Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 96
Capítulo 96
— É sério?
De forma súbita, a atmosfera clareou, e a densa cortina de feromônios que vinha impregnando o ambiente dissipou-se drasticamente. As pupilas de Grayson, que reluziam em um tom dourado, também regressaram à sua coloração violeta habitual. Ao se dar conta de que a “chuva de feromônios” havia cessado, o homem sobressaltou-se e recuou a passos cambaleantes. Dane limitou-se a observar com uma feição atônita enquanto o sujeito batia em retirada às pressas, sem sequer se despedir apropriadamente. E, no fim das contas, restaram apenas Dane e Grayson no recinto.
— Haaaah…
Dane liberou mais um suspiro profundo e carregado. Sua cabeça latejava, mas a real fonte de sua enxaqueca não dava o menor sinal de que sumiria de sua frente. Ele virou a garrafa de cerveja morna, esvaziando metade do conteúdo de uma só vez, bateu o vidro contra o balcão com força e limpou a boca com a manga do braço.
— Como você sabia que eu estava aqui?
Grayson abriu um sorriso ladino diante da indagação proferida em tom baixo.
— Eu tenho a capacidade de decifrar o seu paradeiro onde quer que você esteja, afinal, nós somos namorados.
— Vá comer merda.
Dane ergueu o dedo médio em riste. Contudo, Grayson limitou-se a sustentar o sorriso, sem esboçar o menor indício de que revelaria a engenharia por trás de sua descoberta. Como diabos ele havia arquitetado aquilo, afinal? Beirava o absurdo cogitar que ele houvesse implantado um chip de rastreamento em seu tecido corporal sem que ele se desse conta.
Será que ele havia contratado um profissional para vigiar seus passos?
Por ora, aquela se desenhava como a hipótese mais plausível. Dane fuzilou Grayson com o olhar tomado pela irritação, rangendo os dentes.
— Já não bastava eu ter que te tolerar ao longo do expediente? Por qual carga d’água você tem que agir feito um demente tarado mesmo depois que eu largo o turno?
As palavras, cuspidas por entre os dentes cerrados, transbordavam uma profunda frustração. Grayson replicou exibindo uma fisionomia de pura inocência:
— Ora, Dane. O status de namorados não opera sob a dinâmica de um interruptor que você pode ligar e desligar a bel-prazer.
Por incrível que parecesse, Grayson discursava como se estivesse aplicando um sermão em uma criança de colo.
— Estar envolvido romanticamente com alguém pressupõe justamente isso. Significa estar umbilicalmente vinculado ao outro ao longo de vinte e quatro horas por dia. — E Grayson acrescentou, elevando os cantos dos lábios: — Obviamente, cada milímetro do meu ser pertence a você também.
— Eu já não mandei você parar de disparar asneiras?
Dane praguejou mais uma vez. Ele vinha fazendo vista grossa para aquele chiclete grudado em seus calcanhares no interior do quartel, mas agora se via obrigado a gerenciar aquele bastardo mesmo após o encerramento do expediente? Ele estava deliberadamente tentando levá-lo à loucura?
— Compactuar com um teste não se traduz em um namoro oficial — Dane fez questão de enfatizar cada sílaba com precisão. — Significa apenas que estamos tateando o terreno para nos conhecermos. Que diferença faz com quem eu decido partilhar a cama ao longo desse intervalo? Você também desfruta da liberdade de se deitar com quem bem entender, não é?
Aquelas eram as exatas premissas que Grayson sempre costumava verbalizar no passado. Até então, mesmo mantendo um vínculo com alguém que julgava ser o seu destino manifesto, ele frequentava festas e mantinha relações carnais com múltiplos indivíduos simultaneamente, tudo sob a justificativa de que necessitava expurgar seus feromônios. E, em cada uma dessas conjunturas, o parceiro da época assimilava a natureza de seu status especial e fazia vista grossa para a situação…
Ironicamente, o tabuleiro havia sofrido uma inversão completa de papéis. Grayson era o indivíduo que demandava o ato sexual em decorrência de seu segundo gênero, mas agora era Dane quem vinha buscando entretenimento por aí, enquanto Grayson não chegava a trocar um beijo sequer há mais de um mês, quem dirá se envolver intimamente com alguém.
A situação beirava o ridículo até para os seus próprios parâmetros, mas não restava outra alternativa viável. Porque, mesmo naquele exato segundo, Dane figurava como o único ser capaz de despertar a reação de Virgínia. A Virgínia nem sequer havia esboçado o menor sinal de estímulo ao ser bombardeada por feromônios de Ômega no decorrer daquela festa temática.
Sendo assim, desenhava-se apenas um curso de ação.
— Faça isso comigo.
Dane, que se preparava para conduzir a garrafa de cerveja novamente aos lábios, estacou diante daquelas palavras abruptas. Ele girou a cabeça devagar para encarar Grayson, suas feições se contorcendo à medida que abria a boca:
— O quê?
Grayson sugeriu com total descompromisso a um Dane que mal havia conseguido articular uma única palavra, cujo tom lembrava um grito sufocado:
— Introduza em mim, é a única providência que você precisa adotar.
Dane limitou-se a fitá-lo, completamente desprovido de voz. A sinfonia da música eletrônica ecoava de forma ensurdecedora contra seus canais auditivos, totalmente alheia à gravidade daquele diálogo.
*Ooh, o seu pau se aloja com perfeição no meu canal. Ooh, o seu pau. Venha rápido para dentro. Ooh, pau, pau. Eu me escancarei por completo para você…Grayson ostentava um sorriso intensamente radiante. Como se estivesse de prontidão a qualquer milésimo de segundo. Enquanto Dane o inspecionava, os versos da canção pareciam perfurar seus tímpanos com uma nitidez particularmente incômoda.
*Ooh, pau. Me fode. Ooh, pau. Tome a minha primeira vez…— Ugh.
Uma veia saltou na têmpora de Grayson no exato instante em que a fisionomia de Dane adotou uma tonalidade acinzentada e ele levou a mão à boca com urgência.
— Que palhaçada de reação é essa? Você está seriamente prestes a vomitar?
Os feromônios que flutuavam ao seu redor ganharam intensidade, sinalizando que ele havia ficado genuinamente contrariado. Dane agitou a mão que lhe restava livre de forma frenética:
— Não, é só que… eu acho que exagerei no álcool…
Ele sentiu-se momentaneamente surpreso por ter recorrido a um pretexto tão esfarrapado, quando Grayson bloqueou sua rota de fuga sem a menor piedade:
— Você consumiu apenas metade de uma garrafa de cerveja.
“Esse bastardo…” O tamanho do rancor que experimentou fez com que o refluxo de náusea se dissipasse em um piscar de olhos. Dane limpou os lábios com a manga do braço e fuzilou Grayson com as pupilas:
— Há quanto tempo você estava me vigiando?
— Desde o princípio — Grayson rebateu imediatamente, de forma absurda.
Dane viu-se mais uma vez estupefato diante daquela postura consistentemente descarada. De onde emanava tamanha falta de vergonha na cara?
— Você porventura não ostenta o status de Alfa Dominante?
— E daí?
Dane franziu o cenho de forma evidente e demandou:
— Então você está sustentando que vai se curvar para que eu te foda? É sério isso? Você nem sequer vai extrair estímulo algum dessa região de qualquer forma, vai?
— Nós vamos ter que testar na prática para extrair o veredito — Grayson acrescentou munido de total convicção. — Eu mantenho amizade com um sujeito que opera exclusivamente na retaguarda. Ele chega a bradar de puro deleite.
“Quem diabo é o demente da vez agora…?”
Desta vez, Dane experimentou a nítida sensação de que todo o fluxo sanguíneo havia se esvaído de sua cabeça.
A remota esperança de que o outro pudesse se cansar da dinâmica e bater em retirada caso ele de fato tomasse sua retaguarda cruzou sua mente por um milésimo de segundo, mas Dane tratou de esmagar aquela hipótese sem hesitação. A simples menção mental àquela cena fazia com que sua masculinidade encolhesse até sumir, passando longe de esboçar qualquer sinal de rigidez…
E se aquele bastardo, na realidade, tomasse gosto pela coisa e passasse a se agarrar aos seus calcanhares com ainda mais obstinação?
Tratava-se de um desfecho aterrorizante que fazia sua espinha congelar por completo, mas que se mostrava totalmente viável em se tratando da engenharia mental de Grayson Miller. Diante daquele cenário, Dane sentiu vontade de chutar o balde e abrir mão de tudo.
— Você já vai embora? — Grayson inquiriu, apressando os passos para colar em Dane à medida que ele caminhava cambaleante em direção à saída, deixando o restante da bebida para trás.
Dane sacou o aparelho celular em silêncio com o intuito de acionar um táxi, e Grayson, que monitorava a ação por cima de seu ombro, disparou casualmente:
— Eu tenho plena capacidade de assumir a direção mesmo tendo consumido álcool.
— Do que você está tagarelando, seu demente de merda… — Dane murmurou com um tom de voz audivelmente fadigado, mas Grayson não deu a menor importância e esmiuçou:
— Estou falando com total seriedade. Meu organismo não experimenta os efeitos da embriaguez de forma alguma, independentemente do volume de álcool ou substâncias entorpecentes que eu venha a ingerir. Você tem plena ciência de que o meu status opera sob essa engrenagem, não tem? E eu sequer consumi uma única gota até o momento, então você pode depositar ainda mais votos de confiança.
Dane encarou Grayson com as sobrancelhas franzidas, como se indagasse: “E o que eu tenho a ver com isso?”. Grayson abriu um sorriso radiante e elucidou:
— Eu me encarrego de conduzir o seu automóvel até o seu destino.
Dane fixou os olhos atentamente naquela fisionomia. Era inegável que a visão daquele homem sorrindo e estendendo a palma da mão em busca das chaves lhe despertava uma profunda irritação, mas a oferta, sob o prisma da razão, não se desenhava como uma má alternativa. Ele economizaria fundos com a tarifa do táxi e não se veria obrigado a coordenar uma nova corrida no dia seguinte apenas para resgatar o veículo.
Após estruturar seus cálculos lógicos, Dane relanceou Grayson com o cenho vincado. O outro permanecia de prontidão, sustentando a mão estendida. Dane finalmente vasculhou o bolso da calça, extraiu o chaveiro e o deixou desabar sobre a palma de Grayson. Grayson arremessou as chaves para o alto e as aparou no ar, exibindo um sorriso de orelha a orelha.
— Vamos zarpar então? Rumo ao nosso doce lar.
— Ei.
— Rumo ao seu motel.
Grayson corrigiu a própria fala rapidamente ao captar o tom ríspido de Dane. Ele precisava monitorar seus passos com cautela, ou aquele demente começaria com as gracinhas novamente. Tomado por um súbito acesso de fúria, Dane elevou a perna e desferiu um chute com a coxa contra a retaguarda de Grayson.
Por sorte, Grayson não trouxe à tona nenhum tópico em particular ao longo do trajeto na direção. Ele limitava-se a tamborilar os dedos contra o volante e cantarolar os versos de uma melodia. A canção intitulada *Boobs Boobs*.
“Que porra, quem foi o infeliz que estruturou uma bizarrice dessas?”
Dane, complemente estafado daquele refrão incessante, permaneceu acomodado no assento do carona, limitando-se a aguardar o momento em que alcançariam o destino. E quando o automóvel finalmente estacou no perímetro de estacionamento do motel, ele encontrava-se em um estado de total exaustão mental.
Grayson abandonou o posto de motorista, travou as portas do veículo e estendeu o chaveiro para Dane. Dane arrancou o objeto de suas mãos com violência e avançou em direção ao interior do estabelecimento sem girar o corpo, enquanto Grayson esgoelou-se, escoltando sua silhueta com o olhar:
— Tenha uma excelente noite, *Sweetie*.
Dane não teceu resposta. Limitou-se a erguer o dedo médio por cima do ombro em riste. E Grayson permaneceu estático naquela exata posição, sem esboçar movimentos, até que o outro vencesse os degraus da escadaria, destravasse os aposentos localizados no segundo pavimento e sumisse no interior do quarto.
No fim das contas, Dane regressou ao seu aposento de motel completamente isolado e sem extrair proveito algum da noite. Ele tomou uma ducha e desabou sobre a estrutura da cama na companhia do Darling, enquanto a maldita palavra “Boobs” continuava a orbitar em seus canais auditivos em um fluxo contínuo. Até que o sono finalmente o arrebatasse.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello