Desire Me If You Can (Novel) - . ₊ Capítulo 91
Capítulo 91
As chamas carmesins, feito o fogo do inferno, erguiam-se altas, engolindo a residência. Simultaneamente, o eco fantasmagórico de uma estrutura desabando ressoou pelo ar.
— Darling!
Os bombeiros que estavam reunidos no local encararam Dane, atordoados com o seu clamor. Mas Dane não tinha tempo a perder. Ele fez menção de invadir o imóvel em chamas sem portar equipamento algum. Ezra, ao presenciar a cena, gritou tomado pelo horror:
— Espera, Dane!
— Não, o que você pensa que está fazendo!
Eles agarraram Dane por todos os lados enquanto ele tentava correr em direção à casa. Dane debateu-se para se desvencilhar, porém vários homens corpulentos o cercaram, projetando uma barreira com os próprios corpos e tornando impossível qualquer tentativa de avanço.
— Me soltem, eu já mandei me soltarem!
— Se acalma, Dane! O que deu em você?
— O Darling está lá dentro! O Darling!
— O quê?
— O que você disse?
Todos entraram em pânico, trocando olhares desnorteados. Aquela era a casa do Dane? Darling? Aquele gatinho? O que eles deveriam fazer? Enquanto estampavam os mesmos questionamentos no rosto, Wilkins interveio:
— O que vocês estão fazendo parados aí? Dispersem! E você, Dane? O que faz aqui?
— É a minha casa! — Dane esgoelou-se antes que qualquer outro se pronunciasse. — O Darling está lá dentro, eu preciso salvar ele! O Darling está lá sozinho! Darling!
— Certo, espera um segundo! Calma, Dane, acalma o coração!
Wilkins enlaçou-o por trás com urgência. Preso pelos braços vigorosos daquele ex-lutador profissional, Dane debatia-se e contorcia-se, mas não conseguia escapar. Wilkins continuou a berrar:
— Já é tarde demais, como alguém conseguiria sobreviver no meio daquele fogaréu? Desiste, o Miller já se enfiou lá dentro para tentar resgatar alguém! Ninguém mais entra, ninguém! A não ser que seja um lunático!
Diante daquelas palavras, Dane cessou os movimentos. Wilkins assentiu com um semblante sombrio à medida que Dane girava o rosto devagar para encará-lo.
— Isso, nós estamos nos preparando para entrar assim que o fogo der uma trégua, mas não estamos conseguindo salvar nem as pessoas agora. Como vamos salvar um gatinho…
A mente de Dane virou uma tremenda confusão. A situação do Darling já era complexa o bastante, mas o que ele estava dizendo agora?
— O Grayson Miller entrou? Na minha casa? — Ele virou-se para Wilkins e demandou: — Por quê?
— Quem é que vai saber o que se passa na cachola daquele bastardo.
Wilkins soltou um suspiro pesado, visivelmente atribulado. Foi nesse exato momento que um alvoroço de origem desconhecida se instaurou. Os olhos de Dane dilataram-se gradualmente ao virar a cabeça de forma instintiva. Todos os que observavam na mesma direção manifestaram a mesma reação que ele; permaneciam estáticos, com as pupilas arregaladas pelo choque. Inclusive Wilkins, como se custasse a acreditar na própria visão.
A silhueta de um homem emergia cambaleante do meio do incêndio.
— …Miller — alguém murmurou, como se balbuciasse para si mesmo.
Era uma cena inacreditável. Ele, que sempre se apresentava trajado com perfeição e impecavelmente alinhado, sem um único fio fora do lugar, agora exibia fuligem negra espalhada pela face, e os cabelos loiro-platinados que cobriam seu pescoço estavam chamuscados e desgrenhados em vários pontos. As pupilas de tom violeta, que costumavam desdenhar dos outros com arrogância, haviam perdido o brilho devido à exaustão, e seus ombros, que subiam e desciam com respirações arfantes, também pendiam sem as forças habituais.
Ele aparentava ter duelado em uma guerra solitária. O que, de certa forma, não deixava de ser verdade.
— …Miller — Dane repetiu o nome feito um solilóquio.
Wilkins afrouxou o aperto com cautela, liberando Dane, que havia perdido o vigor. O olhar de Dane deslocou-se do rosto de Grayson para a pequena criatura que ele sustentava de forma preciosa.
O Darling respirava o oxigênio contido no interior do capacete de Grayson, mantendo os olhos cerrados. Grayson cambaleou e caminhou a passos lentos na direção de Dane. E, vagarosamente, estendeu o gatinho que vinha protegendo até então para Dane, que permanecia paralisado.
Dane acolheu o felino em silêncio e com o máximo de zelo. Era visível a olho nu que a mão de Grayson, ao transferir o Darling, tremia sem parar.
Acomodando o gatinho nos braços a custo, Dane prendeu a respiração para averiguar seu estado de saúde. O bichinho, que até então estava imóvel, sobressaltou-se quando a mão tensa do dono acariciou seu corpinho de leve. Ao notar o gatinho emitindo pequenos ruídos e tentando roçar a cabeça contra o seu peito, Dane finalmente foi capaz de soltar um suspiro de alívio vindo do fundo da alma.
— Só um instante.
Após pedir a compreensão de Grayson rapidamente em meio à pressa, ele correu em direção à ambulância. Os paramédicos que estavam de prontidão acomodaram o gatinho com delicadeza no banco traseiro do veículo, forneceram oxigênio e iniciaram os procedimentos de primeiros socorros. Após realizar os poucos exames viáveis no momento, o profissional prontamente chegou a um veredito:
— Não precisa se alarmar tanto. Você vai ter que levá-lo a uma clínica veterinária para um check-up detalhado, mas, por ora, pode ficar sossegado. Bom, a pelagem dele ficou um pouco chamuscada, mas isso aqui foi um verdadeiro milagre. Ele quase não inalou fumaça.
Ele sorriu, erguendo o capacete que havia retirado do gatinho.
— Algum herói destemido parece ter cedido a própria vida ao seu Darling.
Dane contemplou o capacete sem proferir uma única palavra. Após inspecionar a região da viseira, que exibia rachaduras profundas, ele permaneceu estático por um longo tempo, sem esboçar reação.
Grayson encontrava-se sentado sozinho, a uma certa distância da cena do incêndio. Dane deslocou-se sem pressa na direção dele, observando-o acomodado no meio-fio com uma garrafa de água vazia em uma das mãos, fitando o vazio com o olhar perdido. Os demais agora se ocupavam em combater os focos remanescentes de fumaça e organizar o restante dos trabalhos.
— Miller.
Ao escutar o chamado de seu nome, ele hesitou por um momento e ergueu a cabeça devagar. Dane fixou os olhos naquelas pupilas violetas que ainda se mostravam turvas.
Ele já havia presenciado aquela cena antes, mas ainda assim era um espetáculo à parte. Seus cabelos desalinhados estavam queimados em alguns pontos e quebradiços, e sua face encontrava-se impregnada de cinzas e poeira, conferindo-lhe um aspecto indescritivelmente sujo, além de escoriações espalhadas de onde brotavam filetes de sangue avermelhado. Diante daquela fisionomia desastrosa, Dane soltou uma risada amarga.
— Lindão, por que o seu rosto está nesse estado?
Grayson não teceu nenhum comentário diante do tom brincalhão. Aquela também era uma reação distinta das anteriores. Ele deveria disparar alguma outra asneira sem sentido e fazer a pessoa se sentir ridícula, mas, por algum motivo, limitou-se a encarar Dane em silêncio.
Ele experimentava aquela sensação pela primeira vez na vida, então talvez ainda não tivesse recuperado a total lucidez.
Trata-se de um acontecimento rotineiro para bombeiros novatos. No entanto, ele jamais esperaria que Grayson Miller demonstrasse aquela vulnerabilidade. Por que ele correu em direção àquele inferno sozinho, em primeiro lugar? Ele poderia muito bem ter perdido a vida ali.
Havia uma infinidade de perguntas, mas Dane guardava apenas uma declaração para aquele momento. Ele moveu os lábios sem pressa:
— Obrigado.
Diante do agradecimento proferido em tom baixo, Grayson piscou pela primeira vez. Dane prosseguiu, sustentando o olhar que permanecia cravado nele:
— O Darling está bem. Vou ter que fazer exames mais minuciosos depois, mas… de qualquer forma, foi graças a você, obrigado.
Era um tom de voz suave que ele jamais havia direcionado a Grayson até então. Grayson apenas piscava as pupilas, como se estivesse completamente aéreo. Sentindo-se embaraçado com aquela postura, Dane coçou a nuca.
— Ainda assim, eu levei um baita susto. Nunca imaginei que você saltaria no meio do fogo para resgatar o Darling…
Enquanto Dane tentava escapar da atmosfera constrangedora, Grayson, que havia permanecido mudo até então, abriu a boca. Ele conseguiu emitir um som somente após mover os lábios algumas vezes.
— Eu fiquei com medo de que você me odiasse…
Fosse por ter inalado fumaça ou por alguma outra razão, a voz de Grayson soava extremamente rouca. Dane estacou e encarou-o de cima. Contudo, Grayson interrompeu-se ali e fechou a boca novamente. Como se ansiasse por expressar algo, mas não conseguisse arquitetar os pensamentos.
Dane não o pressionou e limitou-se a esperar ali. Até que Grayson encontrasse a colocação adequada. Ele abaixou a cabeça e insistiu na tentativa de falar por diversas vezes.
— Se o Darling morresse, achei que você passaria o resto da vida me odiando. Pensando nisso, eu…
Grayson, que mal havia conseguido pronunciar as palavras, travou de novo. Incapaz de traduzir o turbilhão em sua mente, acabou listando os sintomas um a um:
— Meu coração começou a disparar feito louco, fiquei zonzo, minha boca secou…
Ao reviver a sensação daquele instante, Grayson experimentou o mesmo fenômeno mais uma vez. Dane notou que as mãos dele logo começaram a tremer.
— Por isso, o meu corpo se moveu primeiro. Eu precisava salvar o Darling… não consegui pensar em mais nada.
Grayson soltou um suspiro. Dane, que o observava de cima enquanto ele puxava o ar profundamente com a feição pálida, tomou a palavra:
— As pessoas costumam chamar isso de estar assustado.
Grayson paralisou. Ele pareceu congelar por um milésimo de segundo e, em seguida, ergueu a cabeça devagar. Seus olhares se cruzaram novamente, mas Dane não desviou o foco. Mantendo os olhos fixos em Grayson, Dane repetiu as mesmas palavras calmamente:
— O que você está experimentando agora é a sensação de estar com medo. É semelhante ao temor.
Grayson piscou as pupilas lentamente. Feito uma criança desbravando algo desconhecido pela primeira vez, ele repetiu as palavras de Dane mentalmente. E, devagar, Grayson moveu os lábios:
— …Eu estava com medo.
— Sim.
Dane pronunciou aquilo e inclinou o corpo. Apoiando-se em um dos joelhos, ele abriu os braços e envolveu Grayson em um abraço.
— Bom trabalho, Miller.
Dane deu alguns tapinhas nas costas de Grayson, como se estivesse acalentando uma criança. Grayson retribuiu o abraço de forma estática, com os olhos arregalados. Seu coração pulsava como se fosse explodir no peito, mas era uma sensação distinta daquela que havia confessado a Dane há pouco. Sentia dificuldade para respirar e a cabeça rodava, mas definitivamente não se tratava de medo. Aquilo, aquilo era…
— …Eu gosto de você.
Grayson confessou, como se exalasse o ar que vinha bloqueado em sua garganta. A mão de Dane, que vinha afagando suas costas, travou no mesmo instante. Após alguns segundos de um silêncio sepulcral, Dane afastou-se devagar.
Eles se encaravam de uma distância curta o suficiente para que suas respirações se cruzassem ao expirar. Grayson fixou os olhos na face de Dane e confessou novamente com um suspiro, porém munido de uma convicção ardente:
— Acho que eu… amo você.
Naquele exato milésimo de segundo, a residência que vinha se sustentando a duras penas desmoronou por completo logo atrás deles com um estrondo colossal.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello