitivo daquela figura resumia-se a aguardar pacientemente pelo decurso do prazo de três meses. Bem… na realidade, restavam apenas cerca de dois meses e meio agora.
Sendo assim, talvez…
— Haaa…
Ele tragou o ar profundamente antes de chancelar uma resolução definitiva. De repente, deu-se conta de que vinha suspirando com uma frequência assustadora desde o milésimo de segundo em que Grayson Miller cruzara sua trajetória de vida, mas era incapaz de conter o impulso. Ele oxigenou os pulmões mais uma vez e, por fim, abriu a boca:
— Tudo bem, vamos coabitar sob o mesmo teto.
Grayson soltou uma lufada de ar ruidosa, um som que tangenciou um grito sufocado de pura surpresa. Antes que o outro pudesse articular qualquer manifestação entusiasmada, Dane acrescentou adotando um tom gélido, com o claro intuito de cortar suas asas por antecipação:
— Eu vou me transferir para a sua mansão. Contudo, essa dinâmica vai se limitar estritamente ao prazo que nos resta do acordo. Assim que os três meses se esgotarem, nosso vínculo estará complemente extinto e nós seremos dois estranhos.
— Perfeito.
— E trate de cessar essa palhaçada de ficar vigiando os meus passos por aí.
— Obviamente, eu vou cumprir a exigência.
Grayson rebateu sucessivamente, sem demonstrar o menor vestígio de hesitação. Considerando que ele vinha se portando feito um chiclete mastigado colado em suas botas até aquele exato milésimo de segundo, será que ele de fato possuía estofo para honrar aquela promessa? Dane sentia uma ponta latente de apreensão orbitar sua mente, mas não visualizava outra alternativa senão depositar um voto de confiança por ora.
Ele girou a estrutura do corpo com o propósito de retornar ao interior do quartel, mas estancou o movimento e relanceou o outro por sobre o ombro, colhido por um estalo repentino de lucidez:
— Abra o jogo e me diga a real verdade. Como diabos você conseguia decifrar o meu paradeiro em absolutamente todas as ocasiões?
Grayson, que vinha escoltando seus passos de perto, abriu mais um de seus sorrisos radiantes e confessou de imediato:
— Eu implantei um dispositivo de rastreamento no chassi do seu automóvel.
— Ha.
Dane liberou um riso completamente soprado e vazio, mas limitou-se a isso. Grayson passou a escoltá-lo desferindo passos visivelmente animados, enquanto o outro balançava a cabeça em sinal de pura negação e reiniciava a caminhada.
“Esse demente não teria a audácia de arquitetar o próprio ferimento de propósito apenas para me encurralar… teria?”
Dane tratou de espantar aquele pensamento abrupto de sua mente o mais rápido possível. Com certeza ele não operaria sob um nível de insanidade tão extremado a ponto de cruzar aquela linha. Restava-lhe apenas apegar-se àquela convicção por ora.
E foi no início daquela mesma madrugada que Dane e Darling cruzaram os portões da mansão de Grayson juntos.
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello